Atualizado em 28 Novembro, 2022

A doçaria portuguesa é um mundo infinito de variedade e calorias. Porque esta vida são dois dias, desculpa-se um pecado da gula ocasional, pelo menos numa viagem em Portugal

A gastronomia portuguesa é conhecida a nível internacional – inspirou a tempura japonesa e as malassadas do Hawai, por exemplo, sem esquecer toda a influência na cozinha brasileira – e parte desta fama deve-se à maravilhosa doçaria. A lista dos doces portugueses, conventuais ou não, é imensa e abrange todas as regiões do país.

São iguarias com uma longa história, algumas tão tradicionais que só podem ser produzidas numa localidade específica, para preservar a receita original. É fascinante perceber como ingredientes básicos se transformam em doces maravilhosos e sofisticados. Se forem sweet tooth como aqui deste lado, vão querer provar todos.

Quando estou a planear uma visita a uma nova cidade ou região de Portugal, pesquiso sempre os pratos típicos, apesar de ser portuguesa e conhecer relativamente bem o meu país. Sabem? Fico invariavelmente surpreendida com a riqueza gastronómica que me espera e vou preparando o palato. Não dizem que a viagem começa quando sonhamos com ela?!

doces de Coimbra

O artigo de hoje promete deixá-lo de água na boca. Não se trata de uma lista dos melhores (como se fosse possível escolher apenas meia dúzia), mas um post sobre doces portugueses típicos de cada região, com alguns laivos do receituário e história.

No final do artigo vão perceber porque viajar em Portugal durante uma dieta não é grande ideia.  

Legenda da foto de entrada: pastéis de Belém, camafeus da ilha Terceira e encharcada alentejana (cima). Quilhõezinhos de S. Gonçalo (Amarante), bolinhol de Vizela e queijadas da Graciosa (baixo).

1. Doces tradicionais do Algarve

Com influências árabes e conventuais, a doçaria algarvia usa, com muita sabedoria, os produtos da região: figo, amêndoa, alfarroba e medronho. No concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal, os sete doces finalistas que representaram a região do Algarve foram o bolo de tacho (Monchique), o doce fino (Portimão), o Dom Rodrigo (Lagos), o folar de Olhão, o folhado de Loulé, o morgado (Portimão) e o queijinhos de figo (Portimão).

Confesso que não conheço todos, por outro lado, conheço outros muito bons que não estão naquela lista, como os Figos Cheios ou o Florado de Lagoa.

Dom Rodrigo doce do Algarve
A desembrulhar um Dom Rodrigo.

1.1 Dom Rodrigo (Lagos)

O Dom Rodrigo é um dos doces algarvios mais conhecidos, com origem no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Lagos. Criado para agradar ao governador e capitão do Algarve, D. Rodrigo de Menezes, como se percebe pelo nome, é feito com fios de ovos e ovos-moles e, opcionalmente, miolo de amêndoa ralada. No final, ainda se acrescenta calda de açúcar e polvilha-se com açúcar e canela. Excesso atrás de excesso!

Ao longo da história foi servido de três maneiras diferentes. A primeira era em forma de rebuçado, a segunda numa taça de porcelana, para ser comido à colher, e a terceira, mais atual, é embrulhado num vistoso papel de alumínio colorido.

1.2 Doce fino

O doce fino é também conhecido como doce de massapão pois é feito com partes iguais de amêndoa ralada e açúcar, a que se soma clara de ovo para ligar. Há quem o recheie com ovos moles, mas eu prefiro o simples. A massa é depois moldada, em forma de frutas e animais, e pintada com corantes alimentares.

Parecem pequenas miniaturas de brincar e até seria uma pena comer, não fossem tão deliciosos. É a doçaria fina do Algarve, também designada de “queijinhos”, “frutos do Algarve” ou “doces de amêndoa”. A origem da receita está associada à família proprietária da antiga pastelaria Almeida que, durante cerca de 90 anos, funcionou no centro de Portimão. A pastelaria fechou e hoje funciona ali a pastelaria Arade, cuja especialidade são os Dom Rodrigo.

1.3 Figos cheios (Olhão)

Os Figos cheios eram um docinho normal na merenda dos pescadores, quando estes iam para a faina, por ser uma boa fonte de energia. Preparados com camadas de figos espalmados, intercaladas com amêndoas peladas, açúcar, erva-doce, chocolate, canela e limão, são escuros e uma espécie de barrinha energética natural (quase diria saudável, por não ter conservantes, mas o açúcar estragaria a afirmação).

1.4 Morgadinhos (Portimão)

O morgado ou morgadinho teve origem em Portimão e Silves. Os ingredientes: açúcar, água, amêndoa pelada e moída, gemas de ovo. O recheio: chila e fios de ovos. No final, os bolinhos são cobertos com glacê. A versão grande costuma ser decorada com pétalas (morgado) e a versão individual com bolas prateadas (morgadinho).

Encontra versões maravilhosas dos morgadinhos na pastelaria Doce Fino, em Faro.

doces algarvios
O interior de um morgadinho.


