Uma enchente de personagens anónimas e de gestos lentos invade a Sereníssima. Os bailes sucedem-se nos exuberantes palácios, sob o brilho de candelabros seculares. O Carnaval de Veneza não tem concorrência, é de facto o mais belo do mundo

A expressão imóvel da máscara é um pouco desconcertante. É como se aquela pessoa, de trajes sumptuosos, assumisse uma personalidade bipolar. De facto, todos nós usamos máscaras na vida, algumas não tão bonitas como estas.

Foco-me nos seus olhos, para tentar perceber se transmitem a mesma impassibilidade que a sua máscara de papier maché. São olhos claros, de alguém já não muito novo. Parecem interrogar-se acerca da minha insistência em penetrar o seu disfarce. Também está desconcertado(a). É natural, os outros acotovelam-se à sua volta de telemóvel ou máquina fotográfica em riste. Excepto eu.

O pequeno explorador quebra o feitiço, puxando-me pelo braço para ver outro par belamente mascarado. Um mar de gente invade a Piazza San Marco. A neblina que sobe da lagoa empresta ao cenário um filtro feérico.

É durante o Carnaval que Veneza revela a sua essência e a sua identidade. Meses de preparação culminaram em duas semanas de eventos. Toda a cidade se anima com cortejos de gôndolas, artistas de rua, concertos nas principais igrejas, bailes de máscaras.

Entre os desfiles diários, destaca-se a recente Festa do Gentil Foresto, que dá as boas-vindas aos forasteiros. A cidade está empenhada num turismo mais sustentável sob o mote #enjoyrespectVenezia, mas isso não significa que os visitantes não sejam bem-vindos. O Carnaval é fundamental para a economia local.

 

 

Duas semanas de folia

Longe vão os tempos em que as comemorações se prolongavam durante meses. Tudo poderá ter começado no século XII, quando uma vitória militar da “Serenissima Repubblica” resultou em longas comemorações. O festival tornou-se oficial no Renascimento, quando as máscaras se tornaram comuns, para esconder a identidade dos nobres que se queriam juntar aos folguedos.

No século XVIII alcançou todo o seu esplendor, para logo depois ser abolido, sob o domínio austríaco. Gradualmente, a tradição renasceu e o Carnaval de Veneza foi oficialmente retomado, com todo o empenho das autoridades, em 1979.

Hoje, a festa prolonga-se durante duas semanas e há momentos muito simbólicos, que descrevemos a seguir. Quem sabe o ajudará a planear uma visita no futuro!? Um fim-de-semana já permitirá viver um pouco desta magia que é o Carnaval de Veneza. Acompanhem também o programa oficial do Carnavale de Venezia, para mais detalhes sobre o programa de 2020.

 

 

Cortejo aquático – La Festa Veneziana sull’acqua (8 e 9 de Fevereiro 2020)

O Grande Canal recebe a primeira manifestação carnavalesca cerca de 2 semanas antes do Carnaval. No Sábado à noite há um cortejo artístico, num ambiente mágico, e no Domingo de manhã a coisa populariza-se: as gôndolas juntam-se a vários tipos de embarcações numa regata colorida. Está aberta a época do Carnaval.

No ponto de chegada, há barraquinhas com comidas e guloseimas, como os frittelle venezianos. Este símbolo gastronómico do Carnaval foi, durante séculos, a sobremesa oficial da República da Sereníssima.

A massa dos frittele (ou fritole) é um pouco parecida com a das bolas de Berlim, mas com pinhões e passas à mistura. Depois de fritos, em óleo, banha de porco ou manteiga, são polvilhados com açúcar em pó. Também os vi e provei recheados, porque as calorias das férias não contam!

 

 

Festa das Marias (15 de Fevereiro 2020)

Desde o início do século IX que 12 jovens casadoiras se reuniam, no dia da purificação de Maria, na igreja de San Pietro di Castello. O doge emprestava-lhes lindas jóias para a ocasião e as famílias ricas contribuíam com doações para o seu dote, que cada menina carregava numa arcelle, uma caixa de madeira decorada.

