“De Marvão vê-se a terra toda” escreveu Saramago, na sua Viagem a Portugal. Perdoe-se a hipérbole: do castelo é difícil descortinar até onde a vista alcança. Venha daí descobrir uma das mais encantadoras vilas alentejanas

A quase 900 metros de altitude e sobre as costas de um dragão pétreo que a defendeu durante séculos, Marvão convida à contemplação. O melhor da vila é mesmo a paisagem, com campos ondulantes que se estendem da Serra de S. Mamede até Espanha. Afinal, o país vizinho não fica muito longe.

As íngremes encostas fizeram deste um ponto de defesa natural, facto que inspirou lendas e não passou despercebido a reis e conquistadores. Ali se fundou a cidade de Ammaia na época do imperador Augusto. A fortaleza serviu também de refúgio ao muladi Ibn Marúan (a quem se deve o nome “Marvão”) no período em que a Península Ibérica esteve sob domínio islâmico, até ser tomada por D. Afonso Henriques, no século XII, e reconquistada definitivamente no século seguinte.

Mas o passado militar fica esquecido perante a pacatez da actual Marvão, uma das mais bonitas localidades alentejanas, com apenas meio milhar de habitantes, se considerarmos toda a vila. E o número desce para uma mera centena de habitantes, ultrapassada a Porta de Rodão, para o interior das muralhas.

Terra de castanhas, azeite e cogumelos, Marvão prova que o Alentejo não é feito apenas de secas planuras.

 

paisagem de Marvão

 

Há que percorrer as suas ruas estreitas para descobrir recantos, um pelourinho manuelino, arcos góticos e varandas de ferro forjado. Há que parar em cada esplanada, em cada trecho de muralha, para nos perdermos no horizonte e nos sentirmos quase pássaros.

Altitude é sinónimo de vento. Diz-se que Marvão é tão ventosa que, antigamente, não se conseguiam segurar as telhas nem com pedras e, por isso, as casas não tinham chaminés. Será verdade? Num dia abrasador, é difícil imaginar que os marvanenses tivessem que respirar o fumo das lareiras, por falta de chaminé…

O que visitar em Marvão

O Castelo de Marvão, principal atracção da vila e monumento nacional, vê-se ao longe. É um dos muitos guerreiros de pedra do Alentejo, importantes na defesa do reino e nas disputas internas do governo português.

Para além de percorrer as muralhas e subir à torre de menagem, vale a pena visitar a cisterna, no interior do recinto. É uma das maiores em Portugal (10 metros de altura por 46 de comprimento), com capacidade de acumular água e abastecer a localidade durante seis meses, em caso de cerco. Possivelmente esse foi um dos motivos pelos quais Marvão chegou a ser considerada a praça-forte “mais inconquistável de todo o reino”.

Obviamente, a vista a partir da torre mais alta é impressionante, apreciar ali um pôr-do-sol deve ser memorável. Li algures que a entrada no castelo é gratuita à noite, mas não há qualquer informação que o confirme, no site do Município. Mas tenho a certeza que será muito agradável passear nos jardins ao lado, numa noite de Verão.

 

cisterna no castelo

Interior do castelo

 

Em frente fica a antiga Igreja de Santa Maria, hoje transformada em Museu Municipal. Sugiro uma pausa para apreciar a colecção que permite conhecer um pouco melhor a história de Marvão: há por lá arte sacra, arqueologia e etnografia.

Dica: o bilhete para visitar o castelo custa 1,50€ (adulto), mas existe um bilhete conjunto de 3,30€ (preços de Agosto de 2019) que permite visitar, para além do Castelo, o museu municipal, a singela Igreja de São Tiago e ainda a Casa da Cultura.

Por falar na Casa da Cultura, refira-se que esta fica num edifício histórico, onde funcionou o tribunal e a prisão.  A sala do tribunal está muito bem preservada e recebe algumas exposições temporárias. Quando estivemos ali, havia uma exposição dedicada a Mouzinho da Silveira, esse ilustre legislador que figurou nas antigas notas de 500 escudos e que foi juiz em Marvão.

Já fora das muralhas, pode visitar-se o pequeno convento gótico da Senhora da Estrela, antes de rumar para o museu e sítio arqueológico Ammaia, Cidade Romana a meia dúzia de quilómetros, na freguesia de São Salvador de Aramenha (3€ bilhete de adulto). O resultado das escavações estende-se por uma área considerável, é mesmo necessário atravessar a estrada nacional para ver os vestígios do Fórum romano.

 

Museu Municipal de Marvão

Detalhe no Museu Municipal de Marvão

Ammaia cidade romana

Sítio arqueológico de Ammaia

Dicas úteis

Como chegar

A vila de Marvão fica entre Castelo de Vide e Portalegre, a poucos quilómetros de Espanha, no ponto mais alto da Serra de São Mamede. Sendo uma vila medieval intramuros, com ruas estreitas e poucos lugares de estacionamento, recomenda-se deixar o carro no parque exterior, junto à entrada das muralhas.

De Lisboa, apanhar a A2 em direcção ao Sul e depois a A6 em direcção a Espanha. Sair para Estremoz, apanhar o IP2 em direcção a Portalegre e depois a N246 e N349 (a viagem demora cerca de 2h30). A Rede de Expressos tem um autocarro diário até Marvão, com saída da estação de Sete Rios: a viagem demora 4h20 e custa 16,60€ por trajecto.

Do Porto, seguir pela A1 para Sul, sair para a A23 em direcção a Torres Novas. Depois apanhar o IP2 em direcção a Portalegre e a N246 e N246-1 para Marvão. Também é possível chegar com a Rede de Expressos, mas exige mudança de autocarro e torna-se uma jornada longa, e cansativa, de mais de 10 horas.

 

mapa

 

estrada para Marvão

A linda estrada entre Marvão e Castelo de Vide

Quando visitar

Com um Inverno rigoroso e um Verão escaldante, a melhor época para visitar Marvão é durante a Primavera ou o Outono. A vila acolhe, no entanto, alguns eventos que podem tornar a visita interessante no Verão. É o caso do Festival Internacional de Música de Marvão (música clássica), que normalmente ocorre em Julho, graças ao maestro alemão Christoph Poppen, que se apaixonou pela vila e se mudou para lá.

Em Novembro acontece a Festa do Castanheiro (inclui uma feira da castanha e uma quinzena gastronómica), um evento que os bons garfos adoram. Esta é a oportunidade para conhecer a vila e também os muitos produtos à base de castanha, um dos produtos maiores da terra: pão de castanha, bolachas de castanha, compota de castanha, bombom de castanha, toucinho do céu de castanha, beijinhos de castanha, mil folhas de castanha, cerveja de castanha

Onde ficar

Nós não pernoitámos em Marvão, mas tendo em conta a localização e a avaliação do Booking, recomendamos o El-Rei Dom Manuel Hotel (3 estrelas) e a Pousada de Marvão (4 estrelas).

 

Onde comer

Nós almoçámos no restaurante Varanda do Alentejo porque, segundo opiniões confirmadas por vários habitantes, é um bom lugar para comer comida alentejana com uma vista fantástica. O Pedrinho comeu um arroz de poejo bem tradicional, com carne grelhada (menu infantil). Eu optei por umas sardinhas assadas com pimentos que, não sendo um prato típico do interior do Alentejo, estavam impecáveis.

Rematámos com uma maravilhosa sericaia, um dos doces alentejanos mais tentadores. Eles trouxeram a versão tradicional (servida com ameixa) e outra versão com castanha. Gostei mais da versão original, confesso. Paguei 21,30€ com pão, pratos principais, sobremesa e água local purificada. O restaurante tem vários menus a 13,90€ por pessoa.

 

A maravilhosa sericaia

 

Também nos recomendaram o restaurante da Casa do Povo, para comer uma refeição caseira a um preço razoável, e o Castelo – Café Lounge para refeições mais ligeiras, como sandes, saladas ou uma tábua de queijos, presunto e azeitonas.

Têm outras sugestões? Acrescentem nos comentários.

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