Astorga dos caminhos: Santiago e Rota da Prata

Astorga é um importante ponto de passagem no Caminho de Santiago e os peregrinos fazem parte do seu quotidiano. Mas não é só por isso que esta é Astorga dos caminhos

Aguardamos a hora certa na Praça de Espanha, altura em que Juan Zancuda e Colasa, os dois mais famosos maragatos* de Astorga, tocarão o sino de bronze do edifício do Ayuntamiento para a multidão de turistas e peregrinos.

Um desses caminhantes descansa as pernas e o espírito num banco junto a nós. Chama-se Matteo, é italiano, e partiu bem cedo de Hospital de Órbigo, a cerca de 18 quilómetros. Depois de lhe tirar uma foto com os maragatos do relógio, responde ao meu “Ultréia” com a habitual “Suséia”** e segue adiante, sorridente.

Falara já ao Pedro nos caminheiros, a propósito do capote de peregrino pendurado no castelo de Puebla de Sanabria. Mas do abstracto até ao concreto, a distância é abissal. Só vendo um em carne, osso, cajado e vieira é que o pequeno explorador me inundou de perguntas.

Como? Porquê? Quanto tempo demoram? “Mas isso é muuuuuito longe“, rematou impressionado. Desde então revelou-se muito atento, apontando os peregrinos com que nos fomos cruzando.

 

O edifício do Ayuntamiento com o seu relógio de maragatos (séc. XVIII). 

O edifício do Ayuntamiento com o seu relógio de maragatos (séc. XVIII).

Traje típico dos maragatos.

Traje típico dos maragatos.

 

Para além de estar na rota francesa do Caminho de Santiago ou Via Láctea, classificado como primeiro itinerário cultural europeu pelo Conselho da Europa, a milenar Astorga fica na confluência de outro caminho antiquíssimo. Trata-se da Rota da Prata, que remonta à Asturica Augusta romana, quando servia de ponto de passagem dos metais preciosos extraídos no norte da Península Ibérica.

A importância da cidade para os romanos era tal que a dinastia flávia mandou construir uma estrada – a Via Nova – entre Bracara Augusta (Braga, Portugal) e Asturica Augusta. Este traçado foi muito útil durante a reconquista cristã. Astorga conserva ainda vários vestígios desse período romano, nomeadamente as muralhas, um museu e uma rota temática…

Deixamos a Praça do município para trás e procuramos o cartão-postal da cidade, a imagem que me fez planear esta viagem, um dos raros projectos de Gaudi fora da Catalunha: um palácio de contos de fadas, com pináculos e torreões dignos da Disney, ainda sem as linhas curvas que caracterizariam o trabalho do génio catalão.

 

Ao lado do Palácio, uma maravilhosa catedral do gótico florido espanhol (do séc. XV, construída sobre a sua antecessora medieval), lembra-me a de Sevilha ou até a de Salamanca. Mas acaba eclipsada pelo Palácio Episcopal de Gaudi, que acolhe hoje o Museu dos Caminhos. Demoramo-nos pelos jardins, depois de estarmos no interior, apreciarmos os vitrais e os subterrâneos romanos.

Antes de partimos, Astorga reserva-nos mais um presente. Entre o Palácio e a Catedral, decorre uma animada feira de queijos. O ar encantador do Pedrito rende-lhe generosas fatias de queijo. Ele aproxima-se por simples curiosidade, mas as vendedoras não lhe resistem ou talvez confundam o seu interesse com gulodice!

 

Entrada no Palácio Episcopal: 3€ adulto / gratuito para crianças com menos de 10 anos (valores de 2017)

* Habitante da Maragateria, região histórico-cultural espanhola, na província de Leão.

** Ultréia é uma expressão usada para animar os peregrinos, significando “em frente”. Já a resposta, Suséia, significa “para cima”. Ultréia e Suséia são assim os votos de sucesso para o caminho, de Santiago e da vida.

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2019-10-01T12:54:44+00:00

16 Comments

  1. Lúcia Bezerra de Paiva 15 Maio, 2015 em 20:43 - Responder

    Muito bonito tudo que vi, ainda mais com a presença da Ruthia, com o seu encantador Pedrito, o Explorador. Achei interessante o termo "maragato" e, como esses belos cenários são na Espanha, associei aos "maragatos" do Rio Grande do Sul, limítrofe com o Uruguai… Procure saber de "maragatos x chimangos" que entenderá a que me refiro. Quem deve conhecer bem, sobre os dois partidos políticos, lá do século XVIII, é a nossa amiga gaúcha, Chica.
    O vídeo, completou muito bem a matéria…
    Beijo,
    da Lúcia…

    • Ruthia 15 Maio, 2015 em 21:28 - Responder

      Querida Lúcia, pelo que me foi dado perceber, os povos da América latina conhecidos por maragatos ganharam essa "alcunha" porque terão sido colonizados por espanhóis desta região que visitei.
      Beijinhos, minha querida

  2. Sissym Mascarenhas 15 Maio, 2015 em 21:01 - Responder

    Ruthia,

    Que banho de cultura. Adoraveis os trajes típicos dos maragatos. Mas na Europa há muita tradição; lembro de um restaurante em Praga dos funcionários vestidos a carater, a musica, dança, muito animado!

