Atualizado em 23 Novembro, 2022

A Costa do Marfim é um destino de natureza por excelência. Ainda assim, tem (quase) tudo por fazer na área do ecoturismo. O Domaine Bini, às portas de Abidjan, é uma honrosa exceção e nós fomos conhecer o projeto que revolucionou a vida de pequenas comunidades

A cerca de 50 minutos de Abidjan, tomando a estrada que liga a capital económica à capital política do país [Leia A grandeza neoclássica de Yamassoukro], encontramos o Bini Forêt, um dos poucos programas de turismo sustentável que existem, para já, na Costa do Marfim.

Jean-Marc Bini, ex-banqueiro imigrado no Canadá, regressou à sua terra natal em 2015, para tomar conta das plantações familiares, com cerca de 70 hectares, que ficaram ao abandono desde a morte do pai. Nascia assim o projeto Domaine Bini, atualmente com duas localizações: o Bini Forêt a norte de Abidjan e o Bini Lagune, a nordeste (o site fala de um terceiro local, que ainda não descobri onde fica).

Ambos seguem a filosofia “um ecossistema – uma aldeia”, o que se traduz na homenagem, e respeito, pelos costumes locais e pelo ambiente. O grande objetivo é preservar a biodiversidade e os recursos naturais, ao mesmo tempo que se gera uma fonte de rendimento para as comunidades locais.

O Domaine Bini tem várias preocupações ambientais, procurando, por exemplo, minimizar os impactos do turismo no meio ambiente, gerar postos de trabalho e projectar equipamentos numa abordagem de desperdício zero.

Para além do seu lindo conceito, o Domaine Bini oferece aos visitantes uma mudança de cenário, entre caminhadas, comida típica e diversas atividades giras. Tudo num contexto natural, com ar puro, plantações de cacau e até banhos de lama.

Se é adepto do ecoturismo está de parabéns e poderá gostar de ler também Destinos de ecoturismo no Brasil.

A experiência no Bini Forêt

Uma floresta de árvores de borracha envolve a viatura, logo que saímos da auto-route norte, à procura do Bini Forêt. Nunca tínhamos visto uma árvore destas que, com as suas cores alternadas e diagonais, criam um padrão na paisagem. Tive que parar para captar umas fotos, desnecessariamente, diga-se, porque durante a caminhada, o nosso guia explicou tudo sobre este tipo de plantação.

Estacionamos alguns metros adiante, interrompendo a sesta de um pequeno rebanho de cabras castanhas, que parecem apreciar a proximidade dos veículos. Sentados nas cadeiras tradicionais de madeira, chegou um dos guias, com água de coco e vinho de palma, como fórmula de boas vindas.

O Bini Forêt oferece duas experiências diferentes, a “fórmula descoberta” (15.000 CFA/adulto), durante o dia, e a “fórmula imersão” (50.000 CFA/adulto) que inclui a estadia, jantar à luz de velas, caminhada noturna e um serão de lendas africanas, em frente à fogueira. Optámos pela descoberta e posso adiantar que foi um domingo muito feliz. Tudo começou com uma caminhada, entre floresta e campos agrícolas, com paragens para conhecer os nomes, e aplicações medicinais, de várias ervas encontradas no caminho.

O Domaine Bini não depende apenas do turismo, a agricultura é talvez a sua atividade principal. No percurso, o guia mostra como se faz o corte no tronco da árvore, para que a borracha escorra para um pequeno recipiente que, esvaziado, se junta à seiva das outras árvores até ser vendido aos grandes fabricantes de pneus, a nível mundial.

De seguida passamos pela região dos cacaueiros. A Costa do Marfim é o maior exportador de cacau do mundo, responsável por mais de 30% de toda a produção mundial. Para além de alguma informação sobre o processo de produção de cacau – confesso que me alheio da explicação, que já ouvi em vários museus de chocolate – provamos as favas frescas. E ainda vejo, pela primeira vez na vida, um pé de pimenta.

