There’s no place like home

© Amadeu Mendes Photography

Um lar é um edifício, uma entidade geográfica, um lugar onde nos sentimos pertencer? Lares eram deuses romanos que protegiam as casas e, por extensão, as famílias. Para Fernando Pessoa, já se sabe, o seu lar/pátria era a língua portuguesa…

A canadiana Isabel Huggan afirma, na sua obra “Belonging: home away from home” (2003), que depois de morar em vários continentes, encontrou o seu lar na Tasmânia e que a sensação de pertencer ali foi profundamente atávica.

Ao longo desta vida andarilha morei em 14 casas, em Portugal e no estrangeiro. Em algumas delas, não cheguei a pendurar cortinas. Com o tempo, deixamos de fazer nesting, preparar o ninho, ainda que esses apartamentos fossem adquirindo significados emocionais, com os momentos familiares ali vividos.

 

© Ricardo Ribeiro Fotografia
Feira Afonsina 2014.

 

Mas há um lugar no mundo onde eu pertenço: GUIMARÃES. Soube-o da primeira vez que regressei, depois de vários anos a estudar fora. Voltar à cidade-berço foi reaver aquela tranquilidade altiva que só quem convive com um Património da Humanidade compreende.

A alma vimarana é a da história, não a académica, mas a outra mais perene, passada de geração em geração. Qualquer humilde conterrâneo defende a história da cidade com galhardia cavaleira, perante o mais iminente catedrático. Como alguém afirmou um dia, em Guimarães somos todos historiadores.

Ser de Guimarães é umbilical, é um atestado de pedigree . Nesta terra de memória e identidade, todos descendem de D. Afonso Henriques, dizemos ao que vimos sem palmadinhas hipócritas nas costas (por vezes com alguns palavrões cabeludos pelo meio), não precisamos de condecorações para incharmos de orgulho pelo “nosso lugar”, apesar das distinções como Património da Humanidade da Unesco, Capital Europeia da Cultura 2012, Capital Europeia do Desporto 2013…

Os miúdos agasalham-se com cachecóis pretos e brancos, do Vitória Sport Clube. Conhece alguém de Guimarães? Pergunta-se de quem é filho. Como se a cidade coubesse nas praças da Oliveira e de Santiago.

Neste (re)regresso a casa, sofro com as previsões meteorológicas para o fim-de-semana da Feira Afonsina, volto a colocar o site do Centro Cultural Vila Flor nos favoritos, anseio pelas Nicolinas como as crianças pelo Natal (recordem a tradição dos estudantes aqui), não corrijo a pronúncia castiça do meu filho.

Apesar de tudo, o Pedrinho é mais vimaranense do que eu, nasceu aqui no berço da nação, indignou-se quando alguém partiu a espada do grande rei.

O Pedrinho junto à estátua do rei com a espada partida.
© Amadeu Mendes Photography

 

– “Um tonto pendurou-se na espada do D. Afonso Henriques. Disse que era o rei do mundo e a espada partiu-se” – conta à amiga brasileira que nos visita, abanando a cabeça, ainda em descrença. A história não terá sido exactamente assim, mas ele compôs o resto do enredo com a sua imaginação.

Muitos outros vimaranenses soltaram impropérios contra o autor da brincadeira, que se vê agora a braços com a justiça e o desprezo popular. Porque nestas muralhas bate forte o compasso dos afectos e das tradições.

P.S. Algumas imagens (devidamente assinaladas) são dos fotógrafos Ricardo Ribeiro e Amadeu Mendes. Acho que colocaram a raça do “ser vimaranense” nas suas fotografias. Para melhor apreciarem o seu trabalho: Amadeu Mendes Photography (aqui) e Ricardo Ribeiro Fotografia (aqui)

Planeie a sua próxima viagem

Faça as suas reservas através dos nossos parceiros. Não paga nem mais um cêntimo e para mim faz toda a diferença

  • Encontre os melhores hotéis no  Booking. É onde eu faço as minhas reservas
  • Se precisa de transporte próprio, alugue um carro com a Rentalcars 
  • Reserve os seus bilhetes para monumentos e tours, evitando filas, usando o Get your Guide 
  • Faça um seguro de viagem com a IATI (beneficia de 5% de desconto com este link).

