O arquipélago de Cabo Verde é fascinante. Venha conhecer um pouco da terra da sodade, da cachupa e da morabeza, e perceba porque me apaixonei por esta terra de gente simples e sorriso pronto

Em Cabo Verde, esse pequeno país perdido no meio do Oceano Atlântico com mais habitantes no estrangeiro do que no seu território, o sol brilha todos os dias. Mas a chuva é celebrada com alegria.

Nas suas 10 ilhas vulcânicas, ao largo da África Ocidental, há música em cada esquina e um sorriso em cada rosto. O princípio orientador do povo cabo-verdiano é a Morabeza: espírito aberto, ilhéu, acolhedor e descontraído. E isso sente-se no ar. Um processo de independência pacífico ajuda, talvez, a explicar o acolhimento que os portugueses sentem em Cabo Verde: é como se fôssemos alguém da família que há muito não os visita. Nunca senti o mesmo em Angola.

Com uma área oceânica duzentas vezes superior à sua área terrestre, Cabo Verde é sustentado pelo Atlântico, graças à riqueza subaquática com altos níveis de endemismo. É que o arquipélago é cercado por vulcões subaquáticos, também conhecidos como montes submarinos, que desviam as correntes oceânicas e criam pontos quentes que atraem a vida marinha, de corais e esponjas a baleias, tubarões e atuns.

Apesar da proximidade, linguística e geográfica, com Portugal, este ainda é um destino insular pouco concorrido. O turismo concentra-se bastante no Sal, apesar da aridez da paisagem, que levou o guia da Lonely Planet a sugerir deixar esta ilha de fora numa viagem a Cabo Verde.

Eu só estive no arquipélago uma vez, há uma eternidade, precisamente nessa ilha mais turística. Tal como as restantes do arquipélago, o Sal encerra riquezas belíssimas e muitas delas em nada se relacionam com a paisagem. Há vários motivos para revisitar Cabo Verde. Eis os meus.

 

artesanato da ilha do Sal

As pessoas

As pessoas, as pessoas fazem os destinos: e os cabo-verdianos são inesquecíveis. Por causa da morabeza, da sua predisposição para apreciarem os pequenos prazeres da vida. E porque Deus parece ter misturado umas notas musicais no seu sangue. Este é um povo extremamente musical, caloroso, que nos recebe como velhos amigos.

A minha estadia em Cabo Verde prolongou-se uns dias para além do previsto, por causa de uma situação de over booking da companhia aérea. Quando recebi a notícia, lembro-me de uma das animadoras do hotel, que tinha “adoptado” as meninas do grupo, a ponto de lhes fazer trancinhas, me abraçar porque íamos passar mais uns dias juntas.

Esta simplicidade sem artifícios é desarmante. Não quero com isto dizer que não haja gente mal-intencionada por lá. Mas acredito que a maioria dos cabo-verdianos é muito genuína.

 

A morabeza dos cabo-verdianos

A música de Cabo Verde

Já vos falei da música, não já? Pois, a música está por todo lado em Cabo Verde. A riqueza musical do país é celebrada em cada casa, onde se ouve pouca música estrangeira. Se puderem, leiam este post ao som de Cesária Évora ou Teófilo Chantre, para entrarem no espírito.

A música de Cabo Verde não se esgota nas mornas elevadas à categoria de Património Imaterial da UNESCO. Ao longo da história, o país criou música tradicional de uma vitalidade surpreendente, misturando elementos de várias latitudes, para criar uma identidade única.

Há o batuko e mazurca, as plangentes e doridas Toadas de Aboio (ilhas de Santo Antão e Brava), o funaná e as coladeras, as Cantigas de Monda (S. Nicolau, Santo Antão, S. Tiago e Fogo), as Divinas da ilha de S. Nicolau, cantadas a três vozes num latim arcaico com deturpações deliciosas, ou a Tabanca da ilha de S. Tiago.

Um dos prazeres de visitar Cabo Verde é apreciar a música cabo-verdiana nos bares e nas ruas, onde, em menos de nada, todos, conhecidos e desconhecidos, estão a dançar.

 

originalidade dos cabo-verdianos

Comida cabo-verdiana

A gastronomia de Cabo Verde mistura ingredientes africanos, portugueses e não só. Dada a sua área marítima, é óbvio que a pesca é importante para a cultura e a economia do país. Vale a pena esperar pelos pescadores no cais, ver os atuns, pescados à linha a pouca distância da costa, serem descarregados logo pela manhã. E fazer justiça ao peixe, polvo e frutos do mar, nos muitos bares e restaurantes do arquipélago.

