Hoje propomos um passeio fora da caixa, na cidade de Paredes, a meia hora do Porto. A “Rota dos Brasileiros de Torna-viagem” leva-nos pelos palacetes de emigrantes que fizeram fortuna do outro lado do Atlântico, regressando depois à terra que os viu nascer

A jovem e industrial cidade de Paredes não é um destino turístico badalado. O logótipo do município, uma cadeira, remete para a importância desta indústria – aqui se produz 65% do mobiliário nacional -, mas também para a figura das “cadeireiras”, senhoras que, descalças, carregavam cadeiras e outros pequenos móveis.

Paredes é assim uma mistura de trabalho e tradição, com os acessos da grande área metropolitana do Porto, mas com o toque bucólico do vale do rio Sousa. Com grandes fábricas, mas também pequenas oficinas de marcenaria e campos agrícolas.

No Dia Mundial do Turismo explorámos parte do património histórico da cidade de Paredes, a pretexto do passeio de carros clássicos na Rota dos Brasileiros de Torna-Viagem. Daí surgiu a inspiração para este roteiro, com cerca de 33 quilómetros, que inclui alguns casarões de emigrantes que fizeram fortuna no Brasil, mas sem esquecer outros locais imperdíveis que integram, por exemplo, a Rota do Românico.

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A maioria das casas da rota dos brasileiros são propriedade privada, pelo que nos ficamos pelas fachadas. Algumas frontarias são tão interessantes, que demos por nós a imaginar o interior e as estórias que teriam ali acontecido.

rota dos brasileiros em Paredes

Os bons ares de Louredo da Serra

Começamos esta road trip na freguesia de Louredo da Serra, conhecida pelos seus “bons ares” que explicam o sanatório, um grande edifício revivalista dos anos 20, hoje em avançado estado de degradação.

Adriano Moreira de Castro é o motivo que nos leva à pequena Louredo, a cerca de 6 km do centro da cidade de Paredes. O emigrante fez fortuna em Belém do Pará e, de regresso à sua aldeia natal, construiu a imponente Casa da Castrália, para além de financiar uma grande escola ali perto e atribuir bolsas de estudo.

“Pão e educação” – os seus ideais republicanos traduzidos em acções foram reconhecidos pelo Presidente da República, General Óscar Carmona, que lhe atribuiu o título de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública, em 1936.

Um dos actuais proprietários da Casa da Castrália abriu-nos as portas deste palacete que tinha uma elegante sala de música, chão de madeira trabalhado e até água canalizada. Os móveis antigos estão cobertos de pó e de uma pátina nostálgica que lhe dá muito charme.

#Dica: para visitar a Casa da Castrália, deve contactar os serviços de turismo de Paredes, através do email turismo@cm-paredes.pt.

#Dica2: não deixe de visitar a Igreja de S. Cristóvão, o ex-libris barroco do concelho, e de admirar longamente o seu exuberante retábulo de talha dourada.

Casa da Castrália em Paredes

igreja barroca de Louredo

Bitarães e a N. Senhora dos Chãos (4,7 km)

Fazemos uma pit stop em Bitarães, para conhecer a singela Capela de N. Senhora dos Chãos, no grande largo onde se festeja a romaria em honra desta protectora das colheitas, a 7 e 8 de Setembro. A devoção local pela N. Senhora dos Chãos é tal, que o brasão da antiga freguesia (a reforma administrativa juntou-a à freguesia de Paredes) possui uma coroa mariana, por cima das espigas de trigo.

Junto a este largo existe outra casa de um brasileiro torna-viagem, a Vila Engrácia, mais modesta que a Casa da Castrália e, aparentemente, mais bem conservada.

casa em Bitarães

Produtos da terra no Palacete da Granja (4,4 km)

No centro de Paredes encontramos o Palacete da Granja, hoje transformado em Casa da Cultura, com espaço para exposições, concertos e conferências. O seu primeiro dono foi o ilustre e abastado Joaquim Bernardo Mendes, 1º visconde de Paredes.

