Depois de décadas de conflitos armados, Angola procura uma nova identidade, compatível com a de um país africano do século XXI. Lentamente, vão surgindo projectos culturais interessantes: vamos conhecer 5 museus de Angola

Com 42 dialectos regionais, distintos grupos étnicos e crenças ancestrais, a identidade deste país africano extrapola largamente as fronteiras desenhadas, a régua e esquadro, pelos europeus no século XIX.

Do ponto de vista literário, para além do famoso Agostinho Neto, Angola produziu grandes escritores, onde se destaca Pepetela, Luandino Vieira e Viriato da Cruz. Autores que enfrentaram sérias dificuldades em editar o seu trabalho, durante o período conturbado das guerras.

Hoje, felizmente, os tempos são de paz e o país parece apostado na modernização. Se os espectáculos musicais sempre abundaram – assisti a um café concerto do Toty Sa’Med na ilha muito interessante – hoje já é possível apostar numa abordagem mais internacional, de que são exemplo os festivais de jazz (aqui).

Foi aprovada uma Lei do Mecenato, três regiões estão a candidatar-se a Património Mundial da Unesco (Mbanza Congo, Tchitundo-Hulu e Corredor do Kwanza) e o gigante programa de reconstrução nacional inclui alguns espaços culturais.

Aliás, desde a criação do Ministério da Cultura, em 2002, a capital viu nascer vários museus. É certo que precisam de trabalhar para alcançar os padrões a que os turistas estrangeiros estão habituados, sobretudo ao nível da conservação dos espaços, da informação e qualidade das visitas guiadas. Mas um passo de cada vez.

 

 

1. Museu Nacional da Escravatura

No Morro da Cruz, uma casa ergue-se branca e austera, como nos tempos de D. Álvaro de Carvalho Matoso, capitão de Granadeiros, almirante das Naus Lusitanas das Índias, cavaleiro da Ordem de Jesus e traficante de escravos.

A Casa Grande acolhe um dos museus mais significativos de Angola: o Museu Nacional da Escravatura.  Com 60 peças expostas, recolhidas antes e depois da independência, o museu recorda sem rodeios o passado tenebroso, quando milhares de angolanos agrilhoados foram enviados para o outro lado do Atlântico. A peça mais antiga será, precisamente, uma grilheta em ferro do século XVII, usada para prender mãos e pés das “peças”.

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2. Museu Nacional da História Militar

Alcandorado sobre a baía de Luanda, o histórico forte de S. Miguel acolhe o Museu Nacional da História Militar (reaberto em 2013), destacando-se ao longe graças à gigante bandeira de 18×12 metros.

Ultrapassada a enorme estrela que remete para o Dia da Paz e Reconciliação Nacional, uma imponente escultura em bronze da rainha Ginga dá as boas vindas aos visitantes, ladeada por dois aviões T6 da força aérea portuguesa.

O pátio interior está repleto de esculturas em pedra de personagens históricas, retiradas de praças de Luanda porque estavam a ser vandalizadas: D. Afonso Henriques, o capitão-governador Paulo Dias de Novais, os navegadores Diogo Cão e Vasco da Gama, Luís de Camões, Salvador Correia de Sá (que resgatou Angola do domínio holandês no século XVII), o governador Pedro Alexandrino de Cunha…

No local estão também os carros usados por Agostinho Neto quando esteve no exílio e depois de regressar ao país, bem como o armão militar que transportou os seus restos mortais depois de chegaram da Rússia, onde este faleceu. Outro material bélico – de fabrico artesanal,  russo,   italiano, americano e britânico – usados pelos angolanos e também pelos portugueses constam do acervo do museu.

Para mim, a mais bela secção fica na Casa-Mata central (imagem de entrada do post): as paredes estão revestidas de azulejos que retratam a história de Angola desde a chegada dos primeiros portugueses na foz do rio Zaire.

Morada: Calçada de São Miguel, Luanda (não tem site)

3. Museu da Antropologia

Infelizmente grande parte do seu rico acervo, que terá mais de 6 mil peças etnográficas – como mintandis, máscaras e estatuetas de culto – não está exposto por falta de condições do edifício. Diz-se que em breve o edifício vai ser requalificado.

Uma notícia de 2016 (aqui) destacava o regresso ao museu da estatueta Lwena, originária da província do Moxico, no leste do país: a figura de madeira possui um orifício na cabeça para fixar um chifre com medicamentos… parece que a estatueta era usada em ritos de adivinhação.

Na secção dos instrumentos musicais, pode conhecer-se a marimba (uma espécie de xilofone), o Ngoma (género de tambor feito de troncos, com as extremidades cobertas com pele de antílope), a Omakola, a Cihumba, o Ndungu…

Depois há a secção das máscaras de madeira, fibra vegetal e resina; de todas as cores e feitios. Já vi várias no mercado do artesanato e parecem exalar qualquer coisa de místico, algumas são mesmo assustadoras! Todas estas peças remetem para as diferentes comunidades do país, como os Kikongo, Umbundu, Kimbundu, Lunda-CoKwê, Ngangela, Nyaneka Khumbi, Helelo, Ovambo e Kung.

Morada: Avenida de Portugal (ex Friedrich Engels), nº 61, Bairro dos Coqueiros, Luanda

Dica: a visita é gratuita (janeiro 2019), no entanto, os visitantes são encorajados a dar uma gratificação ao guia.

4. Museu/Memorial Dr. António Agostinho Neto

O singular Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN) ergue-se num grande descampado da Praia do Bispo, sem deixar ninguém indiferente. A torre de 120 metros vê-se de vários pontos da capital.  O primeiro Presidente pós-independência foi ali perpetuado em bronze sob uma pérgula branca, a içar a bandeira nacional, para que todos recordem a data da emancipação do povo angolano.

Mais do que um museu, o espaço pretende dar a conhecer a história angolana e perpetuar a vida e obra de Neto, enquanto poeta e estadista. Assim, as paredes estão estampadas com os textos da Proclamação da Independência e os seus poemas.  No centro do edifício, repousam os restos mortais de Agostinho Neto, um lugar de silêncio onde se destacam as mensagens enviadas por outras nações, a propósito da sua morte.

Site: aqui | Morada: Avenida Dr. António Agostinho Neto, Praia do Bispo, Ingombota, Luanda | Horário: seg-sexta 9h–17h, Sáb. e Domingos: 10h-16h00

Recordem a visita ao Memorial

5. Museu da História Natural

Entre a rua da Missão e a rua da Muxima, o edifício deveria integrar um conjunto modernista que englobava o desaparecido Mercado do Kinaxixi, edifício que Óscar Niemeyer defendeu que deveria ser classificado pela UNESCO.

Não é o magnífico museu de Londres, mas possui um acervo engraçado, com secções de biologia, geologia e ciência da terra a homenagearem a natureza angolana das montanhas, savanas, desertos, selvas e mares.

Destaca-se a colecção de conchas, muitas do tempo em que eram usadas como moeda na costa ocidental africana. Na altura chamavam-se nzimbo, serviam como moeda de troca do antigo Reino do Congo, e eram recolhidas na Ilha de Luanda.

No que respeita à zoologia, a instituição orgulha-se do seu esqueleto de pacaça do século XVIII (trata-se de um mamífero ruminante, parecido com o búfalo), um exemplar da palanca negra gigante empalhado, esse símbolo nacional em perigo de extinção que ainda habita as terras de Cangandala, na província de Malanje, e um esqueleto de uma baleia com 15 metros, para além de outros exemplares como hienas malhadas, leopardos, macacos ou anacondas.

Morada: Rua Nossa Senhora da Muxima, Luanda

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