Templos do Mundo 7: Moisés era pastor

Freud ficou obcecado por ele, os críticos de arte não param de o (re)interpretar, os leigos quedam-se perplexos à sua frente. Também eu subi as íngremes escadas do Corso Cavour e tentei suportar o olhar do furioso Moisés.

A Igreja de San Pietro in Vincoli é modesta, por comparação com outras em Roma. E, quando a encontramos inesperadamente fechada à hora de almoço, o Miguel não entendeu muito bem a minha teimosia em visitar aquele templo específico, com tanto da cidade por explorar. Mas um dos meus must-sees repousava lá dentro: o famoso Moisés de Michelangelo.
O profeta, esculpido em mármore carrara, parece extraordinariamente real. Os seus poderosos músculos rasgam a pedra; a barba, pujante e farta, cai em longos caracóis; um dos pés firma-se, como se o hebreu estivesse a levantar-se.
O seu olhar é duro: estará zangado ou simplesmente determinado? Para alguns historiadores, ele acaba de descer do Monte de Sinai, com as tábuas da lei, e depara-se com o povo eleito por Deus a adorar um bezerro de ouro. Michelangelo, dizem, congelou o momento imediatamente antes da sua explosão de fúria. Aliás, Moisés tinha um génio tempestuoso, recorde-se o episódio em que matou um egípcio por chicotear um escravo…
As sobrancelhas ameaçadoras do profeta parecem apoiar esta teoria.
Mas outros acham que a majestade do legislador hebreu resulta da epifania que acaba de experimentar na presença do Criador, portanto os seus olhos estarão “voltados para aqueles mistérios que somente ele divisou” (Müntz, 1895) e o seu semblante terá “o reflexo da eternidade” (Steinmann, 1899).
Vamos ser prosaicos. Será que Michelangelo não deu este aspecto severo a Moisés como metáfora do temperamento do Papa Júlio II? Afinal, a escultura destinava-se ao seu túmulo, uma tumba que pretendia ser grandiosa, com mais de 40 estátuas, mas que nunca foi terminada…
A verdade é que este Papa não era particularmente amistoso. Em certa ocasião, perdeu as estribeiras por causa da demora do tecto da Capela Sistina e deu umas bengaladas ao Michelangelo. Mas isso seria uns anos mais tarde…
Regressemos a este Moisés e os seus controversos chifres. Porque raio Michelangelo o enfeitou com aqueles extremos animalescos? Alguns apontam um mero erro de tradução de S. Jerónimo, que traduziu para o latim karan (cornos) em vez de keren (raios de luz). Pessoalmente, tenho muitas dúvidas, Michelangelo era complexo, perfeccionista e inteligente.
Apesar dos chifres e da estrutura gigantesca, este Moisés parece tão real que Michelangelo, terminada a escultura e alterado perante a beleza da sua obra, lhe bateu com um martelo ou um cinzel (há sempre várias versões dos boatos), gritando “Perché non parli?
Porque não falas realmente, Moisés? Só falta isso. Porque, olhando atentamente, tudo faz sentido… até as tuas unhas rachadas de pastor.
Ao fundo, as correntes que dão nome à Igreja e que terão sido usadas para acorrentar S. Pedro.
A persistência compensou: o Moisés é maravilhoso. Espero voltar a vê-lo.
Outras obras-primas de Michelangelo ali perto
Quem for a Roma, não pode deixar de visitar ainda a delicada Pietà, na Basílica de S. Pedro. O vidro à prova de bala que a protege – em 1972 um maluco golpeou-a – não impede que nos emocionemos perante esta escultura, que Michelangelo concluiu aos 23 anos.
Por causa dos cépticos, que não acreditavam que alguém tão novo fosse capaz de tal perfeição, o artista gravou o seu nome no manto da Virgem. “MICHAEL ANGELUS. BONAROTUS. FLORENT. FACIEBA(T)”, ou seja, “Miguel Ângelo Buonarotus de Florença fez”. É a
sua única peça assinada.
Perto dali, nas entranhas do Museu do Vaticano, fica o tecto da Capela Sistina. Nem vou tentar descrevê-lo, pois nenhum tratado de arte lhe fará justiça, nenhuma radiografia (já as fizeram e descobriram a exacta anatomia do cérebro humano e outras maravilhas) explica o estado emocional que aquele afresco gigante é capaz de provocar…
A única coisa possível é mergulhar naquele tecto, que parece sugar-nos para o meio das suas cores vibrantes (visita virtual à Capela Sistina aqui).