2. Doces tradicionais do Alentejo

Na lista inicial de candidatos às 7 Maravilhas Doces de Portugal havia 84 doces de 21 concelhos do Alentejo, o que, por isso só, mostra a riqueza dulcíssima da região. E três iguarias alentejanas chegaram à fase de pré-finalistas, quando já só havia 28 doces em competição: a boleima de Portalegre (adoro), a filhós de Cabrela e o porquinho doce de Beja.

Digam o que disserem, a verdade universal e absoluta cá em casa é uma: a sericaia é o melhor doce alentejano de sempre. Já sei, vem aí uma avalanche de opiniões contrárias, mas gostos não se discutem.

2.1 Pão de rala (Estremoz, entre outras localidades)

O pão de rala também é um doce tradicional português originário de várias cidades do Alentejo, com destaque para Estremoz e Évora. Feito nos conventos, é um doce à base de gemas de ovos, açúcar, raspas de limão, amêndoas e gila (abóbora-chila).

No caso de Évora, diz-se que o jovem rei D. Sebastião visitou de surpresa as freiras xabreganas do Convento de Santa Helena do Calvário que, numa tarde quente de junho, lhe quiseram oferecer algo, mas só havia “pão ralo”; azeitonas e água. O monarca comeu e, como forma de agradecimento, atribuiu uma tença ao pobre convento. As freiras criaram então esta doce alegoria conhecida como pão de rala, em sua homenagem.

pão de rala é um doce tradicional alentejano
© Tele culinária. O pão de rala

2.2 Filhós de Cabrela (Montemor-o-Novo)

Quase perdido no esquecimento, foi há poucos anos que se recuperou  a receita ancestral deste doce típico do Carnaval, que tem como ingrediente base a farinha e os ovos e depois uns toques de aguardente branca, azeite, manteiga, laranjas e mel (ou açúcar).

Com o apoio da Junta de Freguesia local, não só se recuperou a receita, como se candidatou o doce às 7 Maravilhas Doces de Portugal, chegando a finalista. A receita é feita 95% manualmente, o que lhe dá um estaladiço eloquente e um sabor inconfundível.

2.3 Porquinho doce (Beja)

O porquinho doce é um doce típico do Natal, fabricado com massapão misturado com chocolate, para lhe dar a cor do porco alentejano e recheio em camadas de doce de ovos, doce de gila e fios de ovos. A receita remontará ao século XIX e ao Real Convento de Nossa Senhora da Conceição, e passou a ter esta apresentação em homenagem a um animal que é fundamental nas mesas alentejanas (aliás, o Natal é altura de matanças).

Pode aparecer também com a forma de uma porca a amamentar os leitõezinhos e decorado com bolotas feitas da mesma massa. Pode comprar este doce no centenário café Luiz da Rocha, em Beja.

porquinho doce de Beja
© 7 Maravilhas Doces de Portugal

2.4 Encharcada Alentejana

A história da encharcada envolve produtores de vinho e freiras. Diz-se que os primeiros clareavam o vinho usando clara de ovo, e as gemas (que não eram usadas) eram doadas às freiras, que os usavam de forma brilhante em diversos doces. Portanto, o seu ingrediente principal são os ovos, aos quais se acrescenta pão alentejano, moído e demolhado em leite, e amêndoa ralada. Esta mistura é depois cozida numa calda de açúcar até ficar uma papa.

Existem diversos tipos de encharcada, umas mais húmidas e moles, outras mais secas, que até podem ser cortadas em fatias. As mais famosas são as feitas à moda do convento de Santa Clara, em Évora, mas também encontra esta sobremesa em diversos restaurantes locais em Mourão, no mesmo distrito.

2.5 Sericaia

A sericaia é um doce tradicional alentejano, de origem conventual, mas, diz-se, com raízes indianas. Açúcar, canela, farinha, ovos, leite e limão são os ingredientes que, misturados do modo certo, resultam numa sobremesa húmida e bastante cremosa, com o toque especial do limão.

Cozida num prato de barro, tem uma textura que lembra um pudim, mas com um sabor bem diferente. A receita original terá sido aprimorada pelas freiras do convento de Elvas e de Vila Viçosa (onde lhe chamam sericá). Habitualmente, a sericaia é servida com a bela ameixa de Elvas, mas a última vez que comi este doce foi na simpática vila de Marvão, no Alto Alentejo.

sericaia alentejana
A versão tradicional da sericaia com ameixa (cima) e uma versão de castanha (em baixo)

2.6 Boleima de Portalegre

Portalegre é o reino da boleima, mas cada localidade do Alto Alentejo tem a sua receita. Em comum, o facto de ser uma das mais doces tradições alentejanas de Páscoa. Existem versões “ricas” e “pobres”, mas todas assumem uma forma quadrada ou retangular, a cor castanha, dourada, e a canela como toque final.

Reza a história que o bolo é uma variante do pão ázimo consumido pelos Judeus para recordarem a fuga de Israel.  O fermento não faz parte da receita, pois a fuga foi tão repentina que não houve tempo para levedar o pão. Ao contrário da grande maioria dos doces típicos portugueses, também não leva ovos, já que o objetivo inicial da receita era aproveitar as sobras de massa do pão, a que então se foram acrescentando ingredientes como açúcar, canela, maçã ou nozes.

