Duomo de Milão: sob a protecção da Madonnina

Herdou o nome dos celtas, foi a casa de Leonardo Da Vinci e viu Napoleão chegar, triunfal, para ser coroado aqui. Chegamos a Milão, a capital da Lombardia

A milanesíssima Madonnina brilha, fulgurante, no pináculo mais alto da catedral, à medida que emergimos das profundezas do metro. A enorme estátua banhada a ouro é tão importante como o Duomo, a catedral que demorou quase meio século a ser construída.

Houve um tempo em que ninguém se “atrevia” a construir mais alto do que os seus 108,5 metros. Até que, nos anos 60, a sede da Pirelli quebrou essa regra, superando a altura da protectora da cidade. Mas os modernos arranha-céus entretanto erguidos estão suficientemente longe para a Santa Maria Nascente reinar sobre esta praça apinhada.

O tamanho da fila é enorme, o que nos dá muito tempo para apreciar a fachada de uma das mais belas catedrais góticas da Europa. Foi toda construída com o maravilhoso mármore branco-rosa de Candoglia, que chegava através dos canais de Milão.

Diz a lenda que o diabo se apresentou ao duque de Milão, Gian Galeazzo Visconti, oferecendo a salvação da sua alma em troca da construção de uma grande igreja, com muitas imagens suas. As 96 gárgulas demoníacas parecem corroborar esta estória.

O interior é tão grandioso como o exterior, ainda que mais escuro e introspectivo. 52 colunas erguem-se elegantes até às alturas, enquanto sarcófagos de mármore desfilam nas laterais. Alguns dos vitrais que retratam cenas bíblicas e filtram a luz são do século XIII. Pouco depois, surge a magnética estátua de São Bartolomeu, que segura a sua própria pele como um manto, numa metáfora artisticamente dramática do seu martírio.

Não admira que Napoleão tenha escolhido o Duomo para ser coroado imperador de Itália, alguns anos depois da sua polémica auto-coroação em França.

Recordo-me da minha primeira visita ao Louvre, há ziliões de anos, e de como fiquei impressionada com a tela gigante de Jacques-Louis David, que pintou Napoleão a coroar a sua Josephine na catedral Notre Dame. Hoje, tenho pena que não tenham feito um quadro da segunda coroação.

Mas a catedral de Milão tem ainda outra lenda que merece ser contada. Dizem que guarda um dos pregos do martírio de Cristo. Doado pela mãe do imperador Constantino (que oficializou o cristianismo com o Édito de Milão), quando a cidade era a capital do império, todos os anos, o prego é exposto durante dois dias. Mas, provavelmente, o mesmo acontecerá com os mais de vinte pregos sagrados espalhados por outras igrejas do mundo…

A visita ao Duomo só fica completa com uma subida aos céus. Duzentas e tal escadas vencidas, chegamos ao telhado, uma galeria de esculturas que enfeitam 135 agulhas rendilhadas. Há um bilhete que dá direito a uma subida por elevador, mas nós temos que queimar as calorias das massas/pizzas.

Sabem? A Veneranda Fabbrica de Duomo lançou a campanha “adotta una guglia”, para angariar fundos para o restauro dos pináculos da catedral. Pelo que todos podem deixar a sua “marca” aqui.

Il Salotto di Milano

Descemos das alturas para entramos na bela sala de visitas de Milão, logo ao lado da catedral. A galeria Vittoria Emanuele data do século XIX, ou seja, é um dos centros comerciais mais antigos do mundo e foi o primeiro edifício italiano a usar metal e vidro como parte da estrutura e não apenas como decoração.

Ali ficam lojas luxuosas como a primeira Prada aberta em Itália e restaurantes históricos que devem, obrigatoriamente, ter os seus nomes escritos em dourado com fundo preto. Um café ali custa uma exorbitância, mas é servido numa chávena de design, provavelmente italiano.

Nos mosaicos que cobrem o chão, há signos do zodíaco e símbolos de grandes cidades italianas. Entre estas, destaca-se o da cidade de Torino. Dizem que apoiar o calcanhar nos testículos do touro e rodar três vezes dá sorte. Bem, que dizer?

