A pandemia provocada pela Covid-19 virou a rotina de milhões de pessoas de pernas para o ar. Mas, se as viagens estão desaconselhadas, os sonhos continuam livres e a imaginação solta para voar nas páginas de um livro

De manhã acordo na esperança desta pandemia não ter passado de um sonho mau, mas depressa as circunstâncias actuais se abatem sobre a minha cabeça. Confesso que não imaginei que o surto escalasse desta forma, quando tudo começou do outro lado mundo.

Confesso que fiquei desapontada, porque queria ir à China este Verão, mas que não imaginei que tivesse de cancelar a viagem à Namíbia, prevista para o período da Páscoa. Uma aventura que esperei mais de 40 anos para fazer.

E, no entanto, aqui estamos, isolados em casa, com as escolas fechadas, a vida em suspenso e as viagens adiadas até sabe-se lá quando. Se é verdade que temos menos tempo para nos aborrecermos do que esperávamos – pelo menos quem tem filhos – a verdade é que precisamos de sonhar, e mais do que nunca.

Precisamos de sonhar para nos alhearmos do pânico e da discriminação, das fake news e de algumas decisões irracionais que nos chegam através dos jornais. Precisamos de sonhar para mantermos a sanidade mental e diminuirmos os ataques à despensa (quando estou ansiosa I bake. E depois como)!

A Ana C Borges, do blog Viajar porque sim, escreveu também um belíssimo post com sugestões para aguentar estes dias inusitados: Viajar (sem sair de casa) em tempos de pandemia.

 

Filmes para viajar sem sair de casa

Sonhemos então: através de fotografias antigas ou de uma boa história. Para quem gosta de cinema, há muitos filmes que nos recordam destinos felizes. Do clássico Férias em Roma (no Brasil ficou conhecido como A princesa e o Plebeu), onde a linda Audrey Hepburn nos guia pelas ruas da cidade eterna, à comédia romântica Meia Noite em Paris, para quem deseja reviver a capital francesa.

O Caminho (The Way, 2010) é outra opção cinematográfica, para quem planeia fazer o mítico caminho de Santiago, ou quer simplesmente recordar as paisagens da Galiza. [leia também Caminho português de Santiago: Pontevedra]. Noutro registo, recomendo vivamente as curtas disponibilizadas pela Nomad. A agência que organiza todos os anos um festival de cinema de aventura, propõe-nos uma viagem através de cinco filmes da edição de 2019. Uma viagem de pouco mais de uma hora que começa aqui.

Na verdade, abundam por aí listas de filmes inspirados em viagens. Portanto, gostaria de recomendar sobretudo livros. A leitura transporta-me de uma forma inigualável: quantas vezes demoro para voltar à realidade, ao terminar uma obra bem escrita.

 

 

Livros para viajar sem sair de casa

Por estes dias tenho lido o meu amigo Filipe Morato Gomes, o mais conhecido blogger de viagens em Portugal. As crónicas da sua primeira volta ao mundo foram publicadas no jornal Público e, posteriormente, editadas em livro. Agora, o Filipe disponibiliza-as em PDF a todos os que subscrevam a newsletter do seu blog Alma de Viajante.

Mas tenho muitas outras sugestões, algumas esmiuçadas ali na rubrica Livros para viajar (cliquem nos links para lerem mais). A única preocupação que tive ao fazer esta lista foi escolher histórias positivas, bem-humoradas, porque para tragédias já basta o telejornal.

Cem dias entre céu e mar (Amyr Klink)

Ler as aventuras do primeiro homem a atravessar o Atlântico Sul, a remo, é assombroso. Para além de nos recordar da capacidade de superação dos seres humanos, que bem precisamos nesta fase de isolamento, a obra recorda-nos que poucas coisas são suficientes para vivermos bem. Ele pode dizer, com autoridade:

Um homem precisa viajar (…) Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.

