Ghent. Um dia no coração da Flandres

Uma pérola entre Bruxelas e Bruges, a cidade medieval de Ghent foi descoberta pelos viajantes. Do seu passado mercantil reteve a garra para se reinventar como um dos destinos mais charmosos da Bélgica

Gand, Gante, Ghent ou Gent. A versão linguística pouco importa. Os tempos áureos flamengos, quando era a segunda maior cidade europeia (apenas suplantada por Paris), ficaram enterrados na história. De cidade burguesa, desceu a porto secundário, para depois se relançar como polo industrial. Nunca recuperou o fulgor económico, mas tornou-se um destino turístico simpático e uma cidade universitária vibrante.

Os canais do centro histórico, o castelo dos condes e uma torre que integra o conjunto de campanários da Bélgica e França classificados pela Unesco (são 56 ao todo) seriam argumentos suficientes para incluir Ghent na lista de must-visit. E eu acrescento o retábulo dos irmãos van Eyck, os meninos bonitos da cidade, ou não fosse eu uma amante de arte.

Graças à veemente defesa da nossa anfritriã, rumamos a Ghent num sábado de manhã, para descobrir um centro histórico lindo, com canais floridos e muitos estudantes a aproveitarem o sol de Outono.

 

 

O nosso roteiro começou junto da gótica Catedral de St. Bavo (São Bavão em português, que estranho), que demorou três séculos a ser construída. O interior esconde alguns tesouros, como o púlpito barroco do século XVIII, um esqueleto de baleia, e várias obras-primas, nomeadamente de Rubens. Mas a mais célebre e inspiradora é “A Adoração do Cordeiro Místico”, o retábulo a óleo dos van Eyck.

Depois de uma longa pausa em frente à igreja, para as crianças perseguirem bolas de sabão gigantes, seguimos para Belfort, a torre do sino, símbolo da independência da cidade. Com 91 metros, esta é a maior das três torres que se veem da Ponte de São Miguel. No topo, a mascote de Ghent, um destemido dragão em cobre, continua vigilante.

Para além de apreciar as melhores vistas sobre a cidade, tomamos tempo para assistir a um vídeo sobre a criação de sinos. Afinal, o carrilhão regeu o ritmo da cidade durante séculos, anunciando o mercado, as horas e algum ataque inimigo. Uma curiosidade acerca deste carrilhão: Mozart tocou-o com 9 anos.

 

As margens do rio Lys

De volta à rua com o estômago a roncar, atacamos uma terrina de Mosselen, os mexilhões elevados à categoria de prato nacional. O marisco veio acompanhado com as tradicionais batatas fritas belgas e, somando dois copos de vinho branco, custou 31,40€ (para 2 adultos) num dos restaurantes da Korenmarkt.

Só depois atravessamos a ponte de São Miguel para contemplar os lindos bairros de Graslei e Korenlei, com as torres históricas a brilharem ao sol. O canal que os separa tem vias pedonais em ambas as margens, muitas esplanadas e gente jovem.

Fizemos um passeio de 40 minutos pelos canais, que nos conduziu através de algumas curiosidades de Ghent, nomeadamente o misterioso Castelo de Gravensteen, antiga residência dos condes de Flandres.

O passado deste “castelo dos condes” está intimamente entrelaçado com a história da cidade. É o único castelo medieval com fosso e sistema de defesa praticamente intacto que resta na Flandres e, para além disso, possui uma colecção única de equipamentos de tortura. Uma das histórias mais deliciosas que o envolvem remonta a 1949, quando foi ocupado por estudantes. O motivo? Protestar contra o aumento do preço da cerveja!

 

 

Nós só o conhecemos por fora, porque o tempo escasseava e Ghent ainda tinha muito a oferecer. Nomeadamente a praça Sint Veerleplein, com a fachada do antigo mercado de peixe a ostentar um orgulhoso Neptuno e o lampião dos nascimentos.

-Que raio é isso? – perguntam vocês.

-É um velho candeeiro que pisca lentamente cada vez que uma criança nasce em Ghent.

Do outro lado do canal fica a Groentenmarkt, uma praça cercada por belos edifícios antigos e os emblemáticos carrinhos de Cuberdons, os doces locais com formato de nariz também chamados de Neuzen.

Antes do regresso a Bruxelas não resistimos a espreitar a Werregarenstraat, que todos chamam de Rua dos Graffiti. Era para ser um projeto temporário, mas tornou-se o caderno de esboços da cidade desde 1995. Espreitem um roteiro alternativo, inspirado em design, arte e música, proposto pelo The Guardian aqui.

 

 

Catedral St. Bavo site | Horário retábulo Van Eyck: Inverno 10h30-16h00, Verão 9h30-17h00 (domingo a partir das 13h) | Bilhete retábulo: 4€, ou 1€ para o áudio-guia se portador do city card.

Belfort: todos os dias 10h00-18h00 | Entrada: 8€ (adulto), grátis (até 18 anos)

Passeio de barco: existem várias empresas a oferecerem passeios nos canais, com preços muito semelhantes. Pagamos 7,50€ por adulto e 4,50€ por criança, para um passeio de 40 minutos.