Regressado da Bahia, o abastado senhor mandou construir esta “casa pintada de amarelo com um jardim à volta” (Sophia de Mello Breyner), onde receberia a visita do rei D. Carlos. O afilhado do visconde descreveu uma visita ao palacete “magestoso para uma terra de província, cercado de grande jardim gradeado, com dois mirantes e dois lagos com repuxos permanentes” (sic), no livro A Árvore das Patacas.

#Dica: esta é a única casa de brasileiro torna-viagem sempre aberta ao público. O acesso é gratuito. Provámos vários produtos locais no Palacete da Granja: tremoços, broa, mel, vinho verde e bolos da Mansinha.

Antes de deixar o centro da cidade, dê um passeio no agradável Parque da Cidade de Paredes e conheça o Largo José Guilherme, onde os cidadãos do início do século XX, habitualmente descalços, tinham de calçar uns socos para poderem atravessar a praça.

Casa da Cultura de Paredes

Para conhecer melhor a região vinícola, porque não visitar a Quinta da Aveleda: tradição e vinho verde, muito perto de Paredes?

Cete, na Rota do Românico (6,7 km)

Chegamos à Casa do Verdeal, com a sua linda fachada de azulejos em tons de amarelo, vermelho e azul. Vitorino Leão Ramos, que emigrou muito jovem para o Rio de Janeiro e regressou em finais do século XIX, era o dono desta quinta que ergueu junto à casa dos seus pais.

Embora mantivesse residência no Porto, o benemérito financiou várias obras em Paredes, nomeadamente uma escola mista, para ambos os sexos, muito perto da Casa do Verdeal que, ainda hoje, mantém a sua função educativa.

Mas a principal atracção local é o Mosteiro de S. Pedro de Cête (imagem de entrada do post), um edifício do século X que integra a Rota do Românico, apesar de somar traços românicos, góticos e manuelinos. Túmulos de cavaleiros nobres, muito bem conservados, repousam hoje tranquilamente nos claustros do mosteiro.

Casa do Verdeal

A Casa do Verdeal captada pela dupla de amigos Gato Vadio

pormenor de azulejo

Detalhe da Casa do Verdeal

Baltar, que diz ser o “centro do mundo” (4,9 km)

Nova paragem, em Baltar, onde outro brasileiro de torna-viagem construiu uma linda casa. A graça da Casa de Ernesto Leão, irmão do benemérito de Cête, reside sobretudo nos seus apontamentos de ardósia e nos vidros coloridos. Para mim, é uma das mais bonitas e, provavelmente, a mais bem conservada da rota. No piso inferior, funciona um ginásio!

À saída de Baltar encontra ainda as Casas dos Pereiras. Três irmãos que fizeram fortuna comercializando têxteis – Firmino, Vitorino e Belmiro –, construíram três edifícios imponentes na estrada que ligava Paredes ao Porto. Hoje restam apenas duas dessas casas, uma das quais, coberta por pequenos azulejos floridos, chegou a funcionar como escola.

Nesta vila que adoptou o slogan “o centro do mundo”, o que gerou vários memes e observações anedóticas dos seus vizinhos, encontra ainda a pequena capela medieval da Senhora da Piedade, que integra a Rota do Românico, e um kartódromo.

#Dica: não deixe de visitar o dólmen do Padrão, um importante monumento megalítico, por causa das suas pinturas.

casa de brasileiro em Baltar

Aguiar de Sousa e a Senhora do Salto (12,7 km)

Terminamos esta aventura num dos limites do concelho de Paredes: a cerca de 3 km existe uma entrada para a auto-estrada, o que facilita o regresso a casa. A última paragem faz-se na Senhora do Salto, junto das escarpas da “Boca do Inferno”, onde o Sousa se mostra mais exuberante .

