Sabem aquela história da “pobreza franciscana”? Não se aplica a este templo católico, sobejamente conhecido pela nada humilde quantidade de ouro. Mas há muito mais para descobrir na Igreja Monumento S. Francisco de Assis

O principal templo gótico do Porto é conhecido pelo interior exuberante. A talha dourada – joanina rocaille, para quem gosta de saber todos os detalhes arquitectónicos – cobre por completo a estrutura, o altar, os pilares, incluindo uma das mais belas árvores de Jessé que restam no país e até o tecto. Há quem fale de 600 kg de ouro, mas a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco remete-se ao silêncio sobre o assunto.

Deslumbrado, o conde de Raczinsky, diplomata prussiano extremamente culto e famoso coleccionador, descreveu-a como a igreja de oiro, acrescentando que a riqueza e beleza da talha ultrapassava tudo quanto vira em Portugal e no mundo.

O nascimento desta igreja-museu não foi fácil. Os franciscanos chegaram à cidade invicta no século XIII com autorização do Papa para construírem um convento. Mas o bispo de então não queria saber de nada disso. Excomungou quem ofereceu o terreno para a construção, mandou destruir o pouco que já estava feito e considerou os frades não só hereges como “gente prejudicial ao mundo”… Feitiozinho!

Veio o arcebispo de Braga mediar as partes e as obras lá recomeçaram. Mas a tragédia não ficou por aqui. Um incêndio durante o Cerco do Porto reduziu a cinzas a casa dos franciscanos e, extintas as ordens religiosas, a rainha D. Maria II ofereceu as ruínas do convento aos comerciantes (recordem a visita ao Palácio da Bolsa aqui). Restou a igreja.

 

© Venerável Ordem Terceira de São Francisco. É proibido fotografar o interior da Igreja.

 

Pensam que a novela acabou? Com a fuga dos frades, sabem o que aconteceu à igreja? Foi abandonada, depois serviu de armazém da alfândega e esteve quase para ser demolida. Sim, sim. Um projecto para alargar as ruas até ao rio pretendia destruir o templo onde repousam as grandes figuras do Porto renascentista. Mas os franciscanos pediram a intervenção da rainha e felizmente não aconteceu.

Mais tarde, a igreja acabou classificada como monumento nacional, depois foi integrada na área Património da Humanidade e hoje é um dos monumentos do Porto mais visitados… por estrangeiros.

 

Descida às catacumbas

Antigamente toda a gente queria ser enterrada no interior das igrejas. Quando o espaço ali acabava, usava-se o pátio de acesso. Claro que o altar principal ou as capelas com relíquias de santos eram apenas para os mais ricos, os únicos que tinham direito a lajes gravadas. Ainda dizem que depois de mortos somos todos iguais…

Os cemitérios públicos apareceram no século XIX em Portugal, mas o povo não achou piada à ideia de ser sepultado em terreno não sagrado, o que motivou mesmo uma revolta popular seguida de uns meses de guerra civil: a revolução da Maria da Fonte, iniciada no Minho.

As ordens religiosas do Porto também não gostaram dessa modernice e recusaram-se a fechar os seus cemitérios até que a cólera e o cerco à cidade as obrigou a isso. Por volta de 1855, a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco comprou terreno no recém-criado cemitério municipal (Agramonte) e criou uma espécie de cemitério privado no recinto, contornando assim a lei.

Mas nas entranhas da Igreja de S. Francisco ainda vislumbramos esse tempo em que o solo religioso era usado como morada eterna. As paredes estão forradas com gavetões onde os caixões eram arrumados de lado. São todos iguais, com um número, nome do falecido e data gravados.

No chão, grandes rectângulos de madeira gasta baloiçam sob os nossos pés, ressoando a vazio. Por baixo estão enterrados os frades da confraria, anónimos, com um único número a servir de identificação. Numa das últimas criptas, uma velha grade coberta de vidro permite ver pilhas de ossos, partidos e amontoados. Com um pouco de paciência, distinguem-se ali vários crânios de irmãos que aguardam o Juízo Final sob o tecto protector da sua igreja.

Ao contrário do que aconteceu no Algarve, quando visitámos uma capela decorada com ossos (recordem a creepy chapel aqui), a morte já mexe com o pequeno explorador. Pelo que abreviámos a visita.

Os meus caros leitores já visitaram as catacumbas de alguma igreja? Como foi a experiência?

 

 

Igreja-museu de S. Francisco site | Horário: Nov. a Fev. 09h às 17h30,  Março a Outubro 09h às 19h, Julho, Agosto e Setembro 09h às 20h  | Bilhete: 4€ (adulto), 25% de desconto para portadores do Porto Card e estudantes (Janeiro de 2018). Dá acesso à Igreja, museu e catacumbas

 

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