Demos uma de Jack Kerouac e conquistámos a estrada pontilhada por ninhos gigantes de cegonhas, onde os horizontes se alongam e a pressa se esfuma. Aceite o nosso convite para uma road trip no Alto Alentejo.

O céu está imaculadamente limpo, sem um fiapo de nuvens. Abandonamos a A23 para explorar a margem sul do Tejo, entrando em território de ordens medievais que, em tempos, seguraram as fronteiras do reino.

O objectivo é conhecer melhor o Alto Alentejo, durante 4 ou 5 dias, embora a vontade seja prolongar o passeio por mais tempo. Esta aventura não tem restaurantes da moda, lojas trendy e multidões de turistas. Esta aventura tem silêncio, natureza, comida genuína, céus maravilhosamente estrelados, rios que acalmam o calor abrasador, vilas e cidades históricas.

O nosso primeiro destino é Belver, no concelho de Gavião, localidade impregnada de lendas de mouras e histórias de cavaleiros. A vários quilómetros, vê-se já o castelo, o primeiro erguido pelos Hospitalários em território raiano. É um dos mais imponentes “guardiões de pedra” que embelezam a paisagem ao longo do rio Tejo.

 

burrinhos do Alto Alentejo

A sentinela de Belver

Carro estacionado numa sombra preciosa e saímos para a tarde quente. Um grupo de senhores de veneráveis cãs aproveitam outra sombra, junto à Igreja Matriz, saboreando o tempo entre amigos e longas pausas. Cumprimentam-nos. Como se fossemos vizinhos.

Subimos lentamente a colina que conduz ao Castelo de Belver, essa sentinela orgulhosa com uma linda vista para o rio. Quando foi construído, a sua segurança era tal, que D. Sancho I decretou-o como um dos depósitos do tesouro real. As águas correm calmas, ao fundo. Na margem oposta do Tejo, conseguimos vislumbrar a praia do Alamal. Os efeitos dos incêndios ainda se notam aqui e ali. Mas os passadiços que ligam a praia fluvial à ponte (com cerca de 2 km) foram renovados e convidam a uma caminhada.

O castelo também foi cercado pelo fogo, mas cumpriu a sua função, protegendo com as suas muralhas a Capela de S. Brás. O singelo templo do século XVI guarda um inusitado conjunto de relíquias trazidas da Terra Santa. O retábulo está repleto de pequenas esculturas com um buraco no peito, onde depositaram relíquias que vão de palhinhas da manjedoura do menino Jesus, a cabelos de Maria Madalena?!

Ainda nos espera caminho para esse dia, pelo que voltamos à estrada, depois de um gelado merecido. Ficou por conhecer o Museu do Sabão, um dos quatro que existem na Europa e que recorda a tradição local da Fábrica Real de Sabão.

 

rio Tejo desde o Castelo de Belver

Rumo a Castelo de Vide

Cerca de 56 km separam Belver e Castelo de Vide, tomando a N118, o IP2 e depois a N246. Campos doirados acompanham o caminho, para nos lembrar da paz que nos espera no Alentejo, pontuados, aqui e ali, por oliveiras e medronheiros.

Em menos de 1 hora estamos na pequena e íngreme vila alentejana, com as casinhas caiadas e as suas famosas águas termais. Encontramos várias destas fontes, de águas geladas e terapêuticas, e bebemos de todas. Diz o povo que quem beber da Fonte da Mealhada, voltará à vila para se casar (será que se aplica a quem já é casado?).

O castelo, as muralhas e as ruas estreitas emprestam à vila um charme medieval. Achei o interior da fortaleza negligenciado, impressão que nem a paisagem conseguiu apagar. Mas o que mais surpreende aqui é a Judiaria, uma das mais bem preservadas do país, entre o castelo e a Fonte da Vila (mais uma com água gelada).

Vários edifícios revelam a tradição milenar de marcar a fé judaica nas ombreiras das portas. A sua presença  vê-se também na toponímia: a rua das Espinosas, por exemplo, remete para um célebre filósofo do século XVII, filho de um habitante local. A comunidade judaica marcou tanto Castelo de Vide que as cerimónias pascais misturam as crenças cristã e judaica.

Vale a pena visitar o museu dedicado a esta comunidade, num edifício onde se julga ter funcionado a sinagoga, com duas salas (para separação dos fiéis por sexo), um tabernáculo de madeira e uma arca sagrada com rolos da Torá.

