Luanda pela mão de Pepetela

E se um dos expoentes da literatura angolana – Pepetela – nos guiasse na sua capital? Hoje juntamos duas paixões: livros e viagens

Apanhamos boleia de Pepetela**, e da sua fina ironia, para revisitar Luanda, já não uma “vilazinha perdida numa baía” (A Sul o Sombreiro, 2011), mas uma grande metrópole com mais de dois milhões de habitantes e trânsito  caótico.

Fintamos os candongueiros, os táxis colectivos azuis e brancos, e as “centenas de jovens a venderem as mais disparatadas coisas no meio das ruas aos automobilistas” (Se o Passado não tivesse asas, 2016), até chegarmos à Praça de Kinaxixi, cenário de O Desejo de Kianda (1995).

Em tempos, houve aqui uma lagoa, casa de Kianda rainha das sereias e espírito das águas, que acabaria soterrada por causa da construção ininterrupta da capital. Mas ela venceu a luta, fazendo ruir os edifícios: “Kianda se sentia abafar, com todo aquele peso em cima, não conseguia nadar, e finalmente se revoltou. E cantou, até que os prédios caíssem todos, um a um, devagarinho “. O narrador descreve ironicamente a singularidade desse fenómeno “nacional”, que nenhum técnico ou cientista consegue explicar.

Realidade: um grande edifício inacabado dos anos 70 seria ocupado durante a guerra civil, tornando-se num musseque de 17 andares, sem água, luz, saneamento básico ou varandas. O prédio da lagoa de Kinaxixi foi demolido há poucos anos (notícia aqui) e hoje constrói-se ali um grande centro comercial. Será que Kianda se vai revoltar novamente?

Rumamos agora à cidade alta, passando por um dos templos mais bonitos da cidade, a Igreja de Jesus (século XVII), herança dos jesuítas, rumo ao morro da fortaleza.

“Naquele tempo do seu nascimento, só havia um muro mal rebocado a imitar um fortim com dois baluartes no alto do morro de S. Paulo sobre o mar, a ilha à frente; uma capela lá dentro, dedicada a S. Sebastião, e várias cubatas. A esse fortim despretensioso chamavam fortaleza de S. Miguel” (A Sul o Sombreiro, 2011).

 

© www.verangola.net

O pequeno explorador no interior da fortaleza de S. Miguel.

Hoje, o forte acolhe o Museu da História Militar recordando um passado de luta simbolizado pela bandeira nacional gigante. A bandeira-monumento com 18 por 12 metros foi inaugurada na mesma data que o museu, a 4 de abril, dia da paz e da reconciliação nacional (aqui).

Dali, temos uma linda vista sobre a baía de Luanda e também sobre a marginal, como chamam à Avenida 4 de Fevereiro omnipresente na obra de Pepetela. Por exemplo, em A gloriosa família (1997), o narrador fala do espanto de Baltazar Van Dum, o protagonista flamengo, quando vê a baía ao “chocar, contra o vermelho da terra, o azul divino do mar e a brancura da areia na ilha coberta de coqueiros. Baía de Todos os Sonhos, gritou ele, sabendo que mesmo à frente, do outro lado do Atlântico, havia a Baía de Todos os Santos“.

Ali vai crescendo uma nova e cosmopolita baixa, com o porto renovado, a nova Assembleia Nacional, arranha-céus espelhados e o Mausoléu do Presidente Agostinho Neto.

Dali à ilha do Cabo é um instantinho. Ilha, que é como quem diz, já que está ligada à cidade por um pequeno istmo no sopé da Fortaleza de São Miguel. Ali se concentram os principais restaurantes e bares da noite luandense, para além da longa praia onde os “meninos de rua” se refugiavam durante a guerra civil (tema tratado em Se o Passado não tivesse asas, 2016).

 

Mas existem opções para todos os bolsos, até mesmo restaurantes que aceitam cães com pulgas: “Entrámos num restaurante da Ilha. Ninguém que implicou com o bicho. Estava a contar o dono vinha pôr o cão na rua, mas nada. Depois compreendi: da maneira que os fregueses se coçavam, as pulgas eram da casa. Não adiantava, mais bicho menos bico” (Os Cães e os Caluandas, 1985).

Seguimos Sofia e Diego para o sul, até ao lar do padre Adão. “Apanharam um candongueiro até à Samba e depois outro até ao Morro Bento (…) no caminho para a barra do Kwanza, para lá dos limites da cidade” (Se o Passado não tivesse asas, 2016).

Alguns musseques que ainda resistem ao avanço dos bulldozers e do alcatrão. Pepetela descreveu na perfeição essas áreas degradadas, mas culturalmente ricas, em O tímido e as mulheres (2013) e também Os Cães e os Caluandas (1985), cujo protagonista – um pastor alemão – serve de pretexto para descrever a vida dos moradores de Luanda (os caluandas ou calús).

