As despedidas do vale do Lima fazem-se às portas do Gerês, a convite do padre Himalaya, esse estranho e visionário sacerdote católico-cientista-inventor com alma de viajante

Iniciamos a Rota dos Gigantes do vale do Lima em Ponte da Barca, pela mão do navegador Fernão de Magalhães (aqui), seguindo depois as pisadas do jesuíta Francisco Pacheco em Ponte de Lima (aqui) e do aventureiro João Álvares Fagundes em Viana do Castelo (aqui). Terminamos esta aventura guiados por Manuel António Gomes, mais conhecido como padre Himalaya, na pequena vila de Arcos de Valdevez.

Padre Himalaya? Não é curiosa a alcunha? Procurei até encontrar a razão da mesma e descobri que este filho de agricultores ficou assim conhecido no seminário de Braga (única opção para os bons alunos oriundos de famílias pobres conseguirem estudos superiores), por causa da sua estatura. Ou seja, os amigos começaram a chamá-lo Himalaia, ou Himalaya na grafia de então, por causa de ser muito alto 🙂 …

Mas não foi a sua estatura que o colocou na lista de “gigantes” do vale do Lima. Não senhor. Ele dedicou a vida à ciência e criou várias invenções que o tornaram mundialmente conhecido. Os seus aparelhos foram apresentados em todo o mundo; mas causaram especial admiração na Exposição Universal (1904) do Missouri (EUA) onde conquistou o mais importante prémio graças ao Pirelióforo, uma estrutura metálica que captava a energia solar. O New York Times e outros grandes jornais americanos deram-lhe honras de primeira página.

Foi ainda naquele país que inventou a himalaíte, uma espécie de pólvora à base de cloreto de potássio. Mas os seus interesses passaram também por engenharia, hidroeléctrica, vulcanologia, sismologia, agricultura (desenvolveu adubos orgânicos, por exemplo) e medicinas alternativas. Vamos conhecer a sua terra-natal?

 

O rio Vez, um afluente do Lima, marca o ritmo da terra que viu nascer aquele inventor no século XIX. Diz-se que é um dos rios menos poluídos da Europa. As águas cantam alegremente enquanto atravessamos a ponte centenária.

Procuramos o Paço de Giela, monumento nacional que podem apreciar na imagem de entrada do post, construído em várias fases a partir do século XIV, onde assistimos a um pequeno documentário sobre o Recontro de Valdevez (1141), o torneio que opôs D. Afonso Henriques a D. Afonso VII de Leão, antes do nascimento da nacionalidade.

Graças a esse episódio – que resultou no tratado de Zamora onde o rei espanhol reconhece a soberania do nosso primeiro rei e a independência do condado Portucalense – se diz que Portugal nasceu em Guimarães (recordem a cidade dos meus afectos aqui) mas se fez em Arcos de Valdevez. Marketing bem-sucedido, digo eu!

 

O Recontro de Valdevez entre D. Afonso Henriques e o rei de Leão é evocado no Campo do Trasladário

O interior da Igreja Matriz, cujo orago é o S. Salvador.

 

O slogan surge na fachada da Câmara Municipal, num largo onde nos chama a atenção o curioso e retorcido pelourinho manuelino. Dali ao Jardim dos Centenários são dois passos, onde encontramos a Igreja Matriz com a sua capela rococó. Vale a pena passar ainda pela pequena Igreja de N. Senhora da Lapa e, mesmo em frente, pelo curioso relógio de água que evoca as palavras de Marc Augé: Oh tempo, suspende o teu voo! De acordo, disse o tempo. Mas por quanto tempo?

A sugestão parece funcionar. O tempo parece andar mais devagar aqui, efeito porventura do ar puro, do silêncio que nos conforta a alma ou das montanhas em redor.

Respondemos ao apelo destas lânguidas encostas, onde o vinho verde amadurece, e rumamos à Porta do Mezio, uma das cinco entradas para o Parque Nacional da Peneda-Gerês, esse magnífico território classificado pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera.

Ali perto podem visitar-se vários monumentos funerários pré-históricos, procurar pinturas rupestres, visitar a bela aldeia do Soajo, e apreciar paisagens deslumbrantes pontilhadas por vacas de longos chifres que pastam livres antes de se transformarem na matéria-prima do bife de cachena, típico da região.

 

 

Como chegar
A 36 km de Braga, a 40 de Viana do Castelo e a meio do caminho entre os dois aeroportos mais próximos – Porto e Vigo (90 km) – o acesso à vila dos Arcos faz-se pela auto-estrada A3 (Porto – Valença), seguida do IC28.

Onde comer
A carne de cachena com arroz de feijão tarrestre é o prato mais famoso, confeccionado com uma das mais pequenas raças de vacas do mundo. Estas vaquinhas certificadas pastam, livres e felizes, sobretudo na Serra da Peneda/Soajo. Como sabem, não como carne, pelo que não provei. Para além da carne de cachena, come-se na região os rojões e papas de sarrabulho, vários pratos de cabrito e enchidos, regados com o fresco vinho verde local.

Todas as iguarias podem ser apreciadas no restaurante Foral de Valdevez, que nos serviu um arroz cremoso de tamboril exemplar, seguido dos tradicionais “charutos d’ovos” dos Arcos de Valdevez (que também podem encontrar na Doçaria Central).

Onde ficar
Fiquei no Luna Arcos Hotel Nature & Spa, com vista para o rio, e recomendo vivamente. A tranquilidade da natureza envolvente, a decoração clean, a simpatia dos funcionários e o serviço de SPA contribuem para uma experiência muito relaxante. Gostei tanto da estadia que em breve farei um post mais pormenorizado sobre o hotel. Até porque acho que é a opção perfeita para explorar não só a vila e a Rota dos Gigantes, mas todo o Alto Minho.

 

Os charutos de ovos, de origem conventual, foram-nos servidos com gelado e frutos silvestres

© Luna Hotels

 

Paço de Giela: aqui | ter-dom: 10h-13h e 14h-18h (Inverno)| Entrada: 1€ (adulto), grátis (crianças até aos 12 anos)

Parque Aventura da Porta do Mezio: aqui | todos os dias Outubro a Março: 9h30-17h00 | Entrada: 2€ (a partir dos 6 anos)

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