 

Castelo de Vide

No concelho de Castelo de Vide, ficou por conhecer o Menir da Meada, o maior da Península Ibérica.

 

Subida até Marvão

Na manhã seguinte seguimos viagem pela N246-1, para Marvão. Percorremos a curta distância com vagar, para apreciar as riquezas do Parque Natural de São Mamede. O símbolo desta área protegida é a rara águia de Bonelli, que partilha a sua casa com javalis, raposas, coelhos, texugos e gatos bravos, grifos, gaviões e corujas.

A medieval vila de Marvão foi a minha preferida nesta road trip pelo Alto Alentejo. Dediquei-lhe um artigo mais detalhado que podem, e devem, ler: Marvão: a vila mais alta do Alentejo.

É verdade que a região é abundante em castelos e paisagens belíssimas, mas a vista da torre mais alta de Marvão é inesquecível. Dizem que se vê as costas dos pássaros que voam, tal a sensação de imensidão. Por algum motivo o nobilíssimo Saramago escreveu que dali se avista a terra toda.

Apesar dos monumentos, museus e afins se visitarem rapidamente, vale tanto a pena prolongar a visita com um longo almoço, regado com o generoso vinho local. E depois procurar uma sombra e abandonar-se à preguiça da tarde alentejana, antes de voltar à estrada. O que acabará por acontecer, em direcção a Portalegre. No caminho ainda se faz uma pausa, em Salvador de Aramenha, para conhecer a cidade arqueológica romana de Ammaia.

 

castelo de Marvão

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Portalegre e as suas tapeçarias

A nossa road trip pelo Alto Alentejo ainda reserva algumas surpresas. A estrada que nos conduz de Marvão à capital de distrito é a N359. Mais um trajecto rápido, de 21 km, porque as estradas são boas e o trânsito tranquilo. A dimensão de Portalegre torna a visita um pouco mais longa e cansativa mas, ainda assim, um dia é suficiente para explorar a cidade.

Há vários conventos para conhecer, o que resta de um castelo e a Sé. Quem aprecia a obra poética de José Régio gostará de conhecer a sua casa-museu, no local onde morou mais de 30 anos. Mas o que Portalegre tem de único são as suas tapeçarias, uma arte com vários séculos.

Gostei muito do Museu das Tapeçarias, instalado num antigo solar nobre, onde se explica toda a técnica artesanal que permite replicar na perfeição as gradações de cores de uma pintura ou de um desenho. Existem ali tapeçarias inspiradas nas obras de vários artistas consagrados: a minha preferida foi uma de Almada Negreiros. Para saber mais, leia o post sobre Portalegre, a simpática capital de distrito, e a sua tradição têxtil.

 

tapeçarias de Portalegre

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Noite animada no Crato

Resta-me pelo menos mais uma paragem nesta road trip pelo Alto Alentejo, a 22 km de Portalegre (pelo IC13 e depois N119). Visitei o Crato por causa do Festival anual que acontece no final de Agosto, como contei aqui Crato: dicas e segredos da vila alentejana.

Na verdade, o Festival do Crato foi o pretexto necessário para explorar esta região de horizontes amplos e gente hospitaleira. O convite da Entidade do Turismo regional foi perfeito, até porque o Alentejo era a única região portuguesa sub-representada aqui n’O Berço do Mundo.

O Crato não impressiona pelo seu património histórico, apesar do seu glorioso passado enquanto sede nacional da Ordem dos Hospitalários (mais tarde, Ordem de Malta). Mais uma vez, fui conquistada pela tranquilidade desta pacata vila, apenas “perturbada” pelos concertos nocturnos. Por falar nos concertos, diga-se que este foi o primeiro festival do pequeno explorador, que adorou a experiência.

 

Nisa

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Para finalizar este roteiro no Alto Alentejo, decidi apanhar a A23 perto de Nisa, após um almoço nesta vila. Não fomos muito felizes na escolha: ao domingo, está quase tudo fechado. O único restaurante do centro que não estava de folga ou férias era uma churrascaria. Ora, uma vez que não como carne, acabei por optar por uma sandes feita com o delicioso queijo local.

Regressei a casa rendida aos encantos do Alentejo. Um dia volto para explorar o resto.

 

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