Na mesma capela, é possível apreciar O Juízo Final, uma pintura muito mais sombria, onde recentemente se descobriu o auto-retrato de Michelangelo… mais uma prova da subtil ironia e inteligência daquele mestre do Renascimento.

Uma das imagens mais célebres do mundo: a criação de Adão. Tirada da internet, porque é proibido fotografar no interior da Capela Sistina.
2018-12-11T19:43:02+00:00

23 Comments

  1. Dulce Morais 27 Outubro, 2013 em 8:24 - Responder

    É possível analisar, radiografar, adivinhar, mas apenas três coisas são possíveis perante o génio e a perfeição das obras de Michelangelo: ver, sentir e sonhar.
    Obrigada por mais esta viagem, Ruthia!
    Beijinhos.

  2. ✿ chica 27 Outubro, 2013 em 9:28 - Responder

    Muito bom ver cada detalhe dessas obras de arte que temos por lá! E, realmente, teria sido uma pena, não poderes ver o Moisés! Lindo o teu olhar e renovo os meus contigo aqui! beijos,ótima semana, obrigadão pelo carinho!chica

  3. Nilson Barcelli 27 Outubro, 2013 em 11:03 - Responder

    Miguel Ângelo gostava de se vingar dos inimigos no que fazia.
    Talvez os chifres tenham a ver com isso.
    Mais um excelente post.
    Ruthia, querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
    Beijo.

    • Ruthia 27 Outubro, 2013 em 19:18 - Responder

      Os reis e outros poderosos achavam-se muito espertos, muito magnânimos por sustentarem os artistas e, por vezes, eram ridicularizados sem nunca o chegarem a saber.
      Se bem que esta crítica (se é que a interpretação está minimamente perto da verdade) é quase um elogio, porque a escultura é magnífica 🙂

  4. Isa Lisboa 27 Outubro, 2013 em 12:04 - Responder

    É sempre muito bom viajar consigo, Ruthia! Não só pelas lindas fotografias, mas também pelas suas descrições, que fazem sentir lá, a observar as obras de Michelangelo!
    Obrigada por este momento e pelos pedaços de história que partilhou connosco!
    Um abraço

  5. Beatriz Bragança 27 Outubro, 2013 em 13:00 - Responder

    Querida Ruthia
    É muito bela a sua crónica!!! E útil,para quem nunca foi a Roma e teve a possibilidade de admirar esta obra prima. De acrescentar que, a minha amiga é perfeccionista e,alia a sua descrição a relatos de entendidos na matéria a que se refere.
    Muito obrigada pela partilha.
    Um bom domingo.
    Beijinhos
    Beatriz

    • Ruthia 27 Outubro, 2013 em 19:16 - Responder

      Beatriz, li muitos artigos sobre esta escultura e fiquei siderada o quanto tem causado polémica entre os críticos de arte ao longo dos séculos. Como o artista não a explicou, deixa muita margem à interpretação e os humanos têm uma imaginação fértil…
      Beijinho

  6. Clara Lúcia 27 Outubro, 2013 em 13:24 - Responder

    Ruthia, agora lendo seu post que percebi a perfeição das obras. A gente vê mas não enxerga… Mas o que estaria pensando Moisés? Com certeza alguma bronca ele daria em alguém, ou algo pior. Fica a curiosidade pra humanidade.

