mulher africana

Hossana, eeehhhh

A melodia morna embala a manhã. Isabel ainda não tem 50 anos mas parece uma idosa, dos olhos negros parece espreitar uma alma centenária. E com o seu corpo enxuto de carnes, trabalha como se tivesse metade da idade.

Demorou mais de duas horas a atravessar Luanda. Lá nos subúrbios fica a sua casa, que construiu enquanto trabalhava para os sul-africanos, juntando cêntimo a cêntimo. Acabou despedida. “Os pobres têm sempre os filhos doentes”, ter-lhe-ão dito. Em nenhum ponto do planeta é fácil criar os filhos sozinha.

Isabel só tem dois, um rapaz e uma rapariga, e, por isso, é um espécimen raro numa sociedade em que ser mãe é a melhor identidade que uma mulher pode assumir. Vestiu essa pele quando tinha apenas 14 anos, logo depois de começar a namorar, porque a tia que a criou nada lhe ensinou da vida. A prole numerosa que devia ter tido esvaiu-se numa sucessão de abortos. Sobreviveram estes, porque lhe coseram o colo do útero.

O pai das crianças? A história repete-se até à exaustão nas ruas de África. Foi trabalhar para longe e acabou com uma segunda família. Até foi contido, alguns têm meia dúzia de “famílias”, que é o mesmo que dizer que têm filhos em cada esquina. Invariavelmente, são as mulheres que acabam a sustentar a prole.

Isabel não aceitou o marido de volta, tampouco voltou a casar-se. Também por isso, é uma mulher atípica. “A minha filha lagrima muito quando ouve a minha história“, conta ela, orgulhosa da sua futura engenheira do petróleo, que parece querer evitar a todo o custo um destino idêntico.

Tudo isto Isabel me conta por entre o café, como se nada fosse. As mulheres africanas têm uma força intrínseca admirável. Peço-lhe permissão para a fotografar. Acede, após um tímido protesto porque está de lenço na cabeça. Está linda, garanto-lhe eu, ainda a reflectir sobre a coragem que uma mulher em África precisa para sobreviver.

Alheia à minha admiração, ela regressa sem demora à sua lida e ao seu cantarolar. O seu cântico tem qualquer coisa de blues.

Hossana, eeehhhh…

Planeie a sua próxima viagem

Faça as suas reservas através dos links parceiros. Não paga nem mais um cêntimo e para mim faz toda a diferença

  • Encontre os melhores hotéis no  BookingÉ onde eu faço as minhas reservas
  • Se precisa de transporte próprio, alugue um carro com a Rentalcars 
  • Reserve os seus bilhetes para monumentos e tours, evitando filas, usando o Get your Guide 
  • Faça um seguro de viagem com a Iati seguros (beneficia de 5% de desconto com este link).

Este post pode conter links de afiliados

Partilhar
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on pinterest
Pinterest
Share on whatsapp
WhatsApp

Artigos Relacionados

16 Comentários

  1. AC

    Grande crónica, Ruthia, a cheirar a gente. E que gente!
    Parabéns, minha amiga!

  2. Marta Iansen

    Post notável, pelo texto e pelas fotos. Estou até com dificuldade para comentar, tal o impacto.

    1. Ruthia

      Grata. O seu blog também me deixa muitas vezes sem palavras…
      Abraço Marta

  3. ✿ chica

    Beleza em tuas palavras e realidade bem mostrada! bjs, tudo de bom,chica

  4. Maria Teresa Valente

    Belo exemplo de mulher, que determinação!
    Parabéns pela postagem, Ruthia!
    Tenha uma excelente semana, abraços carinhosos
    Maria Teresa

    1. Ruthia

      Muito obrigada, Maria Teresa. Uma linda semana para vc também

  5. Sissym Mascarenhas

    Ruthia,

    Hoje quando eu falava sobre a síria em noticias e imagens (final da postagem do Blogzoom), eu me deparei por muito tempo em assuntos da Africa. É um continente de muita beleza e tambem de absurdos; os anos passam com conflitos, guerras, fome, doenças e violencia contra a mulher. Adorei este seu post, eu me senti lendo uma continuação dos meus sentimentos expressos hoje.

    Bjs

  6. Jussara Neves Rezende

    Seu texto está lindo, Ruthia, ao enfatizar com doçura a realidade pouco doce da mulher africana que, a despeito de tudo, segue com seu canto e sua lida.
    Tinha você razão ao afirmar a lindeza dela apesar do lenço na cabeça.
    Abraço!

  7. Adriana LARA

    que lindo texto/crônica, querida amiga, parabéns…. me deixastes pensando sobre muitas coisas que costumamos reclamar…. e estas pobres mulheres ainda conseguem colocar um tímido sorriso nos lábios, mesmo com tanto sofrimento…. bjs desejando excelente semana… saudades

  8. Toninho

    Bonita homenagem a estas mulheres diferentes das de Atenas.
    Mulheres que amargam a vida e ainda assim canta em forma de lamento.
    Uma bela mulher negra que o sofrimento impiedoso deixou suas marcas severas.
    Lindo ter uma filha num caminho que pode refazer a historia tão comum das mulheres negras numa Africa sofrida.
    Parabens Ruthia bela postagem.
    Meu terno abraço e beijo de paz.
    Aqui é carnaval e a cidade ferve,rsrs.

    1. Ruthia

      Sim, amigo mineirinho. A nova geração tem a oportunidade de mudar o rumo das coisas. Aliás, a União Africana declarou a década de 2010-2020 como a década da Mulher Africana para combater pobreza do género, promover a segurança alimentar, a saúde (nomeadamente ao nível da mortalidade materna e prevenção da Sida) e a educação.
      Esperemos que dê frutos.
      Abraço

  9. Zilani Célia

    OI RUTHIA!
    QUE LINDO, FIZESTE A ESTA MULHER, TALVEZ A MAIOR HOMENAGEM QUE JAMAIS RECEBEU EM SUA SOFRIDA VIDA.
    ELA ESBANJA A BELEZA COM A QUAL A PREMIASTE, ESTÁ NO OLHAR.
    ABRÇS

  10. MARILENE

    Ruthia, é emocionante seu relato. Mulher forte, decidida, que segue seu caminho levantando-se das quedas sem olhar para trás. Realmente, parece ter mais idade. O sofrimento e a luta deixam marcas em sua pele. Mas há que usufruir do orgulho de ver a filha em uma realidade diversa. Bjs.

    1. Ruthia

      Vamos torcer que as novas gerações possam reverter a história das mulheres africanas, né??

  11. Elvira Carvalho

    Um relato de vida muito bom. Ser mãe sozinha sempre foi difícil em qualquer parte do mundo. Nuns lados mais difícil que noutros. África é uma terra maravilhosa, mas não para todos os seus filhos. Era assim quando colonizada pelos vários países que por lá andaram, e continua sendo-o agora, quando todos eles se foram.
    Um abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

JPG_1606302493785

Ruthia Portelinha

Viajante, chocólatra, leitora compulsiva, mãe. Está a aprender chinês porque sim.

Posts Populares
Fundador da ABVP
Viagens de uma Vida
Livro viagens de uma vida
Viagem de grupo a Marrocos

7 dias em Marrocos 430 euros
Marrakech até Deserto do Saara
>> Viagem de Grupo Marrocos <<