A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (Júlio Verne)

Em 1873, correspondentes dos principais jornais europeus e americanos relatavam as aventuras de Phileas Fogg. Cada etapa era avidamente acompanhada por milhares de leitores, como se o explorador existisse. Fogg alimentou sonhos de várias gerações.

Esta questão da volta ao mundo foi comentada, discutida, dissecada, com tanta veemência e ardor (…) Realizar o giro do mundo, de maneira que não fosse em teoria e no papel, neste mínimo de tempo, com os meios de comunicação de que actualmente se dispõe, não só era impossível – era disparatado! (p. 29)

Inicialmente publicada como folhetim no jornal parisiense Le Temp, a obra é fidedigna, do ponto de vista geográfico e científico. Por exemplo, demonstra a “perda” de um dia no calendário, quando se viaja para Ocidente, fenómeno sentido pela expedição de Fernão de MagaIhães já no século XVI.

As obras do francês não só são cientificamente exactas, como antecipam invenções do século XX – o helicóptero, o submarino ou a televisão. Daí Verne ser tantas vezes apelidado de “pai da ficção científica”. À sua visão tecnológica, junta-se suspense e um bom ritmo narrativo, para prender o leitor.

 

as aventuras de Júlio Verne

Uma “shelfie” com livros

A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón)

O escritor instalado em Los Angeles, mas cujo enredo permanece na capital da Catalunha, tem vários títulos com Barcelona como cenário. Em todos eles, a cidade parece um lugar sinistro, quase sobrenatural. A Sombra do Vento será a mais conhecida e também a mais saborosa.

A história transporta-nos para uma Barcelona da primeira metade do século XX, traumatizada pela Guerra Civil Espanhola, pela cólera e a II Guerra Mundial. Mas com personagens deliciosas, que destilam uma oratória “capaz de aniquilar moscas em voo”.

Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido. (p. 11)

A Sul. O Sombreiro (Pepetela)

Este empolgante romance remete-nos para os primórdios do colonialismo. A narrativa conduz-nos a Angola dos séculos XVI e XVII, quando Portugal vivia sob o domínio filipino e Luanda não passava de uma “vilazinha perdida numa baía”, com um “muro mal rebocado a imitar um fortim”, no alto do morro de S. Paulo (actual fortaleza de S. Miguel).

Aliás, Angola e a sua capital são tão omnipresentes na obra deste autor que inspiraram o meu post Luanda pela mão de Pepetela.

Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta. O maior filho de puta que pisou esta miserável terra. Pisou no sentido figurado e no próprio, pisou, esmagou, dilacerou, conspurcou, rasgou, retalhou. O filho de puta admito ser apenas no figurado, pois da mãe dele pouco sei, até dizem ter sido prendada senhora e de bem. Embora quem tal crocodilo deixou crescer no seu ventre pomba não deveria ser, afirmam os entendidos (p. 7)

Assim começa a obra que descreve lutas de poder e conspirações, envolvendo homens ambiciosos, de governadores a membros de ordens religiosas. Entre as personagens encontramos um inglês um pouco doido e os terríveis jagas, guerreiros que povoam os piores pesadelos dos brancos.

Mas são as aventuras de um mulato (Carlos Rocha) e do seu escravo sensível aos espíritos que nos conquistam a simpatia. De fugitivo, Carlos passa a explorador, atravessando o Kwanza para as irredutíveis terras da Kissama, seguindo sempre para Sul. Possivelmente por culpa dos genes europeus, já que o seu bisavô foi um dos capitães de Diogo Cão.

 

Encontros Marcados (Gonçalo Cadilhe)

O viajante profissional produziu várias obras interessantes, entre as quais destaco Nos Passos de Magalhães e África Acima. Resultaram de aventuras dignas de registo, por exemplo, uma caminhada solitária de 27 mil km no continente africano. Gosto particularmente de um dos seus títullos, porque é muito pessoal: Encontros Marcados.

