Lisboa 4: de Belém para o mundo

“Este é um dos percursos onde a grandeza do nosso Império relacionada com os Descobrimentos se destaca. É um local onde a brisa do Tejo invade os jardins com as suas fontes. Há majestosos monumentos que se cruzam com a modernidade (…)”

A descrição é do Explorar Lisboa e nós não podemos estar mais de acordo. Começamos o percurso de hoje carregando baterias com uns míticos pastéis de Belém, carregadinhos de canela.  Este é um segredo que continua tão popular como em 1837 – os turistas formam uma longa fila à porta.
Nós escapamos ao burburinho e vamos degustá-los numa ruela estreita, ali a dois passos, onde reina um silêncio surpreendente. Ao fundo da travessa, no muro que rodeia o Jardim Botânico Tropical, fica o Pato Mudo, um gigante painel de azulejos reciclados.
De resto, o projeto artístico Travessa da Ermida é responsável por várias surpresas e animação cultural naquela pequena artéria. As palavras de Alexandre O’Neill, registadas numa parede, reverberam no meu peito, durante
o resto do passeio:

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor (…)

 
 
Pastéis de Belém saboreados em família. Há lá coisa melhor?
Afonso de Albuquerque nas alturas e, ao fundo, o Palácio de Belém.
O Pedrinho com o “Explora Lisboa”, numa das estruturas verdes criadas pela EDP e jornal Expresso. Ao fundo, o Museu da Electricidade.
 
Mas existe um mundo à nossa espera, pelo que rumamos ao Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, ficando a saber que o chefe de Estado está em casa, porque a bandeira está hasteada. Vou enumerando as muitas novidades: este é o Afonso de Albuquerque, que foi governador da Índia, aqui fica o novíssimo Museu dos Coches e, ali adiante, o Museu da Electricidade.
Ah, foi ali o debate entre o António Costa e o Pedro Passos Coelho! – lança o pequeno explorador, aludindo à campanha das últimas legislativas. Estaquei. Say what?
Como é que sabes?
Deu na televisão, mamã – responde categórico. Claro, como se fosse habitual uma criança de sete anos saber onde os candidatos a Primeiro-ministro se defrontam…
O rio acompanha-nos neste caminho que conduz ao Padrão dos Descobrimentos, erguido para celebrar os 500 anos da morte do Infante D. Henrique (1960), o principal instigador daquela temeridade.
A caravela estilizada parece querer fazer-se ao mar, levando na proa o Infante e alguns dos protagonistas da aventura ultramarina, entre navegadores (Bartolomeu Dias, Diogo Cão), cartógrafos, cientistas, guerreiros, missionários (Francisco Xavier) e artistas (Camões, Fernão Mendes Pinto). Pela primeira vez subimos ao miradouro, de onde se vê a bela Rosa-dos-Ventos oferecida pela república da África do Sul.
Porquê erguer o padrão aqui? Simplesmente, porque todo este espaço  era uma praia no século XVI. E daqui, da Praia do Restelo, partiram muitos barcos para “dar novos mundos ao mundo”. Num deles seguia Pedro Álvares Cabral e acabou por aportar no Brasil; outro, comandado por Vasco da Gama, foi parar à Índia.
 
Nos jardins de Belém é possível visitar o pavilhão tailandês, todo construído em teca
e folha de ouro. Uma oferta para assinalar cinco séculos de relações diplomáticas entre Portugal e o antigo reino de Sião.
Seguimos até à réplica do Santa Cruz, um dos hidroaviões que fez a primeira travessia aérea do Atlântico sul, e descansamos junto à bela Torre de Belém, antes de rumarmos a outro monumento classificado pela UNESCO como património da humanidade: o Mosteiro dos Jerónimos.
O Pedrinho já consegue identificar vários elementos característicos desta arte manuelina: a cruz de Cristo, as esferas armilares, os nós, as âncoras… Infelizmente, não há tempo para o mosteiro, porque prometi levá-lo ao P anetário. Mas ainda conseguimos felicitar uns noivos e até conhecer o túmulo do Luís de Camões, na igreja dos Jerónimos. Para além da entrada ser gratuita, a fila é muito menor.
Terminamos este dia, o último neste périplo por Lisboa, perdidos nos segredos do universo, sentados nas confortáveis poltronas do Planetário, pensando com os nossos botões “ainda há tantos outros mundos para descobrir“!
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Padrão dos Descobrimentos: 4€ (adulto) / grátis para crianças até aos 12 anos
Mosteiro dos Jerónimos: 10€ (adulto) / grátis para crianças até aos 12 anos
Torre de Belém: 6€ (adulto) / grátis para crianças até aos 12 anos
Planetário: 5€ (adulto) / 2,5€ crianças a partir dos 3 anos (há bilhetes familiares)
Dica: se quiser visitar várias atracções em Belém, há bilhetes conjuntos que ficam mais baratos. Peça informações numa das bilheteiras
2018-12-10T16:12:37+00:00

17 Comments

  1. ✿ chica 5 Junho, 2016 em 12:03 - Responder

    Que maravilha ler e saber mais e as fotos maravilhosas!Adorei ver o Pedro con centrado dentro do monumento,rs beijos, ótima semana,chica

  2. Marta Iansen 5 Junho, 2016 em 13:22 - Responder

    Hmmmm, um post cheio de orgulho português. Justificado, por suposto.

