Estou nas Caldas da Rainha, adoptada por uma nobre madrinha que, descobrindo por acaso as propriedades destas águas, aqui mandou erigir o primeiro hospital termal da Europa.

Um céu de chumbo ameaça chuva e uma brisa sopra desagradável, vinda do mar. O semblante de bronze de D. Leonor permanece sereno, alheio ao dia invernoso. Fotografo-a, ela em nada se altera, esta rainha Perfeitíssima. A cidade de Caldas da Rainha foi precisamente fundada por esta benfeitora em 1484.

Entro no grande parque em frente, que homenageia outro rei: D. Carlos I. As árvores, despidas e imensas, furam o céu que permanece cinza e incerto. O lago artificial reflecte grandes pavilhões que, outrora, foram a Casa de Convalescença, de apoio ao hospital. A pátina do tempo empresta-lhes um ar romanticamente decadente, são conchas vazias de uma época dourada.

Várias esculturas surpreendem-nos num ou noutro recanto deste jardim igualmente romântico, como tantos outros do século XIX, quando o comboio chegou às Caldas e com ele trouxe a aristocracia, os políticos, as elites. A moda de ir às águas para tratamento estava no apogeu, era um acontecimento social. Ramalho Ortigão fala deste jardim, onde com certeza teve muitos debates literários, pisando o chão que hoje percorro.

 

escultura rainha D. Amélia

 

Subitamente, uma figura esculpida atrai o meu olhar e o coração cai-me aos pés, perante a grandeza daquela dor. Descubro mais tarde que a escultura se chama precisamente “A Dor”. E que existe outra semelhante, no Panteão da Casa Real Brigantina, a velar junto dos túmulos de D. Carlos I e o filho. Dizem que esta mulher é D. Amélia, carpindo pelo marido e filho, vítimas de regicídio.

Mas nada disto sei ainda enquanto admiro, muda de pasmo, esta figura de pedra que transmite tantos sentimentos, de perda e desespero, sem mostrar sequer o rosto. São as suas mãos que falam!

O seu criador, o modernista José Franco, foi um dos mais activos autores de arte pública da sua época. Das suas mãos saíram as estátuas de João Gonçalves Zarco (Funchal), do Infante D. Henrique (Musée d’Orsay, Paris), dos reis D. João IV (Vila Viçosa), D. Dinis (Universidade de Coimbra) e da própria D. Leonor, pela qual passei há pouco.

Projectou também o Cristo-Rei de Lisboa, apesar de ter morrido antes da sua construção. Portanto, esta mulher foi um estranho desvio do seu percurso artístico. Ainda bem.

 

Museu José Malhoa

Igreja Matriz das Caldas da Rainha

A herança de Bordalo Pinheiro

Ainda no Parque D. Carlos I fica o Museu José Malhoa, infelizmente fechado, já que é segunda-feira. Para além da maioria das obras do pintor naturalista, o museu possui uma colecção de pintura e de escultura dos últimos dois séculos, e uma secção dedicada à cerâmica.

As Caldas da Rainha são muito conhecidas pela sua tradição cerâmica, graças a Rafael Bordalo Pinheiro, autor do famoso “Zé Povinho” e do “falo das Caldas”. O artista é tão importante para a região que inspirou uma Rota Bordaliana. Ao longo do percurso (duas distâncias possíveis) existem várias obras inspiradas nas suas faianças, começando por uma rã gigante junto à estação de comboios.

Seguindo a rua com o seu nome – a vereda que terá levado D. Leonor ao “charco” das famosas águas curativas -, encontra-se a Fábrica Bordalo Pinheiro. Ali fica também a Casa-Museu São Rafael, onde se pode apreciar muitas das obras produzidas pela antiga fábrica e outras mais actuais. E a loja da fábrica, com novas linhas como as Sardinhas que invadiram as lojas de souvenirs de todo o país.

 

figura do zé povinho

 

Vale a pena seguir depois até à Praça da República, com o pitoresco mercado de frutas e legumes. Dizem que é o único que se realiza todos os dias no país.

E espreitar a Igreja de N. Senhora do Pópulo, que começou por ser a igreja do hospital. A capela de traços pré-manuelinos e góticos possui uma torre sineira com relógios, gárgulas e esculturas do século XVI, representando o anjo Gabriel e a Virgem da Anunciação. O interior é igualmente bonito, com as paredes repletas de azulejos do século XVII.

 

Rota Bordaliana

© Gowestours

DICAS ÚTEIS:

Como chegar: é possível chegar de comboio: quem vem do norte, terá que mudar na estação de Coimbra-B (consulte os horários da CP aqui). Outra alternativa será o autocarro, com a Rede de Expressos ou a Rodoviária do Oeste.

Para quem vem de carro, desde Lisboa, deve seguir pela auto-estrada nº 8 (A8) e sair em Caldas da Rainha. Do Porto, tomar a A25, depois A17 e A8.

Onde ficar: a cidade das Caldas possui opções de alojamento para todos os bolsos. O Sana Silver Coast Hotel vale bem as suas 4 estrelas e fica super bem localizado. Outra alternativa poderá ser o 19 Tile, uma mansão do século XIX, em frente ao mercado da fruta. O edifício foi renovado e decorado por 6 ceramistas da cidade e o alojamento organiza visitas a várias oficinas de cerâmica.

 

cavacas das Caldas

 

O que comer: a comida tradicional portuguesa e os mariscos (a cidade fica a 10 km do mar) são boas opções. O bife ao alho do restaurante A Capelinha do Monte é bastante famoso. No restaurante O Recanto, pareceu-me muito bem a açorda com petingas fritas e o arroz de tomate com jaquinzinhos.

Para petiscos, sugiro A Casa Antero e para refeições saudáveis, o Leef. Não se esqueça de provar as cavacas locais. Confesso que não sou particularmente fã, mas provem e façam o vosso próprio juízo de valor.

O que visitar: para além das atracções já mencionadas no centro da cidade, recordo que as Caldas da Rainha ficam a apenas 10 km de Óbidos. Para quem gosta de praia, a Nazaré e a Foz do Arelho também estão próximas. O mosteiro da Batalha a cerca de 40 minutos e as grutas de Mira de Aire a cerca de 1 hora.

Quem está em Lisboa pode reservar uma rota da cerâmica durante um dia inteiro, para ficar a conhecer a cidade, a fábrica e o museu. Outra boa alternativa é um tour de nove horas que inclui Fátima, Batalha, Nazaré e Óbidos.

 

rua das Caldas da Rainha

 

Este post faz parte do 8on8, um projecto colectivo que une lindas viajantes em volta de um tema comum, no dia 8 de cada mês. Espreitem os restantes textos sob o tema “cidades pouco turísticas”, inspirem-se e partilhem (por ordem alfabética):

Destinos por onde andei: Santa Margherita Ligure, vale a pena conhecer!
Entre Polos: Lisieux – A Pequena Cidade de Santa Teresinha
Let’s Fly Away: [8 on 8] O que fazer em Montalcino
Mapeando Mundo: [8on8]  Cinco motivos (e oito fotos) para incluir Potsdam no seu roteiro!
Travel Tips Brasil: O que fazer em Campo Grande – MS?
Turistando.in: 8 cidades desconhecidas do centro da Itália para você se apaixonar

 

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