 

À saída da cidade, perto do museu da Escravatura (aqui), encontramos o novo Mercado do Artesanato, onde os africanos vendem a sua arte aos turistas com “complexos quer de superioridade balofa quer de inferioridade bacoca” (Se o Passado não tivesse asas, 2016) e alguns quilómetros depois, o Kwanza abre-se perante os nossos olhos:

“olhava o rio, turbulento por ser época das chuvas e ele correr cheio de barro, paus de árvores, tetos de cubatas e animais mortos. A coloração das águas era por vezes acastanhada, outras leitosa, jamais o azul do céu (…) o Kwanza era mesmo um rio a sério (…) Um deus poderoso, tudo levando com ele, lento na sua majestade” (A Sul o Sombreiro, 2011).

Já deixamos Luanda para trás, mas não resistimos ao convite de Pepetela para nos alongarmos até à Muxima, onde os portugueses construíram uma fortaleza que “era na verdade um muro de taipa mal amanhado em cima do morro, protegido por dois baluartes em pedra virados para terra, para a Kissama ” (A Sul o Sombreiro, 2011).

Parece que o sítio é frequentado por muitos mistérios e incrustado com muitos poderes: “as pessoas acreditam ser uma ofensa tão grande aos espíritos do local provocar inimizades ou batalhas, que já viram exércitos derretidos pela vontade dos deuses  (…) Por isso aquele cabeço de Muxima era visitado desde sempre por muita gente à procura de paz de espírito, se não de tratamentos milagrosos” (Idem).

Recordem a visita à Muxima aqui.

 

Entrada do novo mercado do artesanato, à saída de Luanda

 

** Ex-activista do MPLA, ex-ministro da educação, um dos fundadores da União dos escritores Angolanos e ex-presidente da mesma, Pepetela é um dos maiores escritores angolanos da actualidade. Prémio Nacional de Literatura de Angola (pela obra Mayombe) e  Prémio Camões em 1997, adotou como nome literário a versão em umbundu do seu apelido (Pestana).

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2019-01-21T14:43:08+00:00

31 Comments

  1. Elvira Carvalho 29 Janeiro, 2017 em 8:17 - Responder

    Tantas saudades de Luanda. Da Samba onde morei. Da Missão de S. Paulo em frente da qual também morei. Da estrada de catete, onde havia o Colégio Cristo- Rei dos Irmãos Maristas, onde trabalhei, da Baía, da Ilha, da marginal…
    Um abraço e bom domingo

  2. Lúcia 29 Janeiro, 2017 em 12:15 - Responder

    Li o post como se eu tivesse quatro olhos: os dois lhos de meu marido junto aos meus. Tenho a certeza de que ele, por ter vivido sete anos em Luada, mesmo em tempos sombrios, iria adorar revisitar um lugar em que viveu intensamente, antes de vir para o Brasil. Obrigada, pela excelente matéria.

    • Ruthia 29 Janeiro, 2017 em 12:34 - Responder

      A cidade mudou muito desde então, mas esse exercício de reimaginação é interessante.
      Beijinho Lúcia

  3. Gostei desta bela reportagem e Pepetela é uma referência literária na língua portuguesa.
    Um abraço e boa semana.
    Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

  4. Marta Iansen 30 Janeiro, 2017 em 12:15 - Responder

    Que é "candongueiro"?

    • Ruthia 30 Janeiro, 2017 em 14:05 - Responder

      São os táxis, Marta, como os que se vêem na segunda foto, azuis e brancos. São táxis colectivos, que praticamente substituem os autocarros (já que a cidade não possui uma rede que cubra toda a cidade, como estamos habituados). Param em qualquer lado e têm sempre prioridade!

  5. AC 31 Janeiro, 2017 em 18:42 - Responder

    Com o avolumar das visitas a terras angolanas transparece, da sua escrita, um maior à vontade nesse cenário, Ruthia.
    É sempre um prazer ler os seus relatos.

    Abraço

  6. Adriana LARA 1 Fevereiro, 2017 em 13:44 - Responder

    Como sempre, é um prazer viajar em tuas linhas!
    Hoje estou um pouco atrapalhada
    minha tia morreu esta noite
    para completar, pedi para meu filho colocar o carro mais para frente na garagem e o resultado foi carro amassado e porta da garagem estragada.. ou seja muitas despesas…
    beijos.. começando a estudar a viajem no final de julho e inicio de agosto

    • Ruthia 2 Fevereiro, 2017 em 9:26 - Responder

      Caramba, Dri. Os meus sentimentos. Era aquela senhora que eu conheci em Lisboa/Sintra?
      Abraço apertado

  7. Jaime Portela 2 Fevereiro, 2017 em 12:19 - Responder

    Gostei da viagem (o texto é excelente), muito bem inspirada no Pepetela.
    Ruthia, continuação de boa semana.
    Beijo.

