Crato: dicas e segredos da vila alentejana

A pacatez da vila alentejana faz uma pausa no final do Verão, durante o Festival do Crato. Mas não é preciso ir longe para mergulhar no silêncio da antiga sede portuguesa da Ordem de Malta.

Último dia de Agosto. Os termómetros marcam temperaturas estratosféricas na terra-natal do condestável D. Nuno Álvares Pereira. A bonita vila alentejana acorda, sonolenta, para mais um dia do Festival do Crato. Pelo menos as ruas junto ao recinto do último festival de Verão, que se orgulha de “dar a volta à crise”, com bilhetes muito mais baratos.

Mas basta percorrer duas ou três ruas para sentirmos a tranquilidade da vila, famosa pelo seu Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa e pela sua olaria. Em tempos, o concelho foi um dos mais importantes centros oleiros do Alto Alentejo. Encontraremos algum desse trabalho em barro, com tradição secular, na feira de gastronomia e artesanato simultânea ao festival.

Por agora queremos vaguear no centro histórico e procurar o Castelo. Infelizmente, o que antes foi uma das fortalezas mais poderosas da região, resume-se hoje a ruínas semi-escondidas pelo mato, em parte resultado do saque das tropas espanholas, no século XVII.

Mas a subida vale pela paisagem: ali imaginamos dias passados a ler, debaixo de uma oliveira, na deliciosa paz do interior alentejano. As casinhas baixas e alvas, com a típica faixa colorida a rodear portas e janelas, sobretudo amarelo-mostarda, dão um charme adicional ao caminho.

 

paisagem deste o castelo do Crato

Estrelas do centro histórico

A simplicidade do Crato não faz justiça à sua glória histórica iniciada no século XIII, quando o rei a entregou à Ordem dos Hospitalários (mais tarde Ordem de Malta). Instituída por comerciantes italianos como abrigo para peregrinos que rumavam a Jerusalém, rapidamente a Ordem ganhou uma função militar.

Em Portugal, foi decisiva nas batalhas da Reconquista, pelo que a escolha do Crato para sede da Ordem, anos depois, lhe trouxe fama e importância.

O calor convida a descobrir os segredos históricos desta vila devagar. Já se sabe, vagar rima com Alentejo. O centro histórico do Crato é o melhor sítio para começar a desvendar esses segredos, o que significa rumar à Praça do Município. Ali fica o Museu Municipal, num antigo palácio barroco, onde pode conhecer a origem do Priorado. Fecha às 17h30 e a última entrada é meia hora antes: acredite que não abrirão excepções (eu bem tentei espreitar).

Nesta praça fica também o que resta do Palácio do Grão-Prior, mandado construir para servir como residência do mestre dos cavaleiros hospitalários em Portugal. A imponente varanda de granito sustentada por uma arcada é o último testemunho do imponente Palácio.

Na praça encontra ainda o edifício dos Paços do Concelho, o Palácio Sá Nogueira e um pelourinho. Várias fachadas ostentam, com orgulho, cruzes da Ordem de Malta…

 

igreja do centro histórico

Arte megalítica e mergulhos

Esgotada a visita histórica, há mais programas para fazer no Crato. Até porque o calor convida a mergulhos refrescantes. Se chegou de carro, na região encontrará três barragens – a de Vale Seco, da Arreganhada e a da Câmara – que somam beleza natural a várias actividades aquáticas.

A oeste da vila, em direcção à Aldeia da Mata, tem a opção do Parque Aquático do Crato. Tem duas grandes piscinas, uma delas com um escorrega de 30 metros, e também chapinheiros (piscinas infantis) para as crianças pequenas.

O concelho possui ainda vários monumentos megalíticos, que “pedem” uma aventura. São mais de 70 antas – como a Anta do Couto dos Andreiros, a Anta da Espadaneira, a Anta dos Penedos de São Miguel ou o Penedo do Caraça -, que provam a presença pré-histórica na região.

Se não tem muito tempo (olhe que ir ao Alentejo com pressa é pecado), inclua no roteiro pelo menos a Anta do Tapadão, perto da Aldeia da Mata, já mencionada. É tão somente o dólmen mais bem preservado em Portugal, apesar da prosaica idade, de mais de 5 mil anos. A estrutura é visível no topo duma pequena colina, no meio de pastagens.