O pobre do bicho é vítima da sua popularidade, no lugar do túbaro há já um buraco, que tem que ser consertado regularmente. Não consigo deixar de cogitar no que pensarão os habitantes do Torino acerca desta estranha superstição!

 

No centro da galeria, a abóbada tem representações de quatro continentes

 

O longo corredor da galeria liga o Duomo até outra piazza, onde fica uma das mais prestigiadas casas de ópera do mundo: o teatro alla Scala, onde Verdi iniciou a sua carreira. O teatro é belíssimo e já mereceu um post próprio. Vão lá espreitar. Ciao a tutti!

Site da catedral: aqui. | Bilhete (catedral, museu e telhado, com acesso pelas escadas): 11€ adulto / 6€ criança
2019-03-19T15:37:06+00:00

21 Comments

  1. Marta Iansen 28 Março, 2016 em 18:14 - Responder

    O post está monumental (e não é trocadilho); as fotos também. Mas não consigo evitar um protesto: por que será que alguns dos lugares mais interessantes do mundo hão de ter uma escadaria para torturar os visitantes? Se pretendo ir a algum lugar, mas descubro que há xyz degraus, sempre penso duas vezes…

    • Ruthia 28 Março, 2016 em 18:26 - Responder

      Hehe, é porque lá do alto a vista é sempre mais bonita, Marta!

  2. ✿ chica 29 Março, 2016 em 10:49 - Responder

    Que lindo tudo!

    Adorei revisitar lugares tão legais e inspiradores! Muito bom! bjs, ótima semana! chica

  3. Adriana LARA 29 Março, 2016 em 19:45 - Responder

    e agora eu quase me borro te tanto rir… estás em terras italianas novamente… e por isto o suspense??? Reproduzo minha resposta quanto ao nhoque
    Ruthia amada… agora me deu um leve ataque de riso.. sabe porque?? O nhoque é nada mais nada menos que o gnocchi italiano!!! Apenas – coisa de brasileiro e que eu vivo brigando aqui por causa disso – 'abrasileiraram' a palavra!!! O Tal nhoque é a famosa massinha italiana, a base de batata, farinha ou (aqui em terras tupiniquins mandioca) cozida em água e servida com molho ao sugo, ou bolognesa.. mas é o típico prato do país quase vizinho.. a Itália!! Certamente tu já comeste o original… eu, como (não sei de onde) tenho algo de italiana que corre nas veias e em todo o meu ser, amo de paixão!! (O não sei de onde é pq sou alemoa + espanhola + Britânica + Bugra = India brasileira)..bjs
    E te digo… ai ai ai… quero ir p Itália…. já tenho até voo 'bisbilhotado… me aguardem.. se der este ano ainda!!! bjsssss

    • Ruthia 29 Março, 2016 em 20:46 - Responder

      Hahaha, esse gnochi conheço sim. Por falar em coincidências, né?
      Mil beijos, vem para a Europa siimmmm!

  4. Adriana LARA 29 Março, 2016 em 19:46 - Responder

    Ah! faltou um ciaoo bela!! baci

  5. Maria Teresa Valente 29 Março, 2016 em 21:08 - Responder

    Que delícia viajar com você, Ruthia!
    És atenta aos detalhes, que talvez se fôssemos, não perceberíamos…
    Amei conhecer a Madonnina, obrigada pela partilha.
    Excelente semana, abraços carinhosos
    Maria Teresa

  6. Sissym Mascarenhas 29 Março, 2016 em 23:14 - Responder

    Ruthia,

    Como é bela! É uma obra de arte religiosa! Eu tenho uma amiga no Pinterest que tem uma pasta somente de igrejas, catedrais, nossa… uma viagem!

    Bjs

  7. José María Souza Costa 29 Março, 2016 em 23:45 - Responder

    Tenho uma janela por onde vara cores de momentos
    E uma eterna mania de sonhar.

  8. Toninho 30 Março, 2016 em 4:52 - Responder

    Ola Ruthia é mesmo uma viagem na historia pelas folhas amareladas.
    Há um encantamento diante tanta beleza e ousadia da construção para a epoca.
    Testemunhou a auto-coração de Napoleão que tanto susto causou em Simom Bolivar.
    Bela apresentação minha amiga.Mas esta escadaria é complicado viu.
    Uma Feliz Páscoa de renovadas esperanças.
    Carinhoso abraço mineiro.
    Bjs da paz.

