Atualizado em 28 Junho, 2022

Aldeias históricas e lendas misteriosas, praias fluviais e trilhos, geosítios surpreendentes e mesa farta. Rendemo-nos ao charme da Beira Baixa numa road trip que ficou longe de esgotar os encantos da região

Um roteiro na Beira Baixa pede tempo. Tempo para deambular pelas aldeias históricas e explorar fortalezas templárias, tempo para um copo de vinho à lareira, tempo para ouvir as crenças e lendas deste povo trabalhador, tempo para nos sentarmos em silêncio sob as estrelas, tempo à mesa para honrar os produtos regionais.

Três dias souberam a pouco, nesta terra onde se vive devagar, colada à fronteira com Espanha. Ainda assim, o convite para (re)visitar a região soou-nos irresistível. “Beira Baixa, onde nasce o sol e a felicidade”.

Fomos testar a hipótese formulada pelo turismo local e comprovamos que este território facilmente se transforma num caso sério de amor. Que exige que se regresse, uma e outra vez, por mais ou menos tempo, e sempre com o mesmo resultado: somam-se quilos na balança, subtrai-se o nível de stress das nossas vidas.

Esta é uma proposta de roteiro para 3 dias de road trip na Beira Baixa, com base na nossa experiência, mas que facilmente se transforma em 4 ou 5, já que damos outras sugestões para estender a sua estadia. Faça-nos companhia nesta viagem pelo Centro de Portugal.

Região da Beira Baixa | organizar a viagem

Historicamente, a província da Beira Baixa incluía 13 concelhos de três distritos diferentes, mas hoje está limitada ao distrito de Castelo Branco, no centro Este de Portugal. De acordo com a actual organização administrativa, a Beira Baixa engloba seis municípios, todos eles com muito para visitar. São eles Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Oleiros, Proença-a-Nova, Penamacor e Vila Velha de Ródão.

Dada a dimensão do território, um roteiro completo levaria pelo menos uma semana, mas três dias já permitem fazer uma bela escapadinha na Beira Baixa. A melhor altura para visitar a região dependerá do que pretende da experiência. A Primavera e o Outono são ideais para explorar os trilhos, fugir às multidões, apreciar a paisagem ou participar em alguns eventos.

No Verão é possível dar um mergulho nas maravilhosas praias fluviais beirãs, mas conte com dias muito quentes (a roçar ao desagradável), que exigem uma sesta ou pelo menos resguardo nas horas de maior calor. Lá diz o ditado que aqui se vive nove meses de Inverno e três de inferno.

No Inverno, os dias são curtos e frios, mas, por outro lado, as paisagens podem ser maravilhosas. E que maravilha é aproveitar uma lareira acesa e a comida de conforto, que tanto caracterizam a cozinha beirã.

Miradouro da Serra das Talhadas, em Proença-a-Nova.

Roteiro de três dias na Beira Baixa

Dia 1: aldeias históricas de Idanha

Começamos este roteiro no concelho de Idanha-a-Nova, talvez o que mais se adeque à descrição da Beira Baixa de António Salvado, o meu poeta local preferido. Sobre a sua terra, escreve que “as searas cruzam o granito e a voz do longe é feita de suor”; que a suave beleza solitária das oliveiras se destaca numa encosta e que as giestas oferecem uma estranha consolação, tão floridas em campos desolados (Interior à Luz, 1982).

Chegamos portanto a Monsanto, aldeia sulcada de histórias, onde o galo de prata, no topo da torre de Lucano, recorda o prémio de “aldeia mais portuguesa de Portugal”, atribuído nos idos do Estado Novo. As rochas confundem-se com as casas, as ruas apontam caminho para o topo, de onde se desfruta de uma paisagem magnífica, a 758 metros de altura.

É altura de nos perdermos nestas ruelas, sem rumo certo, mas acabando sempre por subir ao que resta do castelo, edificado sob as ordens de Gualdim Pais. Para além das rochas portentosas, aprecie a alcáçova, as muralhas e torres de vigia, as ruínas da Capela de S. Miguel e da Capela de Santa Maria do Castelo.

© Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa.

Fernando Namora, o médico-escritor, e Zeca Afonso, o nosso músico de intervenção, aqui tiveram um refúgio e procuraram inspiração. O escritor compôs aqui algumas das suas últimas obras e o músico inspirou-se no cancioneiro popular da Beira Baixa, gravando até uma versão da famosa “Senhora do Almortão”.

Mas o património vivo é ainda mais valioso: por exemplo, a D. Alice Gabriel, 91 anos, que recebeu em 1938 o galo de prata das mãos de Salazar e que ainda hoje faz marafonas e adufes.

