Angola made in China

Os chineses são já a maior comunidade de estrangeiros em Angola, ultrapassando os portugueses. E a sua presença revela-se em cada esquina

Os chineses dizem 安哥拉 (Āngēlā). O nome, fonético, inclui um caracter auspicioso: 安 (ān, paz), muito utilizado na toponímia chinesa, por exemplo, na famosa praça de Tianamen. A parceria entre Angola e China, iniciada após o fim da guerra civil angolana em 2002, tem sido assim: pacífica e próspera.

Angola tornou-se o maior fornecedor de petróleo daquele gigante asiático e este, por seu lado,  assegurou que grandes infraestruturas, como o novo aeroporto internacional de Luanda (no Bom Jesus), fossem construídos por empresas chinesas. De resto, a China tem apostado fortemente no continente africano, com empréstimos e grandes projectos de reconstrução, em troca dos recursos naturais necessários ao seu desenvolvimento (mais informação sobre o assunto aqui e aqui).

Esta presença estratégica redesenhou a paisagem angolana, em particular em Luanda, onde as empresas chinesas se concentram. Para mim, que estudo mandarim há três anos, é um passatempo delicioso ler os caracteres chineses que surgem em cada esquina, anunciando de arranjos de carros à venda de areia.

Foi no trajecto entre Luanda e a pequena vila da Muxima que fotografei a maioria das imagens que acompanham este post. Primeiro, chamaram-me a atenção para a Nova Cidade de Kilamba, construída por chineses, que o governo angolano promoveu como um paraíso para a classe média que quisesse fugir do turbilhão da capital, mas que os jornais chamam de “cidade fantasma”. Agora vai recebendo alguns habitantes, mas ainda está longe do meio milhão de pessoas previsto.

Não muito longe dali, no município de Viana, abriu recentemente a “Cidade da China”, um mega centro comercial especializado em electrodomésticos e mobiliário, acessórios e materiais de construção. Não o fui conhecer, mas aposto que tem uns quantos produtos made in China.

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© www.verangola.net

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Adiante, perto de Cabala, parámos um pouco para esticarmos as pernas. A poucos metros, um senhor chinês pescava tranquilamente no Kwanza. E eu não desperdicei a oportunidade de praticar um pouco o meu tímido mandarim.

O que acha de Angola?

还行 (hái xíng) – responde com um encolher de ombros, o que quer dizer “mais ou menos”. Como o compreendo, não é fácil estar longe da família.

A trabalhar há cinco anos em Angola na construção de estradas, o meu interlocutor contou-me que deixou a família na China – mulher e quatro filhas todas elas crescidas (então e a política do filho único?) -,  e que aos domingos, o seu único dia livre, pesca ali. Pesca o quê? Ele não sabe o nome do peixe, mas aponta para o balde, e eu vejo um espécimen de longos bigodes.

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É pequeno, penso, mas então recordo-me de outra ocasião, em Hong Kong, quando me disseram “para a sopa serve”. Portanto, resta-me desejar um 新年快乐!Feliz Ano Novo, antes de voltar à estrada.

Será que no futuro Luanda terá também a sua Chinatown?!

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2019-07-16T11:48:45+00:00

31 Comments

  1. Elvira Carvalho 23 Janeiro, 2017 em 14:39 - Responder

    Grata pelo passeio. A China está invadindo Angola? Não admira. Eles chegam a todo o lado. Às vezes penso que eles acabarão dominando o mundo como outros povos o fizeram no passado.
    Um abraço

  2. Existe Sempre Um Lugar 23 Janeiro, 2017 em 15:35 - Responder

    Boa tarde, a enorme população e uma industria sem lei laboral, sem qualquer espécie de segurança para os trabalhadores, faz da China o pais mais industrializado barato a par da Índia, hoje grande parte das coisas são fabricadas na China pelos preços baixos praticados, assim é natural que estejam por grande parte do mundo, nada tenho contra o chineses, não devem é de ter beneficiários ficais em ralação aos naturais.
    AG

  3. Marta Iansen 23 Janeiro, 2017 em 21:39 - Responder

    Até em Angola?!!…

    • Ruthia 23 Janeiro, 2017 em 21:46 - Responder

      Porquê a surpresa, Marta? As riquezas de Angola sempre foram muito apetecíveis para as outras nações… verdade?

