Quintandona, aldeia do xisto, caldo e mijo do jebo

casa de xisto de Quintandona

Quintandona é uma aldeia de xisto numa região de granito, autêntica, em plena Rota do Românico. A pequena localidade de Penafiel, distrito do Porto, reinventou-se na sua ruralidade, com caldo, xisto e imaginação

Cerca de meia hora de caminho desde o Porto e chegamos a Quintandona. Apesar da proximidade, a pequena aldeia permanece genuína, com casas em xisto, granito amarelo e ardósia, ruelas encantadoras, canastros em cada esquina, como se chamam aos espigueiros na região.

A aldeia da freguesia de Lagares, em Penafiel, pulsa à nossa volta, apesar das ruas desertas. Há flores nas janelas, candeeiros antigos, Cristos de madeira e flores para celebrar o feriado – visitámos Quintandona na semana do Corpo de Cristo -, uma capela centenária antecedida pelo pelourinho.

Recuperada no início do século XXI com dinheiros europeus e extremo bom gosto, a pequena Quintandona é hoje um caso de sucesso turístico. Muitas casas foram recuperadas, não para criar uma aldeia museu, mas para continuar uma tradição agrícola antiquíssima: moram aqui cerca de 60 pessoas.

Novos projectos continuam a surgir. É o caso da Casa do Amásio, uma quinta pedagógica com produção agrícola, mas também um lugar para residências artísticas. Ou o Winebar Casa da Viúva, do qual falaremos adiante.

Centro Interpretativo de Quintandona
Uma feirinha de produtos locais realiza-se ao fim-de-semana junto ao Centro Interpretativo.
detalhe da aldeia

A manhã cinzenta afastou a maioria dos visitantes: temos a aldeia praticamente só para nós. Caminhamos com calma, apreciando o charme das ruas empedradas e irregulares, as fachadas, os cheiros do campo, particularmente pungentes por causa da chuva miúda que cai.

Num dia mais ameno, vale a pena uma caminhada até ao miradouro do Monte da Pegadinha, por caminhos de lavadouros tradicionais, campos agrícolas e paisagens bucólicas. Para perceber a dinâmica da aldeia, com ocupação contínua desde o século XII, é parar no Centro Interpretativo, onde encontra o artesanato e outros produtos locais.

Experiência gastronómica em Quintandona

O nosso longo almoço no Winebar Casa da Viúva contribuiu bastante para tornar a visita a Quintandona memorável. O espaço fica num celeiro recuperado do século XVIII, no coração da aldeia: em 2018, a revista de vinhos Grandes Escolhas distinguiu-o como o melhor Winebar de Portugal.

Nesta típica casa de aldeia, não temos pressa de sair. O serviço acolhedor, os petiscos quentinhos, a decoração simpática, a lareira acesa em dias de frio ou a esplanada no tempo do estio – tudo contribui para uma experiência extraordinária.

Seguimos (quase) todas as sugestões do simpático funcionário: tábua de queijo, presuntos e fumeiros, sardinha braseada, peixinhos da horta, folhados de alheira, ovos rotos e secretos de porco. Alertado para o facto de eu não comer carne, adaptou o pedido.

Primeiro chegou o couvert: pão rústico, azeite e paté de bacalhau. Seguiu-se a tábua de queijos, com compotas e nozes e, pouco depois, a sardinha braseada com puré de pimentos. Ma-ra-vi-lho-sa. Logo se seguiu os peixinhos da horta, quentinhos e crocantes; os folhados (de alheira para a minha mãe, de legumes para mim), os ovos rotos com cogumelos portobelo.

winebar Casa da viúva

Depois de cumprirmos a ordem “é preciso terminar os ovos rotos, que esta casa tem regras”, ainda arranjámos vontade para atacar uma sobremesa: crumble de maçã com gelado, cheesecake de maracujá, crepe com gelado para o miúdo guloso. O único reparo que tenho é em relação às sobremesas: não havia nenhum dos doces tradicionais da região.

Bebemos um copo de vinho branco beirão, que foi precedido de toda a retórica vinícola apropriada a um winebar, mas da qual não retive nada.

#dica1: a Casa da Viúva funciona de terça a sexta a partir das 15h00; fins-de-semana e feriados a partir das 13h00.  #dica2: faça reserva porque o espaço esgota muito rapidamente.

Festa do Caldo de Quintandona

A gastronomia faz parte da identidade e da promoção da aldeia. Todos os anos se realiza a famosa Festa do Caldo, na terceira semana de Setembro, em honra dos caldos tradicionais que foram, em tempos, a base da alimentação da população rural portuguesa.