2.7 Torta de Azeitão

Já no distrito de Setúbal, mas ainda do lado sul do rio Tejo, importa comentar sobre a torta de Azeitão (saibam, leitores brasileiros, que torta é o vosso rocambole), freguesia famosa pela produção de vinhos. Como muitos e bons doces portugueses típicos, o ovo também é a estrela dessa receita, dando-lhe a canela um toque especial.

As Tortas de Azeitão terão nascido em Fronteira (Alentejo) e a receita foi trazida por um familiar do dono da pastelaria O Cego, no início do século. Aí começou o seu fabrico, primeiro com uma torta grande, vendida em fatias, e depois sob a forma de bolo individual. Embora muita gente fabrique tortas, diz-se que nenhumas se igualam às famosas tortas do Cego (em Vila Nogueira de Azeitão), cuja família detém o segredo.

pastel de Belém é um clássico

3. Doces de Lisboa e região

3.1 Pastel de Belém

Os únicos Pastéis de Belém são feitos e vendidos no bairro homónimo, em Lisboa. No resto do país, podem ser parecidos, mas são meros pastéis de nata: há muitos e bons, mas os pastéis de Belém estão lá no Olimpo.  

O doce foi criado no século XIX, quando todos os conventos e mosteiros de Portugal foram encerrados, expulsando o clero e os trabalhadores. Para sobreviver, alguém do Mosteiro começou a vender ali perto uns doces, rapidamente designados por “Pastéis de Belém”.

A imponência do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém atraía os visitantes, que depressa se habituaram a saborear os deliciosos pastéis originários do Mosteiro. Desde 1837 que a Confeitaria de Belém fabrica esta maravilha quentinha e folhada, para polvilhar com canela (há quem acrescente açúcar em pó, sem necessidade nenhuma).

3.2 Queijadas (Sintra)

Há queijadas aos pontapés em Portugal, sendo talvez as mais tradicionais as da ilha da Madeira, de Évora e de Sintra. Confesso que não sou esquisita no quesito queijadas, gosto das de laranja, de requeijão, só de leite…

Sobre as queijadas de Sintra, imortalizadas por Eça de Queirós, pensa-se que estas pequenas tartes já eram produzidas durante a Idade Média, pois as excelentes pastagens da região permitiam o fabrico de queijo fresco e era comum o excesso de queijo ser usado para confecionar estes doces, que depois podiam servir aos camponeses como forma de pagamento.

Para além de queijo fresco, levam açúcar, ovos, farinha e um pouco de canela, sendo depois envolvidas numa massa crocante e estaladiça. A textura suave das queijadas é assegurada pelo cozimento em banho-maria (no forno, mas em água). Pode provar a queijada de Sintra na Fábrica das Verdadeiras Queijadas da Sapa ou, se for à Confeitaria Piriquita conhecer os famosos travesseiros, também a encontrará por ali.

Ega ia largar atarantadamente o embrulho, para apertar a mão que Maria Eduarda lhe estendia, corada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Sintra rolou, esmagando-se, sobre as flores do tapete

Os Maias, Eça de Queiroz
travesseiros são doces típicos de Sintra
© Piriquita – os famosos travesseiros de Sintra


3.3 Travesseiros de Sintra

Os famosos travesseiros de Sintra precisam entrar na sua lista must-eat. Ao contrário das queijadas, que têm séculos de história, os travesseiros são mais recentes, criados na Pastelaria Piriquita, por altura da II Guerra Mundial. Tudo começou com um antigo livro de receitas, descoberto por Constança Luísa, a filha dos fundadores. Entretanto, a receita deste doce mantém-se na família há cinco gerações e é um verdadeiro caso de sucesso.

Em formato de travesseiro, são bolos folhados recheados com creme de ovos, amêndoa e um ingrediente secreto. Recentemente, a Confeitaria começou a inovar com recheios alternativos como Nutella ou maçã (mas o original é o original).

Curiosidade: foi o rei D. Carlos I que alcunhou de Piriquita esta casa, referindo-se à baixa estatura da dona do estabelecimento, a D. Constância Gomes. Foi também este rei que encorajou o casal a confecionar as famosas Queijadas, que comia durante os seus verões em Sintra. 

4. Doces tradicionais do Centro de Portugal

4.1 Cornucópias (Alcobaça)

Embora seja incerta a sua origem, tudo indica que as cornucópias foram criadas no Mosteiro de Coz, fundado no século XII e dependente do Mosteiro de Alcobaça. A sua forma inspira-se na de um vaso com feitio de corno, que na Antiguidade simbolizava a fertilidade e a abundância.

As cornucópias de Alcobaça são recheadas de ovos-moles, confecionados com gemas e açúcar, quase os únicos ingredientes que entram no receituário da doçaria conventual portuguesa, depois da utilização das claras com objetivos mais prosaicos.

Pode provar esta iguaria na pastelaria Alcôa, com mais de 50 anos de tradição,  mesmo em frente ao Mosteiro de Alcobaça, Património da Humanidade da UNESCO e um dos exemplos mais notáveis da arquitetura de Cister na Europa. Para além da cornucópia, o torresmo do céu e as nozes caramelizadas também merecem uma oportunidade.

