A cerca de 40 km do enclave espanhol de Ceuta, rodeada de montanhas mas muito perto do mar, Tétouan (ou Tetuão) não é um destino turístico badalado. Mas a pequena cidade branca merece mais do que uma breve paragem

Não é muito comum chegar a um destino sem grandes referências. Viajo até um sítio porque o planeei, porque algo na sua história me suscita a curiosidade, porque vi uma imagem que me inspirou. Nada disso aconteceu com Tétouan, já que o nosso roteiro foi pensado pelo Turismo de Marrocos.

Uma semana de trabalho particularmente atarefada – a ponto de acordar exaurida no dia do voo – impediu uma pesquisa prévia decente sobre a cidade. Sabia que a sua é uma das medinas marroquinas mais autênticas e, por isso, classificada pela Unesco como Património da Humanidade nos anos noventa. E pouco mais.

Tudo somado, Tétouan foi uma agradável surpresa. Desejei mais do que uma manhã – em trânsito entre Chefchaouen e Tânger – para explorar os seus segredos.

Apeada na Praça Moulay el Mehdi, fui recebida por uma igreja de cores fortes. A Igreja de Nossa Senhora da Vitória, comummente chamada de Igreja de Bacturia, é um dos dois templos católicos que sobrevivem em Tétouan desde os tempos do protectorado espanhol.

 

Igreja católica em Tetuão

Igreja católica em Tetuão

souks em Tétouan

Souks em Tétouan

 

A mistura histórica nota-se nas fachadas em redor da praça, de traça andaluz, e nas conversas de rua, onde o espanhol se soma ao berbere, ao árabe e ao francês. O diálogo repete-se no interior da igreja, entre símbolos católicos e detalhes mudéjares.

Os sinos, que gozam da rara autorização de soarem em território muçulmano, chamam diariamente meia dúzia de fiéis para a missa das 19h, em espanhol. Ao domingo, imigrantes subsaarianos engrossam o grupo na missa das 11h, dada em espanhol e francês. Mais do que um lugar de fé, a igreja dá apoio aos imigrantes e suporte ao Centro Cultural Lerchundi.

 

Medina, a cidade dentro da cidade

Na recente Praça Feddan tenho o primeiro encontro com a medina branca, do século XVII, que cria um lindo contraste com as montanhas em redor. Um troço de muralha, que se prolonga por cinco quilómetros, conduz-me depois a uma das suas portas. E pronto, parece que entrei noutra dimensão.

Os souks estão cheios de movimento, cores e cheiros. Neste labirinto de escadas, arcos, passagens, praças, recantos e pequenos buracos, há muitas ruas estreitas com o habitual vai e vem de gente.

Há bancas de comida, pessoas sentadas no chão, trabalhadores à frente das suas oficinas, homens que pintam couro, mulheres que vendem frutas, muçulmanos que se dirigem à mesquita para rezarem, gatos à procura de comida. Há um souk de frutas e legumes, onde se comem tâmaras gigantes recheadas de nozes (hmmm) e outro das ervas medicinais e especiarias, lá bem no coração da medina.

 

idosa na medina de Tétouan

 

A medina é subdividida em bairros, de acordo com a etnia ou religião dos seus habitantes, cada um com a sua própria mesquita, escola e mercados. Estes souks têm áreas específicas para diferentes artesãos: carpinteiros, joalheiros, tecelões, peleiros… Sim porque os curtumes têm alguma tradição, ainda que sem a dimensão de Fez, o que se traduz em preços bem mais apelativos. As meninas do grupo divertiram-se imenso a regatear e conseguiram algumas pechinchas.

É também possível visitar a área dos tanques onde se lavam e tingem as peles, se a conseguirem encontrar no enredo de uma medina (mesmo que pequena). Detive-me longos minutos a observar dois trabalhadores a rasparem peles, preparando-as para os tratamentos químicos posteriores. É um trabalho árduo.

 

curtumes em Tetuão

 

Do mellah à tolerância religiosa

Há dias partilhei uma foto, no instagram, de uma menina que saiu para comprar pão no bairro judeu de Tetuão, o mellah que existe em várias cidades marroquinas. Alguém me interpelou surpreendido, perguntando qualquer coisa como: “mas eles permitem outras religiões?”

O bairro judeu testemunha a permanência pacífica deste povo no norte de África, desde que fugiu da Península Ibérica, em finais do século XV.  Apesar de muitos terem rumado a Israel, após a fundação do país, ainda existem judeus em Marrocos. Fiz um curto passeio pelo bairro e percebi que a comunidade se mistura com árabes sem qualquer problema.

Também existem católicos no país; poucos é certo, e concentrados no eixo Tânger-Tétouan-Rabat. Marrocos dá espaço para o debate desta questão, organizando, por exemplo, uma Conferência sobre Minorias Religiosas em Países Islâmicos em 2016. Recentemente, o rei marroquino convidou o Papa Francisco para uma visita oficial de dois dias, focada sobretudo no diálogo ecuménico. Não sei como é a vida de uma minoria religiosa em Marrocos, a breve visita não permitiu tanto, mas tudo isto me parece um sinal de tolerância.

 

Dicas úteis

Tenha atenção aos guias informais que querem “oferecer-lhe” os seus serviços à força (fomos perseguidos durante um bocado, quando o grupo se separou no interior da medina). Para evitar problemas com os turistas, quando um grupo chega a Tétouan pode ser acompanhado por um polícia à paisana, sem se aperceber. Um dos amigos viajantes apercebeu-se que tínhamos um agente a acompanhar-nos e este acabou por se revelar um bom guia local 🙂

Outros pontos de interesse: Tétouan possui um Museu de Arte Moderna. A cidade parece ter alguma tradição nesta área, pois tem uma das duas únicas escolas de Belas Artes do país. Existe ainda um Museu Etnográfico e um Museu de Arqueologia, com artefactos fenícios, romanos, mauritanos e púnicos. Infelizmente a minha breve visita não permitiu visitar nenhum deles.

A cerca de 10 km da cidade fica a praia de Martil, com um longo areal de 7 km entre o Cabo Negro (onde existe uma antiga fortaleza portuguesa) e o Cabo Nazari. Dizem que é linda. Se conhecem, acrescentem a vossa experiência nos comentários abaixo.

 

 

Como chegar: a cidade é um centro de distribuição da rede de transportes públicos do norte de Marrocos, pelo que não é difícil chegar. A Ryanair assegura ligações a partir de vários aeroportos europeus, como Madrid ou Sevilha. Do aeroporto Sania Ramel pode apanhar grand táxi (partilhado). De outras cidades marroquinas, como Fez, Chefchaouen ou Marraquexe, é possível chegar de autocarro da CTM.

Onde comer: almocei principescamente no Blanco Riad, a dois passos da Praça Hassan II que é dominada pelo palácio real (só por isso é um ponto de referência geográfico). Ali comi a melhor pastilha (um tipo de pastel) vegetariana de toda a viagem, enquanto os meus companheiros de viagem se refastelavam com uma tajine de carne de vaca e ameixas.

Esta poderá também ser uma boa opção para alojamento, com uma localização magnífica, ainda que um pouco cara para os meus gastos habituais em viagem.

 

Nota: Esta viagem foi realizada a convite do Turismo de Marrocos.