Burano, Murano e outras ilhas de Veneza

A singularidade de Veneza é esta: a cidade é um arquipélago. São mais de 118 ilhas, separadas por canais e ligadas por mais de 400 pontes. Burano e Murano são talvez as mais conhecidas da região. Fomos conhecê-las e acabamos por ter que ser resgatados do vaporetto

A lagoa de Veneza está pontuada de pequenas ilhas, cada uma delas com as suas especificidades. Se às vezes nem damos conta que mudamos de ilha, outras há que exigem uma breve viagem de vaporetto, o transporte público da Sereníssima.

A uma estação da Praça de San Marcos (linha 1) fica a impactante Igreja Santa Maria della Salute, por exemplo. Este templo barroco do século XVII, construído para celebrar o fim da peste, é suportado por mais de um milhão de pilares de madeira. Outra ilha muito conhecida, em frente a San Marcos, é a San Giorgio Maggiore, tão pequena que se confunde com a igreja que carrega o mesmo nome.

Outras ilhas exigem um percurso mais longo, como sejam Burano, a ilha das casinhas coloridas, e Murano, mundialmente famosa pela sua tradição vidreira. Há várias excursões até lá, como esta de meio-dia, que inclui uma paragem na minúscula Torcello.

Mas estas ilhas da região metropolitana são perfeitamente alcançáveis através da linha 12 do vaporetto, que se pode apanhar na estação Fondamente Nuove (horário). Esta é a opção mais económica se, como nós, tiverem o passe diário. Demoramos cerca de 40 minutos até Burano, passando por várias ilhotas singulares, como a ilha-convento (San Lazzaro degli Armeni) e a ilha cemitério (San Michele). Uma ilha cemitério tem tudo a ver com Veneza, não acham?

 

No vaporetto, a caminho de Burano, com o Palácio Ducal ao fundo

 

Burano, a ilha das cores

Li algures que as casas coloridas de Burano são como um colírio alucinógeno e que esta cromoterapia cura todo o tipo de distúrbios psíquicos?! Exageros à parte, o festival cromático alegra realmente os dias, sobretudo os mais frios.

Reza a lenda que as habitações foram pintadas de cores fortes para que os pescadores pudessem vê-las, no seu regresso a casa. Hoje, o colorido é tão criterioso que os moradores devem informar-se sobre as tonalidades permitidas no lote onde moram, antes de qualquer renovação.

Mas a ilha ficou conhecida no século XVI por outro motivo: o trabalho artesanal de renda. A arte das mulheres de Burano era tão bela, que se tornou muito cobiçada pelas famílias reais europeias. Dizem que a maioria dos trabalhos vendidos em Burano hoje em dia não são feitos à mão. Eu não sei distinguir, portanto não opino sobre o assunto.

Podem conhecer melhor a história desta arte no pequeno Museo del Merletto, que fica na praça Galuppi. Ali perto encontram outro marco da ilha, a Chiesa de San Martino (século XVI), com o seu campanário torto. A torre inclinada (aparentada com a de Pisa?) resultará do afundamento do terreno? Ou é mesmo falta de jeito?

Passamos cerca de duas horas em Burano, tomamos um café perfeito, e passeamos muito entre as casinhas coloridas, contrastantes contra o céu azul. Adorei esta ilha charmosa, bem mais tranquila do que Veneza naqueles dias de Carnaval.

 

 

Murano, a ilha do vidro

Próxima paragem: Murano. Apesar de ter sido fundada pelos romanos, a ilha só ganhou fama por causa do vidro. Na verdade, a arte vidreira nasceu em Veneza, mas foi exilada para Murano em 1291, por causa do risco de incêndio. As fornalhas constituíam uma ameaça numa cidade maioritariamente construída em madeira.

E não uso a palavra “exílio” em vão, pois os vidreiros foram obrigados a permanecer na ilha, sob pena de morte. Felizmente, a tradição foi mantida, os artesãos continuam a soprar o vidro até hoje.

É possível observar os mestres vidreiros em várias pequenas oficinas (algumas exigem um pequeno pagamento e proíbem a captação de imagens) ou em fábricas como a Vetreria Ducale. O Museu do vidro pode ser uma boa opção, para quem tem mais tempo para explorar a ilha.

Podem também incluir no passeio a Igreja di San Pietro de Martire, a Torre dell’Orologio ou a Igreja de Santi Maria e Donato, com um interior belo na sua simplicidade. Mas, note-se, se as montras junto dos canais principais estão repletas de trabalhos em vidro lindíssimo, não muito longe sucedem-se as casas e fábricas abandonadas. De uma maneira geral, Murano não me apaixonou. A arte vidreira é extraordinária, tal como a da região portuguesa da Marinha Grande, mas os preços…

 

 

Este foi um dia memorável: ou não fosse o aniversário do pequeno explorador. Por dois motivos. Primeiro, a tasca onde almoçamos, completamente fora da rota turística. La Perla Ai Bisatei (Campo San Bernardo, 7) fica numa rua escondida, não tem publicidade exterior, nem preços para turistas. É frequentado pelos trabalhadores italianos que querem comer bem.

