Templos do Mundo: a casa da A-má em Macau

Duas sentinelas de granito, sob a forma de leões, impedem o mal de entrar no templo de A-má, o mais antigo de Macau. No interior, coabitam estátuas de divindades populares, imagens taoístas e Budas bonacheirões, revelando todo o sincretismo religioso chinês.

Vencidas as escadas, abre-se perante os nossos olhos um pequeno, mas gracioso templo, com vários pavilhões cobertos de telhados verdes de pontas arrebitadas, arcos com letras douradas e pátios ligados por rampas e escadas, que se estendem encosta acima. Paira no ar um cheiro forte, a incenso, e o murmúrio de orações.

Quando Macau (澳門) o construiu, durante a longínqua dinastia Ming, nada mais era do que uma insignificante aldeola de pescadores, cujos habitantes tanto se dedicavam à honesta faina do mar, como à pirataria. Apesar desta actividade pontual, ou talvez também por causa dela, ergueu-se um templo a A-má, a deusa do céu, ainda antes da chegada dos primeiros navegadores portugueses.

Aliás, é possível que o nome de Macau esteja relacionado com este lugar, que se situa na Baía de A-má (A-ma-gao ou A-ma-gau). Imaginem os lusos exploradores a perguntarem o nome desta terra desconhecida e os locais a responderem-lhe em cantonês, que é ainda mais difícil que o mandarim. Amagao seria a baía, Macau ficou a cidade!

 

 

© wondermondo. O templo de A-má fica no “Centro Histórico de Macau” que é Património Mundial da UNESCO.

Espirais de incenso queimam no templo de A-má

 

A pequena A-má espera-nos dentro de um nicho de seda vermelha, bordada a fio de ouro, perante uma mesa de oferendas. Nada de muito valioso: um pouco de fruta fresca, flores e, sobretudo, incenso. A deusa taoísta, também chamada de Tin Hau, Mazu ou Matsu, é muito venerada no Sul da China e considerada protectora dos pescadores e marinheiros.

Mas existem ali divindades tão diferentes – no Pavilhão do Pórtico, no Pavilhão das Orações, no Pavilhão da Benevolência, no Pavilhão de Guanyin ou no Pavilhão budista – que o recinto se torna um exemplo singular da cultura chinesa, inspirada na filosofia confucionista, no taoísmo e no budismo, mas também em tantas tradições populares.

É de assinalar também uma árvore muito especial, dedicada ao amor matrimonial. Chamei-lhe a árvore dos casamentos felizes!

No mundo maniqueísta de hoje, em que só parece existir preto e branco, esta tolerância parece-me tão feliz! Macau é o sonho da tolerância religiosa e a casa de A-má perfeitamente ecuménica: sim, esse palavrão de origem grega que começou por ser aplicado numa perspectiva cultural, que depois assumiu uma conotação política no tempo dos romanos e que hoje se assume como um processo de aproximação (ou devia) entre todas as crenças.

Nesta quadra que se aproxima, em que se apela à bondade e à união, procuremos, no fundo dos nossos corações natalícios, vontade para superar diferenças religiosas e culturais que nos separam dos vizinhos e nos enchem de medo dos refugiados que chegam.

Localização: Colina da Barra – Macau |  Entrada grátis

2019-03-20T09:04:52+00:00

21 Comments

  1. Elvira Carvalho 11 Dezembro, 2015 em 17:34 - Responder

    Mais uma excelente reportagem que adorei ver e ler.
    Que os seus desejos se cumpram amiga, a fim de que o mundo melhore um pouco.
    Um abraço e bom fim de semana

  2. Marta Iansen 11 Dezembro, 2015 em 20:11 - Responder

    Todo esse sincretismo dá o que pensar, em termos de "arqueologia" do pensamento religioso.

