Tânger, a cidade onde Hércules pernoitou antes do penúltimo dos 12 Trabalhos mistura traços europeus e islâmicos, tradição e modernidade. Vamos espreitá-la

A última tarde em Marrocos não foi suficiente para desvendar os segredos deste lugar que já esteve sob o domínio de tantas civilizações. Tânger é a soma da sua história riquíssima, da disputa de várias nações, de um passado internacional, quando foi frequentada por espiões, artistas e intelectuais.

Na encruzilhada entre Europa e África, Mediterrâneo e Atlântico, a cidade marroquinizou-se depois nos anos 50, ao integrar o recém-nascido reino de Marrocos. Ainda assim guarda vestígios do seu passado internacional. É o caso do vintage cinema Rif – que anuncia um ciclo dedicado à Barbara Streisand – o Gran Café de Paris, o Café Fuentes ou a simbólica Librairie des Colonnes.

Mas não são apenas os lugares que revelam detalhes europeus. Os insistentes vendedores do Grande Socco abordam-me frequentemente em espanhol. Há mulheres sozinhas, sentadas numa esplanada, algumas delas de cabelo descoberto…

Subo a medina em direcção à antiga fortaleza (kasbah), atravessando a Bab Al Bahr para me deter em frente ao mar. O porto da cidade sofre uma ampla modernização e, em breve, será um dos 10 mais importantes do mundo. Mas não é para lá que o olhar foge.

 

ruas de Tânger estreito de Gibraltar

O apelo do horizonte

Nesta escarpa ponteada de sepulturas fenícias, os olhares perdem-se no horizonte. Parece que os tangerinos chamam a este local o “Sour Al Maâgazine”, o muro dos preguiçosos, já que muitos gastam aqui longas horas. A contemplar o quê, exactamente? Os navios que atravessam o estreito de Gibraltar? A Andaluzia que fica a uns míseros 14 km em linha recta?

Junto-me aos ociosos um pouco adiante, no Café Hafa (1921). O conjunto de esplanadas dispõe-se em socalcos sobre o mar e eu entendo porque é tão difícil encontrar uma mesa. Faço como os Rolling Stones e o Sean Connery: abanco com um chá de menta, encantada com a paisagem.

Numa ponta espreita o Cabo Espartel, com um farol perfeito para apreciar o pôr-do-sol. Ali perto ficam as grutas de Hércules, umas cavernas calcárias onde ele terá descansado antes de roubar as maçãs do Jardim das Hespérides. Na verdade, há diversas lendas relacionadas com o herói mitológico. O consenso gera-se num único ponto: ele passou por aqui.

Na outra ponta fica o Cabo Malabata, com um castelo do início do século XX.

 

Café Hafa, em Tânger

Jovens mulheres na esplanada do Café Hafa

esplanada do Café Hafa

Termina a aventura marroquina

Resta-me pouco tempo no norte de Marrocos. Ainda deambulo pela Praça 9 du Avril 1947, como dezenas de famílias que aproveitam o final da tarde, entre a Mesquita Sidi Bou Abib de minarete rosado, os Jardins de La Mendoubia e o cinema Rif.

Espreito o mercado central e depois sigo para a Praça de Faro. Aqui, os canhões ainda ameaçam o horizonte, alheios às crianças que os usam como lugar de recreio. Tiro uns momentos para apreciar a arte de uma tatuadora de hena, antes de me embrenhar novamente na medina.

O longo jantar acontece no elegante Palais Zahia, num salão primorosamente decorado. O hotel fica junto à medina, possui um terraço e quartos deslumbrantes, mas infelizmente um voo de madrugada não permite desfrutar do seu conforto por muito tempo. Para lá chegar, ainda passo pelo Museu do Legado Americano, que assinala a amizade iniciada no século XVIII, quando o sultão de Marrocos reconheceu oficialmente a independência dos EUA.

Deixo Tânger antes do alvorecer, rumando ao aeroporto que nos levará directamente a Lisboa. Ao longo da marginal, volto a reparar na mudança que assola a cidade magrebina. Há várias vias em construção, incluindo a auto-estrada Tânger-Casablanca, o porto está a ser ampliado, há projectos para um estádio e o primeiro TGV do continente africano.

O futuro bate à porta de Tânger mas, secretamente, é o passado que me fascina neste país chamado Marrocos.

 

praça central de Tânger

tatuagem de hena

 

Como chegar

É muito comum chegar a Tânger por via terrestre, a partir da Europa, através do ferry que parte de Tarifa. O João Leitão escreveu um post bastante completo sobre esta ligação de barco. Para quem vem de avião, saibam que existem ligações directas entre Lisboa-Tânger e Madrid-Tânger.

É possível chegar de comboio desde Rabat, Casablanca ou Marraquexe. Neste último caso, existe um comboio-hotel que permite reservar uma cama para a viagem nocturna de 10 horas. Outras opções são o autocarro (por exemplo desde Fez, Tétouan ou Chefchaouen) ou mesmo o avião, com a Royal Air Maroc.

 

Nota: Esta viagem foi realizada a convite do Turismo de Marrocos.