Zhuhai e a réplica do Palácio Yuan Ming

No sul da China existe uma réplica do famoso Palácio Yuan Ming, o palácio de Verão de Pequim. Nós fomos conhecer o espaço em Zhuhai, no delta do rio das Pérolas

Cerca de dois mil quilómetros separam Zhuhai de Pequim, o que se traduz em 17 horas de viagem de comboio ou dois dias de autocarro.

Provavelmente, muitos moradores do sul nunca visitaram a capital. Com certeza terão ouvido falar da grandiosidade e da perfeição da Cidade Proibida e de outras construções imperiais mas, como se sabe, muitas pessoas não têm qualquer capacidade de abstracção ou compensam a falta de imaginação com a tradição. “Sempre assim se fez” e ponto final.

Perdoem esta minha tirada existencial, na verdade não posso dizer que conheço os chineses só porque tenho alguns amigos dessa nacionalidade ou a partir desta breve experiência num cantinho do seu imenso território.

De qualquer forma, é bem conhecida a sua tendência para copiarem em vez de criarem, fazem réplicas de Rolex e malas Prada mas tive dificuldade em encontrar uma loja de roupa tradicional. E nem me quero lembrar do pastel de nata made in China que provei… A civilização chinesa já não é a mesma que inventou o papel e a pólvora.

 

Alunas coreanas celebram o ano do carneiro

 

Em Zhuhai, existe uma réplica do Palácio de Verão de Pequim, preciosidade que tive oportunidade de visitar. A ideia foi recriar parcialmente o grandioso complexo de jardins e palácios de Yuanming (cinco vezes maior do que a Cidade Proibida), parcialmente destruído no século XIX, durante a segunda guerra do ópio.

A fachada é impressionante, mas o desapontamento foi crescendo desde que entrei no recinto. É com muita pena que escrevo isto, mas afirmo-o de uma forma categórica. Conseguiram transformar um espaço que se pretendia pedagógico/museológico numa feira de horrores.

 

Arte em caramelo, inspirada no zoodiaco chinês

 

Meandros do Novo Palácio Yuanming

Como descrever o Novo Palácio Yuanming? Um cruzamento entre um parque aquático e uma feira da Disney deprimente? Podem achar que exagero, já que conheço muitos sítios históricos na Europa, portanto os meus termos de comparação serão exigentes.

Emoldurado por grandes montanhas verdejantes, o espaço está dividido em três áreas. A primeira inclui o portão da Rectidão e da Honra e o palácio onde se resolvia assuntos de Estado. Existe ali uma placa que diz “governo diligente e talentoso” (动政亲贤, dòng zhèng qīn xián) da autoria do imperador Kangxi, apelando ao empenho na governação e à cooperação com os seus conselheiros.

Na segunda, estão os aposentos privados do imperador, os “nove continentes de clareza e calma”, com vários edifícios voltados para o belo Lago Fuhai. No meio deste, existe um terraço que acharam por bem baptizar de “terraço de jade da ilha paraíso“. Por fim, a terceira área tem claras influências do barroco, revelando a curiosidade de alguns governantes da dinastia Qing para com os ocidentais.

Tudo isto parece muito bem, não fosse pelo facto de não existirem folhetos informativos sobre o que estamos a ver. Some-se a isso o facto de sermos constantemente interpelados por vendedores, que nos tentam impingir uma fotografia. O preço da fotografia dependerá do fato que escolhermos, sendo os do imperador e imperatriz obviamente mais caros.

 

 

Escolhida a indumentária, passa-se pela caracterização. Sim, existe uma pequena penteadeira para compor o penteado e a maquilhagem. Segue-se a pose para o fotógrafo no trono ou noutro espaço qualquer, perante dezenas de espectadores. Escusado será dizer que quem não comprou uma fotografia não tem acesso a esses lugares especiais. Ou queriam sentar-se no trono dourado sem pagarem?

Logo ao lado – na verdade não existe qualquer separação – fica a Lost City, um parque de diversões com carrosséis, escorregas de água e barraquinhas de souvenirs manhosos. Portanto, esqueçam qualquer estado zen que um lugar como este poderia oferecer a um ocidental em busca de si mesmo.

Encontrei essa tranquilidade num templo em Foshan, uma outra cidade da província de Guangdong, mas sobre isso falar-vos-ei noutra entrada deste diário irregular.