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2019-02-12T07:59:28+00:00

36 Comments

  1. Pericles Rosa 2 Fevereiro, 2019 em 23:31 - Responder

    Fizeram bastante coisas em um dia hein?! Até o passeio de barco? wow
    Pena que irei no inverno, mas espero que o dia também esteja assim ensolarado.
    Adorei o roteiro e saber mais um pouco de Ghent. Aliás, até agora não sabia nada ainda… rs
    Um abraço

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:05 - Responder

      O passeio de barco só demora 40 minutos. E depois, o centro histórico é bem compacto. Não foi uma visita corrida

  2. Aline Kamiji 3 Fevereiro, 2019 em 10:55 - Responder

    Adorei estava procurando mesmo o que fazer em um dia no coração de Flandres. Estava pensando se valeria a pena e aprendi nesse post que super vale. Tem até o sino que o mozart tocou! E adorei a história sobre os protestos da cerveja hahaha muito obrigada viu 🙂

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:11 - Responder

      É uma questão de prioridades. Se vamos ocupar um edifício histórico, que seja por um motivo válido 🙂

  3. Christian Gutierrez 3 Fevereiro, 2019 em 17:37 - Responder

    Estou planejando um viagem para Bélgica é não conhecia essa cidade de Ghent Flandres, agora vou incluir no meu roteiro.

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:12 - Responder

      Ghent é a capital da região da Flandres. Já foi bem importante na história europeia.
      Faz muito bem em incluir no roteiro

  4. Fabíola Moura 3 Fevereiro, 2019 em 19:38 - Responder

    Valeu a pena mesmo sair do roteiro e conhecer a bela cidade de Ghent, cheia de lugares bonitos e com tantas curiosidades. E o lampião funciona de verdade quando uma criança nasce ou é só um símbolo?

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:16 - Responder

      Olha, eu não vi o lampião a piscar, mas não estive assim tanto tempo naquela praça. Várias pessoas confirmaram-nos que funciona sim! Agora quem será que faz piscar o lampião??

  5. Marcela 3 Fevereiro, 2019 em 19:47 - Responder

    Excelentes dicas de um roteiro por Ghent. Cidade fotogênica e poética que você nos deixa com mais vontade ainda de conhecer. Obrigada por compartilhar

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:17 - Responder

      Eu é que agradeço a sua amável visita e comentário

  6. Aline Aguiar 4 Fevereiro, 2019 em 8:47 - Responder

    Que cidade linda que é Ghent! Mas como não esperar uma cidade incrível de um lugar que tem dragão como mascote, né? O passeio pelos canais também deve ser programa obrigatório. Demais!!

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:42 - Responder

      Você gosta de dragões? Então deve ser fã da Eslovénia, não? Por acaso o meu signo chinês é dragão. Acho que vc vai gostar de mim quando me conhecer 🙂

  7. Leo Vidal 4 Fevereiro, 2019 em 9:54 - Responder

    Gostei muito dessas dicas de Ghent e principalmente da possibilidade de aproveitar todas essas atrações em 1 dia. Vou incluir em meu roteiro

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:43 - Responder

      A cidade é pequena, dá para fazer um “bate-volta”, como vocês amigos brasileiros dizem. Mas se eu um dia voltar para aqueles lados, vou querer pernoitar por lá

  8. António Santos Gomes 4 Fevereiro, 2019 em 10:08 - Responder

    Bom dia, as fotos da bela cidade de Ghent são lindas, assim como, toda a informação é útil, seu passeio certamente que foi maravilhoso.
    AG

  9. Carla Mota 4 Fevereiro, 2019 em 10:11 - Responder

    Gostei tanto de Gent quando aí estive! Foi mesmo uma descoberta surpreendente. Superou muito as minhas expectativas.

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:45 - Responder

      É tão bom quando os destinos superam as nossas expectativas. Qual das cidades gostou mais, Ghent ou Bruges?

  10. Gabriela Torrezani 4 Fevereiro, 2019 em 10:25 - Responder

    Que bela cidade é Ghent, confesso que não imaginava que fosse tão fotogênica. A dica de subir na Belfort é imperdível, pelas suas fotos dá pra ver que vale a pena encarar os degraus!

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2019 em 16:44 - Responder

      Uma parte é de elevador, então não tem como não encarar 🙂

  11. Daniele Polis 4 Fevereiro, 2019 em 23:01 - Responder

    Gente, que cidade mais linda! Eu acho que não conseguiria fazer tanta coisa assim em um dia, ia ficar babando. Parece ter saído de um conto! Nunca tinha ouvido falar, mas agora estou doida para conhecer.

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2019 em 7:25 - Responder

      Depois de Bruxelas, as cidades de Ghent e Bruges costumam ser as mais populares entre os visitantes, depois ainda há Antuérpia. Todas diferentes, todas interessantes. Nós só tivemos tempo para conhecer uma. As restantes terão que ficar para uma próxima visita.

