Atualizado em 6 Janeiro, 2021

Uma pérola entre Bruxelas e Bruges, a cidade medieval de Ghent foi descoberta pelos viajantes. Do seu passado mercantil reteve a garra para se reinventar como um dos destinos mais charmosos da Bélgica

Gand, Gante, Ghent ou Gent. A versão linguística pouco importa. Os tempos áureos flamengos, quando era a segunda maior cidade europeia (apenas suplantada por Paris), ficaram enterrados na história. De cidade burguesa, desceu a porto secundário, para depois se relançar como pólo industrial. Nunca recuperou o fulgor económico, mas tornou-se um destino turístico simpático e uma cidade universitária vibrante.

Os canais do centro histórico, o castelo dos condes e uma torre que integra o conjunto de campanários da Bélgica e França classificados pela Unesco (são 56 ao todo) seriam argumentos suficientes para incluir Ghent na lista de must-visit. E eu acrescento o retábulo dos irmãos van Eyck, os meninos bonitos da cidade, ou não fosse eu uma amante de arte.

Graças à veemente defesa da nossa anfritriã, rumámos a Ghent num sábado de manhã, para descobrir um centro histórico lindo, com canais floridos e muitos estudantes a aproveitarem o sol de Outono.

O nosso roteiro começou junto da gótica Catedral de St. Bavo (São Bavão em português, que estranho), que demorou três séculos a ser construída. O interior esconde alguns tesouros, como o púlpito barroco do século XVIII, um esqueleto de baleia, e várias obras-primas, nomeadamente de Rubens. Mas a mais célebre e inspiradora é “A Adoração do Cordeiro Místico”, o retábulo a óleo dos van Eyck.

Depois de uma longa pausa em frente à igreja, para as crianças perseguirem bolas de sabão gigantes, seguimos para Belfort, a torre do sino, símbolo da independência da cidade. Com 91 metros, esta é a maior das três torres que se vêem da Ponte de São Miguel. No topo, a mascote de Ghent, um destemido dragão em cobre, continua vigilante.

Para além de apreciar as melhores vistas sobre a cidade, tomámos tempo para assistir a um vídeo sobre a criação de sinos. Afinal, o carrilhão regeu o ritmo da cidade durante séculos, anunciando o mercado, as horas e algum ataque inimigo. Uma curiosidade acerca deste carrilhão: Mozart tocou-o com 9 anos.

As margens do rio Lys

De volta à rua com o estômago a roncar, atacámos uma terrina de Mosselen, os mexilhões elevados à categoria de prato nacional. O marisco veio acompanhado com as tradicionais batatas fritas belgas e, somando dois copos de vinho branco, custou 31,40€ (para 2 adultos) num dos restaurantes da Korenmarkt.

Só depois atravessámos a ponte de São Miguel para contemplar os lindos bairros de Graslei e Korenlei, com as torres históricas a brilharem ao sol. O canal que os separa tem vias pedonais em ambas as margens, muitas esplanadas e gente jovem.

Fizemos um passeio de 40 minutos pelos canais, que nos conduziu através de algumas curiosidades de Ghent, nomeadamente o misterioso Castelo de Gravensteen, antiga residência dos condes de Flandres.

O passado deste “castelo dos condes” está intimamente entrelaçado com a história da cidade. É o único castelo medieval com fosso e sistema de defesa praticamente intacto que resta na Flandres e, para além disso, possui uma colecção única de equipamentos de tortura. Uma das histórias mais deliciosas que o envolvem remonta a 1949, quando foi ocupado por estudantes. O motivo? Protestar contra o aumento do preço da cerveja!

Nós só o conhecemos por fora, porque o tempo escasseava e Ghent ainda tinha muito a oferecer. Nomeadamente a praça Sint Veerleplein, com a fachada do antigo mercado de peixe a ostentar um orgulhoso Neptuno e o lampião dos nascimentos.

-Que raio é isso? – perguntam vocês.

-É um velho candeeiro que pisca lentamente cada vez que uma criança nasce em Ghent.

Do outro lado do canal fica a Groentenmarkt, uma praça cercada por belos edifícios antigos e os emblemáticos carrinhos de Cuberdons, os doces locais com formato de nariz também chamados de Neuzen.

Antes do regresso a Bruxelas não resistimos a espreitar a Werregarenstraat, que todos chamam de Rua dos Graffiti. Era para ser um projecto temporário, mas tornou-se o caderno de esboços da cidade desde 1995. Espreitem um roteiro alternativo, inspirado em design, arte e música, proposto pelo The Guardian aqui.

Infelizmente não conseguimos visitar Bruges, nesta viagem à Bélgica. Mas tenho lido maravilhas sobre aquela cidadezinha medieval. A Márcia, do inspirador blog Mulher Casada Viaja, visitou a cidade e escreveu Bruges: o que Fazer e outras Dicas.

 

Catedral St. Bavo site | Horário retábulo Van Eyck: Inverno 10h30-16h00, Verão 9h30-17h00 (domingo a partir das 13h) | Bilhete retábulo: 4€, ou 1€ para o áudio-guia se portador do city card.

Belfort: todos os dias 10h00-18h00 | Entrada: 8€ (adulto), grátis (até 18 anos)

Passeio de barco: existem várias empresas a oferecerem passeios nos canais, com preços muito semelhantes. Pagámos 7,50€ por adulto e 4,50€ por criança, para um passeio de 40 minutos (Outubro de 2018)