No Morro da Cruz, uma casa ergue-se, branca e austera, como nos tempos de D. Álvaro de Carvalho Matoso, capitão de Granadeiros, almirante das Naus Lusitanas das Índias, cavaleiro da Ordem de Jesus e traficante de escravos. Chegámos ao Museu da escravatura

Ondas de calor distorcem a paisagem, as próprias pedras parecem transpirar. Ao longe, a enorme língua do Mussulo separa o mar de fora do mar de dentro.  A Casa Grande destaca-se no caminho para a Barra do Kwanza, mas poucos fazem o desvio para a visitar. E, no entanto, a sua capela acolhe um dos museus mais significativos de Angola: o Museu Nacional da Escravatura.

Que navio é esse
Que chegou agora?
É um navio negreiro
Trouxe escravos de Angola.

O espectáculo O Navio Negreiro, provavelmente inspirado no sublime poema homónimo de Castro Alves, fala de uma longa viagem no Atlântico que podia ter começado aqui.

Esta colina é a memória dos cinco milhões de luangos, malimbés, cabindas, congos, ngolas, mundongos, matambas e benguelas que perderam a vida graças à implacável rede de tráfico de escravos.

Eram “filhos do deserto / onde a terra esposa a luz“, explica o poeta brasileiro. Simples, fortes, bravos que foram transformados em míseros escravos. Eram mulheres altivas vindas de bem longe “trazendo com tíbios passos / Filhos e algemas nos braços / N’alma lágrimas e fel…

Os escravos eram aprisionados sobretudo no interior de Angola, acorrentados e marcados com ferro quente, para serem facilmente reconhecidos em caso de fuga. Iniciavam depois uma longa e penosa caminhada para um dos portos do litoral, em caravana, amarrados como gado, antes de rumarem ao Novo Mundo.


Na capela de D. Álvaro Matoso, os escravos eram convertidos ao catolicismo antes de rumarem a uma nova vida de trabalho forçado

 

Pedro Cardoso, num esforço imaginativo notável, consegue pôr-nos neste lugar trágico, em pleno século XVII:

“À volta da Casa Grande, um frenesim de gente aprisionada, cansada, suada. Massa negra uniforme na base do morro. A compasso lento, passo atrás passo, arrastados uns pelos outros nessa prisão de grilhetas, sobem a escadaria principal. O som metálico das cadeias prendem-lhe os movimentos; os gritos dos traficantes de Homens silvam; chibatas flagelam as costas, pernas, cara e braços da gente assustada (…)

Imaginem, agora, os barcos ao largo, no mar alto. São os navios negreiros. Levarão no seu porão de morte lenta toda esta gente encafuada. Durante semanas, cruzarão o grande oceano. E o horizonte para lá do Mussulo, arde em fogo vivo e desespero.”

Onde antes se amontoavam traficantes e africanos capturados no interior da colónia, sucedem-se agora salas que recordam o negócio criminoso: mapas e estatísticas, miniaturas dos barcos, gravuras e fotografias, grilhões e outros instrumentos de humilhação.

Num canto, a pequena e triste pia baptismal onde, à força de Pais-nossos e água benta, se converteram aos milhares, passando a chamar Deus a Nzambi. Chamavam-lhe a sagrada missão evangelizadora.

 

 

Mais uma vez evoco O Navio Negreiro (1869), de Castro Alves, para descrever a jornada que os aguardava de seguida:

“Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!”

 

Hoje, o Mussulo é o lugar de lazer. Outrora, partiam daqui os barcos negreiros rumo às Américas.

 

Ainda que evoque tristes e longínquas lembranças – a escravatura no reino de Portugal foi oficialmente abolida em 1836 -, lugares como o Museu da Escravatura são fundamentais para nos animar na luta por um futuro melhor. Como um dia o grande Mia Couto me disse (recordem o encontro aqui), este mundo nem sempre é um lugar bonito. Mas que seja, pelo menos, livre.

Dica: a entrada no museu da escravatura é gratuita. No entanto, é tradição dar uma gratificação ao guia, no final da visita.

 

 

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