Viajar para a Costa do Marfim: dicas práticas

vista aérea da Costa do Marfim

Atualizado em 22 Novembro, 2021

A Costa do Marfim pode não ser um destino de férias óbvio, mas oferece experiências singulares e muita aventura. Se planeia visitar este país da África Ocidental, leia as dicas de alguém que mora na Côte d’Ivoire

Do céu, a Costa do Marfim é como uma paleta do pintor, li algures. Tem uma mancha considerável de verde, da floresta, tem o branco da espuma do mar, que se estende na longa costa, os amarelos das savanas, os azuis e verdes das suas muitas lagoas, o cinzento do betão nas maiores cidades e, claro, uma infinidade de tons castanhos e ocres, pois estamos em África.

E estando em África, não há tons pastel, a força do continente replica-se neste país subsaariano; as suas cores são todas vibrantes, competindo entre si em força e vivacidade.

Já com os pés bem assentes na terra, quente e fértil, a Costa do Marfim apresenta-se paradoxal, com contrastes violentos: sociais, económicos, arquitectónicos. Um abismo separa os edifícios espelhados do Plateau (bairro de Abidjan), a grandiosidade neoclássica de Yamoussoukro e os bairros informais de telhado de zinco. Um mundo separa as cidades das aldeias tradicionais, o trânsito caótico da capital económica das florestas primárias e das plantações de cacau.

Na crónica inicial sobre a Costa do Marfim, onde registei as primeiras impressões sobre a minha nova casa, sublinhava esses choques profundos [Leia: O regresso a África], que se traduzem em múltiplas realidades, pobreza e riqueza extremas, igrejas e mesquitas em cada bairro.

Do ponto de vista turístico, este é um país muito diverso, riquíssimo do ponto de vista natural e etnográfico (que deriva da existência de mais de 60 grupos étnicos), com um potencial muito pouco explorado.

© Eric Browin para commons.wikimedia. Panorâmica de Abidjan à noite.

Nota prévia: a Costa do Marfim, Côte d’Ivoire ou Ivory Coast não é um destino para todos os viajantes. Não se trata de um destino fácil, sobretudo para quem não fala francês. Sofre de algumas dificuldades comuns a outros países africanos, como longas distâncias, estradas desafiantes e uma rede de transportes públicos precária.

Por outro lado, oferece paisagens esmagadoras, experiências autênticas e culturalmente preciosas. Hoje deixo-vos as informações práticas necessárias para viajar para a Costa do Marfim. Aos poucos, acrescentarei artigos específicos sobre as principais regiões e pontos turísticos, pois estou em fase de descoberta deste país fascinante.

Dados gerais sobre a Costa do Marfim

Localização: África subsaariana

Independência de França: 7 de Agosto de 1960

Área: 322.463 km²

População: 23 milhões de habitantes

Código telefónico internacional: +225

Fronteiras: Mali e Burkina Faso (Norte), oceano Atlântico (Sul), Gana (Este), Libéria e Guiné (Oeste)

Capital: Yamoussoukro (política), no entanto a sede de governo está em Abidjan, que é a maior cidade e possui o 2º maior porto de África

Idiomas: Francês (oficial), apesar da população utilizar diversas línguas regionais na comunicação quotidiana

Principais actividades económicas: agricultura, com destaque para o cacau (maior produtor mundial) e o caju

Moeda: Franco CFA (XOF). À taxa de conversão de Novembro de 2021, 1000 CFA corresponde a cerca de 1,52€. Em Abidjan, existem ATM em vários pontos e o cartão Revolut é aceite. No entanto, convém ter sempre algum dinheiro, pois nem sempre as máquinas de pagamento funcionam e, claro, são inexistentes no comércio informal.

Vendedoras na estrada para Grand-Bassam.

Segurança

A Costa do Marfim permaneceu longe das rotas do turismo internacional durante muito tempo, por causa da sua história recente de turbulência política, que culminou em duas guerras civis. A proximidade da Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, centro do surto de ébola entre 2013 e 2016, também desincentivou o turismo no país.

No entanto, o passado instável parece ter sido ultrapassado. Hoje, a Costa do Marfim é considerada um modelo de vitalidade económica no continente africano. Tanto que a sede do Banco Africano de Desenvolvimento regressou a Abidjan, depois de funcionar na Tunísia entre 2003 e 2014.

Refira-se que o  Ministério das Relações Exteriores português (tal como o americano) desaconselha viajar nas proximidades da fronteira do país com o Burkina Faso e o Mali, devido a ameaças terroristas nesses países.