    Ahhh nem fale em queijo, certamente eu ia provar tudo que me oferecessem, adoro!

    Bjs

  3. ✿ chica 15 Maio, 2015 em 22:57 - Responder

    Adoro passear com vocês , pois sabem mostrar tudo de importante que há em cada pedacinho por onde passam. E dá pra escrever um livro,não achas? beijos,chica

  4. Juju 16 Maio, 2015 em 6:26 - Responder

    Olá Ruthia, vim visitar teu blog, estou encantada com seu post, belo lugar. Envia-me seu endereço de pagina do FB. Um abraço da nova amiga brasileira e viajante 😉

  5. Juju 16 Maio, 2015 em 6:43 - Responder

    Ficaria feliz se me seguisse no meu blog

  6. Elvira Carvalho 17 Maio, 2015 em 7:55 - Responder

    Obrigada pelo passeio. No norte de Espanha, só conheço Vigo e Santiago de Compostela. Astorga me parece uma bela cidade para conhecer.
    Um abraço e bom Domingo

  7. MARILENE 17 Maio, 2015 em 19:05 - Responder

    Ruthia, todas as suas postagens são uma apresentação, para mim. E me encanto com os lugares que nos mostra, com a história deles, com suas impressões e, naturalmente, com a presença de seu filhote. São voos que me possibilita e me fazem feliz. As imagens apresentam espaços e construções que adoraria conhecer. Tudo muito belo. E rico! Bjs.

    • Ruthia 17 Maio, 2015 em 19:28 - Responder

      Muito obrigada, querida Marilene. É verdade, quer os livros, quer blogs de viagens nos permitem viajar sem sairmos do lugar. Isso é muito bom.
      As postagens seriam ainda melhores se tivesse o seu talento para fotografar.
      Beijinho, bom domingo

  8. M. 17 Maio, 2015 em 19:54 - Responder

    Ultréia, sem dúvida! O muito que eu aprendo e passeio virtualmente contigo!
    Beijinhos, bom resto de domingo e boa semana 🙂

  9. Dulce Morais 18 Maio, 2015 em 7:04 - Responder

    Mas que viagem, Ruthia!
    Gostei muito de "Ultréia e Suséia". Deveríamos todos rê-las em mente pela manhã, para não esquecer as direções a seguir … 😉
    Beijinhos!

  10. Adriana LARA 18 Maio, 2015 em 14:26 - Responder

    Ruthia, a cada viagem e postagem me deslumbro mais e mais com o teu dom de retratar por ondes passas de forma tão poética e didática ao mesmo tempo…. tens o dom de nos encantar com tuas palavras que nos ensinam sobre cada local visitado, dando assim uma bela aula de história e cultura!!! Bem sabes que aguardo ansiosa por teus posts…
    Quanto aos chinelos lindos, são mesmo a minha cara, e ainda não escolhi algum, mas o será pra breve, independente de firmar parceria ou nã com o meu TdD!
    bjs amiga e abraços carinhosos no Pedrinho!! e até a tua próxima 'parada'

  11. Clara Lucia 18 Maio, 2015 em 18:43 - Responder

    Que maravilha de lugar! Castelos, ah, como me encantam Castelos. E faróis também. Um dia vou conhecer em algum lugar. Fotos belíssimas,
    As fotos do texto anterior também, tudo divino.
    Ruthia, muito obrigada pelos belos posts e por nos levar a lugares que não imaginaríamos um dia conhecer.
    Uma ótima semana, beijos, no Pedrinho, um especial na bochecha.

  12. AC 18 Maio, 2015 em 18:47 - Responder

    Andanças por terras de mil e uma memórias, Ruthia, andanças por terras que me cativam…
    Com essa bagagem toda, o Pedro, no futuro, será um grande andarilho, só pode. 🙂

    Um beijinho 🙂

  13. Existe Sempre Um Lugar 19 Maio, 2015 em 17:03 - Responder

    Boa tarde, lindas imagens que revelam a bela viagem.
    AG

  14. Toninho 21 Maio, 2015 em 4:55 - Responder

    Um caminho para a historia que você generosamente nos ensina e leva com suas belas e precisas fotos.
    Muito bom fazer este caminho com você para frente e para cima.

    Meu carinhoso abraço amiga.
    Beijo de paz. Abraço ao pequeno descobridor.

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