Cornucópias de Alcobaça

4.2 Ovos moles de Aveiro IGP

Os Ovos Moles são o símbolo turístico e gastronómico da região de Aveiro, distinguidos com a denominação de Indicação Geográfica Protegida (IGP) pela União Europeia. Isto é uma garantia máxima de qualidade, mantendo a receita original e o método de confeção tradicional, herdado de gerações passadas.

Nascidos no século XVI no Convento de Jesus de Aveiro, onde as freiras usavam as claras dos ovos em tarefas domésticas, como engomar a roupa, e as gemas na doçaria, como remédio e fortificante para os doentes das suas enfermarias. Açúcar proveniente da Madeira, gemas e água resultavam na massa de ovos que era colocada em hóstias. Isso mesmo: hóstias!

Fechado o templo, a receita perpetuou-se pela mão da empregada da última religiosa que ali habitou. Os ovos moles são servidos em hóstia (obreia), por influência conventual, em formas que remetem para a cidade de Aveiro e a sua tradição piscatória e proximidade com o mar — os peixes, os búzios ou as conchas. Mas também são apresentados dentro de pequenas barricas pintadas à mão.

Pode provar e comprar ovos moles na Pastelaria do Rossio, Oficina do Doce e outros locais, sabendo que não necessitam de conservação em frio, mas deverão ser mantidos em locais secos e frescos, longe da luz solar.

Os famosos ovos-moles

4.3 Pastéis de Santa Clara (Coimbra)

Delicados e finos, os Pastéis de Santa Clara são, talvez, o doce que mais se notabilizou do vasto receituário do real Mosteiro das Clarissas de Coimbra. Antes da extinção das ordens religiosas, estes afamados doces eram adquiridos na roda da portaria do convento, sobretudo no último dia das festas da padroeira da cidade. Mais tarde passaram a ser vendidos de porta em porta e em algumas confeitarias de Coimbra.

Semelhantes a um pastel de massa tenra na sua forma, no entanto, são cozidos no forno ao invés de fritos. O recheio possui doce de ovos e amêndoas, podendo assumir também a forma de estrelas ou corações. Os pastéis de Santa Clara são um dos muitos doces destacados no artigo Rota dos cafés e doces de Coimbra.

4.4 Pastéis de Tentúgal

A fina e a crocante massa do pastel de Tentúgal é quase indescritível: a massa é esticada pelas mãos mágicas das doceiras para que ela fique hiper fina (0,06 – 0,15 mm). O recheio de doce de ovos dá o boom nessa maravilha de Tentúgal, vila portuguesa que pertence ao concelho de Montemor-o-Velho, no distrito de Coimbra.

Outrora usados como remédio para a fraqueza (leia-se, anemia), a origem do doce remete para o Convento Nossa Senhora da Natividade, fundado no século XVI pela ordem carmelita. Hoje assume a Indicação Geográfica Protegida, só podendo ser produzido numa área delimitada.

Os pastéis de Tentúgal foram um dos candidatos finalistas às 7 Maravilhas da Gastronomia portuguesa e, porque é sempre melhor ir à fonte, o melhor é prová-los em Tentúgal, na Pastelaria Pousadinha, por exemplo. Não havendo oportunidade, também os encontra em algumas pastelarias de Coimbra.

pastéis de Tentúgal, distrito de Coimbra
Os estaladiços pastéis de Tentúgal.

4.5 Borrachões (Idanha-a-Nova)

Começam por chamar atenção pelo seu nome divertido e peculiar, que logo denuncia um dos ingredientes. Os borrachões são biscoitos de formato retangular, tradicionalmente associados à região de Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. São viciantes, é difícil comer apenas um, apesar de não serem leves.

A massa destes típicos bolos secos é embebida em álcool (vinho branco e aguardente), mas não embebedam ninguém. Típicos na época da Páscoa, substituem os ovos por azeite, vinho e aguardente, pois são fruto de uma terra pobre em recursos naturais, e, também por isso, feitos para durarem muito tempo. Mas não duram, posso garantir-vos. Aliás, desaparecem num instante.

Pode conhecer melhor a gastronomia desta região em Beira Baixa à mesa: a farta cozinha beirã.

4.6 Tigeladas (Proença-a-Nova)

“Ligeiramente escura por cima, cor de mel por dentro e um sabor que nos faz viajar às memórias de infância, lembrando o calor do forno a lenha ainda quente ou o cheiro da tigelada a cozer”, descreve o município de Proença-a-Nova, onde a tigelada é rainha.

Inicialmente confecionada apenas em dias de festa e casamentos, os ingredientes usados são simples: ovos, leite de cabra e mel. Muita gente produzia e tinha em casa estes produtos, pelo que variava apenas o segredo de cada doceira. Este doce português personifica assim os hábitos e as atividades locais, como a caprinocultura e a apicultura, sendo cozinhado numa panela de barro.

A última vez que provei uma tigelada, foi na pequena aldeia de Figueira, numa Road trip de 3 dias na Beira Baixa, e posso confirmar: ainda sabem a tradição.

tigelada de Proença

4.7 Pão-de-Ló de Ovar

Em Portugal, há um pão-de-ló tradicional de miolo cremoso, como se não estivesse bem cozido, o que lhe dá a consistência semelhante à dos ovos moles. Esse é o seu segredo. Diz a lenda que, certa vez, uma pasteleira não acertou na receita, por causa do nervosismo de servir a corte, mas a falha agradou e de um percalço nasceu um doce típico. Há diversos locais que produzem o pão-de-ló dessa forma, destacando-se Ovar e Alfeizerão. 

