Genebra, berço relojoeiro

Tic, tac, tic, tac… há séculos que a Suíça é famosa pelos seus relógios. E tudo começou em Genebra, a cidade de Calvino, ali entre os picos alpinos e as montanhas do Jura. Hoje, propomos um passeio pela arte do tempo

Vamos para sul, em direcção à Suíça francófona. Os pomares de macieiras sucedem-se, floridos. A maçã suíça não é tão famosa como o seu chocolate, mas é igualmente saborosa.  An apple a day, keeps the doctor away: o lema é tão popular em terras helvéticas que até vendem ímans com a frase. A importância desta produção revela-se num pequeno detalhe: quem quiser entrar no país com maçãs na bagagem terá que as deixar nos serviços alfandegários.

Mas o tema de hoje é outro. Relógios.

A arte relojoeira chegou a Genebra na segunda metade do século XVI e ganhou força graças a Calvino. Porquê? Bem, uma das actividades económicas tradicionais da cidade era a ourivesaria. Mas, com a rigorosa reforma protestante, proibiu-se o uso de jóias e outras formas de ostentação de riqueza. Assim, os ourives orientaram a atenção para a relojoaria, até transformarem a Suíça no principal produtor mundial.

 

 

Ainda hoje, 90% da produção de relógios está concentrada na região do Jura, conhecida como Watch Valley, o país da precisão, que se prolonga por 200 km.

Genebra homenageia os cinco séculos de relojoaria com um roteiro específico, que inclui uma longa lista de marcas: Franck Muller, Audemars Piguet, Richard Mille, Breitling, Ulysse Nardin, IWC, Boucheron, Avakian, Panerai, Tiffany & Co… (pausa para recuperar fôlego)… Delaneau, Louis Vuitton, Mont Blanc, Bovet, Van Der Bau Wede, Vacheron Constantin, Tudor, Rolex, TagHeuer, Hublot, Piaget, Omega (vou parar por aqui, acho que já perceberam)! Haja carteira.

Começamos o watch tour na Cité du Temps, uma antiga estação de água recuperada pela Swatch em 2005. O edifício hoje conta com uma galeria de arte, restaurante e uma exposição dedicada àquela marca de relógios.

 

O relógio de sol desenhado pela Gübelin, que calcula o tempo solar

 

Não muito longe dali, na saída da Ponte Mont Blanc, um estranho relógio de sol revela o chamado “tempo solar” e a altura do astro-rei (que permite calcular a data através de um ponto luminoso projectado no centro). O magnífico objecto foi oferecido à cidade em 1974 pela Gübelin.

Seguimos lentamente pelas margens do Lago Léman, o maior lago de água doce da Europa Ocidental. É impossível não reparar no enorme jacto de água que lança 500 litros de água no ar por segundo, a uma velocidade de 200 km por hora.

O que muita gente não sabe é que o jacto nasceu por causa de um problema técnico, em 1886. A hidroelétrica do rio Rhône (que fornecia artesãos, indústria e relojoeiros de Genebra) tinha tanta força, que quando se fechava a unidade à noite, a forte pressão ameaçava as turbinas. Um engenheiro lembrou-se então de colocar uma válvula de segurança para escoar o excesso de água, provocando um jacto de 30 metros de altura.

Anos mais tarde, nas comemorações do 600º aniversário da Confederação Suíça (1891), a cidade decidiu tornar o Jet d’Eau num ponto turístico, criando um modelo ainda maior, de 90 metros. Hoje, atinge os 170.

 

O ponteiro dos segundos, com 2,5 metros, é o maior do mundo!

 

Nas margens do lago fica também o jardim inglês e o mais famoso relógio da cidade, que alia duas artes belíssimas: botânica e relojoaria. Com 16 metros de circunferência e 5 metros de diâmetro, o dito relógio é feito com mais de 6 mil flores, que mudam de acordo com a estação do ano. Para além de bonito, o Horloge Fleurie informa as horas com precisão suíça: o horário é transmitido via satélite.

Seguimos de relógio em relógio, até ao incrível exemplar da Passage Malbuisson, que encanta os visitantes de hora em hora com o seu visor musical, quando 42 figuras de bronze em miniatura marcham ao som de pequenos sinos.

Concebida por Eduard Wirth, esta criação de conto-de-fadas é inspirada na L’Escalade, a vitória dos genebrinos sobre as tropas de Carlos Emanuel I de Sabóia – que  usaram escadas para vencerem as muralhas e atacarem a cidade – na noite de 11 para 12 de Dezembro de 1602.

Terminamos este roteiro extraordinário no Museu Patek Philippe (uma marca local), entre criações dos seus mestres relojoeiros e uma coleção de relógios, autómatos musicais e miniaturas de esmalte dos séculos XVI ao XIX, criadas em Genebra, na Suíça e na Europa.