Há poucos anos surgiu até a Confraria do Caldo de Quintandona, para ajudar a divulgar o património gastronómico da aldeia. Que não se esgota no caldo, é bom de ver. Esta é uma região de presunto e enchidos de porco, de cabrito assado e arroz de forno, para além das sobremesas – a sopa seca, as tortas de Penafiel, o leite-creme, os bolinhos de amor, as tortas de S. Martinho.

Voltando à Festa – a edição de 2020 foi cancelada, por causa da pandemia – refira-se que o evento se prolonga durante três dias. Para além dos caldos (à lavrador, de nabos e caldo verde) e demais comilança, há música tradicional, peças de teatro com a assinatura do grupo comoDEantes e animação de rua. Como as noites são sempre um pouco frias, há também “mijo do jebo”, licor com aguardente, canela e outros segredos, para aquecer ânimos e corações.

caldo de Quintandona
O caldo de Quintandona deve ser feito numa tradicional panela de 3 pernas.

Produtos de Quintandona: mijo do jebo

Quem é este jebo que inspirou um licor? Reza a lenda que na aldeia vivia uma velha muito feia, que nunca casou. A troça dos vizinhos afastou-a do convívio humano. Da encosta ia lançando esconjuras e feitiços a quem a gozava, mas o isolamento não acalmou o seu sonho de ser mãe.

Procurou então uma bruxa, trocando a alma por um filho que nasceria medonho, um ano depois. O jebo, meio humano, meio diabo, que a velha pariu, tornou-se o terror dos habitantes: o que de dia colhiam, ele roubava à noite. O que semeavam ao sol, ele estragava ao luar.

Por altura da festa da aldeia, o povo juntava-se para o apanhar, mantendo-o preso para que todos desfrutassem da festa tranquilamente. A tradição hoje mantém-se: na noite anterior à Festa do Caldo, prende-se o jebo. Para ele não ficar triste, fez-se uma bebida em sua memória.

produtos de Quintandona

Como chegar 

Do Porto: deve seguir pela A4 até à saída 9 ou 10. Optando pela saída 10, virar à direita para Parada (EN 319), seguir 4,2 km e virar à esquerda, em direcção a Sobreira. Seguir mais 3,8 km e virar à direita.

É possível chegar de comboio também. Na estação de Porto São Bento, apanhe um comboio em direcção a Penafiel e saia em Recarei / Sobreiro, a 4 km da aldeia de Quintandona, que pode alcançar de táxi.

De Lisboa: Quintandona fica a cerca de 320 km. Apanhar a A1 para norte e, cerca de 283 km depois (nas proximidades de Espinho), sair em direcção a Picoto. Convergir para a A41 e apanhar a EN319, cerca de 23 km depois.

Onde ficar em Quintandona

Uma opção interessante será pernoitar numa das casinhas tradicionais de xisto: Casa do Aguieiro (com dois quartos, gerida pela associação de desenvolvimento local CasaXiné) ou a Vizinha da Viúva. Outra opção de alojamento na pequena aldeia é a primorosa Casa Valxisto.

Se já não conseguir dormir em Quintandona, a meia dúzia de quilómetros encontra a Casa do Passal, a Quinta Coleurs du Monde ou a Quinta da Fonte Arcada, todas elas com um toque rústico. Já no centro da cidade, recomendo o Penafiel Park Hotel & SPA, com um restaurante fantástico.

pormenor de Quintandona
casa de xisto

Outros programas na região

O concelho de Penafiel tem duas aldeias preservadas, integradas na rede Aldeias de Portugal: Quintandona e Cabroelo. Demos um saltinho a esta segunda aldeia, na freguesia da Capela, envolta pela natureza da Serra da Boneca e do vale do rio Mau.

As ruas são muito estreitas. O ideal é estacionar o carro logo que possível e percorrer a aldeia pequenina a pé. Esta é mais uma povoação rural, com casas de granito, eiras de xisto, espigueiros e tanques comunitários. O património não é esmagador: resume-se à Capela de São Mateus (século XIX) e uma ou outra casa mais antiga.

O que Cabroelo tem de mais pitoresco é o percurso por moinhos e azenhas, nas margens do ribeiro da Trunqueira. Tranquilo e fresco, o caminho passa por vários moinhos de pedra onde, há uns anos, se moía a farinha para fazer broa. O percurso inspirado naquele alimento local foi baptizado como Museu da Broa.

#dica1: se quiser visitar o interior dos moinhos do ecomuseu, deve marcar previamente pelos telefones 255 615 363 ou 914 614 188 ou 918 244 321. #dica2: o ecomuseu tem fácil acesso de carro. As coordenadas de GPS para o encontrar são 41°4’38.522” N | 8°19’9.236” W.

castro do Monte Mozinho

Ainda no concelho de Penafiel, é possível visitar o Castro de Monte Mozinho (cidade morta), o maior castro romano da Península Ibérica, ainda não totalmente explorado. O espaço tem entrada livre (coordenadas do centro interpretativo: 41°8’47” N | 8°18’40” W). A Rota do Românico e a Quinta da Aveleda também convidam a uma visita prolongada às terras do Sousa.

