Ponte de Lima: Jardins do Conhecimento

A prova de que os romanos se equivocaram quando confundiram estas águas com o Lethes** é que eu não me esqueço de voltar todos os anos, para conhecer as propostas do Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima, evento já distinguido com um Garden Tourism Award.

A 12ª edição inspirou-se no conhecimento, com propostas surpreendentes e exuberantes de várias nações. Da Suíça, chegaram três Pirâmides do Conhecimento, formas arquetípicas inspiradas na caverna de Platão, na racionalidade de Descartes e na edénica árvore da vida.

A equipa inglesa (96 por cento) partiu do questionamento iluminista: Quanto é que sabemos verdadeiramente? “Os cientistas acreditam que tudo o que sabemos sobre nós próprios, o nosso planeta e o universo não passa de 4% do que deve existir. Os outros 96% são desconhecidos!” A cena é definida por um grande ponto de interrogação à entrada do jardim, que se abre para um largo com colunas de ferro enferrujado de onde jorram três fontes, correspondentes aos pilares do conhecimento: Verdade, Crença e Justificação.

O mais perfumado é, sem dúvida, Mundo Claustrum (Portugal), que evoca os mosteiros medievais, lugares de contemplação, conhecimento e cura, com os seus canteiros de plantas medicinais e as suas boticas. O meu olfacto despertou assim que entrei neste espaço semi-recolhido onde reina a calêndula, a menta, a cidreira, a romãzeira ou o tomilho-limão.

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O rio que enfeitiçou os soldados de Décio Júnio Bruto

© Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima

Na minha modesta opinião, equipas como a de Espanha (Conhecimento Interligado) ou da Áustria (Em direcção à luz) não conseguiram fazer brilhar o conceito base dos seus jardins. Mas o único desastre completo chama-se Nucis: trata-se de uma espécie de noz gigante e esponjosa, apresenta-se como uma metáfora para o cérebro, mas não merece o espaço que ocupa…

Felizmente, outros recantos compensam aquele atentado ao paisagismo, nomeadamente Conhecimento Exportado, onde um esqueleto de avião reflecte criticamente sobre a emigração massiva dos jovens, que partem com uma bagagem repleta de conhecimento à procura de um futuro. Conheci os dois estudantes portugueses que conceberam este jardim e tive o prazer de lhes dar os parabéns.

Outra ideia vencedora chegou da República Checa (ADN – Biblioteca do Conhecimento) e apresenta o ADN como uma biblioteca portátil. Com a sua quantidade interminável de variações, basta algo mudar no ADN para tudo ser diferente, assim como um único movimento pode mudar uma partida de xadrez. Daí o tabuleiro gigante, onde o pequeno explorador passou um tempo delicioso com um adversário improvisado.

Termino com a minha proposta preferida – Homenagem às Árvores (Brasil) enquanto metáforas de sabedoria e da organização do conhecimento nas mais diversas áreas da vida humana e natural – e um convite para não perderem o Festival Internacional de Jardins na vila mais antiga de Portugal. Termina já no final de Outubro.

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** Conta a lenda que, certo dia, as legiões da Roma imperial chegaram às margens do rio Lima e estacaram, maravilhadas com a paisagem. Pensaram tratar-se do Lethes, o rio do Esquecimento, do qual se dizia que quem ousasse atravessar, enfeitiçado pela sua beleza, esqueceria a sua pátria, família, até o próprio nome. Tomadas de pavor, as tropas recusaram-se a avançar. Foi preciso que o comandante supremo, Décio Júnio Bruto, atravessasse as águas encantadas e, da margem direita, chamasse cada soldado pelo seu nome para os convencer.

Site da organização: aqui | Entrada: 1€ adulto / grátis para crianças até aos 12 anos

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2019-07-16T12:37:53+00:00

12 Comments

  1. Marta Iansen 14 Outubro, 2016 em 16:47 - Responder

    Já projetei várias vezes fazer um jardim com as características de um herbanário medieval – mas ficou só no projeto. Algum dia, quem sabe…
    Belo post. As fotos, como sempre, estão lindas, em especial a do rio e a do xadrez gigante.

