Rota dos Gigantes 3: Viana do Castelo

Os vales do rio Lima são férteis em homens aventureiros. Hoje conhecemos mais um, que partiu de Viana do Castelo para descobrir a Terra Nova, perto do Canadá, onde Portugal ainda pesca muito do seu bacalhau.

Iniciámos a Rota dos Gigantes do vale do Lima em Ponte da Barca, pela mão do navegador Fernão de Magalhães (aqui), seguindo depois as pisadas do jesuíta Francisco Pacheco numa das vilas portuguesas mais velhinhas (aqui). Hoje chegamos à foz do rio para apresentarmos outro descobridor, de seu nome João Álvares Fagundes.

A sua figura fita o horizonte na marina, peito aberto, como que a ouvir o apelo que o lançou no Atlântico, numa aventura que financiou do seu bolso e o levou até às águas geladas da Terra Nova e do golfo de S. Lourenço (perto da costa do Canadá) no século XVI.

Tudo começou com um povo que se habituou a comer bacalhau, desde que D. Dinis fez um tratado com Inglaterra. Como o consumo crescia, houve um vianense que resolveu procurar um novo poiso do célebre peixe. O nobre Fagundes contribuiu para o consumo do bacalhau em terras lusas, ao garantir direitos sobre uma importante zona de pesca. Nós e as nossas 1001 maneiras de fazer bacalhau agradecemos, ou não fôssemos o país com maior consumo per capita do mundo.

Vamos conhecer a terra natal do capitão da Terra Nova (de acordo com a carta régia de D. Manuel)?

Viana do Castelo, que também responde pelo nome de “princesa do Lima”, tem longa tradição marítima, se recordarmos que Gonçalo Velho, um dos primeiros navegadores do Infante D. Henrique, também nasceu na região.

Aliás, a estátua de uma mulher com roupas ondulantes e uma caravela na mão simboliza a cidade e esta sua vocação marítima. Aos pés da escultura pétrea em estilo rococó estão quatro bustos: são os quatro cantos do mundo até onde os marinheiros e mercadores locais viajaram.

Comecemos este roteiro onde o Lima se fina no Atlântico, passagem guardada pelo forte de Santiago da Barra, seguindo sempre à beira-rio até avistarmos a estátua do nosso descobridor e o navio-hospital Gil Eannes.

Este velho navio foi construído na cidade na década de 50, quando os estaleiros de Viana eram famosos e pujantes, para apoiar as frotas bacalhoeiras na Terra Nova e Gronelândia. Depois de quase ter virado sucata, foi recuperado na cidade e abriu ao público como museu.

 

 

Exploradas as entranhas da embarcação (reservem uma hora, pelo menos), seguimos para o centro histórico, passando pela rua Grande onde o nosso descobridor nasceu, até à Sé, onde repousam os seus restos mortais. E dali o passeio é belíssimo até à Praça da República, com o seu grande chafariz, os antigos Paços do Concelho e a Misericórdia.

Fazemos aqui uma pausa na rota para entrar na galeria da Santa Casa da Misericórdia e visitar a exposição de fotografia sobre a ilha de Moçambique, simpaticamente guiados pelo seu autor, Oliveira Martins. O seu olhar prova a capacidade do ser humano ver beleza, mesmo em tempo e cenário de guerra.

Mesmo ao lado do edifício começa o Passeio das Mordomas, particularmente rico em casas senhoriais de arquitectura manuelina, esse estilo que celebra de forma tão bela a época dourada dos Descobrimentos.

Terminamos o dia no alto do Monte de Santa Luzia, na basílica que coroa a cidade de Viana do Castelo, subindo ao zimbório, nada adequado para claustrofóbicos, para apreciar a vista arrebatadora que mereceu aplausos da National Geographic: dali se vê todo o vale do Lima, verdinho e bucólico, atravessado pela ponte da conceituada casa Eiffel, até ao mar de onde as caravelas vianenses partiram em busca de tesouros e aventuras…

 

 

Navio-hospital Gil Eannes: aqui | 9.30h às 18.00h (Inverno) | Bilhete: 4€ (a partir dos 6 anos)
Exposição Ilha de Moçambique: até 15 de Novembro na galeria da Santa Casa da Misericórdia | Entrada grátis
Basílica de Santa Luzia: aqui | todos os dias das 8h00 às 17h00 (Inverno) |Entrada grátis; bilhete para a subida ao zimbório 1€

 

Quando ir
Viana do Castelo pode ser bem ventosa, pelo que a altura mais agradável para visitar é na Primavera/Verão. Em Agosto acontece uma grande romaria, que atrai visitantes de todo o país em busca do colorido das festas minhotas e dos trajes tradicionais: a Senhora da Agonia.

