Bandarra em Trancoso

Um humilde sapateiro deu para versejar umas esquisitices e quase virou torresmo, nas fogueiras da Inquisição. Vamos a Trancoso, terra do Bandarra e das sardinhas doces?

O termómetro marca alguns, ainda que escassos, graus positivos. O frio ainda não chegou a Trancoso, essa cidade que integra a rota das aldeias históricas beirãs, mas que o Inverno rigoroso exclui da lista dos turistas. Há outras aldeias da rede perto, nomeadamente Marialva e Almeida.

Aproveitemos pois para deambular antes que as temperaturas negativas me obriguem a mais uma época da hibernação. Estamos na terra natal de Gonçalo Anes, mais conhecido como o Bandarra, fabricante de sapatos e profeta, que influenciou ilustres pensadores como o Padre António Vieira ou Fernando Pessoa.

Pessoa chegou mesmo a afirmar certa vez que “o verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso”. Blasfémia, gritarão alguns. Miro a estátua desse visionário, em frente à Câmara Municipal de Trancoso, e nada encontro de extraordinário na personagem.

A verdade é que o consideram um “Nostradamus português” e, pormenor interessante, os dois adivinhos foram praticamente contemporâneos. Como é que um “bate-solas” conquistou tão desmesurada reputação?

Dele dizem ter nascido rico e desbaratado fortuna – bandarra pode significar vadio, para além de profeta/adivinho -, o que terá motivado a escolha de uma profissão. Mas entre couro e martelos, o beirão achou tempo para compor umas Trovas, sibilinas, sobre a vinda do “Encoberto” e o futuro de Portugal.

Para os cristãos novos parecia que se anunciava, a toque de trombetas, a vinda do Messias e o fim da perseguição que sofriam na Península Ibérica. Já a Inquisição não achou tanta graça àqueles versos, com cheiro a manifesto revolucionário, e tratou de o julgar, depois da prisão e tortura da praxe.

Em vós que haveis de ser quinto
Depois de morto o segundo,
Minhas Profecias fundo
C´o estas letras que aqui pinto.

(…)
faço trovas muito inteiras,
Versos muito bem medidos,
Que hão-de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras

(…)
Ergue-se a Águia Imperial
Com os seus filhos ao rabo,
E com as unhas no cabo
Faz o ninho em Portugal.

Por muito menos se condenou gente à purificadora fogueira. Mas Bandarra, não se sabe como nem porquê, escapou com uma simples penitência num auto-de-fé (realizado em Lisboa) e a promessa de não voltar a meter-se em questões teológicas.

Muitos anos depois da sua morte, os seus sonhos proféticos transformaram-se em ferramentas políticas em tempo de crise. Porque vaticinavam o regresso de D. Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer Quibir. Porque profetizavam a restauração da independência face ao domínio filipino ou porque elevavam a moral de um país invadido pelas tropas napoleónicas.

Apesar de constar do catálogo de livros proibidos pela Santa Sé, as edições multiplicaram-se. O inquisidor deve ter dado voltas no túmulo por causa da sua benevolente condenação!

sadrinhas doces de Trancoso

Para além deste notável, ainda que controverso, filho de Trancoso, a riqueza da cidade reside na sua cinta de muralhas bem preservada, no Castelo e na Judiaria, no parque da cidade com árvores centenárias (muito mais apetecíveis no Verão, estou certa) e nas suas sardinhas doces.

Estas sardinhas comem-se por aqui desde o século XVII, graças a um antigo Convento da Ordem de Santa Clara. Sem escamas ou espinhas, corpo de massa tenra, recheio de ovos e amêndoa e cobertura de chocolate, marcham que é um regalo. Abençoada freira!

Ao pé das Portas do Sol, há uma casa afamada que vende sardinhas doces já industrializadas. Mas ainda por lá se encontram as artesanais, por exemplo na loja de sabores O Magriço, na Rua dos Cavaleiros. Vai uma sardinha?

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19 Comentários

  1. Joana

    A minha avó era muito dada a essas coisas. Acho que lá por casa ainda existe um livro ou sobre ou desse senhor. Nunca despendi tempo a averiguar.

    Beijocas

  2. Dulce Morais

    Ruthia,
    Tive a ocasião de provar as ditas sardinhas doces há pouco tempo e, só por elas, a viagem vale a pena! 🙂

    Fizeste-me descobrir mais um pedaço da nossa história e esse Bandarra é uma personagem que merece ser conhecida!

    Obrigada por mais uma viagem 🙂

    Beijinhos!