Tic, tac, tic, tac. O tempo esfuma-se quando somos felizes.

 

Philippe Patek Museum: site | Terça a quinta 14h00-18h00 e sábado das 10h00-18h00 | Bilhete 10 CHF (adulto), gratuito (crianças)
Cité du Temps: site | Todos os dias 9h00-18h00 | Gratuito

Dica: Transporte público gratuito. Quem se hospedar num hotel, pousada da juventude ou acampamento em Genebra, recebe um “Geneva Transport Card” que permite usar os transportes públicos da cidade, gratuitamente, durante a sua estadia.

 

 

Outras visitas notáveis: CERN

A noroeste da cidade de Genebra, fica um dos laboratórios científicos mais fantásticos de sempre. Considerado o maior laboratório de física de partículas do mundo, o CERN fica na fronteira entre a França e a Suíça.

Criado em 1953, o objectivo desta organização científica é a “promoção e a colaboração entre países europeus na área da investigação fundamental no domínio da Física das Altas Energias, de modo a permitir à Europa a liderança nesse domínio”. À entrada, o Globo da Ciência e da Inovação, com 27×40 metros, dá as boas-vindas aos visitantes.

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2019-07-16T11:37:39+00:00

26 Comments

  1. Beatriz Bragança 31 Maio, 2017 em 14:09 - Responder

    Minha querida
    Gostei muito do vídeo e agradeço-lhe, ó guia maravilhosa, pela visita guiada à Suiça francófona, a única que ainda não conheço.
    Continuação de uma excelente semana.
    Um beijinho
    Beatriz

  2. M. 1 Junho, 2017 em 19:55 - Responder

    Que beleza de relógio! Graças a ti, já sei o motivo do desenvolvimento da relojoaria na Suíça (já vou fazer grandes brilharetes!)!
    Beijinhos

    • Berço do Mundo 1 Junho, 2017 em 21:58 - Responder

      Desconfio que quem vai jantar a tua casa não ouve nada do que dizes, por causa da comida maravilhosa que lhes serves… mas tenta e depois conta-me como correu 😉

  3. Mapa na Mão 1 Junho, 2017 em 21:54 - Responder

    Gostei muito da dica deste tour e também do post. Ah, não sabia que as maçãs eram famosas, hhehehe. Comi muito chocolate por lá, mas nenhuma maçã. Bom saber.

    • Berço do Mundo 1 Junho, 2017 em 21:57 - Responder

      Sério. Pois não sabe o que perdeu. São das maçãs mais saborosas que já comi (e não aquela coisa sem sabor que compramos habitualmente no supermercado)

  4. Vivi na Viagem 1 Junho, 2017 em 22:26 - Responder

    A Suíça é simplesmente maravilhosa! Esse relógio de flores é lindo demais!

  5. Mirella Matthiesen (mikix) 1 Junho, 2017 em 23:47 - Responder

    Adorei seu relato, aprendi um montão de coisas que não tinha ideia!
    Bacana quando um tour é assim tão lúdico!

  6. 1001 Dicas de Viagem 2 Junho, 2017 em 9:29 - Responder

    Adorei o post e o vídeo!! Muito bacana aprender todas estas informações sobre a cidade. Passei por lá para ir da região do JURA para Annecy, mas não cheguei a conhecer a cidade ainda… Quem sabe na próxima. 🙂

  7. Péricles Rosa 2 Junho, 2017 em 10:30 - Responder

    Que legal!!
    Um tour que os amantes de relógio não podem perdem de forma alguma.
    E que graça o video.
    Fui à Genebra só uma vez, e não fiz esse passeio. Na próxima 😉
    Abraço

  8. Elvira Carvalho 2 Junho, 2017 em 16:05 - Responder

    Não me canso de lhe agradecer pela possibilidade que nos dá de viajar consigo.
    Gostei muito
    Um abraço e bom fim-de-semana

  9. Thais 2 Junho, 2017 em 17:14 - Responder

    Ola,
    Que post bacana. Genebra é uma cidade linda mesmo. Estive lá ano passado.
    Adorei as dicas.
    bjos
    Thais

  10. Anónimo 2 Junho, 2017 em 22:17 - Responder

    Que ponteiro dos segundos gigantee!! Rs… Genebra realmente é encantadora!

  11. Analuiza Carvalho 2 Junho, 2017 em 22:38 - Responder

    Acabei de chegar de Genebra e voltei completamente rendida à esta cidade, que tornou-se minha preferida da pequena parte da Suíça que visitei.