    Um lindo domingo e uma iluminada semana!
    Beijos

  7. Anne Lieri 27 Outubro, 2013 em 18:21 - Responder

    Quantas curiosidades interessantes sobre essas obras de arte tão conhecidas da História! Lindas todas e minha preferida; Pietá. bjs e boa semaninha,

  8. marciagrega 27 Outubro, 2013 em 20:03 - Responder

    Moisés é uma das figuras mais emblemáticas da história cristã! É uma pena que a Bíblia não retrate com todas as letras o que este ser representou para a humanidade naquela épóca!

    Beijão!

  9. Toninha Borges 27 Outubro, 2013 em 21:59 - Responder

    Lindo lindo.
    Adoro arte amiga.
    Queria poder está aí ver tudo de pertinho.
    Bju

  10. Sissym Mascarenhas 27 Outubro, 2013 em 22:53 - Responder

    Ruthia,

    Eu adoro historia e geografia.
    Fico encantada com a arte (pinturas e esculturas) antiga.
    A arte pós e moderna pode ter grandes nomes, mas não se compara com a antiga.

    Bjs

    • Ruthia 28 Outubro, 2013 em 7:27 - Responder

      Também penso um pouco assim. Ainda que inovadora, a arte dita contemporânea não me emociona como esta, clássica
      Beijinho

  11. M. 28 Outubro, 2013 em 9:55 - Responder

    Tanta beleza junta, nem sei o que comentar… mas ia sentir certamente comoção ao ver a Pietá e o tecto da Capela Cistina!
    Moisés: esmagador, sem dúvida!
    Beijinhos, boa semana!

  12. helia 28 Outubro, 2013 em 10:02 - Responder

    As obras de Michelangelo são maravilhosas e eu tive ocasião de as observar durante as minhas quatro viagens a Roma As narrativas que faz das suas viagens são excelentes !
    Uma boa semana

  13. MARILENE 28 Outubro, 2013 em 15:49 - Responder

    Adoraria ver de perto essas obras magníficas. Deve ser emocionante fitá-las e relembrar a história. Você conduz com beleza sua narrativa e, de certa forma, nos encontramos, também, nos lugares que visita. Bjs.

  14. Guida Pinto Ricardo 28 Outubro, 2013 em 15:54 - Responder

    Nunca fui a Roma. Ao ler-te, é como se lá estivesse também. Maravilhosa a descrever o que vês.
    Beijinho

  15. Sissym Mascarenhas 28 Outubro, 2013 em 18:14 - Responder

    Querida Ruthia,
    Observadora!!!!
    Obrigada por perceber a metáfora!

    beijos

  16. Adriana 28 Outubro, 2013 em 19:20 - Responder

    Ruthia querida, que viagem maravilhosa estás a nos proporcionar com teus posts..uma mais incrível que o outro… adoro ler-te e aprender contigo tantas coisa..novamente, obrigada pela linda viagem que proporcionastes!! bjs desejando ótima semana
    tititi da dri

  17. Stephanie 28 Outubro, 2013 em 22:57 - Responder

    Amiga, adoro Michelangelo! Me lembra muito a casa do meu vovô quando ele era vivo pois tinha obras em sua casa 🙂
    Boa semana Ruthinha!!
    Beijos, Té
    bloglola.com.br
    Instagram: stephanieparizi

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  18. Chris Ferreira 31 Outubro, 2013 em 1:36 - Responder

    OI Ruthia, que bom que você persitiu e que valeu a pena. Melhor ainda que nos mostrou essa obra de arte e os eu ponto de vista sobre ela.
    beijos
    Chris
    Inventando com a Mamãe

  19. Maria João Mendes 31 Outubro, 2013 em 23:43 - Responder

    Estupendo,
    ter o privilégio de poder olhar, tais obra de arte.
    Um privilégio, que eu adoraria ter.

    Adorei!
    Beijinho

  20. Jussara Neves Rezende 1 Novembro, 2013 em 21:09 - Responder

    Delícia de texto, Ruthia! Coisa boa colocar em palavras a emoção, a dúvida, a experiência… Amei!
    🙂

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