  12. Michele 5 Fevereiro, 2019 em 2:20 - Responder

    Eu estou simplesmente encantada com esse post. Ghent como é linda demais, quanta informação para minha próxima viagem. obrigada por compartilhar

  13. Edson Amorina Junior 6 Fevereiro, 2019 em 8:50 - Responder

    Nós chegamos a passar perto, mas não paramos. Esse ano estávamos planejando subir para essa região de novo, mas a Vivi vai precisar trabalhar, uma pena.

  14. maria cristina ' 6 Fevereiro, 2019 em 15:50 - Responder

    Sou apaixonada por esses centros históricos pequeninos e cheios de charme.Bom saber que vale a pena pernoitar, afinal, sempre há um pouco mais para explorar. – Gand, Gante, Ghent ou Gent, quero te conhecer! 🙂

  15. Lidiane Costa 7 Fevereiro, 2019 em 23:04 - Responder

    Ghent é um charme, né? Pena que não consegui visitá-la. Se você tivesse que escolher entre um bate volta para Ghent ou Bruges, qual escolheria?

    • Ruthia 12 Fevereiro, 2019 em 8:00 - Responder

      Eu fiz essa escolha. Só tínhamos tempo para visitar uma delas e optamos por Ghent

  16. Carol 8 Fevereiro, 2019 em 5:01 - Responder

    Qual a melhor época de visitar o país? Gostaria de ir quando o clima estivesse mais ameno…

    • Ruthia 8 Fevereiro, 2019 em 14:00 - Responder

      É sempre mais confortável a partir da Primavera. Eu diria entre abril e outubro. Nós estivemos nos primeiros dias de outubro e estava muito agradável

  17. Analuiza Carvalho 8 Fevereiro, 2019 em 20:45 - Responder

    Pense num amor imediato por esta Ghent! Não sei se este sentimento se deve aos seus personagens, muito de acordo com aquilo me atrai e conquista numa cidade, ou se por sua narrativa tão suave quanto real que nos pega pela mão e nos leva junto. Desliguei-me das distrações externas por alguns minutos e me vi passeando de barco, comendo mexilhões, observando as bolhas de sabão, escutando as histórias da cidade… Ghent entrou em meu imaginário e um dia, se a visitar, lembrarei de você, certamente! 🙂

    • Ruthia 8 Fevereiro, 2019 em 21:04 - Responder

      Ah, que lindo. Espero que se lembre de mim sim, e que seja uma visita feliz!

  18. Angela C S Anna 12 Fevereiro, 2019 em 12:14 - Responder

    vou inclur essa cidade no meu roteiro, ainda não fui para a belgica acredita? gostei da dica da Werregarenstraat!

  19. JLynce 12 Fevereiro, 2019 em 15:40 - Responder

    Fotos fantásticas…adorei!

  20. Mariazita 13 Fevereiro, 2019 em 11:08 - Responder

    Adorei este roteiro por essa cidade medieval (gosto imenso de cidades/monumentos medievais – até filmes passados na Idade Média…)
    Dá para acreditar que eu não conheça a Bélgica??? Uma viajante inveterada (e apaixonada por viagens) como eu sou… ainda não fui à Bélgica. O verão passado (tal como mostrei no meu blog) andámos por vários locais da Europa – e depois África, Cabo Verde – e ainda pensámos incluir Bélgica no roteiro. Mas dada a escassez de tempo… ficou para nova oportunidade. Este ano temos planeado Porto Santo e depois Ilha do Príncipe… portanto, mais uma vez, a Bélgica terá que esperar.
    Haja vida e saúde… o resto vem por acréscimo 😜
    Voltando à postagem… está mesmo excelente. Gostei de tudo, com realce para as cenas do sino tocado por Mozart e o lampião dos nascimentos – pormenores interessantíssimos.
    Parabéns e obrigada pela partilha.

    RE: Depois de um final de 2018 bastante atribulado (principalmente com a doença da minha filha), o 2019 parece mais prometedor… Pelo menos ainda não me constipei nem tem havido problemas de saúde. Vamos ver como será a continuação…😊

    PS – Aproveito para lembrar que amanhã, dia 14, a minha “CASA” completa mais um Ano de vida, o 11º. Gostaria de a ver entre os convivas 😉

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    • Ruthia 20 Fevereiro, 2019 em 14:08 - Responder

      Grata pela companhia, Mariazita. Eu também adoro cidadezinhas medievais, têm um charme muito especial. Felizmente abundam no nosso Portugal e na nossa Europa

  21. Marcia Picorallo 10 Abril, 2019 em 20:18 - Responder

    Ruthia, não tive o prazer de ir a Ghent, mas já o primeiro parágrafo revelou similaridades com Bruges, que depois continuam! Que graça essa tradição do lampião dos nascimentos, fiquei curiosa e fui pesquisar. Além de Ghent, Bergamo, Istambul e Moscou também acionam um botão na maternidade para piscar as luzes de um ponto da cidade. Que simbologia linda!

    • Ruthia 13 Abril, 2019 em 5:24 - Responder

      É uma tradição linda. Tudo é tão moderno e “mecanizado” hoje em dia que nos esquecemos que o nascimento de uma criança é um milagre.
      E eu não tive oportunidade de ir a Bruges e Antuérpia. Um dia destes volto

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