Por exemplo, é comum servirem porções de moreia panada nos bares. Para beber, há cerveja portuguesa ou local (a mais conhecida é a Strela), o forte grogue, um destilado feito com cana-de-açúcar, ou ponche (com grogue e fruta, servido bem gelado) que se diz “pontchi” no delicioso crioulo.

Entre os pratos mais tradicionais está a cachupa, que tem uma versão mais frugal (consumida ao pequeno-almoço com ovo estrelado) e outra mais rica, com carne ou peixe. Qualquer das versões alimenta um cavalo. Para além da cacupa, há o Xérem, à base de sêmola de milho, a Djagacida, típica da ilha do Fogo, o cuscuz ou o caldo de peixe.

Para sobremesa, prove o pudim de queijo, os bolinhos de mandioca, o doce de calabaceira, o fongo (típico de S. Nicolau, leva bananas e farinha de milho) ou as cocadas.

 

a comida é uma das razões para voltar a Cabo Verde

A cachupa rica leva feijão, milho, carnes, linguiça e legumes.

 

As praias

A Ilha do Sal é muito procurada por causa das praias, do mergulho e de outros desportos aquáticos. O lado sul da ilha tem praias com mar mais calmo – Santa Maria (eleita uma das 7 Maravilhas de Cabo Verde) e Ponta Preta -, areia branca e águas azul-esverdeadas.

Do lado oriental, ficam as praias com mais vento e ondas, ideais para o kitesurf ou windsurf. Uma delas é mesmo chamada Kite Beach. Aliás, o campeão mundial de kitesurf mora na ilha e dá aulas por lá… Perto das salinas que deram o nome à ilha há uma praia onde é possível ver tubarões gato e mergulhar junto deles.

Outras ilhas famosas pelas suas lindas praias são a Boavista (praia de Chaves, a semi-deserta praia de Santa Mónica e a praia de Atalanta) e Santiago, a ilha mais populosa, onde fica a capital do país (cidade da Praia) e a antiga colónia penal do Tarrafal.

 

praias de Cabo Verde

 

A diversidade de paisagens

Composto por 10 ilhas, nove delas habitadas, Cabo Verde fica próximo da “cabeça da África”, pelo que recebe influência dos ventos desérticos. Por outro lado, o mar nunca está muito longe, o que pressupõe lindas paisagens costeiras.

O arquipélago possui paisagens bem contrastantes. Na ilha do Sal, para além dos extensos areais dourados, há as salinas – como a histórica Pedra de Lume – com piscinas ultra-salgadas (o Mar Morto de Cabo Verde) e também a Buracona que, como o nome indica, é um buraco no meio das rochas. A certas horas, a água assume uma cor indescritível, por acção dos raios solares.

Outras ilhas oferecem espectáculos diversos. Em S. Vicente, a Baía das Gatas destaca-se pelas sucessivas mesetas de lava arrefecida que se estendem até à praia, na costa oriental da ilha. Ali pode apreciar um inesquecível pôr-do-sol a partir do Monte Cara, eternizado por uma das maiores vozes das ilhas: Cesária Évora.

Na Boavista encontramos o deserto de Viana, formado por areias transportadas do Saara, onde sobressai um pequeno oásis de coqueiros. Vale a pena incluir na lista want-to-visit o Parque Natural do Monte Gordo (ilha de São Nicolau), com 32 espécies de plantas endémicas, das quais 26 em perigo de extinção. E o Vulcão do Fogo (2.829 metros) que, em dias de céu limpo, pode ser visto desde as ilhas de Santiago e Brava. Por causa do seu imponente vulcão, a ilha do Fogo é a mais fértil do país.

 

salinas

As salinas Pedro de Lume (ilha do Sal) são Património Cultural Nacional.

flores

 

Este post faz parte do projecto colectivo 8on8, que une lindas viajantes em volta de um tema comum, no dia 8 de cada mês. Espreitem os restantes textos sob o tema “Gostaria de visitar novamente”, inspirem-se e partilhem:

Let’s Fly Away Jardins de Monet em Giverny: inesquecível bate-volta de Paris  – Travel Tips Brasil Serra da Estrela Portugal – uma visita imperdível – Espiando pelo Mundo Cosimo de Medici por Luiz Felipe D´Avila – Chicas Lokas na Estrada 8 lugares gratuitos para visitar de novo no Rio de Janeiro – Viajante Econômica Hamburgo: uma cidade alemã para voltar sempre

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