Entalhada entre as montanhas do Rif e rodeada de encostas de cannabis, a pequena Chefchaouen é uma preciosidade que todos os viajantes deviam conhecer. A sua maior riqueza reside nos seus infinitos tons de azul

A cidade fortificada de Chefchaouen ou Xexuão – que significa “entre cornos”, isto é, entre montanhas – remonta ao século XV, altura em que as tribos locais precisaram de se defender dos portugueses. Lembram-se das aulas de história? Pois é, as nossas aventuras ultramarinas começaram no norte de África.

Mas longe vão os tempos em que estas muralhas constituíam uma fronteira interdita a estrangeiros. Hoje, os turistas misturam-se com os habitantes, sobretudo berberes, numa amálgama animada de gente, vendedores de artesanato, crianças que jogam à bola, famílias que desfrutam de um dia livre.

O pitoresco da localidade magrebina, razão pela qual os instagrammers a amam, reside nas suas paredes e portas azuis. Na verdade, Chefchaouen não é só azul e branco, mas estas cores são as mais comuns no centro da povoação. Do azul celeste ao turquesa. Do discreto marinho ao mais espampanante cerúleo. A ponto de parecer que navegamos num sonho subaquático.

Uma dúvida assalta-me e estou certa que muitos partilham esta dúvida existencial. Porque existem tantas paredes pintadas de azul?

Li várias teorias, que vão do “serve para proporcionar frescura nos meses de Verão” ao “representam as águas do Mediterrâneo”. Pelo meio, versões muito distintas. Servem para afastar os mosquitos. São uma homenagem às águas de Ras el-Maa, que abastece a aldeia. Foram uma moda iniciada pelos judeus sefarditas, que usavam a “cor do paraíso” para manterem o foco no espiritual. Ou é simplesmente uma opção estética, que o turismo aproveitou de forma sublime.

 

Muralha que circunda Chefchaouen

ruas de Chefchaouen

Entrada discreta pela Bab El-Mahruk

Esta jornada começa numa manhã fria de Março, junto à Bab El-Mahruk, a porta norte do século XVI. Outras Bab, portas de acesso à cidade velha, rasgam a muralha acastanhada que, outrora, defendia a medina de invasões e hoje a protege dos ventos agrestes: a Bab El Ansar, a Bab El Ain, a Bab Es Souq ou a Bab el Sour.

Esta é a Chefchauoen dos chefchauoenos (não faço ideia como se chamam os habitantes, perdoem as minhas liberdades morfológicas). Nada de turistas nestes azimutes mais altos. Os gatos são os senhores destas ruas tranquilas de roupa a secar nas janelas. Pouco depois, vemos alguns homens de jelaba, mulheres de roupão que compram o pão matutino, vizinhas que se cumprimentam.

Pedem que não os fotografemos. O nosso guia explica que isto está relacionado com o Islão, que aponta como haraam todas as impressões, desenhos, gravações, you name it de seres vivos. Mentalmente penso que belas imagens estou a perder, mas isso não me impede de tentar iniciar uma conversa, dentro das limitações linguísticas.

Os becos e ruelas começam a animar-se, à medida que nos aproximamos da principal artéria da medina: a rua Hassan I.

 

Os tesouros da medina de Chefchaouen

O encanto da cidade azul reside na sua medina, que vale a pena explorar devagar. Aqui a vida é mais calma do que em outras cidades marroquinas e isso reflecte-se nos nossos passos.

No all those who wonder are lost. Já ouviu dizer? Perca-se pelo bairro Souika, com portas ricamente decoradas e lojinhas charmosas repletas de artesanato. Aqui é o lugar para comprar tapeçarias mas os chapéus com enfeites de lã, típicos dos agricultores locais, também são engraçados.

Encante-se com os vasos coloridos do bairro Rif Andaluz, que oferecem um contraste perfeito nas fotos. Deixe que o deambular preguiçoso o conduza à grande mesquita de minarete octogonal. Sente-se a tomar um chá numa esplanada, na central praça Uta el-Hammam. Visite a Kasbah, a fortaleza que acolhe, no seu interior, um museu etnográfico rodeado de belos jardins andaluzes. Ou experimente um hammam, os banhos públicos tão característicos do mundo árabe.

Por fim, aproveite as águas da montanha. As quedas de água Ras el-Ma ficam mesmo às portas da cidade e chegam a Chefchaouen através de um pequeno riacho. Os habitantes criaram ali uma espécie de esplanada/zona de lazer, onde se multiplicam banquinhas. O que vendem? Um dos melhores sumos de laranja do mundo.

 

pormenores da medina de Chefchaouen

Rumo às montanhas

Se estiver disposto a uma pequena viagem de cerca de 45 minutos (de carro ou táxi), pode ainda conhecer as cristalinas cascatas D’Akchour, uma das principais atracções da região. Infelizmente visitámos a cidade num dia chuvoso, o que impediu grandes aventuras na natureza.

Outra opção será fazer um trilho no Parque Nacional Talasemtame, nas montanhas do Rif. Na mesma direcção, mas à distância de uma curta caminhada, fica uma das mais belas vistas panorâmicas sobre Chefchaouen. Cerca de 10 minutos serão suficientes para chegar à mesquita Bouzafaar, onde a tal vista se abre perante os nossos olhos.

 

Montanhas Rif, junto a Chefchaouen

Dicas úteis

Como chegar: se vem do estrangeiro, o aeroporto mais próximo é o de Tânger. Dali pode apanhar um autocarro da CTM até Chefchaouen. Outra alternativa será conduzir desde a Europa, entrando em Marrocos através do estreito de Gibraltar. Se vem de outras cidades marroquinas, como Fez, Rabat ou Casablanca, o autocarro continua a ser uma boa opção, já que a estação de comboios fica afastada do centro da cidade.

Onde ficar: nós ficámos uma noite nos arredores da cidade, no hotel Dar Ba Sidi, com simpáticos bungalows e jardins que devem ser uma delícia no Verão. Na segunda noite ficámos no riad Dar Echchaouen, mais próximo da medina. Gostei muito desta segunda opção, não só pela localização, mas também pela decoração dos quartos e pela qualidade do restaurante.

 

riad Dar Echchaouen

 

Onde comer: fizemos um almoço tradicional no hotel Parador, junto à kasbah, com saladas marroquinas, tajines e docinhos para rematar, com o tradicional chá. Lembre-se que a dieta mediterrânica está na lista de Património Cultural da Unesco e fuja das estrangeirices (escrevi sobre esta dieta que une Chefchaouen a Tavira, no sul de Portugal, aqui). Nas redondezas da praça Uta el-Hammam há muitos restaurantes e comida de rua também.

Nota: Esta viagem foi realizada a convite do Turismo de Marrocos.