Atualizado em 15 Setembro, 2022

Repletos de flores, cores e perfumes delicados, os Jardins de Monet, na pequena Giverny, parecem saídos das suas telas. Se é amante de arte, estou certa que vai apreciar este roteiro impressionista

Giverny, França. A vila é pequena, mas recebe milhares de visitantes por ano. O motivo? A Casa e Jardins de Monet, génio impressionista e um dos pintores franceses mais célebres. A história de amor de Claude Monet pela vila e a sua luz começou em 1883, quando o pintor a vislumbrou da janela de um comboio. Pouco depois, mudou-se para Giverny com a esposa Alice e os oito filhos, vivendo ali até ao fim dos seus dias.

Pintor singular e profícuo, foi uma obra de Monet – “Impressão: nascer do sol” – que inspirou o nome da corrente estética da Belle Époque (1871-1914) que quebrou as regras vigentes na pintura, fundindo luz e sombra e emprestando às telas uma sensação de movimento.

Há turistas que procuram as suas obras-primas nos museus de arte de Paris, sem perceberem que os jardins em Giverny, a sua maior fonte de inspiração, ficam a cerca de uma hora da cidade-luz. Ainda assim, a visita à Fundação Claude Monet (casa-museu e jardins) é um dos passeios mais famosos a partir de Paris.

jardim aquático de inspiração japonesa

A rua onde morou Monet é encantadora, com casas coloridas, jardins cuidados, lojinhas de recordações com um toque vintage. Mas os seus jardins sobressaem no conjunto. É emocionante apreciar os cenários que inspiraram o pintor: deambular pelos jardins é como mergulhar numa das suas telas impressionistas. Ele projetou com afinco os jardins, onde aplicou conhecimentos de luz/sombra e perspetiva, infundindo ainda uma gigante paleta de cores.

O mais procurado dos espaços ajardinados é o Jardin d’eau, com o lago repleto de nenúfares ou ninfeias (os leitores brasileiros diriam ninféias), as flores que serviram de inspiração para a série homónima, e a ponte japonesa que se transformou num cenário habitual de declarações de amor. O outro jardim, Le Clos Normande, onde se encontra a casa do artista, é menos nostálgico e mais colorido, com uma quantidade inacreditável de flores diferentes e um perfume inebriante.

Casa de Monet

Uma longa alameda florida conduz à casa rosada onde Claude Monet viveu durante mais de quatro décadas (1883-1926). Doada pelo seu filho à Académie des Beaux-Arts na década de 1960, o espaço passou por um longo processo de reabilitação antes de abrir ao público.

Entrar na casa é comungar um pouco da intimidade familiar e artística de Monet. O percurso segue por várias salas repletas de arte oriental, estética que o pintor apreciava e transportou para os seus jardins, e alguns quadros que retratam Giverny.

Casa de Claude Monet em Giverny

No piso térreo fica a sala azul, onde, em tempos, repousaram obras de outros mestres, como Paul Cézanne e Auguste Renoir, amigos pessoais do pintor. Este andar conta ainda com a dispensa, a primeira oficina do artista, onde ele trabalhou até 1899, a cozinha e uma sala de jantar (amarela).

No primeiro andar estão os aposentos privados: o quarto, a sala de costura de Alice e o escritório com uma linda cómoda do século XVIII e maravilhosa vista sobre os jardins. O atelier onde o artista pintou a série Les Nymphéas, ao lado da casa, hoje funciona como loja.

Infelizmente, a visita não é adequada a pessoas com mobilidade reduzida por causa das escadas estreitas. Até mesmo uma pessoa mais avantajada pode sentir dificuldade em alguns trechos. Imagino aquilo com oito crianças a correr

Jardins de Monet

Já referi que os Jardins de Monet são, para não sair do contexto artístico, impressionantes, com flores de diferentes alturas e variedades. Claude Monet produziu mais de 200 fotos dos seus jardins e lagos, explorando a maneira como a luz e as cores mudavam dependendo da hora do dia, do clima e da estação.