  4. Adriana LARA 25 Janeiro, 2017 em 15:32 - Responder

    Meu Deus, a China tomando conta do mundo!!! Em todos os cantos (tal qual os brasileiros) encontramos chineses!!!
    Amei o post, conhecer um pouco mais esse lado angolano chinês
    bjs

  5. Sissym Mascarenhas 26 Janeiro, 2017 em 20:04 - Responder

    Espero que o comercio mais barato chines venha ajudar os angolanos, porque se depender das mudanças do novo presidente americano, estar na Africa será um bom negocio para China.

    • Ruthia 26 Janeiro, 2017 em 22:24 - Responder

      No caso de Angola, a presença chinesa é mais no sector da construção e industrial, acredito. Não há tantas lojas chinesas como em Portugal, nem de longe. Acho que o centro comercial é o primeiro grande investimento do género lá

  6. Elvira Carvalho 26 Janeiro, 2017 em 22:11 - Responder

    Desculpe responder aqui.
    A história é nova. E nunca me lembro de ter abordado o Alzheimer nas minhas histórias. A leucemia sim.
    Amiga por favor depois de ler, apague este comentário que nada tem a ver com o seu post.
    Obrigada
    Um abraço

    • Ruthia 26 Janeiro, 2017 em 22:23 - Responder

      Provavelmente estou a fazer confusão com outra história ou simplesmente tenha identificado as etapas pelas quais o doente passa e que tão bem descreve na sua história. De qualquer forma, é um tema muito atual e pertinente

  7. ✿ chica 26 Janeiro, 2017 em 22:37 - Responder

    Mais um pASSEIO BEM INTERESSANTE E NOS PROPORCIONADO OPORTUNIDADES DE MAIS SABER! BJS, TUDO DE BOIM,CHICA

  8. Roma PraVoce 27 Janeiro, 2017 em 12:31 - Responder

    Muito curioso e interessante. Aqui na Itália há inteiras cidades praticamente chinesas, como Prato, na Toscana, onde se estabeleceram muitas fábricas têxteis. E por lá tb há muitas placas em Mandarim.

  9. amiagas viajantes 27 Janeiro, 2017 em 14:03 - Responder

    Caramba. Muito interessante. Uma verdadeira Chinatown.

  10. viajante móvel 27 Janeiro, 2017 em 16:58 - Responder

    Muito interessante seu post, com informações históricas e atuais. A China parece realmente estar dominando o mundo rsrs. Apostamos de possibilidade de um dia Luanda ter sua própria Chinatown rsrs. Será mais um atrativo para os turistas. Colocamos na lista. Um abraço.

    • Ruthia 27 Janeiro, 2017 em 19:38 - Responder

      Anotada a sua aposta na Chinatown, haha. Abraço

  11. Guilherme Hoefelmann 27 Janeiro, 2017 em 17:12 - Responder

    Caraca, não fazia ideia disso! Até as placas estão invadidas! Angola é um dos lugares que ainda quero visitar!

  12. Carlos Gama 27 Janeiro, 2017 em 17:39 - Responder

    Mais um «post» que é uma lição. Obrigado.
    Os chineses estão a tomar conta de Angola e Moçambique. Portugal não soube fazer este caminho da cooperação e da aposta na cultura e economia. Nem sei para que serve o português como língua mãe…
    Acho que o complexo da colonização» deixou marcas difíceis de ultrapassar. Quando acordar-mos vai ser tarde demais, penso!
    O seu blog é um verdadeiro berço do mundo. Parabéns!
    Abraço do Carlos da Gama

    • Ruthia 27 Janeiro, 2017 em 19:42 - Responder

      Grata, amigo andarilho. De Moçambique nada sei, a não ser o que vejo nas notícias.
      O português serve para facilitar as comunicações, claro. Mas, como vemos pela relação Angola-China, o dinheiro já fala mais alto que a língua de Camões!
      Abraço

  13. Mirella Matthiesen 27 Janeiro, 2017 em 21:28 - Responder

    Que surpresa saber dessa comunidade chinesa em Angola, muito interessante os caminhos da globalizacão, não é?!