  3. AC 11 Dezembro, 2015 em 20:26 - Responder

    Os textos, como já referi anteriormente, são cada vez melhores, talvez reflexo duma visão mais global. O que facilmente se compreende: a compreensão das coisas, baseada na prática, ganha logo outra sustentação. Para além disso, algo mais me apraz: o bom uso da Língua Portuguesa, cada vez mais filtrado, mais eloquente…
    Sabe uma coisa, Ruthia? Tal com dizia Mestre Gil Vicente, "e assim se fazem as cousas".

    Um beijinho 🙂

    • Berço do Mundo 16 Dezembro, 2015 em 22:10 - Responder

      Mestre Gil era mais sábio do que eu. Fico grata pelo seu amável, ainda que exagerado, elogio. Será da idade? Ou o amigo AC que se habituou ao meu estilo???
      Beijinhos

  4. Lúcia Bezerra de Paiva 11 Dezembro, 2015 em 23:03 - Responder

    O ideal da convivência humana está aí,perfeita e lindamente descrito. Bom seria, que o MUNDO todo assim vivesse! Quem sabe, um dia… o atingiremos!
    Beijo, Ruthia!

  5. Carlos da Gama 12 Dezembro, 2015 em 10:17 - Responder

    Olá Ruthia
    Excelente o teu blog que acompanho há bastante tempo. Delicio-me com as tuas crónicas de viagem e a tua escrita mansa e poderosa. Parabéns e muito obrigado pela companhia.
    Abraço do
    Carlos da Gama(memoriadamicha2011.blogspot.com)

    • Berço do Mundo 16 Dezembro, 2015 em 22:08 - Responder

      Foi uma feliz coincidência descobrir o seu blogue e um link para o meu Berço. Há muitos leitores que, como o Carlos, me acompanham mas, por uma ou outra razão, não comentam. Fico muito feliz por conhecer mais um viajante.
      Abraço

  6. Sissym Mascarenhas 13 Dezembro, 2015 em 0:19 - Responder

    Querida Ruthia,

    Tão bonito! Enquanto apreciava o texto e imagens fiquei pensando que preservar é uma das melhores formas de fazer com que uma cultura permaneça viva.

    Bjs

  7. Beatriz 13 Dezembro, 2015 em 11:12 - Responder

    Um templo dedicado à Deusa do Céu… sublime!
    Os orientais são muito detalhistas e cuidadosos com suas origens e lendas, admirável! Adorei a profusão de incensos queimando no templo, deve ser uma delícia passar por ali…

    Beijinhos Ruthia!

    Bia <°(((<

    • Berço do Mundo 16 Dezembro, 2015 em 22:12 - Responder

      O único senão foi mesmo o calor de Agosto. O meu guia suava tanto que pensei que se ia sentir mal…

  8. Jussara Neves Rezende 13 Dezembro, 2015 em 21:21 - Responder

    Tenho acompanhado (mal e mal, pelo Facebook) suas aventuras, Ruthia, mas nada como estar aqui e desfrutar do privilégio de ser levada pelas suas palavras (como uma criança pela mão da mãe) aos recantos que você visita. Ainda terei que vir aqui para viajar por tantas outras postagens que perdi!
    Estou a retomar minhas postagens, minha vida… este ano não foi nada fácil, mas estou tentando ficar forte para o que virá!
    Saudade!

  9. Jaime Portela 14 Dezembro, 2015 em 19:09 - Responder

    Reportagem interessante.
    Como sempre, aliás.
    Ruthia, tem uma boa semana.
    Beijo.

  10. Adriana LARA 15 Dezembro, 2015 em 12:53 - Responder

    querida amiga, desculpa-me mas ao ler o texto vi-me às gargalhadas, pois quando citaste o termo 'ecumênico' lembrei de minha falecida avó paterna, pessoa simples de pouca instrução, mas coração de ouro e, como dizemos por aqui, fogo no rabo! Ao casar-se pela segunda vez (já era viúva do meu avô) o futuro marido, Daniel, era da religião luterana, enquanto minha avó católica.. Houve então uma celebração ecumênica, que ela, em plenos pulmões alardeou para toda a cidade como sendo o seu casamento 'econômico'… e a cada vez que vejo o termo ecumênico, lembro do então econômico da minha avó! bjs