Depois da bênção, toda a gente era convidada para um banquete no Palácio Ducal (não deixem de visitar, inclui a passagem do palácio para a ala prisional, através da famosa Ponte dos Suspiros).

Sete séculos depois, resgatou-se essa tradição com a Festa das Marias. O cortejo feminino parte da Igreja de San Pietro, cruza a via Garibaldi, segue junto à lagoa pela Riva degli Schiavoni, chegando à Piazza San Marco a meio da tarde. Várias associações, como a das Damas e Cavalheiros, acompanham o cortejo com trajes tradicionais venezianos, o que torna o evento único.

O voo do anjo (16 de Fevereiro 2020)

Apesar de tanta coisa já ter acontecido, o Carnaval de Veneza parece que renasce com o voo do anjo. Em 2019, a personagem angelical chamou-se Erika Chia e foi a “Maria” coroada no ano anterior. Ela apresentou-se com um fato de borboleta com as cores da lagoa e do vidro, recordando que a tradição de Murano está bem próxima.

O seu voo partiu, como é tradição, do gigante campanário. Suspensa num cabo de aço, a bela borboleta acenou à multidão, enquanto voou delicadamente ao som da música, lançando confetti e pousando no centro da praça. Nesse ano, a organização escolheu um segundo “anjo” para voar, a jovem Micol Rossi, que sofre da doença de Crohn.

 

Concurso das máscaras mais belas 

A passerelle colocada na Piazza San Marco é usada diariamente pelos concorrentes, que buscam o título de la piu bella mascheria. A participação no concurso é gratuita, mas exige planeamento, já que as inscrições terminam em Dezembro. A qualidade do traje é determinante, há uma avaliação prévia antes de cada desfile. Se alguém não cumprir os critérios mínimos, não terá os seus 15 segundos de fama.

Para quem viaja só com bagagem de mão, pode sempre optar por alugar fantasias em algum atelier local. Eu fui ainda mais low-cost e comprei apenas uma máscara. O desfile dos finalistas costuma acontecer no Domingo antes do Carnaval (em 2020, será a 23 de Fevereiro). No dia seguinte, é a vez das crianças.

Bailes de máscaras

Os bailes de máscaras de Veneza são míticos, exclusivos e caros (link para reservar lugares para os bailes oficiais aqui). A arquitectura histórica dos mais belos palácios é realçada com estes eventos opulentos, que combinam moda, refeições requintadas, tradição e música.

Bem, mas esta não é uma tradição ao alcance de todos, já que os preços médios começam a partir dos 500€ por pessoa e pressupõe um exigente dress code. A nós, comuns mortais, resta-nos sonhar com o interior do palácio Flangini. Claro que existem outras opções mais baratas, mas com certeza não terão o esplendor que associamos a um baile veneziano.

Tarde de Carnaval (25 de Fevereiro de 2020)

Para além de assistir aos eventos públicos, todos eles gratuitos e muito concentrados na Piazza San Marco, é maravilhoso sentir o Carnaval nas ruas. Os disfarces são lindos, muitas pessoas desfilam toda a tarde ao longo da praça e junto da Riva degli Schiavoni, onde as gôndolas a baloiçar proporcionam um cenário lindo para as fotos.

A leveza dos gestos e a interacção silenciosa com o público parece uma performance teatral, possivelmente é tudo ensaiado. Aproveite também para fazer um romântico passeio de gôndola. Não é barato (80€ por 30 minutos, em 2019), mas merece a pena, uma vez na vida.

Perca-se nas ruas estreitas, beba um copo de vinho junto à ponte de Rialto, ou faça uma das visitas guiadas especiais pelos segredos de Veneza, mas volte à Piazza San Marco para o espectáculo de encerramento e a coroação da Maria. O tema de 2019, Blame the moon, introduziu alguns elementos futuristas que me desagradaram, mas em 2020 o tema é bem mais romântico. Lembrando que os acessos à praça nesta tarde são controlados por agentes de segurança, que podem revistá-lo ou passar um detector de metais.