O Pão-de-Ló de Ovar remonta a finais do século XVIII e é confecionado à base de ovos, sobretudo gemas, açúcar e farinha. Protegido com Indicação Geográfica Protegida, só pode ser produzido no concelho de Ovar.

Apresenta-se dentro de uma forma revestida com papel branco e tem uma massa leve, cremosa, fofa e amarelada (designada por “ló”), com uma fina côdea dourada. O interior de textura húmida é designado como “pito”. 

5. Doces típicos do Norte de Portugal

5.1 Bolinhol de Vizela

Na pacata Vizela, nasceu outro doce português maravilhoso: o bolinhol. Um dos vencedores do concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal, o bolinhol é um pão-de-ló com uma suave cobertura de açúcar, depois de se pincelar à mão o bolo com essa calda, para a massa ficar levemente húmida.

A história deste doce nortenho remontará ao ano de 1880, sendo que em 1884 esteve já presente na Exposição Industrial Concelhia de Guimarães. Ao longo do século XX foi conquistando palatos, à medida que as Termas de Vizela ganhavam popularidade entre ingleses ligados ao comércio do Vinho do Porto, famílias endinheiradas no norte do país e de Espanha.

Encontra bolinhol – que até tem um livro dedicado à sua história – em várias pastelarias de Vizela sobretudo nas quadras da Páscoa e Natal, destacando-se a Pastelaria Fina (dica de uma amiga que mora na cidade). Podem ver o bolinhol na foto de entrada deste artigo.

5.2 Toucinho do Céu e Tortas de Guimarães (Guimarães)

Também há várias versões de toucinho do céu em Portugal, mas o meu preferido é o de Guimarães (eu sei, sou suspeita, adoro a minha cidade berço). O toucinho do céu leva ovos, açúcar, amêndoas e gila e, no início, era feito com banha de porco, o que inspirou o nome.

De origem conventual, foi popularizado por duas meninas órfãs que também viviam no convento de Santa Clara de Guimarães. Encerrados os conventos em todo o país, as irmãs abriram uma confeitaria no centro histórico (Casa Costinhas, na  Rua da Santa Maria), onde ainda hoje se vende o melhor toucinho do céu da cidade, em versão individual ou familiar, bem como tortas de Guimarães.

As tortas de Guimarães – que não encontram noutras cidades – são um pastel em forma de concha com recheio de ovos e amêndoa, que adoro por causa da crocante massa exterior, apesar de serem verdadeiras bombas calóricas. Para além da Casa Costinhas, pode comprar toucinho e tortas decentes na pastelaria Clarinha, no Largo do Toural.

pudim de abade priscos
Uma versão do pudim de Abade de Priscos individual.

5.3 Pudim Abade de Priscos (Braga)

Este divino pudim é tradicional da cidade de Braga e uma das poucas receitas que o abade de Priscos (freguesia onde serviu durante quase 50 anos) divulgou publicamente. O pudim ficou conhecido quando o diretor do Magistério Primário feminino de Braga, que funcionava no antigo Convento dos Congregados, pediu ao abade receitas para ensinar às alunas.

O pudim leva vinho do Porto e toucinho fatiado muito fino, mas gordo e, de preferência, de Chaves ou de Melgaço. O Pudim de Abade Priscos deve ficar com uma consistência delicada, gelatinosa e que se “desfaz na boca”. Um dos finalistas das 7 Maravilhas Doces de Portugal, não sei como não foi um dos vencedores. O senhor abade Manuel Joaquim Rebelo merecia um prémio Nobel por esta maravilha da culinária portuguesa!

Pode provar este doce português em vários restaurantes da cidade dos arcebispos, o último que comi foi no histórico Café Vianna.

5.4 Quilhões de São Gonçalo (Amarante)

Tradicional da cidade de Amarante, os quilhões de São Gonçalo (doces fálicos) têm o formato do órgão genital masculino. O doce é comum nas romarias e está relacionado com o santo padroeiro do concelho, considerado casamenteiro.

A sua receita é basicamente leite, ovos e açúcar, resultando num bolo seco e ligeiramente duro que é vendido em quase todos os cafés da zona histórica e também em banquinhas de rua, junto à Igreja de São Gonçalo. Em algumas pastelarias, já se encontram alguns quilhões com recheios variados. Leia mais pormenores sobre este Doce Fálico de Amarante.

doces de Amarante
Quilhõezinhos de S. Gonçalo e outros doces (a maioria conventual) comprados em duas pastelarias de Amarante

5.5 Clarinhas de Fão (Esposende)

Em 1915, o jornal O Espozendense anunciava as virtudes medicinais de uns pastelinhos fabricados na vizinha vila de Fão, como remédio eficaz para a anorexia: “Quer manter sempre uma boa saúde e um excelente apetite, use só os pastéis de doce de fabrico da Sr.ª Rosália Clarinha. Com este delicioso manjar têm-se restituído à vida pessoas verdadeiramente arruinadas do estômago.”

