Venham comigo explorar Guimarães, berço da nacionalidade e de gente com raça, onde D. Afonso Henriques pariu uma nova nação nos idos do século XII

As muralhas desta cidade, que adoptei como lar, ainda se lembram do tempo em que Vimaranes prestava vassalagem a Espanha. As torres do castelo testemunharam a galhardia do primeiro rei; assistiram ao nascimento de Portugal. Até as pedras da calçada sentem o peso da História e esse é o maior encanto desta cidade bairrista.

Mas nem só da ligação à identidade nacional vive o turismo local. Neste mês em que o tema do projecto 8on8 é “a minha cidade”, deixem que vos desvende alguns segredos de Guimarães.

Os vimaranenses são acolhedores mas francos, e falam com pronúncia castiça e muito vernáculo. Outras razões se acrescentam a favor deste destino. Há doces conventuais e cantarinhas dos namorados, vinho verde e noites longas. Esmiucemos os motivos para conhecerem, e jamais esquecerem, a linda e minhota cidade de Guimarães. Cliquem nos links para acederem aos sites oficiais, onde poderão consultar preços e horários.

 

1. Aqui nasceu Portugal

Muralha com "Aqui nasceu Portugal"

 

É inevitável fotografar o pedaço de muralha que ostenta expressão tão emotiva, no centro da cidade-berço.

Berço porque aqui nasceu, foi baptizado e viveu o primeiro rei. Se o lugar de nascença de D. Afonso Henriques é alvo de disputa (Viseu e Coimbra entram nesta batalha académica), é consensual que foi aqui que ele iniciou o movimento pela independência.

Aliás, no dia 24 de Junho – a “primeira tarde portuguesa” – data que assinala a épica Batalha de S. Mamede que originou a fundação de Portugal, festeja-se o feriado municipal.

No Monte Latito, também conhecido como Colina Sagrada, pode visitar-se o Castelo, uma das sete maravilhas nacionais, onde este caminho começou. Ali fica também a singela Capela de S. Miguel, onde D. Afonso Henriques foi baptizado e a sua estátua (igualzinha à que existe no Castelo de S. Jorge, em Lisboa). Quase esperamos vê-lo a chegar a galope no seu cavalo, empunhando a sua pesada espada, neste cenário medieval.

Ao lado está o Paço dos Duques de Bragança, monumento do século XV de inspiração francesa com dezenas de chaminés, que merece também uma visita. No Verão, acolhe vários eventos especiais, como uma visita nocturna à luz das lanternas, que valem muito a pena.

 

2. Centro histórico classificado pela Unesco

Padrão do Salado em Guimarães

 

Deixamos a parte alta da cidade, descendo pela linda e medieval Rua de Santa Maria, em direcção ao centro histórico, classificado como Património Mundial da Humanidade em 2001. Pisamos lajes alisadas pelos séculos, fotografamos o Convento de Santa Clara, onde hoje funciona a Câmara Municipal, a Casa do Arco e outras, igualmente senhoriais.

E eis o Largo de Nossa Senhora da Oliveira, onde os cafés e restaurantes convivem com a impressionante igreja da Colegiada de Guimarães. Daqui partiu Pedro Hispano para assumir o lugar de Papa em Roma, sob o nome de João XXI. Mesmo ao lado da igreja fica o Museu Alberto Sampaio que abre portas a um mercadinho biológico todos os sábados de manhã. Ainda que o espólio religioso não seja impressionante, o edifício e os claustros são belíssimos.

Os antigos paços municipais (quando era miúda funcionou aqui a Biblioteca) ligam esta à Praça de Santiago. Aqui as fachadas estreitas mantêm o carácter de outrora e os vasos floridos nas varandas de ferro. Na Idade Média recebia-se aqui os peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Hoje, turistas e habitantes enchem as esplanadas.

Nas noites de Verão a praça fica animadíssima! Este é o lugar certo para beber um copo ou comer o melhor gelado artesanal da cidade.

 

3. As praças

Para além das emblemáticas Oliveira e Santiago, é muito interessante passear pelo Largo do Toural. No século XVII ficava junto à porta da vila e acolhia uma feira de gado (daí o nome). Depois tornou-se um jardim e recebeu a estátua do primeiro rei, antes desta reclamar morada eterna junto do castelo.