Leia também: A nossa Rota do Românico e  Aveleda: história e vinho verde.

Planeie a sua próxima viagem

Faça as suas reservas através dos links parceiros. Não paga nem mais um cêntimo e para mim faz toda a diferença

  • Encontre os melhores hotéis no  BookingÉ onde eu faço as minhas reservas
  • Se precisa de transporte próprio, alugue um carro com a Rentalcars 
  • Reserve os seus bilhetes para monumentos e tours, evitando filas, usando o Get your Guide 
  • Faça um seguro de viagem com a Iati seguros (beneficia de 5% de desconto com este link).

Este post pode conter links de afiliados

Partilhar
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on pinterest
Pinterest
Share on whatsapp
WhatsApp

Artigos Relacionados

20 Comentários

  1. chica

    Que lugar lindo e convidativo!Adorei conhecer e deve ser bom estra por lá uns dias…legal! beijos, tudo de bom,chica

    1. Ruthia

      É um lugar bom para relaxar

  2. Marta

    Faz bem ler um post assim, com cheiro de “vida normal”, nestes dias espinhosos de isolamento devido à pandemia.
    Foi boa diversão, obrigada!

    1. Ruthia

      Nem me fale. Foram muitos meses trancados em casa, aos poucos vamos desconfinando, devagar, com regras e cuidado

  3. Ana Carolina

    Nossa que dica legal. Eu ainda não tinha ouvido falar sobre essa Aldeia e fiquei animada em conhecê-la, principalmente por estar localizada perto do Porto. Obrigada pelas dicas

    1. Ruthia

      A aldeia é visitada sobretudo por portugueses. Falta ser “descoberta” pelos estrangeiros.

  4. Juliana

    Que experiência deliciosa na aldeia Quintandona! Ainda mais por terem conseguido pegar o lugar mais vazio, praticamente só de vocês. A pressa vai-se embora. Eu não sabia nada sobre essa aldeia, fiquei encantada com teu relato.

    1. Ruthia

      No início da manhã não estava muito agradável, com chuva miudinha. Mas nada que estragasse o passeio. Uma capa de chuva e aí fomos nós

  5. Sil Mendes

    Adoro quando encontro um post com dicas que não tinha ainda ouvido falar. Devo ser mesmo um experiência bem bacana na aldeia Quintandona e já quero também . Vou anotar na minha lista.

    1. Ruthia

      Deve ser muito divertido visitar durante a Festa do Caldo, em Setembro. Mas este ano não haverá, por causa da pandemia

  6. Thaís

    Quitandona é tão gracinha. Me deu água na boca ler a comilança e ver essa tábua de queijos. O bom é que é pertinho de Porto.

    1. Ruthia

      Se visse a comilança completa, ia perguntar onde metemos tanta comida 🙂

  7. ana

    Nunca tinha ouvido falar de Quintandona e parece ser um lugar encantador. Adorei sua dica e espero um dia conhecer.

  8. Diego Cabraitz Arena

    Muito bacana essa dica, adorei o estilo da aldeia e gostaria muito de fazer essa experiencia gastronomica em Quintadona.
    Adorei!

    1. Ruthia

      Foi realmente uma experiência gastronómica muito interessante. Recomendo vivamente

  9. Dhebora

    Que legal! Se eu soubesse da existência da aldeia de Quintandona quando estive em Porto com certeza teria ido conhecê-la. Fiquei curiosa para provar o mijo do jebo. É doce?

    1. Ruthia

      Doce mas muito forte, não é qualquer um que aguenta 🙂

  10. Carla Mota

    A Quintandona é mesmo uma aldeia especial e quando se está lá sente-se bem isso. É como um reduto de beleza e simplicidade. Um lugar onde ainda se sente a magia da ruralidade no ar.

    1. Ruthia

      E podemos trazer os produtos da terra para casa, estão à venda no Centro Interpretativo. Comprei ovos caseiros e curgetes.

  11. Bea

    Uma das aldeias de xisto mais bonitas e bem preservadas do Concelho de Penafiel
    Dois anos de festa do Caldo cancelada, esperemos que no próximo ano as condições o permitam

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

JPG_1606302493785

Ruthia Portelinha

Viajante, chocólatra, leitora compulsiva, mãe. Está a aprender chinês porque sim.

Posts Populares
Fundador da ABVP
Viagens de uma Vida
Livro viagens de uma vida
Viagem de grupo a Marrocos

7 dias em Marrocos 430 euros
Marrakech até Deserto do Saara
>> Viagem de Grupo Marrocos <<