Os rapazes comeram uma bolonhesa honesta e eu uma especialidade local: massa a lo vongole (com mexilhões). Foi a melhor refeição de toda a viagem e a mais barata também. A sobremesa tradicional são os biscoitos locais com vinho, mas o simpático funcionário desencantou um bolo gelado para cantarmos os parabéns ao Pedro.

Segundo motivo que tornou o dia inesquecível? No regresso a Veneza, o nosso vaporetto morreu e tivemos que ser resgatados. Não foi propriamente uma salvação heroica – houve apenas um transbordo para outro barco – mas fica sempre bem um apontamento dramático, ainda que apenas literário.

Que memórias criaram em Veneza, queridos leitores?

 

 

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2019-03-24T10:43:05+00:00

29 Comments

  1. Anna Claudia 23 Março, 2019 em 22:14 - Responder

    Que incrível! Será meu próximo destino! Adorei conhecer um pouquinho mais sobre Murano e tirar algumas dúvidas. Vou favoritar o post para voltar aqui mais vezes, quando estiver programando a viagem.

    • Ruthia 13 Abril, 2019 em 5:29 - Responder

      As visitas a essas ilhas dão toda uma nova perspetiva sobre a região. Cada ilha em Veneza é muito especial

  2. Marta 23 Março, 2019 em 23:44 - Responder

    Ainda bem que não precisaram ser resgatados de um navio de cruzeiro à deriva (acabo de ver a notícia de um caso assim no mar da Noruega). Quanto ao texto e imagens do post, estão incríveis, como sempre.
    Um abraço, tenha um ótimo final de semana!

    • Ruthia 24 Março, 2019 em 10:33 - Responder

      Já não é a primeira vez que vemos notícias desse género. Em pleno século XXI e com toda a tecnologia disponível chega a ser incongruente

  3. Mariazita 24 Março, 2019 em 10:56 - Responder

    Belíssima reportagem.
    Estive em Veneza, que adorei, mas infelizmente, não fomos a Murano. Com muita pena minha, pois adoro o cristal de Murano, do qual, autêntico, apenas tenho um mocho na minha colecção, que trouxe de Veneza. (O dinheiro não deu para mais…)
    Penso que esse tal de resgate trouxe um certo colorido (a condizer com a casas 😊) para tornar inesquecível a ida a Murano…
    Foi muito bom ler-TE…

    Votos de um Domingo feliz
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    • Ruthia 24 Março, 2019 em 22:56 - Responder

      Nós compramos dois bichinhos minúsculos também, para a colecção de animais do Pedro. São muito caros, mesmo

  4. Klécia 24 Março, 2019 em 22:43 - Responder

    Querida Ruthia,
    Confesso que o que mais me atrai para um dia visitar essa região (muito mais que Veneza) seja a simpática Burano. Essas casas devem sim promover algum tipo de cromoterapia ou coisa que o valha, porque me hipnotizaram! Acredita que Murano eu não sabia que ficava aí? Imagina “banir” a produção de vidro para uma ilha porque era “muito perigoso”! Sorte a nossa ter essas lindezas reunidas num lugar só.
    Ps.: Faço de conta que sou durona e não ligo pra Veneza, mas certeza que vou chegar lá e me apaixonar até por ela também! Impossível pra mim até agora foi não amar a Itália!

    • Ruthia 24 Março, 2019 em 22:55 - Responder

      Eu amo, amo, amo a Itália. Acho que por causa de tanta história, arte e por causa da comida! Coração guloso o meu!

    • Ruthia 25 Março, 2019 em 22:55 - Responder

      Acredito que sim, vai-se apaixonar e vai querer regressar muitas vezes, a não ser que chegue com a mare alta e a cidade esteja a feder (às vezes acontece). No meu caso, aconteceu a primeira

  5. Mariana 25 Março, 2019 em 2:58 - Responder

    Ah, adorei relembrar a época que estive em Burano e Murano. Em 2005, saí de cruzeiro de Veneza, rumo à Grécia, mas fiquei uns dias na cidade e pude visitar as ilhas. Uma graça, não é? Eu adorei!

    • Ruthia 25 Março, 2019 em 22:56 - Responder

      Na verdade, não achei Murano nada de especial, tirando a oportunidade de ver um mestre vidreiro em ação (infelizmente num desses lugares em que proíbem a captação de fotos). Burano sim, é um charme

  6. chica Tazza 25 Março, 2019 em 12:42 - Responder

    Foi lindo reviver belos momentos passados por lá! Lindo post e deixo, ainda que bem atrasados, os votos de felicidades muitas para o nosso querido amigo pequeno(???) explorador! Felicidades MUITAS e ótimas explorações, sempre feitas com todo cuidado e amor! bjs, chica

    • Ruthia 25 Março, 2019 em 22:59 - Responder

      O carinho nunca chega atrasado, Chica. Os seus amáveis votos serão entregues ao Pedro.
      Abraço

  7. Christian Gutierrez 25 Março, 2019 em 15:29 - Responder

    Você acha que ficando em Murano é mais barato para conhecer Veneza?