No leito e nas margens do rio existem várias “marmitas de gigante”, que resultam da erosão, por movimentos giratórios, de areias e seixos. Claro que crendice popular tratou de arranjar as suas razões para o fenómeno geológico.

A lenda da Senhora do Salto representa a cidade de Paredes na obra 17 Histórias baseadas em lendas e narrativas da área metropolitana do Porto. De forma resumida, conta que um cavaleiro foi salvo da queda mortal, ao encomendar-se à Virgem, em nome da sua devota amada. Diz o povo que as cinco grandes marmitas representam as quatro patas e o focinho do cavalo que aterrou, milagrosamente, incólume.

#Dica: aqui fica outro monumento que integra a Rota do Românico: a Torre do Castelo de Aguiar de Sousa. Não deixe de conhecer ainda a Mamoa de Brandião.

Ficou por conhecer as minas de ouro (Sobreira) e, em Lordelo, a Torre dos Alcoforados que faz parte da Rota do Românico. Ali existem várias casas de emigrantes que regressaram à sua terra natal, com dinheiro e novos hábitos, vestuário, valores éticos e morais: Palacete dos Silvas Moreiras, a Casa de Amaro Martins Ribeiro, a Casa do Ribeiro e a Quinta de Lamas. Infelizmente, nenhuma delas é visitável.

marmitas de gigante

As marmitas de gigante, que inspiraram a lenda da Senhora do Salto

Dicas úteis para visitar a cidade de Paredes

Como chegar

O concelho de Paredes é servido por quatro auto-estradas (A4, A41, A42, A43), que facilitam o acesso em carro próprio ou alugado. Para quem pretende fazer uma viagem mais tranquila e contemplativa, pode optar pela estrada nacional 15, que liga o Porto a Bragança.

Também é possível chegar desde o Porto de comboio, através da linha do Douro da CP (paragem em Recarei-Sobreira, Cête, Paredes ou no apeadeiro de Parada de Todeia), ou de autocarro, com a Transdev e a Rodonorte. No entanto, o roteiro descrito exige uma viatura, pois os pontos de interesse estão dispersos pelo concelho e não existe uma rede de transportes públicos que una todos eles.

Onde ficar

A oferta hoteleira perto do centro de Paredes não é muito abundante, destacando-se o Paredes Hotel Apartamento e a Estrebuela House, com piscina exterior e estacionamento privado. Na freguesia de Louredo da Serra, onde iniciámos este roteiro, gostei da Louredo House, uma casa de granito remodelada que faz parte da estrutura do afamado restaurante Cozinha da Terra. Para outras opções de alojamento em Paredes, não deixe de consultar o Booking.

capela de N. Sra dos Chãos

Capela de N. Senhora dos Chãos

Onde e o que comer

A região é famosa pelo cabrito assado em forno a lenha, com arroz de forno. No capítulo dos doces, destaca-se a tradicional sopa seca, um doce à base de pão, mel e canela. Outros produtos famosos são o mel, os tremoços, o vinho Todela (verde), a broa e os bolos de festa da confeitaria Mansinha, cujo nome se inspira na lenda de uma menina moura.

#Curiosidade: os habitantes de Paredes são conhecidos como os tremoceiros, por causa da produção local de tremoços, snack que é muito apreciado.

Várias pessoas nos recomendaram a Cozinha da Terra (Louredo) e a Casa dos Frangos (Baltar), mas acabámos por almoçar no Solar da Brita (Louredo), onde destaco as pataniscas de bacalhau e o leite-creme. O resto do grupo comeu, e elogiou convenientemente, o cabrito típico.

Junto à Senhora do Salto, em Aguiar de Sousa, existe um barzinho muito concorrido, popularmente conhecido como “Pele e Osso”. Disseram-nos maravilhas da sua especialidade: uma sandes de bifana temperada em vinha d’alhos. Mas acabámos por não parar, por causa da quantidade de gente na esplanada.

senhora do Salto em paredes

Nota: esta visita foi realizada a convite do Município de Paredes, a quem agradecemos o convite.

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