Pastéis de massa fina, de forma retangular ou meia-lua, recheados com doce de gila, envolvidos em gemas de ovo e fritos, apresentam uma cor castanha com o branco do açúcar polvilhado. A sua textura é estaladiça, o recheio é macio e, mesmo sem converterem anoréticos, os pastéis continuam populares.

A especialidade continua a ser fabricada diariamente na Pastelaria Clarinha (por alusão à fundadora e suas irmãs, conhecidas como “clarinhas”), dirigida por Pedro Alves, sobrinho-bisneto da doceira inicial. A casa situada no centro histórico de Fão é descrita como “farmácia-doçaria da D. Rosália Clarinha” e até é marca registada desde 1947.

5.6 Charutos dos Arcos (Arcos de Valdevez)

Semelhantes a pequenos charutos com 8 a 10 cm, feitos em massa de hóstia que envolve um recheio cremoso, os charutos dos Arcos foram criados em 1830 pela tetravó de Clara, que continua a fazê-los de forma artesanal na Doçaria Central, em Arcos de Valdevez.

Nesta pastelaria de decoração vintage encontra também rebuçados dos Arcos – conhecidos como “cala maridos”. A Doçaria Central registou o doce, mas outros locais na vila começaram a fabricar charutos, com variantes à receita original.

Vai encontrar charutos como sobremesa em vários restaurantes, a minha sugestão é que acompanhe o doce com a laranja do Ermelo (outro produto de excelência deste concelho nortenho). OS charutos dos Arcos foram outro dos vencedores no concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal e falo deles no artigo Cozinha Minhota.

charutos dos arcos são uma das 7 maravilhas doces de Portugal
Os Charutos dos Arcos foram um dos vencedores das 7 Maravilhas Doces de Portugal

5.7 Bola de Berlim (Viana do Castelo)

Apesar de não ser um doce tradicional, na verdadeira aceção do termo, certo é que as bolas de Berlim (em terras brasileiras conhecidas como “sonho”) , são populares em Portugal, nas praias de norte a sul do país, e na Pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo.

A receita da Bola de Berlim deriva de um doce alemão (berliner) e terá sido trazida para Portugal por famílias judaicas que fugiram durante a Segunda Guerra Mundial.  Na versão portuguesa, a bola é recheada com creme pasteleiro, à base de ovos, enquanto a alemã usa frutos vermelhos.

6. Doces tradicionais de Trás-os-Montes e Alto Douro

6.1 Crista de galo (Vila Real)

Receita secular, com origem no extinto convento de Santa Clara de Vila Real, a crista de galo é uma das especialidades da cidade. Outrora uma iguaria de festa, era consumida pelas monjas na Quinta-feira Gorda e distribuído em véspera da festa de Santa Clara, sábado de Ramos e dia de S. Domingos, para pagar as “obrigações” do convento.

O pastel com formato de meia-lua, outrora era chamado de pastel de toucinho, mas o nome atual foi ganhando força pela sua semelhança com a crista de um galo. O recheio é feito de ovos e amêndoa (toucinho do céu) envolvido numa delicada massa estaladiça e artesanal.

A Crista de Galo foi eleita uma das 7 Maravilhas Doces de Portugal, no concurso nacional promovido pela RTP e pode encontrá-la na Casa das Cristas, na Casa Lapão e outros locais da cidade de Vila Real. Eu provei este doce na Casa do Covilhete, durante o meu percurso no Caminho Português de Santiago Interior.

doces de Vila Real
As cristas de galo de Vila Real.

6.2 Pitos de Santa Luzia e ganchas de S. Brás (Vila Real)

A 13 de dezembro celebra-se o dia de Santa Luzia, a padroeira de uma aldeia de Vila Real, data em que as raparigas oferecem o “pito” aos rapazes (expressão popular ligada à sexualidade), que retribuem em fevereiro com a “gancha”. O pito é um bolo quadrado feito com recheio de doce de abóbora e canela, coberto com massa de farinha.

A 3 de fevereiro, celebra-se S. Brás – bispo e santo católico que resolve problemas de garganta – na capelinha de S. Dinis, em Vila Real, dia em que os rapazes cortejam as meninas oferecendo-lhes ganchas, rebuçados em forma de bengala feita de caramelo. Ultrapassada a sua origem religiosa, a tradição dos pitos e das ganchas é hoje uma brincadeira popular para todas as idades.

6.3 Sardinhas doces (Trancoso)

Estas sardinhas comem-se em Trancoso – localidade que integra a rede de aldeias históricas de Portugal, apesar de não ser uma aldeia – desde o século XVII, graças ao (outro) Convento de Santa Clara. Sem escamas ou espinhas, corpo de massa tenra frita, recheio de ovos e amêndoa e cobertura de chocolate. Abençoada freira!

Ao pé das Portas do Sol, há uma casa afamada que vende sardinhas doces já industrializadas. Mas ainda se encontram algumas artesanais em Trancoso, nomeadamente na loja O Magriço, na Rua dos Cavaleiros. 

