O tempo parece ter congelado na primeira das quatro cidades imperiais. Chegamos a Fez, o centro cultural e espiritual de Marrocos

Final da tarde. Na tranquilidade do riad, espera-nos tâmaras e leite de cabra aromatizado com flor de laranjeira. O gesto de boas-vindas revela muito sobre este lugar milenar que se junta a Marraquexe, Rabat e Meknes no conjunto de cidades imperiais. Alguns costumes mantêm-se como no século oitavo, quando Fez foi fundada.

O passado faz parte desta cidade magrebina, que o abraça, preservando tradições bem antigas. Por isso, uma visita a Fez é uma experiência cultural única.

Os minaretes que irrompem o horizonte, o chamamento para a oração que ecoa nos altifalantes, os talismãs que nos protegem do mundo invisível dos djinns, as mulheres berberes de rosto tatuado. Tudo isto empresta uma aura misteriosa a Fez, que nunca chega a desvendar-se por completo.

O dia seguinte começa na Borj Sud, a torre sul que permite uma visão panorâmica sobre Fez. A luz da manhã empresta uma falsa quietude à cidade. Lá em baixo, Fez borbulha de actividade. Em breve mergulhamos no caos da medina que a Unesco classificou como património mundial da Humanidade (1981).

A principal entrada para a cidade muralhada faz-se atravessando os arcos do majestoso Bab Boujloud (portão azul). Mas Abdelkader Malal, o nosso guia sexagenário, conduz-nos por uma porta alternativa. Começa verdadeiramente a nossa odisseia pela alma de Marrocos.

 

Medina de Fez

Um labirinto medieval

Um mundo novo abre-se perante os nossos olhos, quando adentramos em Fez el-Bali, a labiríntica medina com mais de 9000 ruas. Somos assaltados por cheiros, sons, cores e movimentos, numa sobrecarga sensorial que nos deixa inicialmente atordoados.

Vemos lindos sapatos em pele e, ao lado, a cabeça de um camelo pendurada. Mulheres que cozinham warka e gatos que se empanturram com restos. Janelas lindamente trabalhadas e estacas de madeira que evitam que edifícios antiquíssimos caiam sobre as cabeças de quem passa.

Dizer que é uma das maiores zonas urbanas do mundo sem carros, é um tanto eufemístico. Porque burros, carroças e motorizadas atravessam as ruelas com autoridade.

– Balak, balak! – o grito de aviso só nos apanha desprevenidos uma vez. Depressa aprendemos que nos devemos refugiar na parede mais próxima.

A desorganização é aparente. A cidade antiga foi feita em anéis concêntricos que conduzem ao coração da medina, onde se reúnem os lugares sagrados. Ali fica uma das maiores mesquitas de África, que os estrangeiros podem apenas vislumbrar, e a Universidade Al Quaraouiyine (ou Al-Karaouine) que consta no Guiness como a instituição de ensino mais velha do mundo.

Consta-se que as bibliotecas desta universidade (criada por uma mulher!!) possuem documentos valiosos e, em breve, serão abertas ao público. Argumento suficiente para eu voltar a Fez…

 

Mulher cozinha warka

Mulher marroquina prepara warka

A linda arquitectura árabe

Chegados ao coração da medina, encontramos a madraça al-Attarine, criada no século XIV pelo sultão Abu Said. Esta escola islâmica testemunha o talento artesanal marroquino. Projectada como um anexo à mesquita e à universidade, a madraça é qualquer coisa de assombroso. Especialmente o pátio, onde detalhes de madeira e gesso esculpidos brincam com os mosaicos num caleidoscópio de padrões.

Esta exuberância contrasta com a austeridade do local de oração e também com os aposentos dos alunos, nos andares superiores. Subindo até lá, vislumbramos os telhados verdes da universidade e uma perspectiva diferente dos souks.

Outro ponto essencial para os apreciadores de arquitectura será o Palácio Real. Ainda que o complexo, onde se inclui palácio e jardins, seja fechado ao público, dizem que a fachada merece a viagem. Infelizmente, não tivemos tempo para ir espreitar a monumental porta de bronze, a partir da Praça Alaouites.

 

Madraça al-Attarine em Fez

O ritmo dos artesãos

Grande parte do charme da velha cidade reside nos artesãos que preservam tradições ancestrais, transformando a medina num museu vivo. Tecelões numa antiga caravanserai mostraram-nos como fazem tapetes e lenços de lã ou seda vegetal, a partir da fibra dos cactos.

Os tintureiros trabalham em fogueiras improvisadas. Os latoeiros alegram a Praça Seffarine, numa cacofonia ritmada quase musical. E depois chegamos à zona dos curtumes.

As tanneries de Fez são talvez as mais famosas de Marrocos. Para lá chegar, basta seguir o nariz, dizem. Tenho sérias dúvidas sobre tal método, mesmo em dias quentes, tendo em conta o meu fraco sentido de orientação… com ou sem olfacto.

