“Iron mum” in Cássia dos Coqueiros

Abençoada por uma santa italiana, prenhe de cachoeiras e de uma densa mata, Cássia tem a simplicidade dos destinos turísticos pouco divulgados

A viagem começou em Ribeirão Preto, a cerca de 70 quilómetros. Os acessos são bastante razoáveis e o trânsito escasso. Pelo menos até chegarmos à pequena e desajeitada Cássia dos Coqueiros. Não é que o trânsito se intensifique, mas a estrada passa de bastante razoável a ruim, capaz de partir um eixo do carro se não nos acautelarmos.

Estamos à procura da cachoeira de Itambé que, do alto dos seus 84 metros, é a principal atração local, ainda que as quedas de água e cascatas abundem na região. As placas são inexistentes, resta-nos perguntar.
“Atravessem a cidade toda, é sempre em frente” – habituada à relatividade dos brasileiros, no que se refere a distâncias, pensei que ainda havia muito chão pela frente. Afinal, menos de um minuto depois, finou-se a cidade e a esburacada estrada de alcatrão.
Como não tínhamos um todo-o-terreno, prosseguimos a 20 km/hora, rezando para que o caminho de terra não se tornasse intransitável. Mais uma paragem a pedir indicações e lá chegamos à fazenda de onde se pode apreciar a vista sobre a Itambé, pagando uma simbólica quantia pelo acesso (5 reais por adulto, se bem me recordo).
O som da cachoeira precedeu tudo o resto, uma canção de ninar baixinha, que lava a alma do stress da cidade. E ei-la como um cartão postal, ainda que distante.
Tinha visto na net que era possível descer até à base da queda de água, apesar da mata atlântica que a envolve. De facto, existe uma espécie de caminho delimitado por cordas grossas, que se revelou inviável para uma criança de três anos. Para além disso, o meu marido não mostrava o mínimo interesse em sujar o seu pólozinho de marca, pelo que me arrisquei sozinha.
Não sou particularmente aventureira ou temerária, zelo pela minha saúde até porque tenho um filho para criar… Mas queria muito aquela foto! Acho que decidi sem reflectir, esquecendo o lagarto que se cruzara connosco momentos antes e sem pesar a exigência física da empreitada.  Não sabia no que me ia meter mas, já que lá estava, nem pensar voltar para trás.
A descida tem apenas 200 metros mas é vertiginosa. Em alguns pontos, tive que pender de costas, como no rappel, mas sem botas apropriadas, arnês, capacete e outros dispositivos de segurança. Ainda por cima, o piso estava enlameado e muito escorregadio, por causa de chuvadas recentes.
Quando alcancei o meu objectivo, fui plenamente recompensada. Sentei-me num pedregulho a contemplar aquela maravilha da natureza, fotografei muito (limpando a lama da máquina com a blusa) e sorri feliz. Mas ainda tinha o caminho de volta para fazer…

Passados dez minutos lá me fiz à subida, que se revelou ainda mais difícil. Agarrei-me às raízes das árvores, às cordas, às pedras do caminho. Escorreguei várias vezes. Tive que parar para recobrar o fôlego… quantas vezes?

Até que irrompi pelo meio do mato, desalinhada e sem fôlego, para alívio da família que já planeava alguma operação de salvamento.
Lavar o rosto e beber água ajudaram, mas não é exagero afirmar que demorei a recompor-me. Entretanto um grupo recém-chegado pergunta por onde se desce para a cachoeira e eu olho incrédula para as havaianas nos seus pés.
Aproveitei a minha autoridade de quem “desceu sozinha à cachoeira de Itambé” e lancei um aviso acerca da lama do caminho. Não esperei para ver, que me assaltou uma fome de lobo, mas acredito que aquela família demorou muito tempo a regressar.

Comida caseira numa villa latina

Escolhemos a Pousada Roccaporena para almoçar, as alternativas também não eram muitas e Serrana, a cidade mais próxima, ficava a quase 60 quilómetros.

A escolha revelou-se acertada. Com aspecto de uma villa espanhola, um pátio interior acolhedor e apontamentos bem brasileiros na decoração, a pousada tem um ambiente familiar e uma vista deslumbrante.
Roccaporena é um vilarejo na Úmbria, Itália, onde nasceu Santa Rita de Cássia, a padroeira da cidade. Aliás, a mesma santa apadrinha várias localidades, no estado do Maranhão e do Rio Grande do Sul, sem falar da paulista S. Rita do Passa Quatro que me permanecerá na memória pela originalidade, pelo menos toponímica.
O Brasil e os brasileiros permanecem, de resto, muito conscientes e ligados a um plano espiritual/sobrenatural/religioso, ligação que se exprime nos mais pequenos gestos do quotidiano.
Para mim, esta é a principal distância que os separa dos secularizados, cépticos e desencantados europeus e, cada vez mais, dos portugueses (se protestamos contra a supressão dos feriados religiosos é para fazer valer o direito ao dolce far niente por mais uns dias).
De volta à nossa pequena Cássia dos Coqueiros, acabamos por dar um passeio até ao rio, que corre a poucos metros da Pousada, onde encontramos umas pequenas e ruidosas cascatas, por indicação dos donos que se sorriram muito perante as minhas calças enlameadas.
Até porque o almoço demoraria ainda uma hora. Afinal era domingo, acrescentaram, apontando para os hóspedes refastelados em volta da piscina. Infelizmente, não tínhamos fatos-de-banho ou calções.
O almoço revelou-se uma agradável surpresa. Buffet com comida caseira e saborosa apesar de, e isso não foi uma surpresa, não haver nenhum prato de peixe e o sumo de abacaxi com hortelã ser sofrível. Para sobremesa, a variedade não era muita mas o doce de abóbora foi bem com uma fatia de queijo de Minas.
Antes de nos fazermos à estrada, de regresso a Ribeirão, ainda houve tempo para um cochilo na sala da lareira, embalados pela cacofonia dos pássaros e pelo burburinho do rio. Ah! A vida pode ser tão simples!