Como chegar
A menos de uma hora do Porto, a cidade tem bons acessos rodoviários, a partir da auto-estrada A28. Para além disso, a linha do Minho, que liga o Porto a Vigo (Espanha), permite chegar de comboio.

Onde comer
Como em todo o Minho, a mesa é farta em Viana do Castelo. Nós almoçámos no restaurante do Museu do Chocolate. Apesar de não ser propriamente barato, o conceito é inovador e o serviço atencioso. Com algumas pequenas afinações – meus senhores, é imperdoável não terem mousse de chocolate – pode tornar-se um restaurante de referência.

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2019-07-16T10:44:04+00:00

32 Comments

  1. Aninha 13 Novembro, 2017 em 17:42 - Responder

    Adoro quando história e viagem se encontram, é a única forma que eu consigo aprender alguma coisa para ser sincera rs… que pôr do sol estonteante!!! Amei

    • Berço do Mundo 21 Novembro, 2017 em 21:30 - Responder

      Viajar é a forma mais prazerosa que conheço de aprendermos. Daí fazer questão de levar o meu filho nas minhas aventuras, desde muito pequeno.
      Grata pela sua visita e amável comentário

  2. Marcia Picorallo 14 Novembro, 2017 em 3:29 - Responder

    Ruthia, gosto muito de ler seus relatos, pelas historias, pelo sotaque 'português de Portugual', como dizemos por aqui (eu leio os blogueiros portugueses com sotaque rsrsrs) e as imagens lindas que compartilha – a que abre o post, especialmente.

    • Berço do Mundo 14 Novembro, 2017 em 7:31 - Responder

      Eu também ponho um pouco de sotaque quando leio blogs brasileiros 🙂
      Obrigada pela visita e pelo amável comentário

  3. ✿ chica 14 Novembro, 2017 em 8:56 - Responder

    Muito lindo tudo.Adoro aprender aqui e conhecer mais e mais! bjs, chica

  4. Rui Pires - Olhar d'Ouro 14 Novembro, 2017 em 10:46 - Responder

    Gostei muito de mais esta partilha, muito bem elaborada!
    Gosto muito de Viana, quero voltar em breve.
    Fico a aguardar pelas notícias sobre esse restaurante do Museu do Chocolate, muito curioso…
    Bjs

    • Berço do Mundo 14 Novembro, 2017 em 13:57 - Responder

      Já não visitava Viana há uns 20 anos e gostei do rumo que a cidade está a levar. A frente ribeirinha está muito agradável.

  5. Marta Iansen 14 Novembro, 2017 em 11:12 - Responder

    Com essa localização, os rumos só podiam estar no oceano… Estou à espera do post sobre o Museu do Chocolate.

    • Berço do Mundo 14 Novembro, 2017 em 13:58 - Responder

      O apelo do mar é muito grande. Com uma linha costeira tão grande, não admira que esta nação parisse tantos e tão notáveis navegadores e aventureiros.

  6. Alessandra 14 Novembro, 2017 em 13:50 - Responder

    Adorei, Ruthia. A começar pelo nome Rotas dos Gigantes. Viajei com você nessa história maravilhosa. Obrigada por contá-la! Abraços do Brasil!

  7. Deisy Rodrigues 14 Novembro, 2017 em 16:20 - Responder

    Como sempre com roteiro imperdíveis em Portugal, já fiquei com vontade de conhecer Viena do Castelo e explorar essas ruas e apreciar toda a história, parabéns pelo post.

