A última casa de Camilo Castelo Branco

“Picado do génio e das bexigas”, descreveu Bordalo Pinheiro. Mas a eloquência disfarça a falta de atractivos. Pelo menos no caso de Camilo resultou.

 

Os tons dourados, outonais, emprestam uma doçura nostálgica a esta tarde de Sábado. Atravessamos o grande portão. A casa minhota desenha-se ao fundo de um caminho tranquilo, sombreado pelas vides carregadas. As uvas pendem, à espera da vindima que se avizinha. Apesar do génio literário ter morrido há 151 anos, ainda se apanham as uvas, certamente para fazer um belo vinho verde.

Faltam uns minutos para a próxima visita guiada (gratuita), pelo que nos quedamos pelo quintal, a admirar a paisagem. O horizonte é cortado pelo Monte Córdova, que Camilo Castelo Branco menciona numa das suas obras, colocando ali uma bruxa. Uma “bruxa de Córdova” apimenta logo um enredo, não concordam?

Em frente à casa, a “acácia de Jorge” mantém-se imponente, indiferente ao passar do tempo e ao incêndio que destruiu o edifício. Era o lugar predilecto do filho demente (por ter lido as obras de Teófilo Braga, dizia Camilo, que nutria um salutar ódio de estimação por aquele seu contemporâneo). Jorge refugiava-se ali para tocar flauta, apesar dos espinhos afiados.

 

caminhada camiliana

© Município de Famalicão. A autarquia tem promovido várias actividades  inspiradas no escritor, nomeadamente a “Caminhada Camiliana”.

 

Estamos em S. Miguel de Seide, concelho de Famalicão (distrito de Braga), onde o escritor viveu cerca de 27 anos e escreveu algumas das mais belas páginas de literatura portuguesa. Onde acabaria por morrer, pela sua própria mão. “O suicídio não é uma coragem vulgar. Suicidam-se os que se desprezam a si e ao mundo”, escrevera algures Camilo, antecipando o tiro de pistola que o libertou da cegueira (causada pela sífilis) e dos problemas financeiros.

A cadeira onde se suicidou ainda baloiça na sala de visitas. Uma mesa de jogo bastante puída, o piano que Ana Plácido tocava, as fotografias dos filhos nas paredes, enfeitadas também com alguns desenhos do filho louco, tudo congelou no tempo.

 
ilustração de "Amor de Perdição"

Os amores de Teresa e Simão revisitados em belas ilustrações, na Casa de Camilo

 

Mas o lugar mais importante da casa fica no piso de cima. Eis a mesa onde escreveu a maior parte dos seus livros, muitas vezes de pé. Camilo Castelo Branco foi o primeiro português a viver da escrita, talvez por isso a sua produção tenha sido tão fecunda (mais de 260 obras).

As estantes envidraçadas protegem o que restou da sua biblioteca pessoal, depois de ter vendido mais de quatro mil obras, por falta de dinheiro. “Cada livro que vendo é como um punhal no peito”. Como eu o entendo!

Da janela do seu quarto, a paisagem minhota irrompe, verde e festiva, apesar do Outono que se anuncia. Mas a cor foge, assim que se fecha a janela. A casa sossega, suspira, recordando uma família enamorada pelo infortúnio. Saímos pela adega, com um último olhar alcoviteiro sobre a vida doméstica de Camilo e Ana: uns botins da dona da casa, as famosas lunetas do escritor, umas luvas brancas, uma pistola…

Dicas úteis

A Casa de Camilo, no concelho de V. N. Famalicão, não é muito fácil de encontrar. Pela autoestrada A7, em direcção a Guimarães, apanhar a saída 6 (Seide) e depois a Estrada Municipal M573. Ou coloquem as coordenadas no GPS (N 41 23.816′ / W 008 27.816′) e façam figas. Fica a cerca de 20 km de Guimarães, a 33  km de Braga e a 55 km do Porto.

Horário: terça-sexta 10h00-17h30, sáb. e dom. 10h30-12h30 e 14h30-17h30 (encerra à segunda-feira e feriados). A entrada é gratuita.

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2020-02-12T08:47:12+00:00

20 Comments

  1. Elvira Carvalho 21 Outubro, 2014 em 21:04 - Responder

    Nunca tive hipóteses de estudar, e era um sonho que tinha entranhado na alma. O ano passado entrei para a Universidade da Terceira Idade. A professora de Literatura é de S. Miguel de Seide. Eramos para ir lá em visita de estudo, mas dada a distância teria que ser uma visita de dois dias, e dadas as idades dos alunos, e o facto de não querermos deixar os/as companheiros/as sozinhos em casa, gorou-se o passeio.
    Obrigada pela partilha.
    Um abraço
    http://6feira.blogspot.pt/

  2. Marta Iansen 21 Outubro, 2014 em 21:25 - Responder

    "Ódio de estimação"? Adorei…

  3. Joana 21 Outubro, 2014 em 23:02 - Responder

    Gostei da viagem por Camilo. Gostei da escrita dele quando a li na minha longínqua adolescência. Mas claro, e percebes perfeitamente, que me cativou o olho o teu PS ao post: o livro da Florbela Espanca. Tens um exemplar? Já sabes que esse tens mesmo de me emprestar 😀
    Beijo enorme

    • Ruthia 22 Outubro, 2014 em 6:43 - Responder

      Tenho um exemplar carinhosamente autografado pela autora. Claro que te empresto. E tb podemos ir à Casa de Camilo, quando me vieres visitar.
      Beijoca

  4. M. 22 Outubro, 2014 em 9:36 - Responder

    Ah………. Dizem que Camilo, mesmo no cárcere, nunca precisou de emendar uma frase, saía-lhe tudo "limpinho"! Adorei e saboreei este teu post, muito bem escrito!
    (Um aparte maldoso, ninguém está a ler isto: Ana Plácido nada devia à beleza…)
    Beijinhos 🙂