  14. Jessica Veneravel 27 Janeiro, 2017 em 23:46 - Responder

    Não fazia ideia dessa comunidade toda em Angola! Que doideira, mas não me surpreende. Os chineses se adaptam muito facilmente a outros lugares, vide os bairros chineses aqui no Brasil.

    • Ruthia 28 Janeiro, 2017 em 8:03 - Responder

      Oi Jessica, seja bem vinda ao meu Berço. É verdade que eles estão em todo o lado, o problema é que não se misturam com os nacionais, antes tendem a criar esses bairros separados, muitos nunca chegam a aprender sequer a língua.
      A situação pode causar tensões sociais

  15. Paulo Vinicius 28 Janeiro, 2017 em 2:35 - Responder

    Não sabia mesmo disso… como a gente aprende através de quem vê essas coisas em primeira pessoa. Infomação única!

  16. Carol Belo 28 Janeiro, 2017 em 11:35 - Responder

    Muito interessante o seu post, pois eu nunca iria saber dessa "invasão" chinesa a Angola. Espero que haja uma interação com a população local, pois, às vezes, o que noto é a chegada dessas pessoas, mas sem a menor vontade (e disposição) para relacionar-se com os costumes locais (continuam falando sua língua e tendo seus hábitos)… Enfim…
    Abraços
    Carolina

    • Ruthia 28 Janeiro, 2017 em 11:41 - Responder

      Olá Carolina. Realmente, a interacção é pouca. Trabalham e vivem só com chineses, a maioria não procura aprender a língua ou entender a cultura local. Mas, a verdade é que a esmagadora maioria são trabalhadores com muito pouca formação, então não são curiosos em relação ao mundo que os rodeia. Estão ali simplesmente para ganhar dinheiro

  17. Ayub 28 Janeiro, 2017 em 15:19 - Responder

    Os chineses são muito espertos e fazem parcerias interessantes em troca de recursos naturais! Gostei muito do post. Obrigado! 😉

    • Ruthia 29 Janeiro, 2017 em 0:42 - Responder

      Eu é que agradeço, a sua visita e o seu comentário. Recursos naturais são bens escassos, verdade?
      Abraço

  18. Day 29 Janeiro, 2017 em 0:02 - Responder

    Nossa, bem interessante. Não imaginava essa "invasão" chinesa acontecendo na Angola. Como as viagens nos acrescentam, não é? E, pelo relato, acho que vai ter China Town na Angola, sim…

    • Ruthia 29 Janeiro, 2017 em 0:42 - Responder

      Com certeza, por isso viajamos, para sermos melhores pessoas, mais tolerantes e informadas.
      Abraço

  19. Aline Laudelina Pires 30 Janeiro, 2017 em 0:26 - Responder

    China "invadindo" Angola? Nunca imaginei.. Mas adorei saber um pouco mais sobre Angola, coisas que a mídia não nos apresentam.

  20. Anna BaS2 9 Fevereiro, 2017 em 11:42 - Responder

    OS chineses vão dominar o mundo!!

  21. Augusto Ribeiro 3 Janeiro, 2018 em 20:41 - Responder

    Angola uma provincia do Ultramar… chinês! Ahahahah!

  22. Luciana Freitas 11 Novembro, 2018 em 18:33 - Responder

    Surpreendente o seu post. Jamais imaginei que haveria em Luanda um lugar como esse, tão chinês. Amei saber que no seu nome está o símbolo para "paz". Que lindo!

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