Visitar Pádua é recuar a um cenário shakespeariano. É atravessar caminhos clássicos com frescos de Giotto. É honrar uma das universidades mais velhas do mundo, onde Galileu ensinou

Shakespeare escolheu Pádua como cenário para a comédia The Taming of the Shrew, traduzido para A Fera Amansada (Portugal) ou A Megera Domada (Brasil). Na obra, Lucentio acaba de chegar à cidade quando afirma:

(…) since for the great desire I had
To see fair Padua, nursery of arts,
I am arrived for fruitful Lombardy,
The pleasant garden of great Italy;

A amável personagem diz que a cidade é “berçário das artes” e “agradável jardim de Itália”. Os habitantes locais parecem ter perdoado o lapso geográfico de Shakespeare (que situa a cidade na Lombardia), pois colocaram uma placa com esta citação na Via dell’Accademia. Mas haverá algum fundamento para as palavras do jovem Lucentio?

Vejamos. O rapaz vem estudar na famosa Universidade de Pádua, fundada em 1222 (a segunda mais antiga de Itália). Entre o seu corpo docente, encontraria um eminente professor de matemática e física, de seu nome Galileu Galilei. Isso seria argumento bastante para tamanha elegia!?

Acontece que Pádua foi também uma creche das artes, já então famosa pelos maravilhosos frescos de Giotto. Dizem que Michelangelo se inspirou na força dramática desta obra-prima para pintar a Capela Sistina.

Quanto a ser “um agradável jardim”, a cidade possui um Jardim botânico com mais de 460 anos, possivelmente o mais antigo do mundo. O horto permanece como centro de pesquisa científica e acolhe, por exemplo, a palmeira mencionada por Goethe em “The Metamorphosis of Plants in 1790”. Imaginem que está classificado como património mundial da UNESCO desde 1997.

 

Frescos de Giotto em Pádua

© italia.it

 

Comecemos este roteiro em Pádua, cidade pitoresca, de gente jovem e muitas pontes que cruzam o rio Bacchiglione, que chega dos Alpes para circundar a cidade. Em tempos estas águas cercaram as muralhas como um fosso. Ainda hoje há canais que ligam Pádua a Veneza, a cerca de 50 km. Cliquem nos links para mais informações sobre horários e preços.

 

Pádua, cidade dos três “sem”

Pádua é conhecida como a cidade dos três “sem”. Tem uma praça sem nome: a Praça de Santo António é simplesmente chamada de “Praça do Santo”. Depois há um café sem portas, por referência ao histórico Caffé Pedrocchi que permaneceu aberto, dia e noite, até 1916.

Finalmente há um prado sem relva, pois uma das suas praças mais bonitas, o Prato della Valle (Prado do Vale), era um pântano.

Começamos este roteiro em Pádua precisamente no Prato della Valle, que o turismo local afirma ser uma das maiores praças da Europa.  78 estátuas rodeiam a praça elíptica. São homens ilustres, filósofos, escritores, sábios e médicos que nasceram ou moraram em Pádua, como Antenore, o fundador da cidade, ou o cientista Galileu Galilei.

Este é um dos lugares mais vibrantes de Pádua, palco de eventos e espectáculos, como o fogo-de-artifício de Ano Novo e do Ferragosto (dia mais quente do ano celebrado em Itália no mês de Agosto). Quando o visitámos, acontecia ali um desfile de Carnaval. Em volta vêem-se palácios e edifícios imponentes como o neogótico Loggia Amulea, para além da Basílica de Santa Giustina.

 

Prato della Vale, em Pádua

Edifício neogótico da praça Prato della Vale

 

Santo António de Pádua e de Lisboa

A Basílica de Santo António é o monumento religioso mais importante da cidade, dedicado ao santo nascido em Lisboa, e não pode ficar de fora no seu roteiro em Pádua. Como ele morreu aqui em 1231, Pádua rebaptizou-o de Santo António de Pádua, apropriação que diz muito acerca da devoção que lhe é dedicada.

A igrejinha original foi construída no século XIII para abrigar os seus restos mortais, imediatamente depois da canonização. Depois, Michelangelo Buonarroti desenhou a actual Basílica, de fachada românica, cúpulas bizantinas e campanários góticos. Demorou quase 100 anos a estar concluída e o Papa declarou-a santuário internacional, uma honra dada a apenas oito igrejas no mundo.

Aquando da transladação para o novo túmulo, verificou-se que a língua de Santo António estava intacta, o que se atribuiu a um qualquer dom divino, relacionado com a sua famosa eloquência. Esta e outras relíquias (o queixo, as cordas vocais e um pedaço de pele da cabeça) podem ser vistas no interior da Basílica, juntamente com o seu hábito de lã puído. A língua, um pedaço estranho e negro, causou muita estranheza ao pequeno explorador, que soltou um “que nojo”! Temos que perdoar a sinceridade das crianças…

Todo o interior do templo é belíssimo. O túmulo está rodeado de uma energia muito palpável, resultado da fé que se ali se deposita, minuto a minuto. Este tesouro arquitectónico tem ainda um dedinho de Donatello, autor da estátua equestre na praça e do altar da basílica. Além do interior do templo, é possível visitar os claustros e um museu dedicado ao santo.

 

Exterior da Basílica de Santo António

Piazzas: delle Erbe, della Fruta e dei Signori

O nosso roteiro em Pádua segue depois para o centro histórico, que se concentra numa sequência de três praças. As duas primeiras, das ervas e da fruta, acolhem mercados muito coloridos. Este é o local ideal para comprar temperos italianos, ainda que se venda de tudo um pouco. Estas são separadas pelo Palazzo della Ragione (palácio da Razão), um edifício do século XIII onde funcionou o tribunal e o Conselho da cidade. Na verdade, este tipo de edifícios existe em várias as cidades do norte de Itália.