    • Ruthia 22 Outubro, 2014 em 14:20 - Responder

      Pois não. A foto dela que está na parede de uma das salas é muito esclarecedora. Mas uma feia e um bexigoso parecem-me um par muito interessante.
      Maldades inocentes aparte, "quem a feio ama, bonito lhe parece", verdade?
      Beijinho

  5. ✿ chica 22 Outubro, 2014 em 10:47 - Responder

    Beleza de viagem e mostraste, como sempre, muito bem. Quanto à Jussara, merece nosso carinho e desejo o maior sucesso sempre ! bjs às duas,chica

  6. Calu B. 22 Outubro, 2014 em 15:14 - Responder

    Este é um dos recantos de Portugal que lastimo não ter visitado.Admiro demais o ilustre Camilo Castelo Branco.Entre ele e Eça meu coração balança :)Dentre sua extensa e inigualável obra destaco A Queda d'um anjo.História preservada é história revivida.

    Belo e cativante passeio, Ruthia.
    Bjos mil,
    Calu

  7. Sissym Mascarenhas 22 Outubro, 2014 em 19:04 - Responder

    Uma viagem ao tempo e cultural!

    Bjs

  8. Mariazita 23 Outubro, 2014 em 17:36 - Responder

    Olá, Ruthia
    O grande Camilo, que enchia os nossos sonhos da adolescência e juventude!
    Nunca visitei essa casa, mais por… desleixo, talvez, porque sempre que íamos ao Porto (deixei de lá ir nos últimos 2 anos…) mas sempre fazíamos um fim de semana prolongado fora da cidade (do Porto).
    A próxima vez que lá for hei-de sugerir esse passeio.
    Fazes uma magnífica reportagem.

    Vou espreitar o link da Jussara. Sou FÃ (com maiúsculas!!!) da Florbela.

    Beijinhos, querida.
    Mariazita

  9. MARILENE 24 Outubro, 2014 em 5:40 - Responder

    Ler o que você escreve nos transporta ao lugar onde esteve. Cada detalhe, cada sensação, cada objeto… tudo nos traz os sentimentos que a levaram a mostrá-los. Casas assim guardam memórias que gostaríamos de decifrar, fatos além dos que já nos revelaram sobre a a vida do grande escritor.
    Produziu ele muitas obras e, como poucos, conseguiu viver da escrita. Mas morreu assolado pela falta de recursos. Eternizou-se, no entanto, pelo talento.
    Por oportuno, em vista de sua menção ao livro da Jussara, uno-me a você no quesito admiração. Ela merece aplausos . Bjs.

  10. Adriana LARA 24 Outubro, 2014 em 19:32 - Responder

    como sempre, adoro ler teus posts… passear junto contigo e Pedrinho pelos lugares maravilhosos que visitas… e essa tua escrita, sempre tão poética me encanta. Lindo lugar, quem sabe numa próxima ida, me levas lá?
    passando para desejar um final de semana com muita saúde, amor, paz e luz!!
    bjs
    tititi da dri

    • Ruthia 24 Outubro, 2014 em 22:00 - Responder

      Levo com todo o prazer, querida Dri. Fica a 20 minutos de Guimarães.
      Obrigada pela sua presença sempre carinhosa.
      Beijinho, um doce fim-de-semana

  11. Marisa Pereirinha 26 Outubro, 2014 em 19:01 - Responder

    Não conhecia nada sobre Camilo. Passar por aqui e ver suas publicações e sempre um grande aprendizado.
    Já não digo o mesmo sobre Florbela. Li algumas obras dela e adoro. Beijinhos e um bom início de semana.

  12. Clara Lucia 26 Outubro, 2014 em 22:01 - Responder

    A Jussara é um achado necessário na internet. Sorte de quem sabe seu endereço e degusta cada palavra que ela escreve. Aprendo muito com ela.
    Esses objetos antigos me dão um pouco de medo, mas fico imaginando tudo no corpo das pessoas… estranho… nostálgico e deixa de ser medonho e passa a ser glamouroso. Cada um no seu tempo.
    Ruthia, querida, uma ótima semana pra vc! Beijos

  13. Beatriz Bragança 27 Outubro, 2014 em 16:40 - Responder

    Querida Ruthia
    A sua publicação fez-me recordar a visita que, em tempos, fiz a S. Miguel de Seide,para visitar a Casa de Camilo.
    Um texto fascinante,como aliás já vem sendo hábito!
    Um beijinho
    Beatriz

  14. AC 30 Outubro, 2014 em 12:57 - Responder

    Nostalgia, Outono, Camilo, atributos mais que perfeitos para uma visita em tons onde prevalece o romantismo…
    Muito boa a descrição, Ruthia!

    Beijo 🙂

  15. Jussara Neves Rezende 30 Outubro, 2014 em 21:24 - Responder

    Querida, Ruthia, como se não bastasse a delícia de ler o seu texto – e passear pela casa (linda!) de Camilo Castelo Branco – ainda desfruto o prazer e a emoção pelo seu comentário relativo ao meu "Florbela…": um verdadeiro mimo!
    Obrigada pelo carinho e pelas palavras elogiosas sobre o livro. Fez-me muito feliz!
    Abraço!

  16. Janete 30 Março, 2018 em 18:59 - Responder

    Não conhecia! Que excelente dica! Camilo Castelo Branco faz parte dos escritores portugueses de leitura obrigatória e seria muito interessante visitar essa casa!

    • Berço do Mundo 30 Março, 2018 em 19:16 - Responder

      Aqui em Portugal, o amor de perdição também "atormenta" muitos estudantes. Só quando crescemos aprendemos a apreciar!

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