  9. Andreza Gomes 30 Março, 2016 em 18:24 - Responder

    Oi Ruthia, que viagem maravilhosa hein? Eu amo a Italia de paixao! Duomo e maravilhosa demais. bjiimm

    http://www.colorindoavidaa.com
    FAN PAGE

    • Ruthia 30 Março, 2016 em 21:15 - Responder

      Grata pelo seu comentário Andreza. Seja bem vinda aO Berço, espero que se sinta em casa. Logo que possíve, retribuirei a sua amável visita.
      Abraço

  10. MARILENE 30 Março, 2016 em 20:50 - Responder

    Ruthia, sempre que venho aqui me encanto. Quantas maravilhas você já me apresentou! A riqueza dessa catedral é imensa e deslumbrante. A escadaria que mencionou, no entanto, não me seria convidativa, independente do que o alto oferece (rss).
    Você e seu príncipe estão lindos nessa primeira foto. Bjs.

    • Ruthia 30 Março, 2016 em 21:12 - Responder

      Grata Marilene, pelo elogio e pelo amável comentário. As escadas são realmente um pouco difíceis, mas ainda se fazem.
      Beijinho

  11. Zilani Célia 30 Março, 2016 em 21:40 - Responder

    OI RUTHIA!
    RIQUEZA DE DETALHES NOS TEUS RELATOS, AS FOTOS LINDAS E FUI AO LINK QUE DEIXASTE ALI PARA LER SOBRE A COROAÇÃO DE NAPOLEÃO, ACHEI TUDO DEMAIS E HISTÓRIA É ALGO DE QUE GOSTO MUITO.
    ABRÇS A TI E A TEU FIEL COMPANHEIRO QUE ESTÁ CADA DIA MAIOR E MAIS BONITO.
    ESTES DIAS FOI O ANIVERSÁRIO DO NOSSO PEDRO E ESTÁ GRANDÃO TAMBÉM, COISAS MAIS LINDAS ESTES "GURIZINHOS" (EXPRESSÃO CARINHOSA USADA POR NÓS GAÚCHOS).
    ABRÇS E CONTINUA COM DEUS, EXPLORANDO O MUNDO E DIVIDINDO CONOSCO.
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

  12. M. 31 Março, 2016 em 7:07 - Responder

    Que belas paragens! E que rica escadaria para manter a forma e colocar tudo no sítio, hã? One day, someday 😉
    Beijinhos e boa Primavera!

  13. Marineide Dan Ribeiro 1 Abril, 2016 em 23:16 - Responder

    Amei saber um pouco mais deste belíssimo lugar!
    A estória do prego me comoveu!

    Abraços e um ótimo fim de semana!

  14. Elvira Carvalho 2 Abril, 2016 em 8:43 - Responder

    Belíssima reportagem amiga. Ampliei as fotos para ver melhor a grandiosidade da catedral. Obrigado pela partilha.
    Um abraço e bom fim de semana

  15. AC 2 Abril, 2016 em 21:17 - Responder

    Ruthia,
    Conheço uma parte substancial de Itália (Roma, Florença, Veneza, Nápoles…) mas Milão, talvez pela sua densidade urbanística, ainda não fez parte das minhas opções. Após ler a sua crónica, sempre tão convincente, talvez este destino entre na minha lista.
    Grato.

    Um beijinho 🙂

    • Ruthia 3 Abril, 2016 em 21:28 - Responder

      Milão fica de fora das opções de muitos amantes de arte e História que eu conheço. No entanto, ver "A Última Ceia" chega-me como desculpa para conhecer a cidade, ainda que por poucos dias.
      Abraço

  16. Calu B. 5 Abril, 2016 em 11:56 - Responder

    Ruthia,
    sou sempre transportada consigo para as paragens que visitas. Gosto das lendas que cercam a história oficial.Excelente reportagem, belíssimas fotos. Desperta o interesse na visita.

    Bjinhos agradecidos,
    Calu

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