  8. Ruthia, muito prazer estar aqui e ler sobre sua viagem de forma tão poética!Adorei! Abraçoss

    • Ruthia 3 Fevereiro, 2017 em 7:37 - Responder

      Seja muito bem vinda, amiga viajante. Abraço

  9. M. 3 Fevereiro, 2017 em 11:25 - Responder

    Estive a ver e tenho aqui "A parábola do cágado velho", ainda por ler.
    Bela viagem poética!
    Beijinhos

    • Ruthia 3 Fevereiro, 2017 em 13:59 - Responder

      Esse ainda não li. Se mo quiseres emprestar…
      Beijinhos

  10. Patricia 3 Fevereiro, 2017 em 14:36 - Responder

    Muito interessante sua visão do lugar mesclada com a literatura. Parabéns!

  11. Ana Raquel Fortes 3 Fevereiro, 2017 em 15:02 - Responder

    Muito interessante! Excelente texto. Parabéns!
    =*

    Keul
    http://www.turistandonomundo.com.br

  12. Alessandra 3 Fevereiro, 2017 em 15:24 - Responder

    Que maravilha! E que experiência incrível! Deve ser ser super interessante viver uma realidade assim tão diferente e em português. Quero muito conhecer! Muito legal seu artigo!

    • Ruthia 3 Fevereiro, 2017 em 15:35 - Responder

      Grata, Alessandra. Seja bem vinda aO Berço

  13. Laura Sette 3 Fevereiro, 2017 em 21:45 - Responder

    Muito interessante seu artigo, Ruthia! Ainda não conheço este autor, tampouco Angola. Anotei as dicas! Um abraço

    • Ruthia 3 Fevereiro, 2017 em 21:51 - Responder

      Os autores angolanos não são muito badalados, mas Pepetela foi Prémio Camões, um dos galardões mais conceituados para autores de língua portuguesa, e está traduzido no Brasil.
      Aliás, a sua obra é estudada em várias universidades conceituadas, da Europa e EUA. Portanto, super recomendo.
      Abraço

  14. Lala Rebelo 3 Fevereiro, 2017 em 23:01 - Responder

    Uau, que interessante. Tenho muito interesse em conhecer o destino e também o autor, que nunca li. Obrigada pelo post. Abraços, Lala Rebelo

  15. Mirella Matthiesen 4 Fevereiro, 2017 em 0:06 - Responder

    Muito interessante o texto, mistura um gingado de literatura com sua visão de Angola.
    Gostei também de conhecer Pepetela, que por incrível que pareça não o conhecia… já estou pesquisando sobre o autor e querendo saber mais sobre ele e suas obras.
    Beijos

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2017 em 9:20 - Responder

      Olá Mirella, é impossível conhecer todos os autores. Neste caso, já conhecia Pepetela há muitos anos (embora ao livro que mo apresentou não fosse o adequado à minha idade de então).
      Mas faço sempre uma pesquisa sobre os autores dos países que vou visitar, porque nos oferecem uma visão da história e dos costumes muito interessante, que nos enriquece, como leitores e como viajantes.
      Abraço

  16. Pedro Henriques 4 Fevereiro, 2017 em 11:11 - Responder

    Olá Ruthia, gosto muito da sua forma de escrever! Parabéns pelo artigo e pelas fotos.

  17. Juny (Juliana Almeida) 4 Fevereiro, 2017 em 12:06 - Responder

    Primeira vez que vejo um post sobre Luanda, adorei o post, muito informativo! A Africa tem lugares muito interessantes e com uma cultura muito rica! <3

  18. Juliana Noronha 4 Fevereiro, 2017 em 17:43 - Responder

    Ruthia, que prazer me perder pelas linhas do seu texto. Que post arrebatador, consegui me imaginar por cada lugarziho.
    Beijos!!

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2017 em 17:56 - Responder

      Oh, muito obrigada Juliana. É muito bom receber um feedback tão positivo dos leitores.
      Beijinho

  19. Viajante Móvel 5 Fevereiro, 2017 em 3:09 - Responder

    Visitar lugares descritos no livro e verificar cada cantinho em que o personagem possa ter passado e ficar imaginando sentimentos e sensações é muito interessante.

  20. Olinda Melo 9 Fevereiro, 2017 em 16:44 - Responder

    Olá, Ruthia

    Estive em Luanda durante cerca de 4 anos e nunca ela me pareceu tão bela e cativante como através do seu olhar e do de Pepetela. Pepetela, cuja obra conheço um pouco e da qual respigo Yaka e também O desejo de Kianda.

    Gostei de ver o "pequeno explorador". Com essas viagens acompanhado pelos pais, levará na para a vida, na sua bagagem, os cheiros, os sabores e a sabedoria de várias culturas.

    Beijinhos

    Olinda

    • Ruthia 9 Fevereiro, 2017 em 17:06 - Responder

      Muito obrigada Olinda. Foi um post que me deu particular prazer em escrever.
      Beijinho

  21. Bornfreee Viagens 25 Janeiro, 2018 em 19:31 - Responder

    Nada como juntar o melhor de dois mundos: livros e viagens. E fizeste-o de forma soberba 🙂 Parabéns.

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