 

 

O que visitar em Cássia dos Coqueiros: Para além da cachoeira de Itambé, vale a pena dar um salto ao Mirante, de onde se avistam várias cidades de S. Paulo e Minas Gerais, uma vez que a cidade fica no limite dos dois estados. Dizem que o pôr-do-sol do Mirante é particularmente bonito.
Site da Pousada Roccaporena: aqui
2018-12-10T20:20:54+00:00

18 Comments

  1. Eliana 2 Maio, 2012 em 17:36 - Responder

    Obrigada por me levares a viajar… e a sonhar! 😉

    • Ruthia 2 Maio, 2012 em 19:34 - Responder

      Olá minha querida e obrigada pelo comentário. Fiquei com muitas recordações como esta do Brasil, afinal vivi lá quase um ano.

  2. M. 2 Maio, 2012 em 19:01 - Responder

    Céus, que paraíso!!! Adorava passar umas belas férias aí!
    Beijinhos,
    Madalena

    • Ruthia 2 Maio, 2012 em 19:32 - Responder

      Bem vinda, Madalena.
      Cássia dos Coqueiros é mesmo pequenina, mas sim vale a pena para uns dias de descanso, tipo desintoxicar da poluição e do barulho.
      Alguns casais escolhem a Pousada para uma curta lua-de-mel.
      Beijinho

  3. Helena Branquinho 7 Maio, 2012 em 10:36 - Responder

    Que imagens fantásticas!! E que família linda! eheh 🙂

    http://hiimab.blogspot.com

    • Ruthia 7 Maio, 2012 em 11:03 - Responder

      Verdade e verdade, hihihi… mas eu sou suspeita para falar!

  4. Gisele Rocha 8 Julho, 2017 em 20:29 - Responder

    Que texto delicioso de ler! Me senti em Cássia dos Coqueiros com vocês. Nunca tinha ouvido falar sobre esse lugar, você resgatou um tesouro!

    • Berço do Mundo 8 Julho, 2017 em 20:36 - Responder

      Que bom que gostou, Gisele. Tendo em conta a dimensão do Brasil, é normal que muitos tesouros continuem por descobrir. E é uma delícia explorar esses lugares menos conhecidos!

  5. Camila Lisboa 8 Julho, 2017 em 23:38 - Responder

    Gente, nunca tinha ouvido falar! E olha que eu morei por anos pertinho de Ribeirão Preto!

    Ah, adorei a sua aventura pra descer e subir hahaha =)

  6. Lidiane Mara 9 Julho, 2017 em 12:46 - Responder

    Nunca ouvi falar dessa cidade rs Eu adoro descobrir novas opções de viagem também, fugir dos roteiros tradicionais e curtir uma aventura cercada pela natureza, principalmente cachoeiras.

    • Berço do Mundo 9 Julho, 2017 em 17:43 - Responder

      Para mim, o facto de não estar apinhada de turistas é um ponto enorme a favor de um destino.

  7. Viagens e Viagens e Viagens 9 Julho, 2017 em 17:26 - Responder

    Está aí um lugar que ainda não conheço, mesmo morando tão perto do local… Vou me programar para ir um dia… Adorei o lugar!!!

  8. Mapa na Mão 11 Julho, 2017 em 15:43 - Responder

    Olha só que lugar mais lindo! Natureza exuberante. E eu nunca tinha ouvido falar dele antes. Obrigada por compartilhar. Adorei o post e o relato.

  9. Deisy Rodrigues 11 Julho, 2017 em 17:50 - Responder

    Amei demais essa cachoeira que incrível, adorei seu relato, me deixou com vontade de conhecer.

  10. Simone Hara 13 Julho, 2017 em 20:54 - Responder

    Que encanto de lugar! Adorei o post e seu relato!
    As fotos são incríveis… que cachoeira maravilhosa é essa! Já entrou na minha listinha de desejos!

  11. D. 13 Julho, 2017 em 21:26 - Responder

    Que relato emocionante e bem escrito. Ainda bem que regressou bem das cascatas! Parabéns pelo post!

  12. Renata Inforzato 15 Julho, 2017 em 0:10 - Responder

    Que saudade deste lugar! Seu texto está bem poético e as fotos lindas. Viajei no relato e pude rever meus passeios em Cássia…

  13. Catarina Leonardo 1 Agosto, 2017 em 0:28 - Responder

    Também tenho essa impressão. Penso que talvez por o Brasil ser um país tão grande a forma como são vistas as distâncias!! Nunca tinha ouvido falar deste sítio… Tanta razão para voltar a este país.

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