Hoje celebra-se o solstício de Verão, pelo que rumamos até a um lugar mágico nos arredores de Monsanto. O eremitério de São Pedro de vir-a-corça está envolto em muitas lendas, talvez por causa da energia que aqui flui (dizem que está sobre uma falha tectónica) e das suas águas, onde as raparigas de Monsanto vinham lavar-se, para ficarem mais belas.

Foi uma noite memorável, com um jantar na quinta homónima e muitas histórias contadas pela noite dentro, sobre o lugar, os céus e o culto do sol.

#Dica d’O Berço: não deixe de visitar Idanha-a-Velha, uma das povoações mais ancestrais da rede de Aldeias históricas de Portugal. O concelho possui boas instalações termais (Termas de Monfortinho, cujas águas são particularmente úteis para os problemas de pele), acompanhadas de alojamento à altura, e muitos trilhos para se se aventurar na Natureza. A PR3 IDN – Rota dos Fósseis, em Penha Garcia, é uma das mais interessantes.

Dia 2: de Vila Velha de Ródão a Proença-a-Nova

O dia amanhece cinzento, mas não perturba este roteiro na Beira Baixa, até porque o barco que nos espera no cais fluvial de Vila Velha de Ródão tem uma ampla cabine interior. A Vila Portuguesa organiza estes cruzeiros no rio, passando pelas magníficas Portas de Ródão, monumento natural nacional, pelo Conhal do Arneiro, ilha dos pescadores e fonte das virtudes.

As Portas de Ródão são acidentes geológicos dignos de serem conhecidos. Trata-se de um estreitamento súbito das margens do Tejo, resultante de um processo muito lento, que começou a ganhar forma há mais de 2,5 milhões de anos, por efeito da erosão e acidentes tectónicos.

As escarpas abrigam aquela que é considerada a maior colónia de grifos (gyps fulvus) de Portugal, mas um olhar atento poderá revelar também abutres-do-Egipto, abutres-pretos ou cegonhas negras. Mas confesso que não passei muito tempo a observar aves, muito por culpa do almoço de peixe do rio que nos foi servido, ricamente regado com os vinhos do sul da Beira Baixa.

Curiosidade: lá no alto vigia ainda o castelo do Rei Vamba (ou Wamba), rei dos suevos ou visigodos. O povo fala da sua infeliz vida amorosa, pois a esposa apaixonou-se por um rei mouro que habitava do outro lado do rio. Descoberta a traição, a rainha foi atirada de uma escarpa, amarrada a uma mó do moinho. Dizem que, onde o corpo rolou, nunca mais cresceu vegetação…

Nessa tarde seguimos para a vizinha Proença-a-Nova, onde o sol dá o ar da sua graça para visitarmos a Serra das Talhadas.

O arquitecto Siza Vieira concebeu o miradouro, que aproveita uma torre de vigia para fins turísticos. Mas os amantes da natureza têm várias opções aqui: de parapente, para utilização pessoal ou com empresas turísticas, vários percursos pedestres, de BTT e BTT enduro, com diferentes níveis de dificuldade.

Existe ainda uma via ferrata, um itinerário vertical nas paredes rochosas da montanha, equipado com cabos de aço, grampos (presas) e pontes suspensas que permitem a ascensão com segurança a praticantes não habituados à escalada. Não fazia ideia do que era uma via ferrata, tampouco imaginava que esta é a mais extensa do país, com 11 sectores e um total de 2190 metros, mas gostei muito da ideia!

O concelho de Proença-a-Nova tem investido fortemente no turismo de natureza, com toda a razão, pois o seu território tem imenso potencial.

© Nós e o Mundo. Momento divertido na Serra das Talhadas.

Depois de uma visita rápida à Praia Fluvial da Fróia, seguimos para a castiça e pequenina Figueira, uma aldeia de xisto com apenas 15 habitantes, a maioria com mais de 90 anos de idade. A envolvência tranquila, as escadinhas que escondiam galinheiros, os cancelos do lobo, que se fechavam durante a noite encerrando as portas da aldeia, são detalhes que merecem a atenção neste breve passeio.

Leia também: Serra da Lousã, de visita às aldeias de xisto

O dia termina precisamente aqui na Figueira, com mais uma demonstração da força gastronómica beirã, na Casa da ti’Augusta, que ressuscitou com classe a cozinha do tempo dos nossos avós. Em breve, um artigo específico sobre todas as experiências gastronómicas beirãs.

#Dica d’O Berço: ainda em território de Proença, vale muito a pena visitar o Centro de Ciência Viva dedicado à floresta, enquanto fonte de bem-estar, fonte de vida e fonte de riqueza. Mais dicas sobre o que visitar no site do município de Proença-a-Nova.