O Jardim Aquático tem inspiração assumidamente japonesa; os reflexos e jogos de luz sobre a água encontram-se em inúmeras telas de Monet. Para além dos nenúfares, o pintor  colocou ali plantas e árvores que evocam o Oriente: bambus, salgueiros, glicínias, lírios, peónias, áceres e ginkgos biloba.

flores do jardim de Monet

A ponte japonesa é a mais imponente das que atravessam o lago, apesar de pintada de verde, para se confundir com a paisagem. Foi também grande fonte de inspiração para as pinturas do artista, pois o charme de suas curvas produz um efeito particular na superfície da água.

Le Clos Normand (o terreno normando) é o jardim que se estende em frente à casa, com cerca de um hectare. A alameda central possui arcos metálicos, que as roseiras treparam, e, em cada avenida, uma explosão de cores e perfumes: rosas, capuchinhas, tulipas, papoilas, junquilhos, íris, peónias, narcisos, margaridas…

As flores crescem livremente, assim como o pintor se deleitou a pintar desconsiderando códigos pré-estabelecidos. Em suma, os jardins de Monet são muito mais que uma experiência bonita, são um mergulho no universo íntimo do maior pintor impressionista da época. Estar ali é como ver muitos dos seus quadros ao vivo e a cores!

Outros passeios em Giverny

Giverny é famosa por causa de Monet, da sua casa e jardins, mas a cidade também é encantadora, com pequenas e centenárias ruas, jardins, deliciosos restaurantes e cafés (li maravilhas sobre a sopa de cebola do restaurante Baudy, que já foi um hotel frequentado por artistas como Cézanne, Renoir e Rodin), galerias com artistas desconhecidos e várias lojinhas, com produtos inspirados no movimento impressionista.

A principal atração fora dos muros do jardim é o Musée des Impressionnismes, igualmente rodeado por um lindo jardim, com uma coleção dedicada àquele movimento. Apesar de pequeno, o museu apresenta trabalhos não só de Claude Monet, mas também de artistas que o influenciaram ou foram influenciados por ele (antigos e contemporâneos), com destaque para os que residiam em Giverny e no Vale do Sena.

A  800 metros da Casa e Jardins de Monet, fica a singela Église Sainte-Radegonde e, ao lado, o  cemitério com os túmulos de Claude Monet e a sua esposa Alice.

Musee des Impressionismes

#Dica: se for fluente em francês, talvez queira ler Les Nymphéas Noirs, um romance de mistério passado em Giverny, do escritor Michel Bussi.

Roteiro inspirado em Claude Monet

Claude Monet é um dos artistas franceses mais famosos do mundo, pelo que, os museus que têm obras suas dão-lhes habitualmente destaque .

Quem quiser aprofundar este roteiro pelo impressionismo de Monet deve incluir vários museus de Paris, incluindo o Musée de l’Orangerie, que guarda a série de painéis decorativos com os icónicos nenúfares (Nymphéas) dos jardins de Giverny. Instalados em salas ovais, os painéis refletem a intenção do seu criador, que queria criar “a ilusão de um infinito inteiro, de água sem horizonte nem margem”. O artista francês André Masson chamou a esta exposição de “Capela Sistina do impressionismo”.

O Musée D’Orsay, um dos maiores museus de arte da Europa, possui uma extensa coleção de pinturas de artistas impressionistas e pós-impressionistas, incluindo Degas, Renoir, Cézanne, Gauguin, Van Gogh e, claro, Monet.

Muitas das pinturas desta coleção de Monet são de paisagens pintadas em Paris e em toda a Normandia, como o Poppy Field (1873) e várias obras produzidas nos seus jardins em Giverny, mas vale a pena espreitar também o comovente retrato da sua primeira esposa Camille, que morreu de cancro.