Considero-me o resultado de encontros marcados. Marcados pelo destino. Sou aquilo que sou graças a quatro décadas de contactos e confrontos com pessoas, lugares, momentos e manifestações da arte e do engenho humano. Não ser eu qualquer outra coisa é, também isso, o resultado de desencontros marcados, de oportunidades falhadas, da estrada errada, do tiro ao lado (…) (p. 24)

Ali encontramos o australiano que chegou à Figueira da Foz na sua infância: “O ser humano não nasce programado no receio do Outro” – escreve, justificando porque meteu conversa com o surfista estrangeiro, apesar das advertências do pai.

Encontramos um saxofonista num hostal em Quito, uma edição gasta de As Cidades Invisíveis, um Nobel da Literatura junto dos guerreiros de terracota de Xi’an… e tantas outras “piscadelas do destino”, sinais e momentos que mudam o sentido da vida e, por isso, fizeram de Gonçalo Cadilhe o viajante incansável que conhecemos.

 

mais um livro para viajar sem sair de casa

 

Tudo é possível. De vespa na Índia (Jorge Vassallo)

O Jorge Vassallo é  um blogger e líder de viagens português, com “uma paixão declarada pela Ásia em geral, e pela Índia em particular”. Esta obra, a primeira de uma trilogia, resulta de uma viagem àquele país, num Verão particularmente quente. Ao longo de quase cinco mil quilómetros, em cima de uma pequena vespa azul (que também é uma mota a sério, como não se cansou de argumentar), viveu aventuras inusitadas.

(…) voltámos a sentir o abraço mágico e bruto da Índia, e foi como despertar de um sonho para uma realidade que também tinha algo de irreal: motas carregadas, até ao impossível, de tudo e mais alguma coisa; carros que abrandavam para dizer hello! e tirar fotografias; vacas a fazer sagradas sestas no meio da estrada (…) bancas e lojas por todo o lado, a vender tudo-e-mais-alguma-coisa; gente, gente, gente; e o cheiro da comida acabada de fazer, a esgotos e a mijo, a lixeiras e a borracha queimada, a incenso – a Vida (pp.111-112)

Foi detido sob suspeitas de espionagem industrial; rapou o cabelo em Tirumala, no maior templo hindu do mundo; entrou na casa de uma hijra (o terceiro sexo) chamada Pinky; teve desarranjos intestinais descomunais. Foi abençoado pelo paquiderme-mascote de um templo de Kumbakonam, logo depois do banho sagrado da manhã do simpático elefante.

São 461 páginas que se lêem num sopro, graças a um tamanho de letra bastante agradável, e que nos obrigam a concordar com o autor: na Índia, tudo é possível. Frase que ele tatuou no braço – Sab kuch milega – enquanto bebericava uma Thums Up, a coca-cola indiana, num subúrbio chique de Bombaim.

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Se me ponho a vasculhar a memória, esta lista torna-se demasiado longa. Por isso, vou ficar por aqui, pedindo as vossas sugestões de leituras: que livros sugerem para viajar sem sair de casa? E para além de ler, o que têm feito nestes dias de pandemia?

Este post faz parte do projecto colectivo 8on8, que une lindas viajantes em volta de um tema comum, no dia 8 de cada mês. Espreitem os restantes textos sob o tema “Livros, filmes e séries”, inspirem-se e partilhem:

Espiando pelo Mundo A Rainha Descalça de Ildefonso Falcones – Chicas Lokas na Estrada 15 filmes de animação em cenários incríveis no mundo real – Travel Tips Brasil Festival de música e viagem – shows pelo mundoDestinos por onde andei… Filmes para viajar no sofáViajante Econômica A Ponte dos Espiões: cenário de filmes e de negociações na Guerra FriaMulher Casada Viaja Viajar sem sair de casa: filmes gravados na ToscanaEntre Polos  Viajar Sem Sair de Casa

 

 

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