Dia 3: Castelo Branco

O terceiro e último dia desta road trip na Beira Baixa é reservado ao centro histórico, museus e demais património de Castelo Branco. Um dia é suficiente para conhecer a capital de distrito, excepto se quisermos fazer um percurso pedestre nas redondezas, aproveitar uma das suas praias fluviais (do Sesmo, de Almaceda e da Taberna Seca) ou fazer um piquenique na Senhora de Mércoles.

Já há muitos anos que não caminhava pelo centro histórico de Castelo Branco e fui surpreendida por alguns detalhes: o percurso das portas quinhentistas, o caminho mágico entre o castelo e o miradouro de S. Gens, o mural inspirado nas tradições albicastrenses

Claro, é sempre um prazer voltar ao Museu Cargaleiro, ver as bordadeiras a produzirem novas peças no Centro de Bordados de Castelo Branco e deambular pelo barroco Jardim do Paço [Recorde Cargaleiro: alegres asas de cor]. A road trip terminou com mais um exagero gastronómico no restaurante Tábuas.come, num conceito de comida que se partilha.

Com certeza, vocês têm muitas outras sugestões para me dar sobre o que visitar na Beira Baixa. Não se esqueçam de as partilhar nos comentários.

Dicas úteis para explorar a Beira Baixa

Como chegar

A Beira Baixa é servida de bons acessos rodoviários, apesar da distância que a separa das grandes cidades do litoral: mais de 250km do Porto, 220km de Lisboa e 130 km de Coimbra até Castelo Branco. A auto-estrada A25 e A23 permite chegar do Porto à região beirã em cerca de 3h30, enquanto de Coimbra (seguindo a A13+IC8+A23) leva-se cerca de hora e meia.

De Lisboa deve apanhar a A1 e depois a A23. Neste caso, o primeiro concelho da Beira Baixa que encontra será Vila Velha de Ródão, pelo que sugiro começar o roteiro por aí, numa lógica circular: Vila Velha, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Penamacor, Oleiros e Proença-a-Nova.

O comboio passa em Vila Velha de Ródão e Castelo Branco (Linha da Beira Baixa), com ligações a partir de Lisboa, Porto ou Coimbra, que exigem transbordo. Para informações de preços e horários consulte o site da CP. A Flixbus, Rede de Expressos e Citi Express também ligam Lisboa/Porto a Castelo Branco. Contudo, não consegue fazer este roteiro de transportes públicos, pelo que sugerimos alugar carro.

Caminho que liga o castelo do miradouro de S. Gens, em Castelo Branco.

Comer na Beira Baixa

Na cozinha da Beira Baixa brilham os produtos destas serras: os queijos, os enchidos, as cabras. Entre as especialidades beirãs destaca-se a famosa “sopa de Laburdo” (com sangue de porco e vinagre), o maranho, o afogado da boda, o cabrito estonado com arroz de miúdos, o plangaio e as migas de peixe do rio com poejo, para citar apenas alguns.

Mas é preciso não esquecer os doces, da célebre tigelada, às papas de carolo, borrachões, bolos de azeite da Beira Baixa e arroz doce. Experimentei algumas destas iguarias em vários restaurantes locais, que souberam honrar os pratos tradicionais.

Na Quinta de São Pedro de vir-a-corça (Monsanto, Idanha-a-Nova) provei umas magníficas empadas de beldroegas com queijo de cabra e também papas de carolo, abrilhantadas com frutos silvestres e favo de mel. Os meus amigos carnívoros elogiaram bastante o borrego merino assado em forno a lenha.

A Vila Portuguesa (Vila Velha de Ródão) é o lugar certo para provar várias iguarias à base do peixe do rio: barbo, achigã, truta, fataça, lúcio-perca, savelha. E a Casa da ti Augusta (Proença-a-Nova) honra a tradição com os irrepreensíveis plangaio, maranho e afogado da boda. Depois de um maravilhoso pão caseiro, cozido nessa tarde no forno comunitário da aldeia, eu comi um prato de centeio com cogumelos muito bom, arrematei a refeição com tigelada e uma “gota” de licor de medronho, só para ajudar a digestão.

Onde dormir

Passámos a primeira noite desta road trip em Monsanto, no Monsanto GeoHotel Escola (***), um alojamento económico, simples e despretensioso, mas que precisa de alguma manutenção. Uma alternativa perto da aldeia, um pouco mais cara, mas bem mais charmosa, será a Quinta de São Pedro de vir-a-Corça.

Em Castelo Branco, fiquei no Meliá (****) e dormi muito bem: a qualidade do colchão e almofadas é muito boa (e eu até sou esquisita neste quesito). O hotel possui um SPA, com piscina aquecida, sauna e banho turco, e serve um pequeno-almoço bastante variado, pecando apenas pela qualidade do sumo de laranja.

Caso prefira passar uma noite em Proença-a-Nova, recomendo o Amoras Country House Hotel (****), com piscina exterior.

Nota: Esta viagem foi realizada a convite da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa.