Atualizado em 13 Setembro, 2023

“Veja com olhos apaixonados uma paisagem que Deus não quis fazer sozinho”. A força do slogan do Turismo de Portugal reside na sua verdade: a paisagem do Douro foi forjada por agricultores, o solo foi esventrado, murado, ordenado, em nome do melhor vinho do mundo.

Tanto o vinho do Porto como os afamados vinhos de mesa provêm dos socalcos que rodeiam o rio Douro e os seus afluentes, onde muros de xisto suportam alas de videiras carregadas com gordos cachos.

Para além da qualidade do néctar de Baco, que o Marquês de Pombal  transformou na região vinícola demarcada mais antiga do mundo (1756), as paisagens esmagadoras do vale do Douro atraem muitos visitantes. Ou não fosse esta uma das regiões mais bonitas do país, protegida pela Unesco, que a elevou à categoria de Património da Humanidade em 2001.

Porque o Douro tem muitas facetas, eis alguns dos meus recantos preferidos, que talvez vos inspirem a sair de casa e explorar a região. Começamos na fronteira, porque o Douro começa por ser espanhol como (quase) todos os grandes rios portugueses.

Miranda do Douro

O Parque Natural do Douro Internacional é uma zona protegida na fronteira entre Portugal e Espanha, com desfiladeiros profundos e escarpados. Para além das lindas paisagens, este é um lugar riquíssimo em termos de fauna, já que muitas aves nidificam nestas arribas inacessíveis: grifos, abutres do Egipto, cegonhas-pretas, águias…

A Europarques realiza um cruzeiro ambiental com partida em Miranda do Douro, que permite conhecer um pouco da região. Eu já fiz um cruzeiro com eles no lago glaciar de Sanabria e recomendo.

E já que aqui estamos, porque não explorar a estranha e mítica Terra de Miranda onde existe uma catedral sem bispo e um menino Jesus que usa cartola? Onde os homens vestem saias e xaile para a Dança dos Pauliteiros e se fala mirandês, a segunda língua oficial do país?

Santa Marta de Penaguião

Estive pela primeira vez em Santa Marta de Penaguião aquando da apresentação do Caminho Português de Santiago Interior e fiquei encantada com a hospitalidade daquela gente. As tradições da pacata vila estão muito ligadas à viticultura, o que desconfiámos logo que vimos uma garrafa gigante numa das suas rotundas.

Santa Marta de Penaguião integra o percurso da N2 e também a região do Marão, para além do Douro vinhateiro com as paisagens que já conhecemos, e adoramos, para desfrutar de vários miradouros. É o caso do miradouro de Santa Bárbara (Cumieira), um dos pontos mais altos do concelho, com capela e um parque de merendas renovado, da vista da Senhora dos Remédios (Medões), ou os miradouros de São Pedro e do Fial (São João de Lobrigos).

Várias quintas locais, como a Quinta da Chaquedas e Quinta Senhora da Graça, recebem turistas durante as vindimas. Se visitar a região no verão, recomendamos um mergulho na praia fluvial do Fornelo e fazer um dos vários percursos pedestres disponíveis.

Merenda digna de um trabalhador das vindimas, em Santa Marta de Penaguião

Vesúvio

Das muitas quintas ao longo do Douro que organizam visitas, esta é uma das mais isoladas e bonitas.

Nas mãos da família Symington que tem uma longa tradição na produção vinícola desde o século XIX (produz marcas como Graham’s, Cockburn’s, Dow’s ou Warre’s), a casa foi sempre usada como escritório, pelo que a entrada se faz pela cozinha. Foi a D. Antónia, conhecida como a viúva do Douro ou Ferreirinha, que catapultou a Quinta do Vesúvio para os píncaros do Olimpo vinícola.

Para além da casa e do apeadeiro do comboio, não há mais nenhum motivo para conduzir até ao Vesúvio, já que a estrada termina aqui!

© Quinta do Vesúvio

Estrada Nacional 222

Em 2015, o trecho entre o Pinhão e a Régua da Estrada Nacional 222 (N222) foi eleito World Best Driving Road, a melhor estrada do mundo para se conduzir. Isto apesar de contar com mais de 90 curvas, ao longo de 27 km.

A linda paisagem – “de cair o queixo”, justificou na altura a organização do prémio – sobre o rio foi a motivação desta distinção, numa zona onde a nobreza do Douro é superior. Rio e estrada unem-se neste percurso encantador, atravessado por vinhas e várias quintas que se podem visitar.

Quem vem de S. João da Pesqueira em direção à Régua, antes de apanhar a EN222, pode apreciar a paisagem estonteante a partir de vários miradouros, mas nem todos são tão práticos de estacionar como este do Frei Estêvão.

Miradouro de Frei Estêvão, na estrada N222

Um cruzeiro até Peso da Régua

A partir do Pocinho, é possível embarcar num cruzeiro, descendo o rio até à Régua. Os barcos oferecem uma perspectiva diferente do Douro e este troço em particular ainda permite apreciar três eclusas (Pocinho, Valeira e Bagaúste), que descem o barco para um nível trinta metros abaixo.

A oferta é muita, pelo que vale a pena pesquisar um pouco sobre o tipo de viagem que preferem. Devo dizer que o único cruzeiro que realizei me dececionou um pouco, por causa da quantidade de pessoas envolvidas no passeio e do barulho tipo arraial que acompanhou o percurso. Nada contra o “apita o comboio” ou “os peitos da cabritinha”, só preferia uma experiência mais silenciosa, mais em comunhão com a natureza que desfilava nas margens.

Chegados à Régua, vale a pena conhecer o Museu do Douro, não só pelo enquadramento histórico à região duriense e à produção vinícola, mas também pelo seu wine bar, onde o Pedro dedilhou umas notas no grande piano de cauda e eu beberiquei o meu vinho do Porto (degustação incluída no preço), sentada junto a um dos janelões com vista sobre o rio.

O edifício onde o museu está instalado foi sede da Real Companhia Velha, detentora do monopólio do vinho do Porto até ser extinta no século XIX. Daqui as pipas seguiam por barco para o Porto. E era também neste edifício que se julgavam os casos de adulteração do vinho do Porto, com penas que podiam ir dos meros açoites à pena de morte.

Infelizmente, o exterior do edifício está a precisar de uma urgente conservação (que tristeza ver o património histórico neste estado).

#Atualização: regressei ao museu do Douro em setembro de 2022 e achei que o edifício estava melhor mantido. Para além disso, havia novas exposições e um bar instalado no exterior.

Antes de deixar Peso da Régua, sugiro que suba ao miradouro de São Leonardo de Galafura, que apaixonou o nosso escritor Miguel Torga, que lhe dedicou um poema.

sendo

Miradouros de São João da Pesqueira

São João da Pesqueira afirma estar no coração da região demarcada do Douro, “onde nasce o famoso Vinho do Porto e vinhos de mesa de prestígio incomparável”. Para além das vinhas, que estão no cerne da sua identidade e que motivaram a criação de um Museu do Vinho, vale a pena recordar que esta é também uma região de amendoeiras, que oferecem um espetáculo por altura da floração.

É verdade que o concelho possui diversos miradouros com paisagens lindas, numa sucessão infinita de encostas rasgadas em socalcos que os homens desenharam. É o caso do miradouro de Frei Estêvão, que facilmente se encontra numa descida da N222, mas também os belíssimos miradouro de São Salvador do Mundo e miradouro da Vargela, que pode ver na imagem abaixo.

Em São João da Pesqueira encontra também uma série de quintas preparadas para o enoturismo, onde se destaca a prestigiada Quinta do Ventozelo, onde é possível ficar alojado ou simplesmente desfrutar de uma primorosa refeição e os sabores característicos do Douro no restaurante “Cantina do Ventozelo”.

Vila Nova de Foz Côa

Vila Nova de Foz Côa fica em território xistoso do Alto Douro vinhateiro, mais precisamente no enlace dos rios Douro e Côa. Para além do vinho, este concelho é conhecido como a capital da amendoeira e organiza todos os anos a Festa da Amendoeira em Flor, uma das muitas sugestões que constam no nosso artigo Primavera em Portugal, dicas para viajar e ser feliz.

Sem um património histórico esmagador, mas uma “vibe de aldeia” tranquila, a pequena cidade viu o seu nome percorrer mundo aquando da descoberta e classificação como Património Mundial da Humanidade das suas gravuras rupestres paleolíticas.

Este foi um dos maiores achados de arte rupestre da Europa e inspirou a criação do Museu do Côa, com vista maravilhosa para o vale que ficou famoso pelas pinturas rupestres, e faz parte da lista de Património Mundial da UNESCO em Portugal.

Caves em Gaia

O rio continua o seu caminho, indiferente à passagem dos humanos, ainda que a paisagem se vá urbanizando a partir da Régua. Mas a rota do vinho só termina quando o Douro encontra o mar, portanto alongamos a experiência até às caves em Vila Nova de Gaia.

Visitei as caves da Taylors numa tarde chuvosa de Inverno e ainda recordo esses momentos com muito aconchego, talvez por causa do vinho que regou a conversa com uma amiga.

Foi precisamente em Vila Nova de Gaia que abriu, no verão de 2020, o World of Wine com sete museus, galeria de arte, lojas e restaurantes que ocupam um quarteirão inteiro. Nós fomos visitar e escrevemos um post sobre o espaço que também poderá gostar de ler: WOW – World of Wine em Gaia

Para além destas minhas dicas, existe um mundo de possibilidades, nomeadamente um passeio no comboio histórico com locomotiva a vapor que sobrevive na linha do Douro e que se realiza entre Junho e Outubro.

Saiba ainda que o Turismo de Portugal identificou um conjunto de seis aldeias vinhateiras do Douro, com uma identidade duriense muito particular e que que podem inspirar um passeio: Favaios (Alijó) e Provesende (Sabrosa) na margem norte, Barcos (Tabuaço), Salzedas (Tarouca), Ucanha (Tarouca) e Trevões (São João da Pesqueira), na margem sul. 

Também acreditam que o Douro é de ouro? Contem-me o que mais gostam na região vinícola mais velhinha do mundo.

Quinta do Vesúvio: site
Museu do Douro: site (entrada: 6€ adulto / grátis para crianças até aos 12 anos)
Taylors: site
Comboio histórico: informações aqui