 

Como chegar

Do Aeroporto Marco Polo: pode optar pelo waterbus da Alilaguna, que tem quatro linhas (azul, laranja, vermelha e verde – mapa aqui). Se o seu hotel ficar perto das suas paragens, é a melhor opção. Bilhete: 15 euros. Outra opção é o autocarro ATVO (horários aqui) até à Piazzale Roma, bem perto da estação de comboios Santa Lucia. Bilhete: 8€. A partir dali poderá apanhar o Vaporetto ACTV ou um táxi-boat privado.

De outras cidades: quem chega de carro, por exemplo de Milão ou Roma, também deve estacionar na Piazzale Roma, já que os veículos não têm como circular em Veneza. Parque: entre 25€-30€/dia. Quem chega de comboio à estação de Santa Lucia, deve apanhar um vaporetto para o centro da cidade. Nós comprámos o bilhete com viagens ilimitadas para dois dias e pagámos 30€ por pessoa.

 

 

Onde ficar

Estivemos em Veneza no período mais caro do ano, pelo que optámos por pernoitar em Pádua e chegar de comboio à cidade. O comboio rápido regional demora cerca de 30 minutos e só custa 4,95€ por trajecto. O preço do alojamento ficou a 1/3 do valor que pagaríamos em Veneza.

Utilize o nosso link do Booking para pesquisar o seu alojamento em Veneza ou Pádua. Se fizer uma reserva através dos sites parceiros d’O Berço estará a ajudar a manter o blog sem publicidade e completamente isento. E não paga mais por isso.

Em 2019, foi aprovada uma nova taxa de turismo, para quem visita Veneza sem pernoitar, aplicável também às ilhas da lagoa veneziana como Murano e Burano.  Os valores começam em 3 euros, durante a época baixa, subindo para os 8 euros durante a semana (em época alta) ou um máximo de 10 euros, durante períodos “críticos”, como fins-de-semana ou épocas festivas.

A medida faz parte de uma série de esforços da cidade para reduzir o turismo excessivo. Devia ter entrado em vigor em Maio de 2019, mas o debate foi-se arrastando, estando previsto começar a cobrar-se a partir de Julho de 2020.

 

 

O que comer

As refeições no centro histórico de Veneza são, de uma maneira geral, caras. Caminhando um pouco para os bairros mais afastados, consegue-se preços um pouco mais simpáticos.

Tenha atenção que a maioria dos restaurantes cobra coperto (taxa por se sentar à mesa e usar a louça, entre 2€/3€ por pessoa) ou taxa de servizio (entre 10% e 15%). Em alguns lugares, o segundo imposto pode estar incluído no preço. Se quiser espreitar o histórico Café Florian, um dos mais velhinhos do mundo, terá um consumo mínimo de 10€.

Em Veneza, para além das pizzas, que são boas em todo o lado, vale a pena experimentar um tradicional spaghetti alla vongole, isto é, esparguete com mexilhões. O baccalà (bacalhau) é uma entrada muito tradicional e pode ser mantecato (tipo patê), in umido (com molho de tomate) ou alla vicentina (cozido num molho cremoso de leite, queijo parmesão e temperos).

Vários pratos são acompanhados com polenta: é o caso do arroz negro ou do baccalà mantecato. Não posso avaliar, porque tenho um trauma de infância com farinha de milho, mas fica a dica.

P.S. O objectivo desta viagem foi desfrutar do clima do Carnaval, o que significa que não conseguimos fazer um roteiro completo na cidade. Muita coisa ficou por conhecer. Se procura ajuda para organizar um roteiro em Veneza, recomendo o post “33 atrações em Veneza (Roteiro sequencial com mapa)

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