Hoje, o Toural é uma das praças mais simpáticas, particularmente bonita com a iluminação de Inverno. Imediatamente ao lado existe outra grande praça – a Alameda – onde encontra a muralha com o “Aqui nasceu Portugal” e duas fontes maravilhosas. Não sei qual a minha preferida, se a da menina se a do fauno.

A Alameda é muito frequentada pelos mais velhos, que aqui vêm conversar com os amigos ou simplesmente aproveitar a sombra no Verão e o sol no Inverno.

Numa das “margens” desta praça, fica a minha igreja preferida de Guimarães. Trata-se da Igreja de São Francisco que abriga os túmulos de dois santos de devoção popular. O primeiro é São Gualter, padroeiro da cidade, e a segunda é D. Constança de Noronha, esposa do primeiro duque de Bragança.

 

4. Noites animadas

Noite Branca em Guimarães

 

Vamos beber um copo à Oliveira? O ponto de encontro é sempre por ali e depois a noite espraia-se por todo o centro histórico. A cidade é uma das mais jovens da Europa – cerca de metade dos habitantes tem menos de 30 anos – e isso nota-se na movida nocturna.

No Inverno há muita gente nas noites de fim-de-semana. No Verão há cinema ao ar livre, a Noite Branca ou o Sunset Praça, promovido pelos comerciantes. A ideia é “agregar o espaço mítico do Centro Histórico de Guimarães, com a sua arquitectura medieval, à estética musical contemporânea, de espírito jovem e irreverente”. Na prática, há um DJ e uma praça repleta de gente feliz.

Acrescente-se ainda as Festas Gualterianas, no final do mês de Julho, com a Marcha (desde 1906), o cortejo do linho, a batalha de flores, carrosséis e tudo o resto que associamos às festas de Verão. O meu marido admira-se sempre com a multidão. “De onde é que saiu toda esta gente?” – a pergunta repete-se todos os anos.

 

5. Gastronomia

Toucinho do céu

 

O Minho é sinónimo de mesa farta, com rojões e papas de sarrabulho, vitela assada e bacalhau recheado, enchidos e vinho verde. Em Guimarães cumprem-se todas essas tradições gastronómicas. Há muitos restaurantes com comida típica no centro histórico, mas um dos mais castiços é a Adega dos Caquinhos, numa ruela estreita e esquecida.

Na verdade é uma tasca, com pratos genuínos que poderíamos comer em casa da mãe, que saem em doses generosas da cozinha da D. Augusta, uma senhora de língua afiada. Os Caquinhos são uma tradição muito querida para os Nicolinos (falaremos deles daqui a pouco).

E depois há A Cozinha de António Loureiro, distinguida com uma estrela Michelin. O chef usa magistralmente os produtos regionais, com um toque de modernidade, misturando-os com outros produtos e sabores mais inusitados. Já lá estive três vezes e sou fã.

No que respeita aos doces – gulosos arrebitam as orelhas – é pecado capital não provar as tortas de Guimarães e o toucinho-do-céu. Estes dois doces conventuais valem cada facada na dieta. Os melhores e mais baratos podem ser encontrados na Casa Costinhas, na Rua de Santa Maria (já vos falei dela, lá em cima). Também os podem encontrar no evento anual Doçaria do Convento, nos claustros do Convento de Santa Clara.

 

6. Tradições seculares únicas

Festa do Pinheiro, em Guimarães

 

Guimarães preserva algumas tradições tão antigas quanto encantadoras. É o caso da “Cantarinha dos namorados” que, noutros tempos, era oferecida aos noivos com ouro, como forma de ajudar a nova família. A cantarinha mais pequenina (no topo) representa as dificuldades da vida, que se esperam menores do que as alegrias, representadas pela maior. Esta é a peça de artesanato mais singular que pode levar de Guimarães.

As Nicolinas são outra tradição incontornável da cidade-berço. A 29 de Novembro acontece o mítico Pinheiro, um cortejo que anuncia o início das festas dos estudantes, que se prolongarão durante uma semana. Esta é a noite mais longa do ano em Guimarães, com os vimaranenses – novos e velhos – a enfrentarem estoicamente o frio e a chuva no desfile que percorre a cidade, acompanhando uma árvore com o ritmo dos bombos e caixas.

