A praça-forte de Almeida fez parte de um esforço de renovação bélica, após a Restauração da independência no século XVII. Hoje, é uma testemunha pacífica do passado e uma tranquila aldeia histórica

O olhar perde-se na lonjura da paisagem e nada perturba a tranquilidade desta tarde de Outono. Quem diria que este solo já bebeu, sedento, o sangue de milhares de pessoas? António Gedeão, que sempre nos inspirou com os belos versos da Pedra Filosofal, foi também autor do Poema da Terra Adubada. Deixo-vos aqui o excerto final, para sentirem as arestas das palavras, duras:

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

Lembrei-me desta metáfora quando visitei a Praça Forte de Almeida (distrito da Guarda), quase na fronteira espanhola, com o meu pequeno explorador. Dizem que este é um exemplar magnífico de arquitectura militar barroca, de estilo Vauban.

 

fortaleza Vauban de Almeida

©almeidagrhma.blogspot.pt

 

O passado bélico de Almeida

Explique-se que esse senhor Vauban, um marquês francês, era estratega militar. Ele empresta o nome a fortalezas com uma configuração quase poética, apesar do seu objectivo mortífero. Quem sobrevoar o forte de Almeida verá que tem a forma de uma estrela assimétrica, com 12 pontas (seis baluartes e seis revelins, aprendi hoje).

Porque é que Almeida necessitou de tamanho investimento bélico?

Bem. Aqui se bateram mouros contra cristãos, depois portugueses e castelhanos, batalhas que duraram séculos até se firmarem as fronteiras nacionais. Também aqui se tentou rechaçar as tropas de Napoleão, durante as invasões francesas do século XIX. Pouco depois, liberais e absolutistas defrontaram-se por ideais políticos. E mais sangue foi derramado.

Hoje, os largos fossos defensivos são tomados de assalto por plácidos rebanhos de ovelhas a pastar. Ultrapassados os dois portões monumentais, belíssimos, a vida intramuros surpreende-me. Pensei que a vila estaria deserta. Mas ainda aqui mora gente, há correios e repartições de finanças, há algumas lojinhas e hortas nos quintais.

 

 

Talvez por causa da sua história, existe também um Museu Militar, que não visitei. Apesar do valor da entrada ser simbólico (1 euro), ver artefactos de guerra não me atrai minimamente.

Outros pontos me atraíram: as ruínas do castelo, a paisagem tranquila, o picadeiro real recuperado, algumas obras de arte contemporâneas perdidas ali pelo meio. O Pedrito encantou-se com o burrito de olhos meigos, que parou de comer, como que para nos cumprimentar.

Deixámos o mundo muralhado para trás e honrámos, com um último olhar, o monumento à liberdade erigido este ano logo em frente. Entre as inscrições, as belas palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen: Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio / e livres habitamos a substância do tempo.

O meu filho reclama a sua merenda, mas eu já planeei o sítio ideal para o nosso lanche. A poucos quilómetros de Almeida, estaciono o carro na berma da estrada, logo depois da moderna ponte sobre o rio Côa. Seguimos um trilho a pé, apenas um ou dois minutos, e encontramos a velha ponte, romana. Comemos a olhar para este cenário maravilhoso, embalados pela melodia das águas!

 

 

Dicas úteis

Como chegar: De Lisboa, seguir pela A1 em direcção ao Norte, cortar para a A23 e seguir nessa auto-estrada até à Guarda. Na Guarda, entrar na A25 em direcção a Vilar Formoso. Como alternativa pode optar pela saída no nó do Alto Leomil, apanhando a EN324, indo entroncar com a EN340 rumo a Almeida. Do Porto, seguir pela A1 em direcção ao Sul, cortar para a A25 e seguir nessa auto-estrada até Vilar Formoso. É possível ir de comboio, de Lisboa, Porto ou Coimbra até Vilar Formoso e, ali, apanhar um autocarro até Almeida.

Onde ficar: uma boa opção pode ser o Hotel Fortaleza de Almeida, um 4 estrelas dentro das muralhas da histórica vila de Almeida. Mas, para mim, nada bate o charme de O Revelim.

O que comer: a região é conhecida pelos seus enchidos, queijos e pratos à base de caça como coelho à caçador e arroz de lebre. Quem, como eu, não come carne, pode sempre optar pelo bacalhau, pela açorda de alho ou pela salada de meruges (planta silvestre parecida com o agrião).

O que visitar: Para além de outras aldeias históricas na região, nomeadamente Castelo Mendo, saibam que Almeida fica na fronteira com Espanha, sendo fácil visitar, a partir dali, Ciudad Rodrigo ou Salamanca.

 

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