    • Ruthia 15 Dezembro, 2015 em 15:57 - Responder

      Que episódio maravilhoso, contagiaste-me com as tuas gargalhadas…
      Abraço

  11. Henrique Caldeira dos Santos 16 Dezembro, 2015 em 17:27 - Responder

    não só uma belíssima visita guiada, como um bom momento de reflexão. um verdadeiro berço do mundo.


    seja qual for a tua crença, ou sentimento, sobre esta esta quadra, desejo-vos (a ti e família) que seja um tempo de viagem, de encontro, de muita energia positiva, de paz, de saúde e de alegria.
    boas festas e um próspero e feliz 2016, repleto de boas viagens.
    abraço!

    • Berço do Mundo 16 Dezembro, 2015 em 22:41 - Responder

      Agradeço não só a sua presença como os seus votos de Boas festas. Desejo que o seu Natal e ano novo sejam tudo isso também: saúde e paz. O resto nós corremos atrás!
      ABraço

  12. Olinda Melo 17 Dezembro, 2015 em 12:02 - Responder

    Olá, Ruthia

    Macau, tão perto e tão longe. Perto porque fez parte ainda há relativamente pouco tempo das possessões portuguesas; e longe porque deveríamos conhecer um pouco melhor a sua cultura. Falo por mim, pois vejo que sei muito pouco dessa realidade. Por outro lado, apesar de ser um mundo completamente diferente, inspira-nos pensamentos de pertença.
    Interessante a origem do nome. Realmente, teria de ser pronunciado à nossa maneira, então, mais ainda, num tempo em que tudo era resolvido no momento dos contactos.E imagino a dificuldade para se fazerem entender.
    Enterneceu-me a forma como termina o post, apelando ao espírito natalício fundado na fraternidade e na solidariedade. E o Ecumenismo é bem necessário nos tempos que correm, obstando a radicalismos que só provocam desgraças.
    Gostei muito desta viagem. Muito obrigada.
    Bj
    Olinda

  13. Jaime Portela 19 Dezembro, 2015 em 16:52 - Responder

    Gostei de rever a tua excelente reportagem.
    E gostava de ir a Macau, mas não sei se vai dar, pois há outros sítios bem mais perto que se levantam…
    Ruthia, minha querida amiga, tem um bom fim de semana.
    E um NATAL MUITO FELIZ, extensivo aos que te são mais queridos.
    Beijo.

  14. Algodão Tão Doce 19 Dezembro, 2015 em 20:23 - Responder

    Feliz Natal!!! Que a manjedoura do seu coração esteja pronta para receber o Menino Jesus que irá nascer!!!
    Um ano novo repleto das bençãos de Deus!!!
    Doce abraço com carinho, Marie!

  15. AC 20 Dezembro, 2015 em 14:08 - Responder

    Ruthia,
    Quando lhe disse, em comentários anteriores, que a sua escrita estava cada vez mais abrangente, isso nada tem a ver com mergulhos profundos em crenças, em paixões. Trata-se, tão simplesmente, num novo descortinar, num dar-se conta da imensa diversidade que nos rodeia. E isso não pode ser tratado (escrito) com a paixão das primeiras descobertas, com a ternura do ninho que nos abriga. Há, sim, consciência duma globalidade surpreendente, que deita por terra algumas certezas anteriormente adquiridas. E é a essa reformulação, sempre constante para quem não quer perder o fio à meada, que trago à colação quando me refiro ao que emana dos seus textos. No fundo, o desejável é que as tonalidades se vão alterando, discretamente, à medida que o seu passaporte se vai enchendo de carimbos. 🙂 Fiz-me entender?

    Um beijinho 🙂

  16. Beatriz Bragança 26 Dezembro, 2015 em 18:23 - Responder

    Querida Ruthia
    Que bela repórter que é!Explica tudo, documenta fotograficamente, enfim só não fui lá´! De resto, fiquei perfeitamente elucidada. Obrigada.
    Continuação de Festas Felizes, junto dos seus entes queridos.
    Um beijinho
    Beatriz

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