José Régio foi o mais ilustre filho de Vila do Conde. Visitamos a terra entre pinhais, rio e mar, através dos olhos do poeta que Amália cantou.

First things first. Quem foi José Régio? A resposta pode ser óbvia para os portugueses, mas temos milhares de leitores brasileiros. Então, José Régio é o pseudónimo literário de José Maria dos Reis Pereira, poeta e escritor. Muitos apontam-no como um dos vultos mais significativos do modernismo literário português. Nasceu e morreu em Vila do Conde, terra que imortalizou na sua obra.

“Vila do Conde, espraiada entre pinhais, rio e mar” escreveu José Régio e numa frase condensou a essência desta vila que hoje é cidade, onde o rio Ave encontra o mar. Apenas sobre o Conde que lhe deu nome é que ninguém se entende.

Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

(Cântico Negro, in Poemas de Deus e do Diabo)

 

Entre a sua extensa obra, destaca-se A Velha Casa, pelo tamanho (cinco volumes, publicados entre 1945 e 1966) e pelo tom autobiográfico. Portanto começamos esta visita na sua velha casa transformada em museu. Aliás, são três as casas, vizinhas, ligadas ao escritor: aquela onde nasceu, a outra onde morreu e o centro de estudos regianos.

A sua Casa-museu de Vila do Conde (existe outra em Portalegre, Alentejo, onde deu aulas de português e francês durante três décadas) é um espaço intimista e verdadeiramente regiano.

A casa pertenceu à madrinha Libânia, uma matriarca rica, de “feitio autoritário, austero e caprichoso” que “atraía uma espécie de timorato respeito” (Confissão dum Homem Religioso). O escritor viveu aqui a infância e acabaria por herdar o imóvel que era o seu refúgio, onde voltava sempre durante as férias e, definitivamente, depois de reformado.

Câmara Municipal de Vila do Conde. Não é permitido fotografar o interior da Casa-museu

Tudo se mantém como se estivesse vivo, o escritório com os grandes clássicos franceses, a sala de jantar que mal utilizava e o quarto. A cama com uma colcha de bilros do século XVII, o guarda-fatos que guarda ainda o seu roupão de seda e a poltrona onde morreu, na manhã de 22 de Dezembro de 1969, voltada para o jardim, onde cultivava rosas.

O espaço conta-nos que Régio foi também um coleccionador, sobretudo de arte sacra, apesar de não ser crente. E recordamos tantos versos em que sofre, num conflito com Deus e com a solidão.

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

(Poema do Silêncio)

 

A visita termina no jardim, com a sua pequena gruta ao gosto romântico e o mirante onde se refugiava na adolescência, para escrever os primeiros poemas. Dali subimos a calçada de S. Francisco, como em tempos a matriarca Libânia e o seu séquito familiar para assistir à missa.

 

A maior renda de bilros inscrita no Guiness Book está numa estrutura de acrílico, no museu dedicado a esta arte secular.

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No final da subida, encontramos o segundo maior aqueduto do país, concluído no início do século XVIII, a Igreja gótica de Santa Clara, com os restos mortais de um filho ilegítimo de D. Afonso Henriques, e o Convento com o mesmo nome. Não chegamos a visitar a igreja, porque uma família enlutada velava ali um morto, pelo que nos contentamos com a paisagem sobre o rio…

O Ave reina sobre o centro histórico desta pequena cidade, que outrora de dedicou à construção naval: muitas embarcações usadas nos Descobrimentos foram construídas aqui, como nos recorda a nau quinhentista ancorada no cais. Para lá chegarmos, atravessamos a Praça José Régio, onde a grande figura das letras portuguesas do século XX (em génio, porque a estatura era pequena) tem uma estátua de bronze.

A dois passos do cais fica a singela, pequena e alva Capela do Socorro: “o sol desmaia na cal da capela a branquejar da Senhora do Socorro onde sonhei me ir casar”, escreveu um dia o poeta da terra.

A renda de bilros é outra das grandes riquezas de Vila do Conde, pelo que recomendamos uma visita ao Museu das Rendas de Bilros, onde pode ver a maior renda do género, inscrita no Guiness Book e, com um pouco de sorte, uma rendilheira a fazer a sua arte.

Depois de um longo almoço, esticamos a visita até à Senhora da Guia, onde o rio entra no mar e a enseada é protegida pelo Forte S. João. Despedindo-nos da cidade com as palavras daquele que foi reconhecido postumamente com o Prémio Nacional de Poesia (1970):

 

Para se avançar – não é preciso negar o caminho andado. É mesmo… não é preciso senão alargar e multiplicar o caminho andado (Revista Presença, nº 23)

Casa-Museu de José Régio: aqui | Bilhete: 1,10€ (adulto), 0.50€ (6-25 anos), Grátis (domingos e feriados até às 13h00)

Como chegar: Vila do Conde fica a cerca de 20 minutos do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, bastando apanhar a auto-estrada A28. A cidade também é servida pela auto-estrada A7 e pela linha de metro do Porto (linha B, vermelha). Pode facilmente incluir uma visita a partir do Porto.

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Onde comer: comemos no Cais da Vila. Não é propriamente barato, mas o peixe estava muito bom. Possui menu infantil e, durante a semana, um menu executivo um pouco mais em conta (8€).

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