Este post pode conter links de afiliados

2019-04-07T19:57:26+00:00

25 Comments

  1. Marta Iansen 16 Outubro, 2014 em 12:17 - Responder

    O pequeno Pedro está totalmente certo. Odeio os iconoclastas (no mau sentido) que acham bonito destruir tudo o que se refere à memória do passado. Do alto de sua pretensa superioridade, imaginam-se no direito de criticar e/ou ridicularizar o que já passou, esquecendo-se de que ainda não foram capazes da construção de nada melhor. O mais irritante é que esse "fenômeno" parece correr quase o mundo todo, em especial no Ocidente.

    • Ruthia 16 Outubro, 2014 em 17:48 - Responder

      Marta, acho que neste caso não houve intenção de estragar. Era um grupo de jovens amigos que saiu à noite, bebeu um pouco e fez umas brincadeiras parvas. Tanto é que o rapaz não fugiu, nem escondeu a espada, quando a polícia chegou.
      Mas é realmente uma pena….
      Abraço

  2. ✿ chica 16 Outubro, 2014 em 12:23 - Responder

    Que beleza ter oportunidade de ver um lugar que mexe tremendamente com tuas emoções.LIndas fotos!Adorei! bjs, chica

  3. Jorge Fortunato 16 Outubro, 2014 em 12:42 - Responder

    Ruthia
    Gosto tanto dessa frase que dá título ao post que sempre faço essa citação. E o lar, não há mesmo nada igual
    beijinhos

  4. Beatriz Bragança 16 Outubro, 2014 em 13:01 - Responder

    Querida Ruthia
    Um tributo ao Berço da nossa Pátria!
    E como o Pedrinho deve estar orgulhoso!
    Obrigada pelo vídeo, de que muito gostei.
    Um beijinho
    Beatriz

  5. Calu B. 16 Outubro, 2014 em 15:55 - Responder

    Passear e aprender contigo mais detalhes das cativantes histórias dos povos e dos lugares, me desperta agudamente o desejo de ver, ouvir e sentir ao vivo e a cores estas belas e significativas paragens que vc tão bem descreve e apresenta, Ruthia.
    O célebre desbravador Pedrinho cresce em estatura e descobertas.

    Bjos aos dois.
    Calu

  6. Adriana LARA 16 Outubro, 2014 em 18:19 - Responder

    Ruthia, agora sim, quero arrancar todos os meus cabelos por não ter ido até Guimarães….mas hei de voltar a terras lusitanas e certamente esta será uma parada obrigatória!!
    bjs desejando-te e ao Pedrinho, excelente final de semana – aqui já mais quente, porém chuvoso!!

    • Ruthia 16 Outubro, 2014 em 22:06 - Responder

      Com apenas um dia no país, seria complicado viajar até o Norte. Sobraria muito pouco tempo útil. Mas quando voltar a Portugal, com certeza conhecerá a minha "casa".
      Mil beijos

  7. Joana 16 Outubro, 2014 em 20:58 - Responder

    There's no place like home… Quantas vezes passou esta expressão pela minha cabeça nos últimos anos. Acho que percorri a minha vida à procura de casa. E o que descobri até agora é que a nossa "casa" pode não ser o sítio onde descansamos "os ossos", mas sim o lugar onde descansamos o nosso coração e a nossa alma…
    E sim… não há local igual à nossa casa. E quando a descobrimos é maravilhoso.

    Um beijo enorme ao Pedrinho que defende com a sua honra a honra do rei

    • Ruthia 16 Outubro, 2014 em 22:08 - Responder

      Partilho essa concepção de lar. Acho até que, para além de Guimarães, sentir-me-ei em casa no momento em que puser o pé na Namíbia. Mas só indo lá para confirmar a teoria… Enquanto andar "na estrada", casa será onde estiver a família!
      Muitos beijinhos

      P.S. Sim, é a Tereza que está cá de visita

    • Joana 16 Outubro, 2014 em 22:27 - Responder

      Acho que só consegui acalmar a alma no dia em que encontrei "casa". Mas "casa" pode não ser apenas um sítio físico. "Casa" pode ser uns olhos ou uns braços 😉

  8. Renata Rodrigues 17 Outubro, 2014 em 17:32 - Responder

    Oi…Tudo bem?
    Meu nome é Renata Rodrigues e gostei muitooo do blog!!!
    Gostaria que conhecesse o meu http://rodrigues-renata.blogspot.com.br/ da uma passadinha por lá…
    Vou adorar a sua visita!!!