Inauguradas as festas com tal procissão pagã, segue-se as Roubalheiras (em data nunca anunciada), as Novenas, as Maçãzinhas (a minha tradição preferida), as Danças de São Nicolau, as Posses e o Pregão, discurso mordaz satírico, ao bom espírito de Gil Vicente, declamado em voz bem alta.

Se estiverem no norte por esta altura, venham às Nicolinas. Acreditem que são memoráveis!

 

7. Programação cultural

Máscaras africanas na Plataforma das Artes

 

Na rua que liga o Toural à estação dos comboios fica o Palácio de Vila Flor, do século XVIII, transformado no centro cultural homónimo, com dois auditórios num edifício contemporâneo. Na sua programação habitual destaca-se o Guimarães Jazz e o festival Manta, com concertos nos belos jardins que assistimos sentados na relva (levando uma manta de casa, é muito mais confortável).

E a vida cultural não se esgota com o Vila Flor. Guimarães acolheu, em anos recentes, dois eventos magníficos que transformaram a cidade. Foi Capital Europeia da Cultura em 2012 e Capital Europeia do Desporto no ano seguinte.

Para além do programa artístico e desportivo, riquíssimo em ambos os casos, os vimaranenses ganharam novos espaços, graças ao orçamento atribuído àqueles acontecimentos. É o caso do ultra-moderno Centro Internacional das Artes José de Guimarães, no antigo mercado municipal, com uma exposição de arte contemporânea e uma parte da colecção do artista vimaranense.

Nesta lista inclui-se a Casa da Memória, que transformou uma fábrica desactivada num lugar de memórias da cidade. Gosto particularmente deste espaço, que teve a ajuda dos moradores para construir a colecção. Aproveitem um domingo de manhã, quando as entradas são gratuitas, e vão conhecer um pouco melhor a alma da cidade e as suas memórias colectivas.

 

8. Monte da Penha e outros espaços verdes

sítio arqueológico da Citânia de Briteiros

 

Há vários espaços verdes em Guimarães, que permitem usufruir um pouco de silêncio (coisa cada vez mais rara e preciosa). A cerca de 15 km da cidade, por exemplo, fica a Citânia de Briteiros, um castro de origem pré-romana. Esta riqueza arqueológica fica no meio da natureza, onde só se ouve o vento e os passarinhos.

Mais perto da cidade fica o Monte da Penha, que alguns chamam de montanha, com uma pitada de exagero. Pode chegar de carro ou de teleférico, para se deliciar com uma vista esplêndida sobre a cidade junto ao Santuário. Se for à Penha no Verão, vale a pena fazer um piquenique entre as pedras gigantes.

Já que subiu até aqui, tente descobrir a pequena capela dedicada a Santo Elias, debaixo de uma rocha. O acesso não é fácil, mas dizem que ali se faz maravilhas, a quem sofre de insónias. Aliás, sem querer ser spoiler, aposto que encontrará o padroeiro do sono a dormir.

 

 

Este post faz parte do 8on8, um projecto colectivo que une lindas viajantes em volta de um tema comum, no dia 8 de cada mês. Espreitem os restantes textos sob o tema “a minha cidade”, inspirem-se e partilhem (por ordem alfabética):

Destinos Por Onde Andei… – Bares em Belo Horizonte – Minhas 8 dicas
Entre Polos –  Minha Cidade em 8 Fotos
Let’s Fly Away – Super Museus do Rio de Janeiro
Mulher Casada Viaja: Mercado Municipal de São Paulo pelos olhos de uma paulistana
Turistando.in: 8 charmosos cafés no centro de SP

Planeie a sua próxima viagem

Faça as suas reservas através dos links parceiros. Não paga nem mais um cêntimo e para mim faz toda a diferença

  • Encontre os melhores hotéis no  Booking. É onde eu faço as minhas reservas
  • Se precisa de transporte próprio, alugue um carro com a Rentalcars 
  • Reserve os seus bilhetes para monumentos e tours, evitando filas, usando o Get your Guide 
  • Faça um seguro de viagem com a Iati seguros (beneficia de 5% de desconto com este link).

Este post pode conter links de afiliados