As ruas de Abidjan, a capital económica do país, são seguras para os estrangeiros ao contrário do que acontece em Luanda, por exemplo. No entanto, é necessário bom senso e os cuidados básicos, como não ostentar objectos de valor, e evitar fotografar pessoas sem pedir previamente.

Tenha em consideração que a maioria da população é muçulmana, ainda que a fé cristã seja comum. Um sorriso e comunicar em francês fazem milagres, o mais provável é receber prontamente um Akwaba (bem-vindo) e um sorriso de volta.

Nas praias de Assinie.

Vistos e Vacinas

Para entrar na Costa do Marfim é necessário passaporte com a validade mínima de seis meses, visto (à excepção dos cidadãos dos países africanos vizinhos) e Certificado Internacional de Vacinação contra a febre amarela. O visto pode ser solicitado online, no site Snedai.

Após preencher os formulários, deve proceder ao pagamento, igualmente online (58€, no final de 2021), e a resposta digital chega em 48 horas. Pode levantar o visto ainda em Portugal, na embaixada da Costa do Marfim. Em alternativa, pode levantar o visto à chegada, no aeroporto de Abidjan, procedimento que inclui fotografia e recolha de impressões digitais.

No nosso caso, a colocação de visto no passaporte demorou cerca de 20 minutos para um adulto e um menor, mas a espera demorou muito mais (leve alguma paciência e um sorriso). Os cidadãos de alguns países poderão ter que passar por uma fase de entrevista.

Restrições relacionadas com a covid-19

As fronteiras da Costa do Marfim estiveram fechadas durante vários meses em 2020, tal como as de muitos outros países. Neste momento, todos os visitantes com mais de 3 anos que cheguem por via aérea devem preencher um formulário de deslocação internacional (deplácement), onde constam os dados pessoais e da viagem, e pagar um teste PCR, para o caso de terem temperatura ou apresentarem algum sintoma à chegada.

A apresentação destes dois documentos impressos, bem como um teste PCR (a partir dos 12 anos, mesmo para quem tenha certificado de vacinação), é obrigatória à chegada a Abidjan, sob pena de ser barrada a entrada no país.

Na Costa do Marfim é obrigatório utilizar máscara em espaços fechados, mas o controlo é feito apenas à entrada, sendo muito comum as pessoas relaxarem no interior dos restaurantes e centros comerciais. Na rua, quase ninguém usa máscara.

 Pormenor na Floresta do Banco, junto à cidade de Abidjan.

 

Quando visitar a Costa do Marfim

A época alta para o turismo na Costa do Marfim é entre Dezembro e Março, que corresponde à estação seca. Por outro lado, nestes meses as temperaturas são mais altas, ainda que a amplitude térmica anual não seja muito grande, dada a proximidade da linha do Equador.

Entre Junho e Setembro chove bastante (mais de 20 dias, em média), o que pode significar estradas intransitáveis e visitas interrompidas. Aliás durante o mês de Agosto muitos restaurantes e hotéis estão encerrados, pelo que é de evitar este período.

Como chegar à Costa do Marfim

Félix Houphouët-Boigny, na cidade de Abidjan, é o principal aeroporto da Costa do Marfim, com voos directos de algumas capitais europeias como Paris, Bruxelas ou Lisboa (neste momento a TAP suspendeu a operação). As companhias aéreas com maior operação local são a Air France, a Ethiopian Airlines, a Royal Air Maroc e a Air Côte d’Ivoire, com voos regulares para  os países vizinhos. A Emirates e a Turkish Airlines também mantêm algumas ligações.

O país conta ainda com aeroportos em San-Pédro, Yamoussoukro, Bouaké, Korhogo e Man, que recebem voos domésticos. Tendo em conta as distâncias do país, e o estado das estradas, um voo interno pode facilitar bastante a sua visita. Existe uma única linha ferroviária, que liga Abidjan ao Burkina Faso e que iniciou um projecto de modernização em 2017, mas li que não é um meio de transporte seguro.

Em Abidjan existe uma rede de autocarros, mas o meio de transporte mais popular é o táxi. O preço deve ser negociado antes da corrida e, em geral, fica entre 500 e 1.500 francos CFA. Existe ainda o táxi colectivo, o woro-woro, que só parte quando enche. Cada passageiro paga então pelo seu assento, entre 100 e 200 francos CFA. Se não se sentir confortável a apanhar um táxi na rua, pode optar pela aplicação Yango.