 

anta no concelho do Crato

Onde ficar: um hotel-mosteiro

A hospedagem no Crato assenta sobretudo em alojamentos locais. Existe contudo um magnífico hotel a 2 quilómetros da vila, na aldeia de Flor da Rosa: o antigo Mosteiro de Flor da Rosa, sede da Ordem de Malta.

O projecto de transformação, nos anos 90, suscitou alguma polémica por se tratar de um edifício histórico. Mas hoje o hotel do grupo Pestana permanece um consenso turístico, com o paço-acastelado a manter a raiz medieval e estrutura gótica. Existe também uma nova ala com 13 quartos (a unidade tem 24 no total) e um moderno spa, para além de piscina e restaurante.

O imaginário monástico é revivido nas salas do hotel-mosteiro e na torre foram instaladas três suites. Reza a história que numa delas terá nascido D. Nuno Álvares Pereira, filho bastardo do prior do Crato, que não se podia casar. Pode visitar a sepultura do prior na igreja do mosteiro.

Curiosamente, este filho não oficial seria fascinado pela lenda da Távola Redonda, em particular por Galahad (filho bastardo de Sir Lancelot), o que talvez tenha sido decisivo na sua vida de génio militar e defensor do reino, que lhe valeu o título de Santo Condestável.

 

Mosteiro Flor do Crato

Dá para acreditar que é um hotel?

Onde comer no Crato (e o quê)?

Os pratos típicos da região usam e abusam dos ingredientes e da sabedoria alentejana: migas de batata, sopa de sarapatel, ensopado de borrego e alhada de cação. Tudo regado com os portentosos vinhos alentejanos como o “Terras do Crato”, o “Herdade do Gamito” ou outros da região demarcada de Portalegre.

Já o doce mais tradicional da terra chama-se tecolameca e é feito com amêndoa, gemas, banha, manteiga e açúcar. Encontrará também bolos da sogra e barrigas de freira para atentar contra a dieta. Infelizmente não consegui apreciar nenhum destes pratos e doces, porque jantámos no recinto do Festival do Crato (com poucas opções vegetarianas, ponto que a organização pode melhorar).

Mas tive oportunidade de espreitar A Mercearia, um espaço familiar que vende produtos regionais. Ali pode comprar, por exemplo, vinho, cerveja artesanal, biscoitos, licores, doces, azeites, rebuçados e mel. Na sala ao lado funciona a cafetaria, onde pode provar petiscos como ovos mexidos com farinheira, empadas, rissóis, tibornas e uma sopa do dia.

Na Flor da Rosa (aldeia onde fica o mosteiro-hotel), é bastante popular O Recanto. Deste restaurante com cerca de três décadas se diz que serve comida honesta, puramente alentejana, com um serviço rápido e eficaz. A açorda e as migas, acompanhadas de carne frita, são alguns dos pratos fortes, tudo servido com vinho a jarro. Se passarem por lá, contem-me o que acharam.

 

festival do Crato

© Festival do Crato

Como chegar ao Crato

De Lisboa: de carro, o trajecto mais rápido será pela A1 e depois A23, apanhando a saída 15 (Portalegre/Nisa) e seguindo depois pelo IP2 e pela N245. Demorará pouco mais que duas horas. Uma alternativa simpática e pouco mais demorada, será cruzar para a margem sul e apanhar a N2, passando por Coruche, Montargil (passa junto à barragem), Ponte de Sor e Alter do Chão. A estrada é boa, não paga portagens e a paisagem é bem mais bonita.

Em alternativa, pode ir de comboio. O regional demora cerca de 4 horas e o bilhete ronda os 13€. Se optar pelo Intercidades ou Alfa Pendular, o tempo não será muito diferente, porque terá que mudar de comboio no Entroncamento, para um regional (e o preço do bilhete é mais caro). Consulte os horários no site da CP.

Do Porto: de carro, siga pela A1, perto de Coimbra apanhe a A13 até desembocar a A23. Siga em direcção a oeste até encontrar a saída 15 (Portalegre/Nisa). Siga então pelo IP2 e pela N245. Eu demorei cerca de três horas e meia, utilizando este percurso.

