Na esquina entre o Cantábrico e o Atlântico, uma mítica torre é disputada por Hércules e Breogán, numa batalha eterna sem vencedores ou vencidos. Existe apenas um soberano: o mar

Um mar imenso, esmagador, que domina a paisagem e atrai o nosso olhar uma e outra vez, ali na costa mais a norte da Península Ibérica, numa cidade que tem uma torre no seu escudo.

Não é uma torre qualquer, mas o farol romano mais antigo do mundo a funcionar, luz da Galiza e património da Humanidade, rodeado por um parque de esculturas delicioso e lendas mirabolantes, que se destaca num dos mais longos passeios marítimos da Europa.

Uns dizem que a Torre foi erguida pelo celta Breogán, o mítico colonizador da Irlanda. Conta o Livro das Invasões que o seu filho dali vislumbrou, pela primeira vez, a verdejante costa irlandesa, o que levou o Povo de Mil em busca daquelas terras [ainda que a inclinação do globo torne a lenda improvável].

O rei Alfonso X, na sua Estoria de Espanna, narra outra versão, com uma intenção claramente política de ligar Hércules  à monarquia espanhola.  A estória contada com minúcias de fabulista diz que o herói grego chegou à Corunha logo após cumprir um dos seus 12 trabalhos: cortar a cabeça ao gigantíssimo e tiraníssimo Gerião. A cabeça do polvo, pois de um molusco se tratava, terá sido enterrada naquela ponta da Ibéria.

Outros trabalhos chamaram Hércules, que ali deixou o seu sobrinho Hispán como senhor da cidade, a quem coube terminar a torre com um fogo que nunca se apagava.

 

 

Vá. A única certeza é que este farol é romano, foi projectado por um arquitecto de Coimbra no século I por ordem do imperador, para ajudar os navegantes nesta costa bravia e rochosa.

Conquistamos esta torre de Hércules, de Breogan, mas sobretudo dos galegos, incluindo Picasso que aqui passou a sua infância e a baptizou de “torre de caramelo”, vencendo os 232 degraus. Do topo, abre-se-nos o olhos de mar e céu, tudo numa imensidão azul, enquanto pequenas formigas humanas cruzam os trilhos aos pés do farol, atraídas por uma bela Rosa dos Ventos.

Nosce te ipsum

Os amigos e leitores conhecem bem a minha paixão por zonas históricas mas, na Corunha, é a costa que nos atrai ao longo de vários quilómetros. Do curto passeio ao coração da cidade vos falarei noutro episódio, porque temos outra paragem obrigatória no passeio marítimo: o Domus. A Casa.

 

O homem mais alto era americano e media 2,72 metros quando morreu, aos 22 anos.

 

O edifício de pedra parece a vela de um navio, ali em frente ao mar, pronto a zarpar. O japonês Arata Isozaki [aparentemente um dos maiores arquitectos da actualidade] desenhou este que é o primeiro museu interactivo dedicado ao ser humano, inspirado no aforismo de Platão nosce te ipsum, “conhece-te a ti mesmo”. Sem um acervo esmagador, o espaço é sobretudo inesperado, com dezenas de jogos e experiências.

Há ali vida, pode até sentir-se o pontapé de um bebé numa barriga sintética, assistir ao vídeo de um parto [“que nojo”, foi a expressão crua do meu filho, ao assistir, pela primeira vez ao milagre da vida] e entrar num coração gigante de madeira, onde as batidas reverberam sonoras. Há também morte, como bem recorda o esqueleto azul na posição d’ O Pensador de Rodin.

Há ali evolução: podemos tirar uma foto com os primos neanderthal, erectus e australopiteco. Há ali genética, como nos prova uma Mona Lisa gigante criada a partir de 10 mil rostos humanos, todos eles diferentes, apesar de partilharmos 99,8% dos genes hereditários [chamam-lhe a Gioconda Sapiens!!!]. Há ali inteligência e até vemos um cérebro humano dentro de um frasco.

Um espaço divertido para famílias. E não é que saímos mais conhecedores de nós mesmos?

 

Torre de Hércules: site | Bilhete: 3€ (adulto), 1,5€ (criança)
Domus – Museu do Homem: site | Bilhete: 2€ (adulto) | 1€ (criança)

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