  3. Beatriz Bragança

    Querida Ruthia
    Que bom que é ler a nossa História contada por si! E saber de doces conventuais nossos apreciados por si e pelos seus. As profecias do Bandarra,referidas por si! Que maravilha! Obrigada por levar Portugal a todo um Mundo.
    Beijinhos
    Beatriz
    VIDA E PENSAMENTOS
    http://pegadasdeanjo.blogspot.com

  4. Adriana

    como sempre, querida amiga, um banho de história e cultura.. novamente, obrigada… o sistema de assinaturas que coloquei no tititi é para substituir o feedbuner – que é o que tu usa – se puderes aplicá-lo, assino também… pois não tenho recebido tuas atualizações por e-mail!! bjs desejando ótimo final de semana
    tititi da dri

  5. ✿ chica

    Aprendo muito a cada passada por aqui! Contas, trazes ,mostras com grande propriedade, nos colocando a par dos temas! Lindo! beijos, adorei! chica

  6. Isa Lisboa

    Ruthia, tenho que confessar que não conheço o Bandarra, nem as sardinhas doces. Mas a julgar pelo que conheço de doçaria conventual, posso imaginar estas últimas!
    Obrigada por este passeio!
    Abraço

  7. Toninho

    Historias e curiosidades e vamos de carona na sua culta companhia.
    Li muito sobre As historias da Inquisição intolerância e poder no terror.
    Mas esta sardinha tinha que provar minha amiga.
    Bom sempre vir aqui nesta sala de aula.
    Um lindo fim de semana amiga.
    Carinhoso abraço de paz e luz.
    Bjo amiga.

  8. Stephanie

    Amiga, acredita que não consigo comer sardinha?! Hihihi, tem uma cara boa, mas não vai!!!

    Sim, pode participar do sorteio pois esse é internacional, vemmmmm 😀

    Beijinhos, Té

  9. Patricia Galis

    Como gosto de posts assim, tens razão como morreram pessoas na inquisição bastava saber um pouco.

  10. MARILENE

    É muito agradável ler suas postagens. Além de nos apresentar a lugares especiais, você nos traz, com riqueza na escrita, a história. Um passeio cultural nos proporciona. Bjs.

  11. Anónimo

    Olá, Ruthia!
    Muito bom!
    Adoro história e curiosidades e
    venho aprendendo muito com você.
    Seu blog sempre me proporciona passeios
    maravilhosos.
    beijos!

  12. RUDYNALVA

    Ruthia!
    Bom aprender um pouco mais sobre a cultura portuguesa.
    Como os tempos evoluíram… hoje falam muitas asneiras e ninguém vai para fogueira…
    Bom post, parabéns!

    Obrigada pela visita feita ao blog. Volte quando puder.
    Que seu final de semana seja esplendoroso!!
    cheirinhos
    Rudy
    Blog Alegria de Viver e Amar o que é Bom!
    " A alegria evita mil males e prolonga a vida.(William Shakespeare)"

  13. J Araújo

    Muito interessante a história. Gostei de saber. Obrigado!

  14. Sissym Mascarenhas

    Ruthia, gosto muito de ler historia. Sempre existem curiosidades.
    Não sabia que existe o Castelo de Trancoso, para mim, este nome, Trancoso, é de uma cidade ao sul da Bahia (conheço e é linda).
    As fotografias são lindas, ainda mais pois dá para perceber o zelo com o patrimonio e a limpeza.

    Beijos

  15. Anne Lieri

    Ruthia,simplesmente magnífica sua postagem! Informação,história cativantes e amei as imagens tb! bjs e boa semana,

  16. M.

    Ruthia, escreves sempre artigos magníficos!!!
    Casa do Gato Preto, isso é comigo? 😉
    Ai a sardinha doce… eu quero!!!
    Beijoca, boa semana!

    1. Ruthia

      Haha, o teu gato é preto, esqueci-me desse pormenor 🙂 A mim lembrou-me foi a Loja do Gato Preto, uma das poucas montras que me fazem parar.
      O trabalho terminado?
      Beijinho, boa semana

  17. Lúcia Bezerra de Paiva

    Sendo eu uma bezerra, descendendo de judeu português "fugido" para o Brasil , aqui cristão novo ficando, encantei-me com o personagem sapateiro e já me delicio com a sardinha doce. Texto fascinante, Ruthia. Obrigada….
    Beijos,
    da Lúcia

  18. AC

    Já por aí andei, e a marca dos judeus é incontornável. Não menos é a das sardinhas, uma autêntica delícia.

    Beijo 🙂

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Ruthia Portelinha

Viajante, chocólatra, leitora compulsiva, mãe. Está a aprender chinês porque sim.

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