O maior salão medieval sem divisões da Europa (82 metros de comprimento por 27 de largura) fica no primeiro piso, enquanto as arcadas térreas dão abrigo às mais antigas lojas de Pádua. O gigante recinto está belamente decorado com frescos de Nicola Miretto, depois dos originais de Giotto serem destruídos por um incêndio.

Esta foi talvez a maior surpresa de Pádua, já que não vira qualquer imagem do salone, dos seus 333 painéis que representam um ciclo astrológico, com os meses do ano, deuses, signos do zodíaco e actividades de cada estação.

 

Palácio da Razão

Piazza dellas Erbes e della Fruta

 

No meio de este universo de tinta, uma estátua equestre desmesurada – réplica de uma obra de Donatello – quase parece pequena. Mas a curiosidade mais deliciosa do Salone é a pedra de Vituperio, sobre a qual os devedores eram obrigados a bater três vezes nas nádegas despidas, prática deu origem à expressão restare in brache di tela – “ficar em calças de tela”.

Praticamente ao lado fica a Piazza dei Signori (Praça dos Senhores), onde se pode admirar a fachada do Palácio Capitanio, residência do capitão que governou a cidade e  a antiga Igreja de São Clemente. Mas o edifício mais vistoso é a Torre dell`Orologio, criada nas ruínas de um portão do Palácio Real de Carrara. O relógio, o primeiro astronómico de Itália, foi instalado em 1436 passando a marcar o quotidiano da cidade.

 

De casa de um talhante a Universidade

Não muito longe das praças e também do Café Pedrocchi fica o Palazzo Del Bo’, sede histórica da Universidade de Pádua. Inicialmente um palácio, depois transformado em estalagem por um talhante que o baptizou de Hospitium Bovis. Em 1493, o espaço passou a acolher a reitoria da Universidade de Pádua, preservando o nome do crânio de bovino que servia de logótipo ao empreendimento turístico medieval.

Ainda hoje o palácio pertence àquela academia e, no seu segundo piso, preserva o Teatro Anatomico, a sala de ensino médico mais velhinha do mundo. Um dos alunos mais ilustres que passaram por esta faculdade de medicina foi Gabriele Falópio, no século XVI, que deu nome às trompas de Falópio.

À porta da sala de anatomia lê-se a seguinte inscrição: Hic est locus ubi mors gaudet succurrere vitae. Qualquer coisa como “este é o lugar onde a morte alegremente ajuda a vida”. Infelizmente não é possível fotografar o Teatro Anatomico, tal como é proibido captar imagens no interior da basílica de Santo António.

 

Torre do Relógio na Piazza di Signori

Giotto no roteiro em Pádua

Comecei este post dizendo que Pádua é de Shakespeare, de Galileu e Giotto, porque estas três personalidades marcaram, de forma indelével, a cidade. Ora o meu maior remorso relaciona-se com este mestre italiano que influenciou o rumo da pintura italiana.

Em Pádua, mais concretamente na Capela Scrovegni, está uma das suas mais belas obras. As cenas do Juízo Final, da vida da Virgem e da Paixão de Cristo (século XIV) cobrem praticamente todas as paredes, com cores épicas.

A minha falta de tempo crónica impediu um planeamento conveniente. Só descobri que seria necessário pré-marcação para visitar a pequena capela de tijolo quando já estava na cidade. Resultado, não conseguimos visitar os lindos frescos de Giotto, que é a mesma coisa que ir a Milão e não conhecer A Última Ceia. Portanto, se querem incluir esta atracção no vosso roteiro em Pádua, façam a pré-reserva online, e maravilhem-se com a capela anexa ao Museu Cívico Eremitani e ao conjunto romano conhecido como “Arena”.

Tem outras sugestões a acrescentar a este roteiro em Pádua? Deixem nos comentários.

 

Arte de rua em Pádua

Dicas úteis

Como chegar:  de carro (nós alugámos um com a Rental Cars) ou de comboio. Nós fizemos um pequeno desvio até ao lago di Garda, o que resultou em dois trechos de auto-estrada. Pagámos 9,10€ de portagens entre Milão e Sirmione e 7,50€ dali até Pádua**.  O trajecto de comboio rápido entre Milão e Pádua demora 2 horas e pode custar cerca de 45€ por pessoa (o comboio regional fica mais barato, mas demora mais tempo). Pesquise horários e preços no site da Trenitalia.

Deslocar-se em Pádua: para chegar à estação de comboios (por exemplo, se seguir para Veneza), pode usar o eléctrico (tram). Deverá comprar previamente o bilhete numa tabacaria, já que não é possível pagar ao motorista. Custa 1,30€ por trajecto**.

** valores de Março de 2019

Onde ficar: há várias opções de alojamento em Pádua. Tendo em conta a localização, sugerimos o Hotel Al Prato, junto à praça onde começámos o nosso roteiro ou, embora um pouco mais antigo e caro, o Hotel Majestic Toscanelli, no centro histórico. Se chegar à cidade de carro, tenha atenção à zona de tráfego limitado, para não receber uma multa.

Onde comer: almoçámos na Pizzaria La Lanterna, na Piazza dei Signori. Comida e preço razoáveis, ainda que não tenha sido uma experiência inesquecível. Perto desse restaurante existem duas lojinhas que fazem justiça à fama do gelato italiano.

Outras ideias: para quem gosta de experiências diferentes, pode optar também por um Food Market Discovery Tour ou fazer um mini-cruzeiro entre Pádua e Veneza, visitando algumas villas no percurso.

 

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