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2019-10-01T12:50:35+00:00

14 Comments

  1. ✿ chica 4 Setembro, 2015 em 18:24 - Responder

    Estás aproveitando bem por lá e graças à tua experiência em outros lugares, sabes muito bem apontar o que te decepciona e o que te encanta! Sempre ha esses dois lados! bjs, lindo fds! chica

  2. Maria Teresa Valente 4 Setembro, 2015 em 20:02 - Responder

    Olá, Ruthia, és uma grande observadora e acho que o teu desapontamento, se deve ao interesse dos chineses em tirar o máximo de proveito de seus sítios históricos. Reproduzem, sem o devido respeito aos verdadeiros, apenas com a intenção de explorar e lucrar com os turistas.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

    • Ruthia 5 Setembro, 2015 em 13:10 - Responder

      Bem, neste caso, o Palácio resulta de iniciativa privada. Inicialmente cobravam entrada mas passou a ser de acesso gratuito, para atrair mais visitantes. Mas isso quer dizer que têm que inventar receitas noutro lado…
      Abraço Teresa

  3. cris braghetto 5 Setembro, 2015 em 11:24 - Responder

    Oi, Ruthia.
    Muito interessante e esclarecedor seu post.
    Princialmente para quem tem a ideia, de encontrar o "paraíso zen", na China.
    Acredito que essa visão oportunista de lucrar com o turismo está, mesmo, modificando a realidade cultural e histórica de muitos lugares no mundo.
    Muito se aprende aqui com você e suas dicas.
    Parabéns, mais uma vez, pelo ótimo artigo.
    Abraços e lindo fim de semana.

  4. Marta Iansen 5 Setembro, 2015 em 23:38 - Responder

    "Obras de arte em caramelo"? Que coisa excelente!

  5. Algodão Tão Doce 6 Setembro, 2015 em 18:42 - Responder

    Olá amiga, vim desejar-lhe um abençoado início de mês, e lindos dias
    de outono que se aproxima!
    IMAGENS ENCANTADORAS…CULTURA MARAVILHOSA!

    Doce abraço Marie.

  6. Sissym Mascarenhas 7 Setembro, 2015 em 4:01 - Responder

    Ruthia,

    Sobre pagar para poder sentar-se no trono (alias, lindissimo), acho que em muitos lugares do mundo tem que dar para receber. Puxa, isso me fez lembrar de minha filha querendo falar com o Papai Noel e só podia chegar perto e fotografar se pagasse!

    Sobre seu passeio deste post, uma coisa que me chama a atenção é que há muita cor. O que torna mais alegre o visual que é muito bonito.

    Bjs

  7. Beatriz 7 Setembro, 2015 em 13:38 - Responder

    Já disse aqui que esta sua viagem é encantadora! Este país imenso merece ser explorado nos mínimos detalhes. Realmente, a capacidade deles para copiar qualquer coisa do mundo todo é impressionante…..agora, pastel de nata "made in China" eu nunca tinha visto, rs rs!
    Esta sua jornada é inspiradora, e as fotos conseguem traduzir um pouco disso tudo!

    Beijinhos Ruthia!
    Bia
    http://www.biaviagemambiental.blogspot.com

  8. Zilani Célia 9 Setembro, 2015 em 1:03 - Responder

    OI RUTHIA!
    UMA VIAGEM E TANTO, PELAS FOTOS DÁ PARA SE PERCEBER A BELEZA DOS LUGARES ONDE ESTIVESTE NA CHINA EMBORA POR TEU TEXTO, PERCEBE-SE UMA CERTA DECEPÇÃO DE TUA PARTE, SOBRE ALGUMAS COISAS O QUE É NATURAL VISTO CONHECERES TANTOS LUGARES O QUE TE TORNA BASTANTE CRÍTICA.
    ADOREI COMO SEMPRE, SÓ SENTÍ FALTA DO "PEDRO" TEU COMPANHEIRO DE PASSEIOS.
    FUI ATÉ O FACE E DEI UMA OLHADA NAS FOTOS, POSTERIORMENTE O FAREI DE FORMA MAIS DEMORADA.
    ABRÇS

  9. Raíssa Rosa 9 Setembro, 2015 em 1:51 - Responder

    Muito legal conhecer um pouco da China, contado por você. Eu sempre tive uma imagem da China, como um lugar tranquilo, e meditação, mas pelo que você nos conta, está muito mais pra comércio, e pastel made in China, foi o melhor 🙂

    Obrigada pela visitinha.
    beijinhos ;*

    http://noostillo.blogspot.com.br

  10. M. 9 Setembro, 2015 em 9:52 - Responder

    Sempre muito atenta a tudo!
    Fiquei levemente agoniada a pensar em como seria o pastel de nata…
    E contava ver-te caracterizada como imperatriz, como maquilhagem e tudo!
    Beijinhos, boa quarta! Já chuvisca para estes lados…

    • Ruthia 9 Setembro, 2015 em 11:03 - Responder

      Seria uma coisa linda de se ver…. mas não tenho dinheiro para essas coisas 🙂
      Beijocas, também já caíram umas pingas aqui em Trás-os-Montes

  11. Toninho 11 Setembro, 2015 em 4:00 - Responder

    Legal o passeio neste berço ainda que com os transtornos enumerados e degradação cultural.
    Belas imagens que bem retrataam sua passagem.
    Valeu amiga.
    Meu abraço com carinho
    Bju de paz.

  12. Angela Sant Anna 15 Outubro, 2018 em 21:55 - Responder

    eita, parece bem bizarro mesmo essa mistura no parque. é engraçado como reproduzem tudo né! achei super legal as formas de caramelo!

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