Clima do país

A Costa do Marfim situa-se em plena região tropical. A temperatura média ronda os 30 °C (descendo ligeiramente à noite) durante praticamente todo o ano, embora na estação das chuvas a temperatura máxima possa baixar um pouco.

O país tem duas grandes zonas climáticas: no Norte montanhoso a paisagem é árida, com clima quente e seco; o Sul é bastante húmido, que se traduz em vegetação exuberante. A maioria dos habitantes vive ao longo da costa, só Abidjan, a “Manhattan africana”, possui mais de 4 milhões de habitantes.

Fazer turismo na Costa do Marfim

As atracções na Costa do Marfim são distantes umas das outras, sendo necessário algum planeamento para conhecer pelo menos uma parte. Tal como acontece em muitos países da África Ocidental, os horários dos transportes públicos e as condições das estradas (principalmente no Norte) tornam imprevisível a duração dos trajectos.

A forma mais económica de se deslocar é por terra, mas isso pressupõe grandes viagens e carros 4×4. Pode alugar um carro e partir à descoberta, mas evite viajar de noite e sozinho. Se tiver uma avaria ou imprevisto, o auxílio pode tardar, dada a cobertura da rede de telemóvel.

Algumas agências locais oferecem tour privados ou em pequenos grupos, com guia que fala francês (encontrar guias que falem outras línguas é mais complicado). Já vão existindo hotéis bons, apesar de caros, mas os viajantes não devem esperar os padrões de serviço ocidentais. Venha com espírito aberto.

© Wikipedia. O Parque Nacional Tai, a oeste do país.

 

Património UNESCO na Costa do Marfim

A Costa do Marfim possui alguns locais classificados como Património Mundial pela UNESCO, históricos, culturais e sobretudo naturais. É o caso da reserva natural do Monte Nimba, considerado como “património em perigo”. Eis a lista completa:

  • Reserva natural integral do Monte Nimba (1981, 1982),  sítio transfronteiriço com a Guiné.
  • Parque nacional de Taï (1982), a Oeste. Uma das últimas áreas de floresta tropical ainda preservadas. Trata-se de uma biosfera única no mundo, com uma infinidade de espécies endémicas, incluindo hipopótamos-pigmeus (em risco de extinção), duikers e macacos-diana.
  • Parque nacional do Comoé (1983), na região de savana, a Nordeste. É um dos maiores parques nacionais da África Ocidental e possui uma grande quantidade de plantas e animais: leões, girafas, pangolins, colobuses (um tipo de macaco), elefantes… Apesar destes inspirarem o nome do país, estima-se que existam apenas 225 elefantes na natureza, por contraponto a uma população com 3000 a 5000 espécimes, há cerca de um século.
  • Cidade Histórica de Grand-Bassam (2012), capital colonial francesa entre 1893 e 1896.
  • Mesquitas de estilo sudanês no Norte da Costa do Marfim (2021).

Principais regiões turísticas

De forma muito resumida, podemos dividir as atracções da Costa do Marfim em três tipos: cidades, natureza e praia.

No quesito cidades, deve incluir o centro económico do país, Abidjan, com os seus modernos edifícios, o Museu das Civilizações, a surpreendente Catedral de São Paulo, as sumptuosas mesquitas, os mercados (de artesanato e dos panos-wax), e uma fervilhante vida nocturna. Não muito longe fica Grand-Bassam, famosa pelas casas coloniais de madeira.

basilica de Yamassoukro

No centro do país, Yamoussoukro é anunciada pela Basílica de Notre Dame de la Paix, o maior edifício cristão do mundo. Na capital política existem outros sítios majestosos como  o Palácio Presidencial, com o seu Lago de Crocodilos Sagrados, e o Museu Adja Swa que preserva as típicas máscaras de madeira, instrumentos musicais e estátuas de Baoulé.

No que respeita a praias, com longos areais dourados sombreados por palmeiras e águas mornas, existem três estâncias populares, apesar da costa se prolongar por muitos quilómetros: Assinie, San-Pédro e Grand-Béreby.

Assinie fica próxima da metrópole de Abidjan (estrada A100), San-Pédro e Grand-Béreby ficam a mais de 500 km, mas são servidas por um pequeno aeroporto. Para além das praias, o país possui muitas lagoas, onde é possível fazer desportos aquáticos ou simplesmente almoçar.

