Ainda que o epíteto de ilha verde assente como uma luva a São Miguel, a verdade é que o azul do mar nunca está longe. Praias, escarpas e miradouros sucedem-se, para nos lavarem a alma com sal

Sabem aquelas paisagens pintadas a aguarelas, tão delicadas que só podem ser fruto da imaginação do pintor, ou pelo menos de alguma efabulação da realidade? Pois as paisagens micaelenses são mais bonitas, mais intensas, mais emocionantes do que qualquer tela pode expressar.

No post anterior revisitámos alguns dos pontos mais emblemáticos da ilha, mormente as lagoas que jazem em crateras de vulcões mais ou menos adormecidos (aqui). Hoje partimos à descoberta dos lugares onde o Atlântico é soberano, começando pelo extremo ocidental da ilha, numa paisagem lunar onde águas vulcânicas aquecem o mar: a Ponta da Ferraria.

As duas nascentes termais ficam mesmo no mar, onde se chega através de uma escada cravada na rocha negra, o que permite tomar banho a uma temperatura entre os 18º C e os 28º C. Sabendo que os mares dos Açores são habitualmente gelados, esta singular talassoterapia atlântica é, no mínimo, curiosa.

Delas se diz serem milagrosas e terem propriedades de rejuvenescimento, mas a ciência afirma apenas que estas águas salgadas termais, com um teor de enxofre muito elevado, são ideais para tratar problemas de reumatismo e nevrites. E já não é pouco.

#Dica: O ideal é chegar de manhã cedo, antes da maré começar a subir (acaba por diluir o efeito da água quente).

 

A recém-recuperada estância de Ferraria oferece tratamentos termais com as mesmas águas

 

A baía dos Mosteiros, uma pequena localidade baptizada em honra dos seus quatro ilhéus, é igualmente popular graças às suas piscinas naturais (ainda que sem águas termais). Continuamos neste o passeio marítimo rumo à costa norte, parando na Ponta da Bretanha e, alguns quilómetros depois, na singular Tromba do Elefante.

A segunda maior cidade de São Miguel, a Ribeira Grande, fica deste lado da ilha. Para além do centro histórico, com os seus belos solares e a imperdível loja de licores A Mulher do Capote, a cidade conta com uma praia famosa pelas suas ondas – a praia de Santa Bárbara, que já trouxe o World Surf League à ilha.

Não muito longe fazemos uma pausa para admirar a vista no miradouro de Santa Iria, onde as escarpas sobre o mar contrastam com as verdejantes plantações de chá. Diz-se que nestas encostas se travou a Batalha da Ladeira da Velha, em Agosto de 1831, entre as tropas de D. Pedro IV e de D. Miguel, que terá sido determinante na guerra entre liberais e miguelistas.

#Dica: Na pequena localidade de Mosteiros, existe uma empresa que faz passeios de barco ao pôr-do-sol. Garanto que este é o lugar certo para nos deslumbrarmos com um pôr-do-sol magnífico.

 

A cabeça de elefante pode ser vista desde o miradouro das Pedras Negras

 

Mas o melhor deste roteiro ainda está para chegar no extremo oriental da ilha, onde visitamos o acidentado concelho de Nordeste, terra do pequeno e tímido priolo (apenas 30 gramas), a segunda espécie de ave mais rara da Europa. Quem quiser fazer um trilho em busca desta avezinha que apenas existe em São Miguel, deve contactar o Centro de Interpretação Ambiental do Priolo.

O isolamento do Nordeste – conhecido como a décima ilha dos Açores, pela distância e escassez de vias de comunicação – faz dele um lugar muito mais tranquilo, há menos turistas a disputar os trilhos pedestres e os seus miradouros floridos, entre os quais se destacam a Ponta da Madrugada e a Ponta do Sossego. O nome diz tudo, não acham?

Um dos lugares mais bonitos da região é o Parque Natural da Ribeira dos Caldeirões, enfeitado com moinhos e embalado pela canção das águas, que se exibem em extravagantes cascatas. Temos que agradecer à equipa Azores Greenmark por nos ter guiado pelo belo Nordeste.

Dica:  A Azores Greenmark nasceu com o objectivo de criar e manter os trilhos pedestres de São Miguel, alargando depois a sua actividade ao turismo. Distingue-se ainda pela sua preocupação ambiental, tentando que a pegada ecológica da sua actividade seja nula. Para além de ser a equipa ideal para quem quer fazer um trilho a pé, a empresa oferece outras experiências interessantes, como conhecer um produtor de leite e até ordenhar vacas!!

 

 

Depois de um almoço na pequena vila de Povoação, onde os primeiros habitantes da ilha se fixaram e construíram a primeira igreja (conhecida como a Matriz Velha) seguimos para Vila Franca do Campo para provar as suas famosas queijadas e admirar o Ilhéu da Vila, a partir da singela Ermida de Nossa Senhora da Paz.

A cerca de 1 Km da costa, o ilhéu resulta de uma erupção submarina que originou uma cratera quase circular, com cerca de 150 metros de diâmetro, acessível de barco entre Junho e Setembro.

#Dica: sendo uma reserva natural, as visitas diárias ao ilhéu são limitadas a 400 pessoas, pelo que convém reservar o passeio com antecedência.

 

Ilhéu de Vila Franca do Campo, visto desde a Ermida de Nossa Senhora da Paz (imagem acima desta)

 

Não podia terminar este post sem uma experiência em pleno mar, já que os Açores são um dos maiores santuários de baleias do mundo. Entre espécies residentes e migratórias, comuns ou raras, avistam-se mais de 20 tipos diferentes de cetáceos nas suas águas, da baleia azul (mais habitual na primavera) ao cachalote.

Há vários passeios com saída de Ponta Delgada, nas Portas do Mar, entre os quais o da empresa Picos de Aventura, que nos recebeu a bordo. Para além da observação de cetáceos, a empresa organiza várias actividades de turismo na natureza, de bird watching a mergulho, de escalada a BTT, para mencionar apenas algumas.

Gabardine de pescador Discovery Channel vestida, colete salva-vidas em cima, saco de plástico na máquina fotográfica e arrancamos nesta aventura, na companhia de uma bióloga marinha que explica o comportamento destes mamíferos, em especial dos golfinhos que aparecem, mais de 90% das vezes, para cumprimentar os humanos.

Hoje não é excepção. Primeiro surgem os grampos, com cicatrizes brancas resultantes das suas lutas, e depois os pequenos e alegres golfinhos pintados (quanto mais velhos, mais pintas têm).

Se a sorte continuar a sorrir-nos, avistaremos ainda um cachalote, já que estamos na época de acasalamento, quando eles se aproximam mais da costa. Mas o que nos surge, ainda que ao longe, é uma baleia Bryde, raríssima nestas águas. Apesar da ajuda dos vigias ao longo da costa, não foi hoje que fotografámos o postal mais autêntico dos Açores: a célebre cauda fora do mar.

 

Após uma longa tradição de caça à baleia nos Açores (a última foi caçada em 1986), hoje só se perseguem baleias e golfinhos para fins turísticos e científicos.

 

Termas de Ferraria: aqui
Licores A Mulher do Capote: aqui
Centro de Interpretação Ambiental do Priolo: aqui
Barco ilhéu de Vila Franca: aqui | Partidas de hora a hora 10h00-18h00 | Bilhete ida e volta: 6€ (adulto), grátis (crianças até aos 10 anos)**
Picos de Aventura (Observação de cetáceos): aqui | Bilhete: 55€ (adulto), 27,50€ (crianças 6-11 anos)**

**Preços de 2018

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