  8. Elvira Carvalho 14 Novembro, 2017 em 22:55 - Responder

    Gostei muito de conhecer Viana do Castelo, a igreja de Santa Luzia e a magnífica vista que os nossos olhos alcançam lá de cima. Infelizmente fomos muito mal servidos com a comida, e isso deixou-nos uma má recordação.
    Um abraço

    • Berço do Mundo 17 Novembro, 2017 em 7:29 - Responder

      A sério Elvira? Que pena, até porque no Minho se come, de uma maneira geral, muito bem. Tem que voltar para criar uma nova recordação da cidade.
      Abraço

  9. Uma excelente reportagem com belas fotografias de Viana do Castelo.
    Uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

  10. Angela Castanhel 17 Novembro, 2017 em 0:34 - Responder

    Adorei o relato, parece um lugar rico em história. Além do mais, suas fotos estão lindas (aquele povo ali deu vontade de comer). Bjss

    • Berço do Mundo 20 Novembro, 2017 em 19:25 - Responder

      O polvo é um dos meus pratos preferidos e estava realmente uma delícia. Só que devia ser polvilhado com grué moído (semente do cacau, fermentada, seca e torrada) e não tinha.
      Acho que o restaurante está em fase de transição de chef e da carta, precisa algumas afinações…

  11. Caroline Possidonio 17 Novembro, 2017 em 12:18 - Responder

    Muito interessante o seu post, bem completo. Adoro conhecer lugares com história pra contar, fica tudo mto mais interessante.

  12. Paula Medina 17 Novembro, 2017 em 12:55 - Responder

    Que história mais linda, sério mesmo! fiquei viajando ao ler o seu post! parabéns pelo capricho e pelas dicas!

  13. Gisele 17 Novembro, 2017 em 14:03 - Responder

    Acho sensacional a maneira como você mescla história com os destinos turísticos! Parabéns pelo trabalho tão único! <3

    • Berço do Mundo 17 Novembro, 2017 em 18:52 - Responder

      Muito obrigada pela sua amável visita e comentário. É muito bom receber este tipo de feedback. Na verdade, esta rota pede mesmo apontamentos históricos já que foram personagens históricos que inspiraram a criarem a rota dos gigantes do vale do Lima.

  14. Vivi na Viagem 17 Novembro, 2017 em 17:25 - Responder

    Adorei o seu relato! Quanta história e beleza reunidos em um único lugar. Esse post só me prova que preciso conhecer Portugal urgentemente. Bjs

  15. Jaime Portela 17 Novembro, 2017 em 18:52 - Responder

    Como é a "minha" cidade, nem sei comentar…
    Em qualquer caso, este post é mais um magnífico trabalho.
    O Museu do Chocolate é mesmo bom, ainda que não seja económico…
    Não tão bom, mas com uma boa vista para o mar e mais barato, é o Scala, na Praia Norte. Mas há muitos mais…
    Bom fim de semana, amiga Ruthia.
    Beijo.

    • Berço do Mundo 17 Novembro, 2017 em 21:32 - Responder

      Vou apontar essa dica sobre o restaurante na Praia Norte, para uma próxima visita. O pequeno explorador adorou o Museu do Chocolate!

  16. Blog Fui ali 17 Novembro, 2017 em 21:43 - Responder

    Gostei muito desse post! Tudo muito bem explicadinho e fácil de entender! O local é realmente encantador <3

  17. Unknown 19 Novembro, 2017 em 13:30 - Responder

    Adoro posts que saem do lugar comum de só descrever o local, mas que completam a experiência com a história e nos faz sentir até os sabores da região. lendo teu relato, me senti realmente viajando contigo!

    • Berço do Mundo 19 Novembro, 2017 em 20:46 - Responder

      O Berço não gosta muito de lugares comuns… mas às vezes todos cometemos esse pecado. Seja bem-vindo(a).

  18. AC 20 Novembro, 2017 em 14:47 - Responder

    Gostei do roteiro, Ruthia, sempre em crescendo, a terminar em apoteose no Monte de Santa Luzia.
    Muito bem!

  19. Unknown 22 Novembro, 2017 em 11:18 - Responder

    Adorei o post, inclusive amo fazer tours que têm história pra contar, ainda mais história sobre as origens do lugar.
    O Bacalhau de vocês deve ser um sonho de tão gostoso, ainda quero prová-lo aí em Portugal!
    A rota dos Gigantes deve ser incrível, Ruthia, pois ao menos o roteiro é super interessante.Beijos, Paula Abud.

  20. Viajando Sem Medo 23 Novembro, 2017 em 0:49 - Responder

    Adorei sua experiencia, quero muito conhecer Portugal. Beleza com fotos lindas em um só lugar.

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