Também existem sardinhas doces na Nazaré e Sesimbra, sem cobertura de chocolate, mas que eu nunca provei. Até faz mais sentido, tendo em conta a tradição piscatória daquelas vilas. Ora em Trancoso – interior do país e bem longe do mar – porquê as sardinhas? Diz-se que estas nasceram da necessidade de satisfazer a insuficiência de peixe, cujo transporte era, outrora, muito demorado e irregular. Será verdade?

sardinhas doces de Trancoso
Sardinhas doces de Trancoso

6.4 Rebuçados da Régua

Com registos já em 1930, estes rebuçados foram subsistência de muitas mulheres e ainda hoje se vendem em sacos, junto ao rio Douro. Embrulhados em papel retorcido em forma de laçarote, como a maioria dos rebuçados, resultam de um ponto de rebuçado de açúcar, limão e mel, muito mel. A fórmula não é difícil, é preciso é ter mão para os deixar perfeitos.

A solidificação acontece quando deitamos este magma no mármore frio. O rebuçado torna-se denso, sendo recortado em círculos com a ajuda de uma tesoura. Não sou particularmente fã, mas os rebuçados são conhecidos em toda a região.

6.5 Cavacas de Pinhel

Também há muitas cavacas em Portugal, a maioria rija (à exceção das cavacas de Resende), mas as mais famosas são as cavacas de Pinhel, um doce conventual criado pelas freiras clarissas durante o reinado de D. José I.

Esses doces são  feitos com ovos frescos, farinha, açúcar, e um preparado segredo, são colocados numas pequenas formas e no forno a massa cresce. Por fim, são cobertos por uma calda de clara de ovo pasteurizada e açúcar em pó.

Maria da Conceição Dias, mais conhecida por D. São, herdou a receita da tia que foi criada pelas freiras, e vai mantendo a tradição das gigantes cavacas de Pinhel há quase 40 anos. Cavacas artesanais, sem químicos, que pode comprar no posto de turismo, na pequena fábrica da D. São (na zona industrial) ou nas feiras da região.

Cavacas de Pinhel
© Turismo de Pinhel

7. Doces tradicionais da Madeira

As propostas gastronómicas mais emblemáticas da Madeira são simples, mas saborosas e no campo dos doces, imperam as frutas, graças ao clima temperado, com destaque para o ananás ou a anona, que ajudam a dar cor e sabor a um leque variado de doces e bebidas.  

Sobre a restante gastronomia madeirense, recomenda-se as lapas, espetadas de peixe-espada preto com banana e maracujá, milho frito, bolo do caco e a poncha (bebida alcoólica).

7.1 Bolo de mel

As origens do bolo de mel tradicional da Madeira remontam à época áurea de produção de açúcar no arquipélago (séculos XV e XVI). Feito com mel de cana, o pequeno, desajeitado e escuro bolo dura muito tempo. O que muitas pessoas não sabem é que, outrora, existia o bolo de mel pobre e o bolo de mel rico. O dos ricos tinha frutos secos em abundância e era feito com mel de cana; o outro, mais modesto, levava melaço e não era tão doce.

Para além do mel, a receita do bolo inclui farinha, fermento, erva doce, canela, cravinho, nozes, amêndoas, vinho da Madeira, laranja, limão e cidra, entre outros ingredientes possíveis.

De acordo com a tradição – que ainda se mantém em algumas famílias -, o bolo de mel deve ser preparado no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, dando início aos preparativos do Natal, em cujas mesas é uma presença habitual. Deve ser partido à mão e pode ser acompanhado com licor ou vinho da Madeira. 

O famoso bolo de mel da Madeira
© 24 Kitchen – encontra o bolo de mel em todo o lado, na ilha da Madeira.

7.2 Broas de castanha (Curral de Freiras)

Curral das Freiras fica na base de uma cratera vulcânica, em cujas encostas o homem tira sustento da terra. Entre as plantações mais presentes estão os castanheiros, espalhados por terrenos íngremes, onde se produz a castanha da Madeira, um produto com tradição.

A gastronomia local é, assim, muito baseada na castanha, que até inspira uma feira anual em novembro, onde até se elege uma miss Castanha! A população da freguesia utiliza as castanhas de várias maneiras: em sopas, rebuçados, bolos, broas e também em licores.

Os ingredientes das broas de castanha, para além deste fruto seco, são: margarina, açúcar, farinha, canela, (pouco) ovo e erva-doce. Simples, pouco enjoativas e com um toque a especiarias que me agrada muito, as broas apresentam bocadinhos de castanha no interior.

7.3 Pudim de maracujá

Um pudim um tanto incomum, feito para aqueles que adoram a acidez do maracujá, é uma sobremesa que encontra em vários restaurantes da ilha, uma vez que o clima permite a produção de muitos frutos exóticos.

Os ingredientes são comuns a vários outros pudins/mousses com leite condensado e natas. Já o maracujá (roxo), encontra-o tanto na cobertura, como na fabricação geral do doce. Já estive na Madeira há vários anos, mas ainda me lembro do pudim de maracujá que provei na Casa do Farol, em Câmara de Lobos.

doces típicos da ilha da Madeira
© O site madeira.best destaca os doces típicos da ilha com muito detalhe.

8. Doces típicos das ilhas dos Açores

O arquipélago tem nove ilhas, pelo que é normal que os meus destaques não façam justiça à variedade doceira dos Açores.