    • Ruthia 25 Março, 2019 em 22:58 - Responder

      Os restaurantes são mais baratos em Murano, no que respeita à oferta hoteleira, não é muita. Pode compensar eventualmente o aluguer de apartamento.

  8. Vitor 25 Março, 2019 em 16:56 - Responder

    Já passei por Veneza, mas não fui a Burano e Murano. Fiquei com muita vontade em conhecer e em breve voltarei.

    • Paula Abud 27 Março, 2019 em 11:40 - Responder

      Ruthia, minha maior paixão e sonho é conhecer a Itália, sobretudo Veneza. Mas eu amo esse charme colorido das casas que acabam fazendo moldura às ruas e cidade. Vou colocar Burano em nosso roteiro, pois já fiquei encantada!
      Agora sobre os vidros, já tive experiência parecida em fábrica de cristais, não deu pra comprar nada! Rs.
      Abraços!

  9. Elvira Carvalho 25 Março, 2019 em 20:12 - Responder

    Bonito passeio. Veneza é um dos locais que eu gostaria de visitar. Obrigada pela visita ao Sexta, não fora isso e eu pensava que tinha abandonado o blogue, pois a última atualização que tenho lá nos links tem três meses. Por outro lado fui operada a um olho, a cirurgia correu mal, houve hemorragia que me provocou uma lesão na córnea e descolamento da retina. Desde Dezembro já fui três vezes operada e não sei se fica por aqui, razão porque estive um tempo ausente.
    Abraço

    • Ruthia 27 Março, 2019 em 13:21 - Responder

      O blog mudou de casa no final de 2018, daí já não receber atualizações no blogger, Elvira. Espero que os problemas de saúde se resolvam rapidamente. É um prazer recebê-la de volta à minha casa virtual.
      Abraço

  10. Também gostei muito das ilhas de Veneza. Adorei Burano e Murano mas gostei muito do carácter rural de Torcello. Muito bonito.

    • Ruthia 27 Março, 2019 em 13:22 - Responder

      Não chegamos a parar em Torcello, mas li que é a mais pequenina e pacata, mas também a que tem mais história. Terá que ficar para uma próxima visita.

  11. Rui Barbosa Batista 26 Março, 2019 em 18:55 - Responder

    Um aniversário em Veneza juntamente com a melhor refeição e a preços decentes… acho que mereceram o ‘resgate’ do vaporetto, mesmo que a salvação não tenha sido dramática. Os destinos têm outra cor e textura, nos teus dedos…

    • Ruthia 27 Março, 2019 em 13:24 - Responder

      O vaporetto já vinha com uns barulhos estranhos, quando nos apanhou na ilha. Depois em cada paragem “atirava-se” contra os pilares de madeira da paragem… até que parou de vez. Ficou uma história para contar 🙂

  12. ROBERTA KELLY NOGUEIRA 27 Março, 2019 em 13:24 - Responder

    Veneza é deslumbrante! Um roteiro que te tira da realidade e a coloca em um mundo paralelo em história e magia. Adoro as cores e máscaras. Bjo, qjo

    • Ruthia 28 Março, 2019 em 8:15 - Responder

      Então tem que ir espreitar o post sobre o Carnaval em Veneza. Que coisa maravilhosa

  13. Débora Resende 28 Março, 2019 em 1:44 - Responder

    Eu amei Veneza, mas quando viajei para lá não sabia da existência de Burano, Murano e nenhuma dessas ilhas =( Uma boa desculpa para voltar, né? rs Gostei muito do post e das dicas, obrigada!!

  14. Dilma 28 Março, 2019 em 16:55 - Responder

    Oi Ruthia, quanto tempo, tudo bem? Você sempre escrevendo maravilhosamente bem! Gosto de seus textos, são leves e de agradável leitura, sou sua fã! 🙂 Vi no seu post que vc “não se apaixonou” por Murano, isso me consola um pouco porque quando fui para Veneza passei por lá muito rapidinho, daquele jeito que você conhece a cidade mas não tem muito tempo para curtir a mesma, então não deu tempo de ir para as ilhas, ficamos concentrados só em Veneza.
    Abraços,

    • Ruthia 28 Março, 2019 em 19:00 - Responder

      Muito obrigada pela visita, Dilma. Cada um faz opções com o tempo e recursos que tem disponíveis, né? Afinal, a vida é feita de escolhas. E Veneza vale bem cada minuto lá passado

  15. Michelle 29 Março, 2019 em 16:31 - Responder

    Veneza e as ilhas ao redor são realmente maravilhosas, vale muito o passeio. Pena qe só Murano seja bastante conhecida (pelo menos só veja falar sobre Murano);

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