Para quem está no Alentejo: a vila do Crato fica a 21 km de Portalegre (use o IC13), a 45 minutos de Marvão (pela N359 e IC13) e a meia hora de Castelo de Vide (N246 e N245).

Outros programas na região: Évora e Megalíticos: Excursão de 1 dia com saída de Lisboa

 

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2019-09-28T18:26:43+00:00

14 Comments

  1. Cintia Grininger 28 Setembro, 2019 em 18:20 - Responder

    O Alentejo parece mesmo uma região apaixonante! E que delícia ler esse post, fiquei com água na boca pelos pratos típicos e com muita vontade de ficar hospedada num hotel-mosteiro.

  2. Gabriela Torrezani 29 Setembro, 2019 em 9:11 - Responder

    Caramba, eu adoraria conhecer Crato, especialmente na época do Festival… adoro essa mistura de vila pacata com pontos históricos importantes até arte megalítica tem!

  3. Victoria 29 Setembro, 2019 em 10:43 - Responder

    Apaixonada por essa Vila Alentejana e super curiosa para saber mais de como é se hospedar em um hotel-mosteiro em uma torre. Não vejo a hora de descobrir esses segredos de Portugal que contou para nós 🙂

  4. Dilma 30 Setembro, 2019 em 4:26 - Responder

    Oi Ruthia, seus textos são sempre encantadores além de serem uma verdadeira aula de história e cultura. Adoro ler o que você escreve. Abraços,
    Dilma

  5. Madalena 30 Setembro, 2019 em 13:50 - Responder

    Não me lembro de ter ido ao Crato, mas adorei o Alentejo das vezes que lá fui! E, já agora, que bem se comia 🙂
    Beijinhos

    • Ruthia 30 Setembro, 2019 em 17:52 - Responder

      oh, voltei apaixonada pela sericaia e pela boleima de Portalegre!!! Só não exagerei muito, porque estava demasiado calor para grandes comilanças

  6. Andrea 30 Setembro, 2019 em 20:52 - Responder

    Que incrível esta Vila, tão cheia de história. E adorei o mosteiro-hotel, perfeito para mergulhar no clima calmo e percorrer tudo com a atenção

  7. Surian 30 Setembro, 2019 em 21:28 - Responder

    Que demais esta vila alentejana de Crato! Fiquei doida pra ir na época do Festival! Amei, obrigada por compartilhar

  8. Sil Mendes 1 Outubro, 2019 em 12:08 - Responder

    Crato parece uma cidade muito interessante pra conhecer. No Ceará tem uma cidade com este mesmo nome . Nunca tinha ouvido falar sobre esse doce tecolameca, fiquei curiosa p provar.

  9. MICHELE 2 Outubro, 2019 em 0:28 - Responder

    Amoo hospedagens diferentes, em lugares históricos e me peguei imaginando essa do hotel-mosteiro, deve ser uma experiência incrível. Amei o post

  10. Marcia Picorallo 2 Outubro, 2019 em 17:56 - Responder

    Ruthia, obrigada por este passeio por Crato! Vi que também sofreu com o calor do verão ehehe. Nossa, não sabia que Portugal detém as construções megalíticas mais antigas de toda Europa. Que injustiça que a gente conheça mais sobre Stonehenge…

    • Ruthia 2 Outubro, 2019 em 20:46 - Responder

      Márcia, vc não leu bem. EU não disse que são as mais antigas da Europa, disse que aquele dólmen é o mais preservado de Portugal. Mas o país tem uma grande riqueza a esse nível. Só preciso de um marketing tão bom como o de Stonehenge

  11. ana 3 Outubro, 2019 em 2:20 - Responder

    Adorei conhecer Crato pelo seu texto tão bem escrito e cheio de vida, agora me deu curiosidade de ver de perto tanta coisa legal.

  12. Rui Pires 4 Outubro, 2019 em 11:10 - Responder

    Gostei de viajar até ao Crato através das tuas imagens e informação.
    Não conhecia. A publicação é convidativa.
    Bjs

    😉
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