8.1 Bolo Lêvedo (Furnas, ilha de São Miguel)

A pequena localidade das Furnas – conhecida pelas suas fumarolas e pelo cozido feito nas entranhas da terra – é o sítio certo para provar o bolo lêvedo, um pão redondo e achatado, com um sabor doce mas leve.

Com uma massa porosa e crosta ligeiramente tostada, tanto se come simples como se usa para fazer sanduíches e hambúrgueres. Nesta vila, além de o bolo ser uma especialidade, tornou-se na imagem de marca do pequeno almoço furnense, mas já a pode encontrar em quase todas as padarias da ilha.

Os bolos lêvedos da Glória Moniz estão entre os mais genuínos, fofos e tradicionais. Fizemos lá uma paragem estratégica que comprar um carregamento para vários dias, e não nos fartámos deles. Mas a pastelaria Rosa Quental também está muito bem avaliada.

bolo lêvedo é tradicional das Furnas
© Centro de Artesanato e Design dos Açores – bolos lêvedos

8.2 Fofas (ilhas de São Miguel e Faial)

Residentes e visitantes não passam pela Vila da Povoação sem comer uma Fofa da Povoação, um bolo com a forma de éclair, confecionado com erva-doce, com um recheio muito cremoso e abrilhantado com uma tira de chocolate. A receita original seria da D. Angelina, que fazia os bolos para o marido vender no seu café, entretanto, ambos faleceram e dizem que as atuais fofas são uma sombra das de outrora.

Bem, eu não conheci as fofas originais, mas estas pareceram-me deliciosas e são uma das iguarias destacadas no artigo Sabores de São Miguel, comer bem nos Açores. Também existem umas “fofas” na ilha do Faial, muito comuns por altura do Carnaval, mas a avaliar pela receita são ligeiramente diferentes, podendo ou não ser recheadas.

8.3 Queijadas da Graciosa

As Queijadas da Graciosa são um doce tradicional da ilha açoriana homónima e um dos seus principais cartões de visita. A sua confeção é toda realizada com produtos naturais, respeitando as normas da doçaria regional.

Em 2003, Maria de Jesus Félix, responsável pela criação de uma fábrica de queijadas na Ilha Graciosa, registou a marca e, em 2015, já falecida a senhora, as queijadas receberam o selo “Açores certificado pela natureza”, sendo o primeiro produto da ilha a receber a certificação.

As queijadas da Graciosa têm forma de estrela, possuem um sabor delicado, com uma massa exterior fina e estaladiça e o seu recheio é de ovos e leite, podendo encontrar também o sabor da canela (só as proporções continuam no segredo dos deuses, leia-se, doceiras).

Existem outras queijadas açorianas famosas, em Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.

as queijadas da Graciosa são umas das mais tradicionais
© Fábrica das Queijadas da Graciosa

8.4 Camafeus (ilha Terceira)

A origem deste doce português, muito tradicional da ilha Terceira, remete para os camafeus, objetos feitos de pedra cinzelada que enfeitavam blusas e vestidos no século XIX, além de poder  ser pendurado ao pescoço por uma fita. É um doce pequeno, feito a partir de calda de açúcar, nozes raladas e ovos, engrossado ao fogo para ser, posteriormente, moldado no tamanho de uma noz, coberto com glacê e enfeitado com metade deste fruto.

Pode encontrar estes pequenos doces típicos em várias pastelarias da cidade de Angra do Heroísmo, destacando-se O Forno e o Athanásio. Se as visitar, prove também outros doces conventuais como a cornucópia, pudim Conde da Praia, torresmos de cabinho, charutos, feiticeiros, hóstia de amêndoa, Alfenim, entre outros.

8.5 Malassadas (São Miguel)

As malassadas são um doce típico da época de Carnaval, mas também as encontra nas mesas açorianas noutras festas. Estes maravilhosos círculos de massa frita são polvilhados com açúcar granulado, canela ou uma calda de açúcar. A massa é muito leve devido à sua técnica de preparação: bem amassada ou sovada, num alguidar de barro. São constituídas por uma massa de farinha, ovos batidos, açúcar, leite e fermento de padeiro.

Acerca do seu nome existem duas versões: uns defendem que se chamariam Melassadas porque antigamente entrava na sua composição melaço de cana. Outros, versão que parece mais certa, defendem que o nome Malassadas tem origem no processo de fabrico do doce. Também no cancioneiro tradicional do Carnaval há referência a este doce micaelense: «As filozes que nos puseres / Trazei-as numa razoila / Que a gente há-de se pôr nelas / Que nem porcos em papoila.»

Malassadas são doces típicos dos Açores
Malassadas dos Açores

Estes são alguns dos doces portugueses mais tradicionais, com receitas centenárias que permaneceram populares e se tornaram parte da cultura do país. Mesmo que já se encontrem algumas destas iguarias noutras partes do mundo, em lojas especializadas, não se comparam os doces típicos comidos no sítio certo, isto é, onde nasceram e foram aperfeiçoados, geração após geração.

Já provaram algum destes doces portugueses tradicionais? Qual é o vosso favorito? E há mais algum que gostariam de acrescentar a esta (já longa) lista? Contem-me tudo.