  2. Elvira Carvalho 14 Outubro, 2016 em 21:47 - Responder

    Muito interessante. Lembro-me que o ano passado esteve lá. E que gostei bastante do seu post dessa altura.
    Um abraço e bom fim-de-semana

  3. M. 16 Outubro, 2016 em 17:30 - Responder

    Acho que só fui uma vez, não me recordo do tema, mas foi há 3 ou 4 anos. Havia limões caídos no chão…
    Muito bonito, gosto muito de passear por Ponte de Lima!
    Beijinhos ainda de manga curta, mas já com frio 🙂

  4. Muito interessante esta postagem, adoro jardins e ainda não fui ao festival de jardins.
    Um abraço e boa semana.
    Andarilhar

  5. Adriana LARA 17 Outubro, 2016 em 13:44 - Responder

    a lisonja veio e ficou a me deixar com sorriso nos lábios!! Obrigada por elogiares de tal maneira o Brasil (que anda cambisbaixo com todos os ocorridos políticos vergonhosos)… Ah! como gostaria de passar um dia inteiro a explorar tal lugar.. deve ser lindo.. e fiquei a imaginar o festival de aromas do espaço de Portugal (a maneira que escrevestes atiçou o meu sentido olfativo).
    Quem sabe um dia??
    com relação ao horário de verão, Ruthia querida, sabes que este foi o primeiro ano que 'me passei' no horário? Normalmente não sinto a diferença, mas ontem e hoje dormi um pouco mais pela manhã (será a idade batendo à porta???)
    Espero que seja preguiça mesmo (até porque chove bastante por aqui então a cama nos segura pela manhã)
    bjs desejando excelente semana!

  6. Isa Sá 18 Outubro, 2016 em 7:24 - Responder

    Costumo ir lá visitar e adoro!

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

  7. Jaime Portela 18 Outubro, 2016 em 12:06 - Responder

    A iniciativa é excelente e fora do comum. Nunca lá fui, mas este ano talvez consiga ir.
    A propósito do Lethes e do rio do esquecimento, esta lenda existe em muitos rios da Europa. Mas na Pousada de Santa Luzia (em Viana do Castelo) existe uma enorme tapeçaria onde é contada a lenda.
    Ruthia, tem uma boa semana.
    Beijo.

    • Ruthia 18 Outubro, 2016 em 12:53 - Responder

      Obrigada pela dica, amigo Jaime. Acho Viana uma cidade linda, mas já não vou lá há mais de uma década. Tenho que remediar isso.
      Abraço

  8. Maria Teresa Valente 18 Outubro, 2016 em 15:52 - Responder

    Boa tarde, Ruthia, és mesmo uma linda caminhante, sempre a descobrir e a nos oferecer belas sugestões para alargarmos nossos conhecimentos.
    Portugal é mesmo o país dos aromas deliciosos em sua culinária, aprendi que na arte da cura também, maravilhoso…
    No Brasil, a exploração e a ignorância humana, estão destruindo nossas matas, grande potencial e conhecimento que se esvai, poucos conseguem preservar essa riqueza!
    Gratidão pela partilha, abraços carinhosos
    Maria Teresa

  9. Maria Rodrigues 20 Outubro, 2016 em 20:21 - Responder

    Vim agradecer a sua visita ao meu cantinho e fiquei encantada com o seu blogue, meus sinceros Parabéns.
    Irei começar a divagar por aqui.
    Beijinhos
    Maria

    • Ruthia 21 Outubro, 2016 em 6:49 - Responder

      Seja muito bem vinda, Maria. Espero que se sinta em casa, neste berço.
      Abraço

  10. AC 23 Outubro, 2016 em 14:38 - Responder

    Percebe-se, perfeitamente, algum empolgamento na crónica, sinal de que a Ruthia se sente muito bem nestes Jardins. Gosto disso.

    Um beijinho 🙂

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