O Palácio do federalismo suíço

A Suíça não foi construída sobre uma identidade étnica, religiosa, cultural ou linguística. Ainda assim, é uma nação forte e admirável. Democracia directa, federalismo e neutralidade são a argamassa que une os estados autónomos (cantões) da federação Helvética. 

A democracia directa suíça fascina-me desde sempre. Que dizer de um povo que não só elege os seus representantes mas que é capaz de realmente influenciar as leis que são aprovadas, através de referendos frequentes?

Aproveitando a visita a Berna, capital do país desde 1848, fomos conhecer o Bundeshaus, o belo, imponente e absolutamente simétrico Palácio Federal. Diga-se que o edifício é grande demais para esta minúscula capital de apenas 140 mil habitantes, tão singular para os padrões europeus (recordem a visita a Berna aqui).

As visitas guiadas ao palácio, gratuitas, acontecem todos os dias úteis, mas convém reservar com antecedência para garantir vaga. Apesar da falta de planeamento, a sorte esteve do nosso lado e conseguimos integrar uma visita em francês. Obviamente preferíamos inglês ou espanhol, mas os portugueses arranham sempre meia dúzia de línguas, portanto foi em francês mesmo e não demos o tempo por perdido.

 

 

Procedimentos de segurança concluídos – inscrição, crachá, raio-x – começamos a visita no hall principal, sob a linda cúpula de vidro com a cruz suíça e o mote da nação em latim Unus pro omnibus – Omnes pro uno“,  um por todos, todos por um.

Estes todos não são os mosqueteiros de Dumas, são os 26 cantões da Suíça, com as suas próprias leis e idiossincrasias, mas também com um sentimento de pertença a algo maior.  Os seus brasões completam a cúpula, com excepção das armas de Jura, que se encontram um pouco mais abaixo, sozinhas, porque o cantão foi fundado em 1978, quando o tecto já estava pronto.

Baixando o olhar, somos esmagados pelos três confederados (Walther Fürst do cantão de Uri, Werner Stauffacher de Schwyz e Arnold von Melchtal de Unterwalden), uma escultura de 24 toneladas que nos remete para o Juramento do Rütli (1291), mito importantíssimo da fundação do país.

De resto, o hall é rico em detalhes e referências simbólicas. Por exemplo, os quatros pilares da escadaria são orgulhosamente defendidos por guardiões que representam as regiões linguísticas do país: Suíça alemã (63% do território), Suíça francesa (20%), Suíça romanche (0.5%) e Suíça italiana (6.5%).

 

O candelabro da sala do Conselho de Estado pesa 1,5 toneladas.

A sala do Conselho Nacional.

 

O Palácio acolhe duas instituições importantes: o Conselho de Estado, composto por 46 conselheiros que representam os cantões e devem ser fluentes nas três línguas maioritárias, e o Conselho Nacional (equivalente ao nosso Parlamento), com 200 deputados que representam o povo suíço.

A sala do Conselho de Estado é bem pequenina, de uma sobriedade conservadora, enquanto a do Conselho Nacional é ampla e dominada por uma grande pintura de Charles Giron, do lago onde terá nascido a confederação, isto é, onde terá acontecido o juramento que uniu várias regiões contra o domínio dos Habsburgos.

A obra é ladeada por duas esculturas muito significativas. De um lado, o lendário herói Guilherme Tell, símbolo de liberdade e resistência, e do outro, Gertrud Stauffacher, esposa de um dos três confederados que terá persuadido o marido a formar a aliança (lá diz o ditado que um grande homem conta sempre com uma grande mulher).

Saindo para o Wandelhalle, o comprido corredor de 44 metros conhecido como a Sala dos Passos Perdidos, somos ainda presenteados com um tecto exuberante e uma vista privilegiada para o rio Aare. Os membros dos Conselhos juntam-se ali nos intervalos das sessões e ali recebem também visitas oficiais de outros países.

Talvez a política aconteça, de facto, nesta sala. Ou pelo menos será ali que mostram as fotos dos seus filhos uns aos outros, como os restantes mortais.
 

Em frente ao palácio federal, na Bundesplatz, existe uma fonte com 26 jorros de água (um para cada cantão)

 

Visitas guiadas ao Palácio Federal: aqui
Visita virtual: aqui

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2019-02-24T16:10:17+00:00

26 Comments

  1. Mariazita 25 Maio, 2017 em 10:14 - Responder

    Querida Ruthia
    Que maravilha de post!
    Tanta informação prestada é uma verdadeira lição de… História (?)
    Seja lá do que for, o certo é que, ao ler-te, se adquirem enormes conhecimentos.
    Confesso que comigo isso aconteceu (o que é normal, vindo aqui…)
    Obrigada pela excelente partilha.

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

  2. Marta Iansen 25 Maio, 2017 em 12:11 - Responder

    E evidente que, para eles, o sistema federativo funciona muito bem. Já não se pode dizer o mesmo para outros lugares do mundo…

  3. Marta Iansen 25 Maio, 2017 em 12:13 - Responder

    Voltei: é que estive na página d'O Berço do Mundo no Twitter. Ótima para lembrar quando há posts novinhos em folha!

    • Berço do Mundo 25 Maio, 2017 em 12:58 - Responder

      Pois é Marta, vc não funciona muito com o FB mas o Twitter também é uma óptima ferramenta.