A série ninfeias de Monet
© wikipedia

Para os verdadeiros apaixonados pelo impressionismo, a visita ao Musée Marmottan Monet (instalado num hotel a oeste de Paris) que possui peças da coleção Water Lilies de Monet, e outros artistas impressionistas, como Berthe Morisot, poderá fazer sentido.

Saiba ainda que o pintor viveu algum tempo em Argenteuil, pintando junto às margens do rio Sena, e a cidade que pertence à região metropolitana de Paris (20 minutos de comboio, desde a Gare de Saint-Lazare) pretende, em breve, abrir uma casa-museu.

Dicas úteis para visitar a Casa e Jardim de Monet

Bilhetes

A visita à Fundação Claude Monet custa 12€ para adultos e 7,50€ para crianças entre 7 e 12 anos (gratuito até essa idade)*. As filas para comprar bilhete na fundação podem ser longas, pois esta é a segunda atração mais visitada da Normandia, depois do Monte Saint-Michel, pelo que se recomenda a compra e online. A entrada para quem já tem bilhete está localizada na lateral da fundação e dificilmente tem fila.  

Outra possibilidade é fazer a compra do bilhete conjunto com outros museus, oferecida pelo Musée des Impressionnismes (foi o que fizemos e não tinha ninguém na fila, em época alta), os parisienses Musée de l’Orangerie e Musée Marmottan Monet ou ainda o  Musée de Vernon.

*atenção: preços em vigor no verão de 2022

Flores dos jardins de Monet

Horário de funcionamento

Os Jardins de Monet abrem entre abril e novembro, com horário de funcionamento das 9h30 às 18h (última admissão às 17h30). Sendo uma atração muito popular, recomenda-se que chegue cedo, especialmente se for de carro, já que não depende do horário dos comboios até Vernon. Os dias da semana são um pouco mais tranquilos.

Quando ir aos Jardins de Monet

Eu gostaria de visitar os jardins (também) no Inverno, não sendo possível (estão fechados), espero regressar um dia durante na primavera e no outono. Mas saiba que os jardins foram concebidos para que as flores desabrochem sucessivamente, num processo de cores em constante mudança. Na época alta (de maio a junho), o jardim estava em plena floração, como podem ver nas fotos.

Caso não consiga estar em França nesta altura, não se preocupe. A Fundação Claude Monet cuida bem dos jardins e a visita será sempre uma boa experiência. Nos meses de setembro e outubro, a França recebe uma espetacular exibição de cores de outono, pelo que imagino que os jardins também estejam lindos.

Vista da Casa de Monet

Como chegar a Giverny

Localizada a 70 km de Paris, pode chegar a Giverny de carro ou comboio. No primeiro caso, deve apanhar a auto-estrada A13 em direção Rouen e sair na saída 14  Bonnières ou 16  Douains. Em alternativa (foi o que fiz), siga pela A13 e depois pela D201 até Giverny. Há estacionamento gratuito nas imediações da Fundação Claude Monet.

De comboio, o melhor trajeto sai da estação de Saint-Lazare até Vernon (procure as SNCF – Grandes Lignes). Normalmente demora cerca de 45 minutos, mas as linhas estão a sofrer alguns transtornos por causa das obras para os Jogos Olímpicos de 2024.

Em Vernon, terá que apanhar um autocarro para fazer os 5 quilómetros até Giverny, havendo quatro horários por dia, logo após a chegada do comboio. Também poderá caminhar ou pedalar até lá (há lugares para alugar uma bicicleta); nesse caso, prefira o caminho que segue pela Rue Claude Monet.

Outra excelente opção é ir até Giverny em excursões a partir de Paris. Muitas empresas vão buscar os turistas aos seus hotéis, incluem entrada na Fundação e podem mesmo combinar o passeio com outros como Versalhes ou Auvers-sur-Oise, seguindo os passos de Van Gogh.