Os templos, independentemente da religião que os originou, estão carregados de simbolismo. São destinos de peregrinação, de fé, e também testemunhos arquitectónicos de uma época.

Não sendo uma pessoa religiosa, encontro sempre tempo para entrar numa igreja, templo, mesquita ou sinagoga, durante as minhas deambulações, porque são locais carregados de história. Não raras vezes, me surpreendem com pormenores inusitados ou mesmo hilariantes (lembram-se da gárgula malcriada? aqui).

Entre tantos templos visitados neste mundo, houve alguns que me tocaram profundamente; muito para além da emoção causada pelas demonstrações de fé das pessoas que me rodeavam. Não sei explicar a razão. Recordo-me duma ocasião em Paris em que o sentimento foi tão atávico e visceral, que as lágrimas começaram a correr pelo rosto, sem controlo.

Desafiada a falar sobre cinco templos religiosos inspiradores, eis a minha escolha. São lugares para recuperar a fé no divino, na humanidade ou em nós próprios:

1. Église de la Madeleine (França)

Eu era uma jovem estudante universitária quando visitei Paris pela primeira vez. Eram tempos tão pré-históricos que quase não tenho fotos dessa viagem, começavam então a aparecer as primeiras máquinas fotográficas digitais e os telemóveis serviam para outras coisas que não tirar fotografias.

Na altura, visitei os principais monumentos e igrejas da cidade-luz, incluindo o Sacré-coeur e a catedral de Notre-Dame. Mas nada mexeu tanto comigo como a Église de la Madeleine, perto da praça da Concórdia.

O edifício remete para um templo grego, com as suas 52 colunas coríntias imponentes; apenas o frontão (com o juízo final em alto relevo) nos recorda que estamos perante uma igreja. Sem sino, refira-se. Foi na penumbra do interior que algo falou à minha alma. Uma emoção assaltou-me junto ao altar maior, onde uma escultura evoca a assunção de Madalena, e tive que me sentar. As lágrimas começaram a correr; demorei algum tempo para me recompor.

Já voltei a Paris depois disso, curiosa para verificar se o fenómeno se repetia, mas não aconteceu.

 

© Wikimedia Commons

2. Templo de Po Lin (Hong Kong)

O templo de Po Lin, na ilha de Lantau, é um dos santuários budistas mais importantes do sul da China. Os turistas procuram-no sobretudo por causa do Tian Tan Buddha, o maior buda sentado ao ar livre do mundo!

Não muito longe do pacífico gigante estende-se um lindo complexo de templos, muito mais tranquilos, já que são procurados pelos fiéis e não tanto pelos turistas ávidos de fotografias exóticas. Os caracteres “Po Lin” (lótus precioso) junto ao templo principal recordam-nos que estamos num lugar puro e, na quietude do interior, somos recebidos por três estátuas de Buda, representando as suas vidas passada, presente e futura.

Cada edifício é maravilhosamente trabalhado, dos tectos coloridos pendem grandes lanternas, e uma paz envolve-nos, como um cobertor quente numa noite de chuva. Chegamos por fim ao Great Hall of Ten Thousand Buddhas, onde milhares de budas dourados nos fitam, espantados com o nosso arrebatamento.

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3. Muxima (Angola)

Nas margens do rio Kwanza, o maior centro de devoção mariano da África subsaariana é um assombro. Refiro-me ao sentimento dos fiéis para com a “mamã Muxima” (mãe do coração, em quimbundo) e não ao humilde edifício.

Este é o templo mais querido dos angolanos, que acorrem em peregrinação nos primeiros dias de Setembro. A devoção é antiga, mas ganhou um novo ímpeto no século XIX, após um surto da doença do sono, que dizimou populações inteiras. Os crentes conversam com a virgem como se ela fosse uma velha amiga, riem-se, ralham, pedem que lhes cure a infertilidade ou que traga chuva. Apesar da familiaridade, os fiéis deixam os sapatos à porta, apresentando-se perante a mamã Muxima descalços, em sinal de respeito.

O lugar vai ganhar uma nova dignidade e relevância, com a construção de uma basílica com capacidade para 4.600 pessoas sentadas, altura em que será elevado à categoria de santuário nacional. Espero que a sua magia não morra enterrada sob as terraplanagens.

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4. Templo de A-má (Macau)

Duas sentinelas de granito, sob a forma de leões, impedem o mal de entrar no recinto de A-má, o mais antigo templo de Macau. A pequena deusa do céu espera-nos dentro de um nicho de seda vermelha, bordada a fio de ouro, perante uma singela mesa de oferendas: um pouco de fruta fresca, flores e incenso.

Vários pavilhões com telhados de pontas arrebitadas, arcos com letras douradas e pátios ligados por rampas e escadas sucedem-se encosta acima, enquanto somos envolvidos por um cheiro forte a incenso e pelo murmúrio de orações.

Aqui coabitam estátuas de divindades populares, imagens taoístas e Budas bonacheirões, revelando todo o sincretismo religioso chinês: a casa de A-má é perfeitamente ecuménica, um sonho de tolerância.

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5. Catedral Metropolitana de Liverpool (Reino Unido)

A Hope Street, em Liverpool, tem uma catedral em cada ponta. De um lado, a bela Catedral Anglicana, um belo monumento revivalista gótico assinado por Giles Gilbert Scott, célebre pelo design das cabines telefónicas inglesas. No outro extremo, a moderna Catedral Metropolitana de Liverpool, ao serviço da comunidade católica.

Gostei deste ecumenismo: aliás, um arcebispo católico participou na cerimónia de consagração da Catedral Anglicana, em 1978, onde a rainha Isabel II esteve também.

Este segundo templo tem uma arquitectura bastante arrojada, uma espécie de vulcão em betão e vidro, que recorda uma outra igreja a meio mundo de distância: a Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Mas o memorável destas duas catedrais inglesas não está na sua arquitectura ou na sã convivência entre duas comunidades religiosas. O que é mesmo, mesmo, significativo é a utilização do espaço: concertos, exposições, seminários, jantares comemorativos e eventos artísticos de vária ordem. Durante muitos anos, a cripta da Catedral Metropolitana foi palco de… (tambores) um festival de cerveja!!! A isto se chama envolvimento na comunidade.

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Esse post faz parte de uma blogagem colectiva de 8 viajantes que escolheram cinco templos ou igrejas que os emocionaram por algum motivo! Olhares distintos de nómadas que estão sempre à procura de novas aventuras e que inspiram outros viajantes! Espreite os posts dos outros participantes, comente e partilhe:

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