    • Ruthia 5 Junho, 2016 em 13:56 - Responder

      Não direi que sou uma grande patriota. Mais importante do que a nossa nacionalidade é a nossa condição humana. O resto é, na esmagadora maioria das vezes, um acaso geográfico.

  3. Nativos do Mundo 5 Junho, 2016 em 16:20 - Responder

    Ah, mas como é atento e perspicaz esse Pedrinho! Consigo até imaginá-lo falando essas frases, Ruthia! Espero ainda fazermos outros passeios juntos! 🙂
    (vocês já estiveram dentro do Palácio de Belém? Parece que ele abre ocasionalmente e ficamos sabendo que ele abriria bem no dia que partimos de Lisboa para o Porto! Ficamos com vontade de ir, numa próxima vez)

    • Ruthia 5 Junho, 2016 em 19:42 - Responder

      Há milhões de anos atrás, quando era uma jovem universitária, a minha turma de jornalismo foi recebida pelo Presidente da República de então (Jorge Sampaio), no Palácio. Nunca mais lá entrei. Tem também o Museu da Presidência que ainda não visitei.
      Beijinho

  4. Elvira Carvalho 5 Junho, 2016 em 21:12 - Responder

    De vez em quando ando por aí. Há sempre algo para ver. A última vez que aí estive em Fevereiro foi para ver a exposição do Berardo no CCB.
    Um abraço e uma boa semana

    • Ruthia 6 Junho, 2016 em 10:40 - Responder

      É verdade, amiga Elvira. Há sempre alguma novidade para aqueles lados. E eu ainda não conheço a colecção do Berardo do CCB, só a da Madeira.
      Beijinho

  5. Adriana LARA 6 Junho, 2016 em 19:47 - Responder

    que lindo, me vieram lágrimas de saudades aos olhos…. e Pedrinho, tão esperto, esse guri vai longe!!! Se Deus quiser e as finanças permitirem, bem como as diversas situações em que estou vivendo, talvez eu pise em terras lusitanas ainda este ano!! mas é preciso esperar para ver no que vai dar! bjs

    • Ruthia 6 Junho, 2016 em 20:14 - Responder

      Oohhh, vou ficar a torcer para que tudo dê certo!
      Beijinhos

  6. Sissym Mascarenhas 6 Junho, 2016 em 20:38 - Responder

    Ruthia,

    Todo mundo que conhece este país só tem elogios. Pedrinho tem a sorte de estar num lugar que é só historia e cultura e com pais atentos a lhe ensinar.

    Beijinhos

  7. Lúcia 10 Junho, 2016 em 21:37 - Responder

    Nesse dia tão importante para Portugal apreciar essa postagem é tudo de muito bom!
    Parabéns! Beijos!

  8. Zilani Célia 12 Junho, 2016 em 23:42 - Responder

    OI RUTHIA!
    TUDO, COMO SEMPRE ÓTIMO POR AQUI EM TERMOS DE CULTURA ENTÃO, NEM SE FALA. MAS, O PEDRINHO ALI DEITADO LENDO, ESTÁ DEMAIS E ACHO QUE É COISA DE " PEDROS" ESTA INTELIGÊNCIA E PERSPICÁCIA QUE NOS SURPREENDE, ASSIM É O NOSSO POR AQUI TAMBÉM.O PAVILHÃO TAILANDÊS, SEVE SER MARAVILHOSO VISTO PESSOALMENTE.
    TU E O PEDRINHO SENTADOS COMENDO "PASTÉIS DE BELÉM" ESTÁ DEMAIS.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

    • Ruthia 14 Junho, 2016 em 6:41 - Responder

      É uma geração totalmente diferente, disso não tenho dúvidas.
      Lani, qualquer sítio é bom para comer um pastel de Belém 🙂
      Abraço

  9. Jussara Neves Rezende 14 Junho, 2016 em 2:30 - Responder

    Lindas fotos, Ruthia! Amei o poema! E o seu texto, como sempre, impecável, delicioso de ser lido.
    Grande abraço!

    • Ruthia 14 Junho, 2016 em 6:41 - Responder

      Aquele verso, "há palavras como beijos" é de uma beleza tocante.
      Grata pela sua presença sempre amável.
      Beijinho

  10. Blog Donna Gatta 14 Agosto, 2017 em 17:09 - Responder

    Portugal é um País maravilhoso! Saudades de passear por aí. Qualquer hora estarei voltando!!
    Beijos,
    Deus abençoe.

  11. Lulu Freitas 28 Setembro, 2018 em 15:57 - Responder

    Que passeio delicioso por Lisboa. Me senti caminhando com você e seu pequeno explorador. Muito legal ele já conseguir identificar um pouco dos símbolos e arquiteturas históricos. Vontade de conhecer a terrinha…

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