  4. Adriana LARA 25 Maio, 2017 em 19:02 - Responder

    minha adorável professora de história e cultura geral!
    muito obrigada por mais esta aula extraordinária
    bjs desejando excelente final de semana
    aqui, ainda em clima de festa… veja vídeo no link com Ali dançando https://www.facebook.com/mrs.adrianalara/videos/1541514902533374/?pnref=story

    e
    https://www.facebook.com/mrs.adrianalara/videos/1540532835964914/?pnref=story

    e a mãe aqui baba… baba…

    bjs

    • Berço do Mundo 27 Maio, 2017 em 21:18 - Responder

      Babar de orgulho pelos filhos está escrito geneticamente nos nossos cromossomas, haha. Beijinho

    • Adriana LARA 29 Maio, 2017 em 13:24 - Responder

      com certeza, querida!! e qto ao magra… continuas linda de viver!!! cinturinha de pilão? como dissestes…. melhor é ter saúde!!! bjs e obrigada por reveres o vídeo do Ali!!

  5. Adriana Balreira 25 Maio, 2017 em 19:27 - Responder

    Ruthia,
    que passeio interessante. Amei saber um pouco mais da história da Suiça com sua visita a esse palácio lindo! Amei.
    Beijos
    Adriana

  6. Fabiane Bastos 25 Maio, 2017 em 19:34 - Responder

    Acabei de descobrir, preciso conhecer mais sobre a Suíça! :O Correndo para seu post sobre Berna agoraaa….. Belo post!

  7. Mapa na Mão 25 Maio, 2017 em 21:04 - Responder

    Lindo o palácio. Adoro estas visitas a palácios da Europa. E adoro a Suíça, então, perfeito! Amei o post.

  8. Thais 25 Maio, 2017 em 22:21 - Responder

    OLa.
    Essa Palacio é lindíssimo. Eu só o conheci por fora. Viajei nas suas fotos.

  9. Quarto de viagem 25 Maio, 2017 em 22:21 - Responder

    É incrível como a história nos proporciona conhecimento e prazer! E o mais legal é presenciá-la ao vivo! Suíça está na minha lista.

  10. Ana Paula Fidelis 25 Maio, 2017 em 23:28 - Responder

    Achei o post muito interessante, pois não conhecia nada do que você contou sobre a Suíça! Vivendo e aprendendo!!! 🙂

  11. Beatriz 26 Maio, 2017 em 0:12 - Responder

    Pois aqui precisamos mandar "nossos" governantes corruptos urgentemente à Suíça para aprender o que é a verdadeira democracia feita para o bem de todos!!!
    Além disso, é um lugar fantástico e abençoado pela natureza e sua cultura!

    Grande beijinho Ruthia!

    Bia <º(((<

    • Berço do Mundo 26 Maio, 2017 em 6:43 - Responder

      Não são só os políticos brasileiros que precisam de um "estágio" num país de primeiro mundo, Bia.
      Beijinho querida exploradora

  12. Francisco Piazenski 26 Maio, 2017 em 1:08 - Responder

    Fantástica visita, Ruthia, em um edifício que além de representar o simbolismo da democracia suíça, traz elementos arquitetônicos tão belos e singulares. Adorei, muito bonito!!

  13. Di Xavier 26 Maio, 2017 em 2:36 - Responder

    Muito inspirador seu post. Da Suíça eu conheci só aquele cantinho do Lago Leman. Tenho vontade de conhecer Berna, mas ainda não deu.Uma viagem para a Europa, partindo do Brasil dá em torno de 24 horas ou mais em aeroportos para quem não reside nas cidades de onde saem os voos internacionais. Gostei de sua forma de escrever e de conhecer o seu blog. Vou visitá-lo mais vezes.

    • Berço do Mundo 26 Maio, 2017 em 6:42 - Responder

      Agradeço a sua visita e espero que passe um tempo maravilhoso aqui n'O Berço.
      Eu também não moro perto de Lisboa, felizmente cada vez há mais voos a saírem do Porto, o que me facilita a vida.
      Abraço

  14. Toninho 26 Maio, 2017 em 3:42 - Responder

    Que linda partilha e aula amiga.
    Sei pouco sobre eles e encanta conhecer um Palácio como este.
    Uma cultura bem diferente do que conhecemos amiga.
    Um bom fim de semana para voces.
    Bjs de paz.

  15. Camila Lisboa 26 Maio, 2017 em 17:55 - Responder

    Precisamos cada vez mais nos espelhar na Suiça e na maneira com que tudo parece funcionar bem por lá! Além de ser um país lindo!

  16. Analuiza Carvalho 27 Maio, 2017 em 12:50 - Responder

    Essa visita foi a que mais me encantou em Berna! Adorei conhecer os corredores da política suíça, além de a estrutura ser bela. Também fizemos a visita em francês para não perder a oportunidade! 🙂 Mais um texto delicioso de se ler!

  17. Juny (Juliana Almeida) 27 Maio, 2017 em 12:56 - Responder

    Que passeio interessante. Há tantos lugares para se conhecer na Suiça.
    Lindo palácio! A arquitetura é muito rica em detalhes!

  18. Elvira Carvalho 30 Maio, 2017 em 19:40 - Responder

    Obrigada Amiga por este belo passeio.
    Para quem nunca foi à Suíça é uma boa oportunidade de aprender um pouco mais.
    Um abraço

  19. M. 30 Maio, 2017 em 19:54 - Responder

    E cá estou eu a aprender ao vir aqui, obrigada! O palácio é… colossal 🙂
    Beijinhos

  20. Anónimo 6 Junho, 2017 em 22:29 - Responder

    Que coisa mais fofaaaa! Amei demais essa trip! As fotos tb estão ótimas! Adorei!

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