O embondeiro estava lá, esplêndido, imóvel, centenário, imponente. São muitos adjectivos, eu sei. Mas perante ele nada pensei, nada verbalizei, ele remeteu-me ao silêncio do respeito.

Os sobas dizem que os embondeiros já nascem velhos e talvez tenham razão. No meio da savana contemplam o mundo com o vagar da experiência, económicos em gestos: não se agitam ao vento e só têm folhas na altura devida.

Florescem apenas durante uma noite no ano inteiro, porque têm tempo, têm muito tempo. A sua vida pode chegar aos seis mil anos, só a sequóia e o cedro japonês os batem em longevidade. De certa forma, são árvores da Criação: nasceram com o mundo, já velhas e sábias. Lá diz o provérbio “a Sabedoria é como o tronco do embondeiro. Uma só pessoa não o consegue abarcar”.

Embondeiro, imbondeiro ou baobá – podem ser chamados de forma diferente em Angola, Moçambique, Senegal (é o símbolo nacional), Madagáscar ou mesmo no Brasil, para onde foram levados pelos escravos. Mas onde estejam, marcam a paisagem e inspiram lendas. Uma dessas estórias conta que se um morto for sepultado dentro de um embondeiro, a sua alma viverá enquanto a planta existir.

 

 

Outra lenda africana conta que o embondeiro, por ter inveja das outras árvores, foi castigado pelos deuses e posto de cabeça para baixo. Os árabes contam algo parecido, dizem que o “Diabo desenterrou o embondeiro, enfiou os ramos na terra e deixou as raízes no ar”.

Olhando para ele, compreendo o porquê destas estórias. O tronco bojudo, os galhos retorcidos que mais parecem raízes, os frutos secos que pendem enormes, o contraste da árvore com os tons do pôr do sol que evoca um teatro de sombras…

Este tronco é abençoado, pode armazenar milhares de litros de água, daí resistir a grandes períodos de seca. Pode servir de abrigo, de loja, celeiro e até de sepultura. O conto O embondeiro que sonhava pássaros fala precisamente de João Passarinheiro, um ancião vendedor de pássaros, que morava num embondeiro.

“A residência dele era um embondeiro, o vago buraco no tronco. (…) Os portugueses se interrogavam: onde desencantava ele tão maravilhosas criaturas? Onde, se eles tinham já desbravado os mais extensos matos?” (Mia Couto, 1990, p. 63).

Na narrativa de Mia Couto, o embondeiro – metáfora da resistência contra a força colonizadora – serve de abrigo às personagens fatigadas.

 

 

Fabulações dizem vocês. O documentário A Guerra da Água (1995), de Licínio Azevedo, rodado em Moçambique prova que, de facto, os embondeiros são usados como abrigo em várias situações.

Podia falar das maravilhosas propriedades (medicinais e afrodisíacas) da múcua, o fruto do embondeiro, que é a nova descoberta da medicina ocidental. Haverá mais de 80 investigações em curso para estudar as muitas propriedades desta árvore que habita a paisagem, a história e a mitologia do continente africano.

Mas a magia desta árvore reside na sua narrativa. Ela sussurra-nos África, aquela dos mercados coloridos e barulhentos, dos panos de cores garridas, das mães que transportam crianças nas costas. Conta-nos daquela África de sol escaldante e chuvas torrenciais, de terra vermelha e casas de adobe, em perfeita harmonia com a natureza. Ela mostra-nos aqueloutra África com crianças de sorrisos abertos e olhos esperançosos.

“Quando se passa parece que se evola do vegetal gigante uma aura tranquila e protectora. Como se nos visse e nos cedesse um mínimo da sua alma de tempo” (Glória de Sant’Anna, Ao ritmo da memória).

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