    Agradeço desde já a atenção!!
    Beijos

  9. Sissym Mascarenhas 17 Outubro, 2014 em 20:40 - Responder

    Ruthia,

    O seu post me fez lembrar das recordações de meu pai, ele contava historias de sua infancia e juventude vividas em Braga e Guimaraes. Tenho vontade, quem sabe, de conhecer um dia.

    Bjs

    • Ruthia 18 Outubro, 2014 em 8:05 - Responder

      Fadinha, tem que trazer o seu pai para revisitar esses lugares, que estão muito diferentes claro. Não sabia que tinha uma costela minhota…
      Mil beijos

  10. Isa Lisboa 17 Outubro, 2014 em 22:07 - Responder

    "There is no place like home", mas "home is were your heart is"

    🙂

  11. AC 17 Outubro, 2014 em 22:17 - Responder

    Ruthia,
    Tocou-me, particularmente, essa coisa de se saber o lugar a que se pertence. Talvez seja um pouco de inveja, não sei bem, o que é certo é que, no que me diz respeito, qualquer lugar com forte presença de elementos naturais poderia ser o meu lugar. É por isso que as montanhas me dizem muito, embora me sinta bem na orla marítima. Mas sem muitas casas, embora isso seja cada vez mais raro.
    Um bom regresso a casa! 🙂

  12. Clara Lucia 18 Outubro, 2014 em 1:13 - Responder

    Ruthia, fiquei cá pensando… não sei se me adaptaria a trocar tanto de lugar assim. Me descobri metódica demais, rotineira e chata. Imagina ter que largar um lugar que cultivei carinho e afeto? Sofreria muito… rs
    Um ótimo fim de semana, beijos!

  13. Toninho 19 Outubro, 2014 em 22:15 - Responder

    Como não amar lugar tão belo e cheio de historias?
    Linda viagem pude fazer amiga.
    O clip é fantástico.
    Grato pela linda partilha.
    Uma semana abençoada a vocês.
    Carinhoso abraço amiga.
    Beijo de paz.

  14. A. Vagamundos 20 Outubro, 2014 em 11:55 - Responder

    Por muito mundo que se veja não há de facto lugar como a nossa casa. E Guimarães é uma casa muito bonita 🙂
    Beijinhos nossos

  15. Stephanie 21 Outubro, 2014 em 1:17 - Responder

    Ruthinha, que lugar mais interessante. Eu não conheci Guimarães, mas pude perceber que sua "casa" é uma terra rica de cultura e histórias, né?! Pedrinho é um menino de muita sorte, desde pequeno em contato e sabendo respeitar todo o passado pois sem ele hoje não seríamos nada!!!
    Beijinhos, Té
    http://www.bloglola.com.br

  16. M. 23 Outubro, 2014 em 14:00 - Responder

    A minha casa não tem cortinas e a anterior também não tinha. Só espero não ter vizinhos voyeur…
    Guimarães: visitei-a algumas vezes em criança com os meus pais e, recentemente, fui lá 2 vezes almoçar a um restaurante muito bom, de que nunca me lembro o nome, e que fica nas traseiras de um centro comercial. Acho uma cidade muito bonita, limpa e organizada!
    Beijoquinhas 🙂

  17. Marisa Pereirinha 26 Outubro, 2014 em 19:13 - Responder

    Que lugar deslumbrante Guimarães!!! Andei Portugal de Norte a Sul, mas não tive tempo de conhecer, mas na próxima vez, com certeza irei. Te aviso e você me espera com um bom vinho, enquanto isso, vou viajando com você daqui mesmo.

  18. Olinda Melo 17 Novembro, 2015 em 17:50 - Responder

    Recuei quase instantaneamente aos tempos anteriores a Afonso Henriques, os de Vímara Peres e de Mumadona Dias. Naquela altura ainda se preparava o nosso "berço". Passeei de novo por Guimarães ao ritmo do seu relato, vivo e ágil, e… posei para a fotografia ao pé do seu Pedrinho, ali onde há uns tempos também eu procurei eternizar o momento.

    Bj
    Olinda

  19. Nativos do Mundo 28 Março, 2016 em 21:48 - Responder

    Ruthia, seus textos me encantam!
    Já fiquei com vontade de conhecer Guimarães!
    Bjo grande e boa semana pra você!

Deixe o seu comentário