    Não fiz o tour dos relógios. Uma pena, mas sabe que achei muito pouco o tempo que passei na cidade?! Infelizmente a subestimei! 🙁

    O texto está uma delícia de ler, como sempre (estou ficando repetitiva?!) bj

    • Berço do Mundo 3 Junho, 2017 em 6:55 - Responder

      Também subestimei a cidade, precisava pelo menos 2 dias para fazer tudo o que gostaria, incluindo entrar na sede europeia da ONU. Ficará para uma próxima, Analuiza. Haja desculpas para regressarmos aos lugares onde fomos felizes.

      P.S. Genebra não ficou a ser a minha cidade suíça favorita.

  12. Camila Lisboa 3 Junho, 2017 em 2:35 - Responder

    Nunca imaginei (mesmo com toda a fama) que tinha um watch tour na Suiça! Adorei!

    • Berço do Mundo 3 Junho, 2017 em 17:13 - Responder

      Se um watch tour faz sentido em algum lugar no mundo, esse lugar é a Suíça. Pode fazer o roteiro com um guia ou sozinha, já que os postos de turismo oferecem mapas específicos para isso.

  13. Itamar Japa 3 Junho, 2017 em 15:15 - Responder

    Que legal adorei saber mais sobre Genebra! teve um tempo que Curitiba disputava o titulo de cidade com mais relógios no mundo não lembro com que outra cidade… Será Genebra? Já foi este tempo, porque tiraram quase todos os relógios que tinham aqui em CWb. hehe

    • Berço do Mundo 3 Junho, 2017 em 17:14 - Responder

      Olá Itamar. Na verdade, não acho que a cidade tenha mais relógios do que o comum, apenas lugares mais significativos relacionados com o assunto.
      Abraço

  14. Toninho 5 Junho, 2017 em 23:14 - Responder

    Que beleza Ruthia esta partilha que nunca tinha visto sobre Genebra.
    A busca pela precisão me encanta com est show de tecnologias.
    Fizeste uma viagem encantada e maravilhosa para deixar os olhos acesos.
    Lindo este clip do relógio e interessante a historia da concepção do jato na hidrelétrica, isto me fascina e adoraria conhecer.
    Grato sempre amiga por este carinho e dedicação em nos colocar na viagem com todos os detalhes e dicas de possível turismo.
    Gostei e o pequeno descobridor deve ter ficado encantado.
    Um carinhoso abraço para vocês.
    Bjs de paz e bela semana para vocês.

    • Berço do Mundo 6 Junho, 2017 em 6:36 - Responder

      O Pedrinho é um explorador super curioso, adora cada lugar novo que conhecemos. Esse é o fascínio de viajar com uma criança, vemos tudo com "olhos novos e deslumbrados".
      Abraço

  15. Lilian Azevedo 7 Junho, 2017 em 21:50 - Responder

    Que passeio maravilhoso ! Não conhecia esse roteiro mas deve ser muito interessante.
    O Horloge Fleurie é fantástico, todo de flores !

    • Berço do Mundo 7 Junho, 2017 em 22:10 - Responder

      É sempre uma alegria partilhar pontos de vista diferentes. E "vê-la" por aqui também

  16. Mariazita 8 Junho, 2017 em 10:18 - Responder

    Olá Ruthia
    Tens razão em classificar como "extraordinário roteiro" este "passeio".
    Como não conheço a Suiça (falha que preciso colmatar logo que possível – este ano não dá, vou aos States…) gosto imenso destas postagens.
    Sabia que o "boom" no fabrico de relógios suíços se devia a Calvino, mas desconhecia exactamente porquê. Mais um aprendizado hoje… 🙂

    Dias felizes te desejo, minha querida.

    PS – Obrigada pela presença e palavras tão gentis na minha CASA

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

  17. Calu B. 9 Junho, 2017 em 15:14 - Responder

    Mais um passeio agradabilíssimo através de teus claros relatos, Ruthia. Curiosidades muito interessantes pra mim, gosto da magia do tempo, seus segredos, suas manhas e, todas as criações humanas em seu encalço.Me encantam relógios originais.Quando estive em Praga, não perdia a apresentação do Grande Relógio, ao menos, duas vezes ao dia.Ainda bem que foram só por 4 dias, rsrsrsr
    Belas e inspiradoras fotos.
    O Pedrinho está esticando rapidamente. 🙂

    Bjo,
    Calu

  18. Blog Donna Gatta 11 Agosto, 2017 em 14:50 - Responder

    Que lindo passeio! Gostei do vídeo.
    Genebra é linda de se ver, e você de descreveu bem sua passagem por lá.
    Da última vez que fui, o "Jacto de Água" estava desligado…
    Valeu!
    Beijos, Deus abençoe.

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