No fim do percurso pedestre espera-nos água fresca e sumos naturais: o nosso preferido é o de hibisco, aqui chamado jus de bissap, tão escuro que podia ser confundido com vinho tinto. Alguns minutos de descanso e começa o “festim dos 10 dedos”, isto é, a refeição tradicional, servida em pequenas tigelas de madeira ou folhas de bananeira, que se come, já adivinharam, com as mãos… não há aqui talheres e isso faz parte da experiência.

O menu, em jeito de buffet, inclui frango e peixe assados na brasa, vários guisados (de peixe, carne e vegetarianos) e, a acompanhar, batata-doce frita, atiékè, alloco (banana), arroz, fofou e fotou [mais informações sobre a gastronomia local em Costa do Marfim: guia de viagem].

Barriga cheia, os primeiros batuques assaltam a tarde. Um grupo de música brinda-nos com ritmos de diferentes zonas da Costa do Marfim e convida o público a abrilhantar o espetáculo musical. Claro que os branquelas-sem-ritmo ficam a anos-luz dos jovens costa-marfinenses, que largam sonoras gargalhadas com a nossa nada charmosa exibição de dança. No final todos se juntam no terreiro, a dançar, porque a alegria não conhece barreiras linguísticas ou de estilo.

Antes do regresso a Abidjan, ainda há tempo para um banho de argila natural, no meu caso, e uma boa sesta na rede, no caso dos rapazes, apesar das atividades disponíveis incluírem tirolesa, escorregas, baloiços ou um jogo de petanca.

Ecoturismo na Costa do Marfim

A Costa do Marfim, com a sua natureza generosa, é terreno fértil para o desenvolvimento do ecoturismo: possui praias, lagoas, manguezais, para além de oito parques nacionais (três deles na lista de Património Mundial da UNESCO) e várias reservas naturais.

Com uma área de 21.038 km2, que representam 6,53% do território nacional, estes parques e reservas estão distribuídos por todo o país e constituem uma boa amostra dos diferentes ecossistemas da Costa do Marfim.

Mas esta riqueza natural ainda não suscitou uma abundância de projetos de ecoturismo. Para além do Domaine Bini, só ouvi falar de ecoturismo no Parque Taï (espero conhecer em breve) e nas caminhadas que se fazem na floresta do Banco.

Dicas úteis

Como chegar

Para chegar ao Bini Forêt deve tomar a auto-route nord, em direção a Yamassoukro. Encontra um corte à direita (há uma placa informativa a indicar) ao km 51, a cerca de 10 minutos da primeira portagem. Já o Bini Lagune fica quase a 20 km do centro de Cocody e um pouco menos dos bairros Riviéra. No primeiro caso, deve seguir pela Boulevard de France e depois pela Boulevard François Mitterrand e, no segundo, atravessar o bairro de Angré.

Hospedagem

É possível dormir no Bini Forêt, numa das suas cabanas de madeira. Deve ter em atenção que não existe ar condicionado e que as casas de banho não têm saneamento (conte com sanitas secas). Em suma, este não é o tipo de alojamento que se adequa a todos os viajantes. A alternativa será pernoitar em Abidjan: consulte algumas dicas no post Abidjan, a Manhattan africana.

Outras dicas

Os locais Domaine Bini funcionam entre terça e domingo, das 9h00 às 17h00, exceto para quem escolher a fórmula imersão. Aconselha-se a levar chinelos, fato de banho e toalha, caso queira experimentar o banho de lama ou a lagoa (Bini Lagune), e chapéu/protetor solar, já que parte da caminhada se faz ao sol.

Quem optar por dormir no local, deve ainda incluir repelente na bagagem, ainda que os quartos disponham de mosquiteiros. Os mosquitos não são nada meigos nestas paragens…

Conhecem outros projectos de ecoturismo na Costa do Marfim? Acrescentem nos comentários. E vejam também os destaques sobre o Domaine Bini no nosso instagram.