Subimos a um dos muitos terraços com vista para as tanneries com um raminho de hortelã, providencialmente oferecido para mascarar o odor. Visitar os curtumes de Chaouwara ou Chouara é uma experiência marcante. O trabalho ali é árduo e integralmente artesanal. Os trabalhadores passam muitas horas dentro dos tanques com compostos químicos, para amaciar as peles e depois as tingirem.

As peles – de cabra, de vaca, de camelo – ficam depois a secar, antes de se transformarem em muito do artesanato que se vende nos souks e nas lojas com terraços, como a que entramos.

 

Curtumes Chouara

Um pouco mais de Fez 

Ainda que a medina seja uma experiência memorável e a principal atracção de Fez, a cidade não se esgota dentro das muralhas. Gostaria de ter explorado ainda o Fez Mellah, o bairro judeu, com a sua sinagoga e cemitério, com os seus edifícios de grandes janelas/varandas abertas para a rua. Esta arquitectura contrasta com a marroquina, de janelas discretas e pátios interiores, que favorecem a privacidade.

Um pouco mais afastado, no topo de uma colina a norte, encontram-se vários túmulos merínidas, a dinastia berbere que dominou grande parte do Magrebe entre os séculos XIII e XV. Há várias estórias sobre estes túmulos, ou o que resta deles. No entanto, parece que o melhor é mesmo a vista.

Outro lugar que gostaria de ter visitado (tínhamos o tempo contado) é o Fondouk el-Nejjarine, uma caravanserai do século XVIII transformada em museu. O edifício ao estilo andaluz fica perto do souk dos  carpinteiros e homenageia as artes decorativas em madeira.

 

ruelas da medina de Fez

Dicas úteis

  • O ideal é visitar Fez na Primavera e Outono. O Verão é bastante quente e, para além disso, as cidades mais turísticas podem estar apinhadas de turistas (Marrocos fica muito próximo da Europa,  daí ser procurado também como estância balnear). No Inverno, pode estar bem frio. Estive lá no início de Abril e usei um casaco quente.
  • Os turistas podem ser assediados por falsos guias turísticos em Fez, como noutras cidades marroquinas. Se quiser um guia, opte por um credenciado.
  • Fez é uma cidade tradicional, pelo que as mulheres deverão ter algum bom senso na forma de se vestirem, sobretudo se viajam sem guia.

 

Como chegar

  • De avião: o aeroporto Fes Saiss recebe voos internacionais de vários pontos da Europa, incluindo a TAP, a Ryanair e a Air Maroc. O aeroporto fica a cerca de 15 km do centro, pelo que deve apanhar um táxi ou optar pelo transfer do hotel até ao centro da cidade. Existe também uma linha de autocarros, sobre a qual não sei dar mais informações. Se alguém já usou, pode relatar a sua experiência nos comentários abaixo, para benefício de outros viajantes.
  • De comboio ou autocarro: quem vem de outras cidades marroquinas, pode chegar a Fez de comboio (por exemplo, desde Marrakesh, Chefchaouen ou Casablanca). Consulte horários e preços no site da ONCF. A alternativa será o autocarro, com as empresas CTM ou Supratours.

 

La Maison Bleue em Fez

Onde ficar

Esqueça os hotéis ao estilo ocidental. Escolha um riad tipicamente marroquino, a palavra remete para o jardim interior tão característico na arquitectura andaluz-árabe.

Nós ficámos hospedados na La Maison Bleue Batha (foto acima), um encantador riad do século XIX transformado em hotel. Localizado a dois passos da medina, o riad possui uma decoração muito autêntica e cheia de lindos detalhes.

Infelizmente as temperaturas de Abril não permitiram usufruir da piscina central, apesar de render lindas fotos. A Maison Bleue oferece também aulas de culinária marroquina e pequenos-almoços abundantes e deliciosos, que incluem café expresso (descobrimos que têm uma máquina Nespresso).

Outra opção poderá ser o Palais Faraj, com preços que não são para todas as carteiras. Nós jantámos lá e constatámos a excelência do serviço. Também possui um bar com uma bela vista.

 

Vista do terraço do café Clock

Vista do terraço do Café Clock

 

Comer em Fez

As experiências gastronómicas na cidade imperial de Fez devem incluir comida das ruas da medina. Gastando pouco é possível provar kebabs, pão a sair do forno, milho assado, espeto de carne defumada em fogo de carvão, sandes gigantes, peixe frito e delicados doces marroquinos

No Café Clock, perto da madraça Bou Inania, pode provar o famoso hambúrguer de carne de camelo (95 DH), acompanhado de salada e batatas fritas. O trendy café – que já foi visitado por membros da realeza britânica e possui filiais noutras cidades marroquinas – estende-se por três andares. Nós sentámo-nos no terraço, aproveitando o crepúsculo com um chá de menta (10 DH).

Também tivemos uma experiência gastronómica feliz no Riad Fès. Depois de uma substancial sopa Harira, comi um Hout Mkhadar, peixe com legumes gratinados e especiarias, e rematei com uma tarte de laranja ma-ra-vi-lho-sa. O menu Délice inclui entrada, prato e sobremesa por 420 DH.

 

Nota: Esta viagem foi realizada a convite do Turismo de Marrocos. Porém, as opiniões expressas no post são independentes e resultantes da minha visão pessoal