Mas a Costa do Marfim é um destino de natureza por excelência. Para além dos parques naturais com estatuto da UNESCO, já mencionados, a região montanhosa de Man, com as suas cascatas e plantações de cacau, florestas de bambu e pontes de corda, merece uma visita. Muito perto de Abidjan encontra ainda a Floresta do Banco, considerada o pulmão da cidade.

Gastronomia costa-marfinense

A culinária da Costa do Marfim junta a tradição francesa às técnicas e ingredientes da África Ocidental, transformando tudo numa interessante aventura culinária. Os pratos comuns incluem kedjenou, um guisado apimentado preparado com frango, peixe ou caracoleta e acompanhado de foutou, um bolinho de mandioca; o poulet braisé, frango marinado em alho, sumo de limão, mostarda, pimenta e malagueta, grelhado na brasa (existe versão com peixe), acompanhado de alloco (banana assada) e attiéké.

O attiéké é feito com mandioca ralada e fermentada que, depois de seca, se coze no vapor ou em caldo, como o cuscuz. Acompanha a maioria dos pratos locais mais tradicionais, que tanto pode encontrar em restaurantes mais sofisticados como nos maquis de rua.

Em Abidjan, encontra muitas opções de pratos ocidentalizados (as redes Burguer King e KFC estão presentes no território), bem como grande variedade de comida libanesa.

Hospedagem na Costa do Marfim

Existe uma oferta hoteleira razoável nas cidades maiores e nas estâncias balneares, embora, de uma maneira geral, cara. Os hotéis são classificados de 1 a 5 estrelas e aconselha-se reserva prévia. Em Abidjan, os melhores hotéis são o Pullman Abidjan e o Sofitel, ambos com 5 estrelas. O Ivotel Abidjan (***) e o Ibis Abidjan Plateau são opções um pouco mais económicas e ainda centrais. 

Em destinos menos turísticos e distantes, a oferta escasseia e é muito simples. Traga a mente aberta, um alojamento simples, funcionários pouco preparados, mas simpáticos, fazem parte da experiência local. Uma tendência crescente, especialmente em áreas remotas e junto dos grandes parques nacionais, é o alojamento em casas particulares.

Outras dicas úteis

Na Costa do Marfim não existe horário de Verão ou Inverno, considerando que, graças à sua localização geográfica, quase não existem flutuações no número de horas de luz ao longo do ano. Isso significa que existe uma hora de diferença entre a Costa do Marfim e Lisboa/Londres quando a Europa está no horário de Verão, mas no Inverno não existe diferença horária.

Quanto à electricidade, as tomadas são semelhantes às europeias (220 volts). A maior empresa de telemóveis (Orange) tem cobertura razoável nas cidades maiores e os dados funcionam razoavelmente. Para comprar um cartão da Orange, terá que apresentar o passaporte.

Procura alguma informação que não incluí neste artigo? Deixe um comentário e farei os possíveis para encontrar a resposta.

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7 Comentários

  1. Marcella

    Realmente a Costa do Marfim não é um destino para qualquer viajante, mas certamente é para mim! Amei conhecer suas impressões e vou me basear nelas para planejar uma viagem 🙂

    1. Ruthia

      Viajantes com alguma experiência e espírito aventureiro adoram a Costa do Marfim

  2. Raquel Morgado

    Lia o teu texto e só pensava em Angola e em como os conselhos acabam por ser os mesmos para quase toda a África, mente aberta, paciência e sorrir.

    1. Ruthia

      Verdade Raquel, embora, em algumas coisas, em Angola seja necessário maior dose de paciência e sentido de humor

  3. Cloe Miranda

    Imagino que viajar para lugares da África com a Costa do Marfim, seja exatamente como disse, não tem em tons pastel, e que todas as suas cores são vibrantes, com muita força e vivacidade. Gostei bastante das suas dicas são realmente práticas mostrando a realidade de tudo.

  4. Carla Alexandra Fernandes Mota

    Adorei o artigo Ruthia, fiquei mesmo com vontade de visitar a Costa do Marfim. Concordo contigo, visitar estes países exige mente aberta mas acredito que a maioria das pessoas que ai vai também tem. Bjinhos e aproveita.

  5. Suriàn

    Nossa que beleza é a Costa do Marfim, nunca tinha pensado que o destino era tão lindo! Obrigada por apresentar este local em detalhes, fiquei doida pra conhecer!

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Ruthia Portelinha

Viajante, chocólatra, leitora compulsiva, mãe. Está a aprender chinês porque sim.

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